Como o futebol explica o Brasil

Antes que alguém me pergunte: sim, o título é descaradamente inspirado no excelente livro “Como o futebol explica o mundo”, do jornalista estadunidense Franklin Foer. Pois, de fato, o futebol nos ajuda a entender melhor o mundo, e claro, o Brasil.

O futebol brasileiro sintetiza muito bem o que é o Brasil enquanto sociedade: gritantemente injusto. Quem tem mais pode mais: seja passando por cima das leis, seja usando-as apenas em seu favor, e não em nome de verdadeira justiça.

E, do ponto de vista legal, a decisão tomada pelo STJD ontem à noite foi corretíssima. Portuguesa e Flamengo tiveram jogadores atuando de forma irregular na última rodada do Campeonato Brasileiro, e por conta disso perderam os pontos conquistados em suas partidas, mais três como punição. Com isso, a classificação final do campeonato foi alterada: o Flamengo, que acabara em 11º lugar com 49 pontos, ficou em 16º, com 45; já a Lusa, que terminara em 13º com 48, caiu para o 17º, com 44; e o Fluminense, que com seus 46 pontos ficara em 17º, “ultrapassou” Flamengo e Portuguesa, acabando em 15º na “nova” classificação final e mantendo-se na Série A – quem se ferrou (embora ainda haja possibilidade de recurso) foi a Lusa, rebaixada à Série B de 2014.

Porém, há um outro ponto de vista a ser analisado nesta questão: o da justiça.

Mais do que o talento de nossos jogadores (como se o Brasil fosse o único país do mundo onde se formam grandes craques), a verdadeira “marca registrada” do futebol brasileiro chama-se politicagem. Ela é praticamente uma instituição.

Até o início da década de 2000, rasgar os regulamentos das competições nacionais era algo tão corriqueiro que só faltava… Fazer parte dos regulamentos. Em especial, no tocante ao rebaixamento. Era pedra cantada: caso um grande clube caísse de divisão, seria beneficiado de alguma maneira, seja com “virada de mesa” pura e simples, seja com outras manobras.

Em 1991, o Grêmio acabou em 19º lugar no Campeonato Brasileiro (disputado por 20 clubes) e, com isso, foi rebaixado à Série B. Não houve “virada de mesa” propriamente dita, e o Tricolor disputou a “segundona” no ano seguinte. Porém, antes do torneio começar, a CBF resolveu nos facilitar as coisas: ao invés de classificar apenas o campeão e o vice para a Série A de 1993, a Série B de 1992 promoveria 12 equipes. Com isso, o Grêmio sequer se esforçou em ganhar o título e acabou em 9º lugar. Com o Tricolor de volta à primeira divisão, a CBF consertou a “gambiarra” rebaixando oito clubes à Série B de 1994, mas com um detalhe: dividiu os 32 participantes do (literalmente) Brasileirão de 1993 em quatro grupos formados por oito times cada, mas cairiam apenas os quatro piores dos grupos C e D; os integrantes do Clube dos 13 ficaram nos grupos A e B, que não rebaixariam ninguém… Com isso, o Atlético-MG acabou em 32º lugar (ou seja, na lanterna) e não caiu, enquanto seu rival América-MG ficou em 16º e foi rebaixado.

Mas nenhum clube foi tão beneficiado quanto o Fluminense. Começou em 1996, quando o regulamento do Campeonato Brasileiro era simples: os 24 participantes se enfrentavam em turno único na fase inicial, os oito primeiros iriam às finais e os dois últimos seriam rebaixados à Série B, sem proteção aos “grandes”, em tese. E o Flu acabou em 23º… Após o jogo, Renato Portaluppi (que na reta final foi improvisado como técnico) não teve vergonha alguma de falar em “virada de mesa” para o Fluminense não jogar a “segundona” no ano seguinte.

Mas, em maio de 1997 foi denunciado um esquema de corrupção envolvendo árbitros que teria beneficiado Corinthians e Atlético-PR na Copa do Brasil daquele ano. A CBF reagiu suspendendo o Furacão de todas as competições nacionais por dois anos, e rebaixando-o para a segunda divisão; mas nada foi feito com o Corinthians… Com isso, abriu-se uma vaga na Série A, e o bom senso indicava que ela deveria ficar com o Náutico, 3º colocado na Série B de 1996. Acontece que no Brasil o futebol é regido por outra lógica, que não anda junto com o bom senso: faltando cerca de duas semanas para o início do campeonato de 1997, a CBF voltou atrás na punição ao Atlético-PR, penalizando-o apenas com a perda de cinco pontos (e o Corinthians continuou “ileso”, é claro); aproveitou para reconduzir o Fluminense e o Bragantino (o outro rebaixado de 1996) à Série A, aumentando o número de participantes para 26.

