Sobre a “dor de cotovelo”

Eu não queria mais falar de Ronaldinho. Como já defendi, os xingamentos de domingo precisam ser o marco final desta década de mágoa – apesar de que ela obviamente não acabará tão rápido – relacionada aos janeiros de 2001 (saída do jogador “pela porta dos fundos”, mentindo sobre amar o Grêmio e assinando pré-contrato com o PSG em segredo) e de 2011 (o “leilão” que vimos).

Mas, acabei precisando me manifestar novamente. Não exatamente sobre Ronaldinho, e sim, sobre comentários de torcedores de outros clubes, dizendo que os xingamentos dos gremistas contra o jogador são exagerada “dor de cotovelo” porque ele optou pelo Flamengo ao invés do Grêmio.

Primeiro, é preciso ressaltar que a torcida não ficou irada especificamente porque Ronaldinho foi para o Flamengo, e nem perderei mais meu tempo explicando, pois já falei muito disso. Só digo que, se ele tivesse optado pelo Palmeiras depois de enrolar o Grêmio (além do Flamengo e o próprio Palmeiras), mudaria apenas a data da “homenagem”: não teria sido no último domingo, seria no próximo dia 13.

Agora, sobre a “dor de cotovelo”, percebo que o pessoal é realmente muito hipócrita. Pois digo sem medo de errar que 99% dos que fazem graça da “dor de cotovelo” gremista já a sofreram (ou a sofrerão) pelo menos uma vez na vida. (O 1% restante corresponde à margem de erro.)

Não foi só para “ilustrar” que “roubei” os dois primeiros parágrafos do Natusch para o meu texto de ontem. Pois o sentimento dos gremistas em relação a Ronaldinho é realmente muito semelhante àquele que temos em relação àquela(s) pessoa(s) que um dia nós amamos muito, foi/foram tudo para nós, e que depois foi/foram causa(s) de sofrimento.

Isso não quer dizer que, quando eu encontrar minha “ronaldinha” por aí, começarei a gritar “pilantra, pilantra” para ela, mesmo que não falte vontade de dizer-lhe umas poucas e boas. Pois uma coisa é o sentimento de mágoa ser apenas de uma pessoa para outra; bem diferente de quando ela é compartilhada por muita gente. Nos sentimos mais à vontade para dizer a quem nos magoou as palavras que acreditamos ser as que ela merece ouvir, quando não somos os únicos a sofrer por causa dela.

Talvez os mais novos tenham sofrido, no episódio Ronaldinho, a primeira “dor de cotovelo” de suas vidas. Ao menos, foi uma que puderam compartilhar com muita gente. Pior é quando a desilusão é só nossa, e não temos um estádio lotado para sofrer (e desabafar) junto.

Mas, se a “dor de cotovelo” é uma merda quando sofremos dela, pelo menos pode render coisas boas. É graças a ela que foram compostos muitos poemas, muitas letras de música… Como “Vou festejar”, de Jorge Aragão – cuja versão interpretada por Beth Carvalho deu origem a mais um vídeo de protesto contra Ronaldinho.

E para encerrar: sempre que o leitor ouvir alguém fazendo graça com a “dor de cotovelo” alheia dizendo que “deste mal nunca sofreu nem sofrerá”, pode ter certeza de estar diante de um mentiroso.

Descarrego

Tenho certeza que todos os leitores (as) já passaram, estão passando e/ou passarão por desilusões amorosas. É algo inevitável, faz parte intrínseca do que somos, fomos e iremos ser pela vida afora. Então, proponho ao amigo (a) que nos acompanha uma questão bem singela, a partir de sua própria experiência pessoal: o que mais doeu em seus fracassos amorosos, na separação daquela pessoa que pareceu ser tudo, mas se revelou muitíssimo menos do que prometia?

Muitas respostas virão, certamente. Mas eu diria, e com certeza muitos do que responderem essa perguntinha diriam algo parecido, que o que mais dói é a desonestidade. Brincar com sentimentos alheios é uma coisa muito feia, que machuca mesmo, traumatiza até e faz com que muitos desacreditem do amor para todo o sempre. Algo que a vítima nunca esquece. E jamais perdoa plenamente. Jamais.

(Igor Natusch, no Carta na Manga)

Ronaldinho, enfim, ouviu o que merecia. Depois dele ter brincado com os sentimentos da torcida gremista, recebeu provavelmente o maior número de xingamentos por qualquer unidade de medida (segundo, minuto, metro quadrado e sei lá mais o quê) da história do futebol brasileiro.

Claro que a vitória histórica do Grêmio, 4 a 2 de virada que não foram contra o Flamengo e sim contra Ronaldinho (que não fez gol, bem feito!), não apaga tudo o que o jogador já fez contra nós. Mas depois deste 30 de outubro de 2011, fica mais fácil tratá-lo da forma que a razão indica: com indiferença.

Racionalmente, houve uma “quitação de dívida”: Ronaldinho sacaneou a torcida do Grêmio, que devolveu dedicando a ele tudo o que foi xingamento. Só que sentimentos não costumam ser racionais. A mágoa continua, por mais “descarregos” que se tenha: nunca acontecerá um retorno ao “ponto inicial”, que seria o perdão, pois os janeiros de 2001 e de 2011 sempre serão lembrados.

Mas ao menos, agora fica mais fácil deixar para trás esta página da história do Grêmio. Que não será apagada, mas precisa ser virada para que se possa escrever outras, preferencialmente mais felizes.