Nas Laranjeiras, dirigentes do Fluminense estouraram champanhas, mas meses depois tiveram de amargar um novo rebaixamento, após o time ficar em 25º lugar e passar o campeonato inteiro ouvindo o coro “ão ão ão, segunda divisão”. Em 1998 não teve jeito, e o Flu disputou a Série B. Teria de tentar voltar jogando bola, sem canetaço. Não conseguiu, e fez pior: caiu para a Série C.

Novos rumores de “virada de mesa” semelhante à de 1997 surgiram, mas o Flu jogou a “terceirona” em 1999, sendo campeão e retornando à segunda divisão como tinha de ser: no campo. Parecia, felizmente, que a era das “viradas de mesa” estava sepultada.

Porém, a maior delas apenas estava por vir. Devido a uma pendenga judicial envolvendo o Gama e a CBF, esta foi impedida de organizar o Campeonato Brasileiro de 2000 sem incluir o clube de Brasília na Série A. O Clube dos 13 decidiu assumir a bronca, organizando a Copa João Havelange, torneio que excluiria o Gama – que obteve nova liminar, desta vez contra o próprio Clube dos 13. Para evitar a paralisação total do futebol nacional no segundo semestre de 2000 se chegou a um “acordão” e, como diz o ditado, “acabou tudo em pizza”: o Gama foi incluído naquele verdadeiro monstrengo que era a Copa João Havelange, que parecia ter três divisões mas na prática era apenas um campeonato de 116 participantes divididos em quatro módulos, com todos eles concorrendo ao título máximo do futebol brasileiro. O azul, com 25 equipes, era como se fosse a primeira divisão, por reunir a maior parte dos clubes que estavam na Série A de 1999. Mas nele também estavam times que deveriam jogar a Série B em 2000 caso não houvesse toda aquela confusão, dentre eles o Fluminense… Que assim voltou a primeira divisão, simplesmente “pulando” a segunda.

Desde então, o Flu não mais saiu da Série A, mesmo ainda “devendo” dois anos de “segundona” (além de 2000, tem aquela de 1997). Mas, também não houve mais “viradas de mesa” de 2001 em diante: todos os clubes rebaixados disputaram a Série B no ano seguinte, mesmo os “grandes” – que cumpriram seu papel, retornando à primeira divisão no campo.

Na letra fria da lei, os regulamentos nunca mais deixaram de ser cumpridos. Agora em 2013, por exemplo, a Portuguesa realmente cometeu uma infração, recebeu a punição prevista e, por conta disso, deverá jogar a Série B em 2014.

Porém, faltou levar algo em conta: a irrelevância desta infração para o resultado final do campeonato. Pois o atleta que gerou a punição só jogou por alguns minutos contra o Grêmio, na última rodada, quando mesmo uma derrota não teria rebaixado a Lusa devido à derrota de 5 a 1 do Vasco para o Atlético-PR naquela batalha campal, além de outros resultados paralelos; o Fluminense, por sua vez, não podia alcançar a Portuguesa. O Grêmio é que poderia alegar algum prejuízo, pois se perdesse não teria obtido classificação direta para a fase de grupos da Libertadores, devido à vitória do Furacão. Mas, a partida acabou em 0 a 0, e com isso os dois times ficaram satisfeitos: a Portuguesa (que continuou – ou teria continuado – na Série A) e o Grêmio (vice-campeão brasileiro e classificado direto para a fase de grupos da Libertadores). A propósito: se a Lusa perdeu o ponto conquistado pelo empate (além dos três extras), o Grêmio não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

“Ah, mas isso é implicância com o Fluminense, pois o Flamengo também foi punido, não houve proteção aos grandes”. De novo, por um motivo irrelevante: o Fla já tinha classificação à Libertadores garantida como campeão da Copa do Brasil e não corria mais risco de cair; já o adversário era o Cruzeiro, campeão com quatro rodadas de antecedência. O resultado daquele jogo (que acabou empatado em 1 a 1) em nada mudaria o campeonato. E, de novo: se o Flamengo perdeu o ponto do empate (além dos três extras), o Cruzeiro não deveria ter ganho mais dois pontos, como se tivesse vencido?

Acontece que é difícil acreditar que o Flamengo teria perdido os pontos caso corresse risco de ser rebaixado com a punição, ou se não houvesse o caso da Portuguesa, esta sim podendo cair e com isso livrar o Fluminense. Como, aliás, costuma acontecer no Brasil: bem diz o ditado que “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Ou, do menos forte: o “mensalão do PT” foi julgado e já temos presos em consequência disso, mas outro “mensalão”, aquele do PSDB, aconteceu antes e ainda não foi julgado… Alguma surpresa?

Vencemos a corrupção… Será?

A direita, de forma geral, está em êxtase. Em pleno feriado da Proclamação da República, o Supremo Tribunal Federal determinou a prisão dos condenados na Ação Penal 470, o popular “julgamento do mensalão”.

Dentre os presos se encontra o ex-ministro José Dirceu: condenado judicialmente em 2012, na prática pode-se dizer que sua condenação se deu em 2005, pela imprensa. Pois alguém consegue imaginar a indignação que tomaria conta do país caso Dirceu fosse absolvido? A condenação e a posterior prisão do ex-ministro foram celebradas como uma vitória sobre a corrupção.

Porém, faltou algo fundamental: provas. José Dirceu foi condenado com base em uma teoria jurídica chamada “domínio do fato”, que teria sido formulada por um autor alemão, mas que sequer é aplicada na Alemanha. Com isso, subverteu-se o princípio fundamental de que a dúvida favorece ao réu. Ou seja, de que ninguém tem de ser obrigado a provar sua inocência; ao contrário, o ônus da prova cabe a quem acusa. Com isso, é verdade, corre-se o risco de que um “crime perfeito” (ou seja, aquele em que os autores conseguem apagar todos os vestígios) acabe impune, mas também se reduz a possibilidade de condenações injustas e que se dão em nome de outros interesses alheios à legalidade.

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“Esquerdopata”, “petralha”, “corruPTo”, “esquerdalha”, já deve estar querendo escrever o típico comentarista “anti-corrupção”. Só espero que o mesmo não esqueça de também dirigir suas raivosas manifestações a Ives Gandra Martins, conservador e notório adversário do PT, mas também jurista, e que como tal defende a aplicação da lei, não daquilo que é ditado pela tal de “opinião pública” (da qual a “mídia imparcial” se julga representante).

Ah, e que também não esqueça de se mobilizar para que outros escândalos de corrupção (como, por exemplo, o mensalão tucano) sejam julgados de forma semelhante.

Arruda cassado

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, foi cassado. Em consequência do escândalo de corrupção em Brasília, o “mensalão do DEM”, Arruda já está preso há mais de um mês – o que é realmente admirável, se tratando de um país como o que vivemos.

Porém, é uma pena que o motivo da cassação dele tenha sido por infidelidade partidária (ele saiu do DEM na época que veio a público o escândalo), e não por toda a roubalheira…

Aliás, se usarmos o mesmo critério aplicado no caso de Arruda, não deveria ter sido cassado o mandato do prefeito de Porto Alegre? José Fogaça saiu do PPS em 2007, para concorrer à reeleição em 2008 pelo PMDB. E continua prefeito até o próximo dia 30, quando renunciará para ser candidato a governador do Rio Grande do Sul.

2008, mas parece 1984

Hoje, o Senado irá votar a proposta do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) de projeto para combater os crimes feitos pela Internet. Se aprovado, o texto será enviado à Câmara de Deputados.

Porém, o projeto é mais do que contra o crime: é também uma ameaça à privacidade na rede, visto que obriga os provedores a guardar todos os dados de acesso dos usuários por três anos. E mais: os provedores são também obrigados a informar às autoridades quaisquer indícios de crimes. E “crime” poderá ser a troca de arquivos “sem autorização do autor”.

Já havia colocado o banner ali do lado com o link para a petição em favor do veto ao projeto, e aproveito para reforçar o pedido para que todos assinem. Façamos isso antes de nossos “representantes” acharem que queremos ser parte do enredo da obra de George Orwell.

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O Marcelo Träsel d’A Nova Corja enviou e-mail a todos os senadores criticando o projeto do senador Azeredo. Recebeu uma resposta da assessoria deste, dizendo que as críticas são feitas por “pessoas de má-fé”. Assim como o Träsel, eu me sentiria feliz ao ser considerado “pessoa de má-fé” por um senador envolvido com o Valerioduto.

Eles não desistem

Quer acompanhar como o Governo Federal está gastando o nosso dinheiro? Simples. Basta ver os dados que a Controladoria-Geral da União (CGU), órgão vinculado à própria Presidência da República, põe a disposição de qualquer um na internet. É o Portal da Transparência.

Aquelas malas da televisão querem te fazer acreditar que eles descobriram os gastos da ex-ministra Matilde Ribeiro com o cartão corporativo. Que eles fizeram um “brilhante trabalho investigativo” e tornaram público mais um escândalo do “governo mais corrupto da História do Brasil”.

Que mérito da mídia! Tornou público o que já é! E ainda faz parecer que foi graças a ela que a “ladra” Matilde Ribeiro deixou de ser ministra! Quando foi a própria CGU que convocou Matilde para dar explicações…

O que está muito claro, é que a mídia não desiste de tentar detonar o governo Lula. Que pode não ser dos meus sonhos – tanto que no 1º turno de 2006 votei no Cristóvam Buarque, e no 2º aí sim em Lula – mas é menos pior do que o anterior, que não sofria um décimo dos ataques que vem sofrendo o atual.

O maior partido de direita do Brasil não é o PSDB, nem o DEM. É a própria mídia. Quer provas disto? É só ver como pipocam escândalos nos últimos anos.

O primeiro foi o mensalão. A corrupção realmente aconteceu, mas o que se passou a ver diariamente foram os principais (de)formadores de opinião atacando incessantemente o governo, dizendo que era “mais corrupto que o governo Collor” . Algo que não víamos até 2002. E ainda por cima transformaram em “herói” Roberto Jefferson, que estava enterrado até o pescoço na lama, por ter feito a denúncia.

Pouco antes da eleição de 2006, apareceu o caso do dossiê com supostas denúncias contra candidatos do PSDB. Petistas teriam sido flagrados com um monte de dinheiro para comprar o tal dossiê. Deram um destaque maluco à foto do dinheiro que supostamente seria usado para a compra – uma “parede” montada para “sair bem na foto” – mas ninguém respondeu a uma pergunta que todos faziam: qual era o conteúdo do dossiê? Até hoje, ninguém disse.

A divulgação da foto do dinheiro só não teve um impacto maior porque no mesmo dia da “bombástica notícia”, aconteceu o acidente do vôo 1907 da Gol. Exatamente um mês depois, no 2º turno eleitoral, apesar de todos os ataques, o presidente Lula deu uma surra em Geraldo Alckmin (PSDB), e foi reeleito com mais de 60% dos votos válidos.

Coincidentemente (?), poucos dias depois começavam os atrasos nos aeroportos. Mais uma chance de bater no governo: era o “apagão aéreo”. Os noticiários davam destaque a idiotas que choravam na frente das câmeras porque o avião estava atrasado. O auge dos ataques aconteceu em julho do ano passado, com a tragédia do vôo 3054 da TAM. Alguns engomadinhos “cansaram” e criaram um movimento “cívico e apartidário”, que contou com apoio explícito de vários setores da mídia, pelos “direitos dos brasileiros”. Afinal, fora o presidente Lula que empurrara o Airbus para fora da pista de Congonhas.

O “Cansei” foi um fiasco. Mas obviamente eles não desistiram. Afinal, estão fora do governo há cinco anos. Isso é demais para quem estava acostumado a estar sempre lá.

Depois de passar uns tempos “na moita”, a mídia voltou à ativa no início de 2008. Primeiro com a “iminente epidemia” de febre amarela. Muita gente se assustou de tanto que falavam na TV que a febre amarela ia voltar, e se vacinou duas, três vezes seguidas. Obviamente houveram mortes por causa disso. Os efeitos da vacina acabaram sendo mais maléficos do que a própria doença. Óbvio que o culpado disso é o governo, é o que a mídia “livre e democrática” quer fazer com que muitos acreditem.

E agora, os cartões corporativos. A mídia fará de tudo para que haja CPI, para que a imagem do governo seja arranhada e finalmente a popularidade de Lula caia, já que todas as tentativas anteriores fracassaram. Querem ver Lula “sangrar” até 2010, pois se a eleição fosse hoje, até um poste seria eleito se tivesse o apoio do presidente. Sem contar que como escândalo vende jornal, é melhor eles “acontecerem um atrás do outro” até 2010 do que acabarem antes.