E o fundo do poço está longe…

Ao escrever sobre a barbárie do linchamento de um morador de rua em Porto Alegre resolvi fazer um questionamento no título do texto. Afinal, ter como “senso comum” aqueles discursos extremistas de “bandido bom é bandido morto” ou “tem de dar pau nesses vagabundos” me parece um sinal de que as coisas vão muito mal.

Mas, como diz o ditado, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Basta ver as definições do comando de algumas comissões do Congresso Nacional.

Uma delas é a de Meio Ambiente, no Senado. O titular já foi escolhido: o ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), maior plantador de soja do Brasil e representante do agronegócio, não de quem luta pela ecologia. Tanto que Maggi foi um dos apoiadores das mudanças do Código Florestal que favorecem desmatadores, e já ganhou o “Prêmio Motosserra de Ouro”, atribuído pelo Greenpeace como protesto contra quem contribui para a devastação ambiental.

Só que tem mais. Como no caso da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Geralmente presidida pelo PT, desta vez ficará nas mãos do PSC, aliado do governo (igual ao PR). E o partido já indicou um nome: o pastor Marco Feliciano, de discurso homofóbico e que já chegou a dizer que os africanos e seus descendentes seriam “amaldiçoados”.

Como se chegou ao ponto de duas comissões serem comandadas por quem representa exatamente o oposto de seus propósitos? Os motivos são os mesmos da eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado: acordos para “garantir a governabilidade”…

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Faltam mil dias para a Copa. E o que há de bom nisso?

Hoje faltam exatos mil dias para a abertura da Copa do Mundo do Brasil, marcada para o dia 12 de junho de 2014. Em menos de três anos a bola vai rolar, a vida no país será uma maravilha, todos felizes com o Mundial… Mas também em menos de três anos a Copa de 2014 acaba, no dia 13 de julho.

É incrível: foi no já distante 30 de outubro de 2007 que o Brasil foi oficialmente designado para sediar a Copa do Mundo de 2014. Não foi “escolhido”, já que a FIFA tinha decidido que o torneio seria realizado na América do Sul, e o Brasil era o único candidato.

Ou seja: já faz mais tempo que o Brasil foi oficializado como sede da Copa, do que falta para a bola rolar. Eram quase sete anos para 2014, tempo de sobra para construir estádios, fazer obras de mobilidade urbana… Obviamente eu nunca me iludi achando que teríamos uma verdadeira melhora na qualidade de vida (como provam as emergências lotadas nos hospitais), mas imaginava que, com um prazo tão amplo, alguma coisa já estivesse pronta quase quatro anos após a designação do Brasil como sede.

Mas também não dá para ficar surpreso com tantos atrasos. Afinal, se a preparação começasse já em 2007, não haveria desculpa para passar por cima das leis ou para se dispensar licitação: seria preciso fazer as coisas direitinho, de acordo com a legislação. Mas faltam só mil dias e nada está pronto, se continuar assim a Copa vai embora e o Brasil vai dar “vexame”, então vale tudo: salve-se quem puder, dê-lhe superfaturamento em obras, dane-se o meio ambiente, os pobres “que estão impedindo o progresso” etc. Meia dúzia de grandes empreiteiros ganha e o povo brasileiro perde.

Por que não votarei em Dilma no 1º turno

Em 2006, no 1º turno da eleição presidencial, votei em Cristóvam Buarque. Estava decepcionado com muita coisa no governo Lula: mensalão, liberação dos transgênicos, alianças espúrias… Tudo bem que por não ter a maioria no Congresso, o PT tivesse de ampliar seu leque de alianças para poder governar. Mas buscar apoio dos Sarney, com tudo o que eles fazem no Maranhão, convenhamos, é fisiologismo demais.

Decidi votar em Cristóvam por sua proposta de dar ampla prioridade à educação, que é o problema mais sério do Brasil – e dele decorrem outros. Instruir à população é resolver, numa tacada só, várias mazelas que afligem o país, como a violência e até mesmo os problemas de saúde pública (quem tem mais conhecimento fica menos doente por saber como se prevenir – o que ajuda a diminuir as filas para consultas médicas).

Mas, como todos se lembram, Cristóvam não foi para o 2º turno – o que era previsto. Sobraram Lula e Alckmin, e não tive a menor dúvida em votar no primeiro. Pois, se estava decepcionado com Lula, também não queria o PSDB de volta ao Palácio do Planalto, para quebrar o Brasil de novo como no governo FHC.

Quatro anos depois, novamente não pretendo dar meu voto ao PT no 1º turno. Além das alianças espúrias, que continuam a acontecer (Renan Calheiros, Sarneys, Collor…), há outros fatores que me levaram a tomar essa decisão.

O primeiro deles, é o modelo de desenvolvimento defendido pelo atual governo: apenas crescimento econômico, sem maciços investimentos em educação nem preocupação com o meio ambiente. Recentemente, Lula deu uma declaração de matar: “só não me peçam para vender menos carros”. Pois é, o país quase parando com tantos automóveis entupindo as ruas, e o presidente quer mais? Deveríamos é incentivar a produção de bicicletas, e não de carros.

E agora, temos o caso de Belo Monte – que está mais para “baita monstro”. A construção da usina hidrelétrica foi decidida sem ouvir quem será diretamente atingido por ela, ou seja, todas as pessoas que terão seus lares inundados e precisarão se mudar para outros lugares – o que nunca é algo simples como muitos pensam. E se há tanta demanda por energia elétrica, por que não investir em fontes alternativas e menos agressivas ao ambiente, como a solar (porra, a maioria esmagadora do território brasileiro fica na zona tropical!) e mesmo a eólica – pelo menos aqui no Rio Grande do Sul, o que não falta é vento, principalmente no litoral.

Outro motivo que me leva a não votar em Dilma Rousseff no 1º turno é a lamentável opinião dela (e do próprio governo Lula) sobre a tentativa de revisão da lei de anistia de 1979. Dilma acha que a anistia, do jeito que foi concedida, evita o “revanchismo”. Acreditem se quiser: ela foi barbaramente torturada durante a ditadura militar, e agora vem dizer que “justiça” é igual a “revanchismo”? Por favor…

“Revanchismo” seria torturar um torturador – ou seja, fazer ele sentir na pele o que é ser torturado – e o autor deste crime contra a humanidade não ser punido.

Sinceramente, acho que o fundamental nisso tudo nem é mais simplesmente colocar os torturadores atrás das grades – uma coisa é tirar a anistia deles, outra coisa é conseguir com que sejam condenados. O que eu quero é ter o direito de, caso faça uma pesquisa histórica e descubra que “fulano de tal” foi torturador, publicar o trabalho citando o nome do cara – e as fontes utilizadas – sem que ele possa me processar. Mas eu nem tenho como fazer algo assim e dizer “foda-se” para o risco de processo, pois o acesso aos arquivos da ditadura é simplesmente negado – Lula não manda abrir porque não quer.

Charge de 2004 do Kayser

Assim sendo, como votar na Dilma no 1º turno? Simplesmente não dá!

Ainda não estou bem decidido sobre quem receberá meu voto para presidente, mas já antecipo que não será José Serra, de jeito nenhum. Marina Silva, além de também concordar com a decisão do STF de manter a anistia aos torturadores (igual a Dilma e Serra), tem se manifestado contra o aborto e as pesquisas com células-tronco (como alguém que se define como “esquerda” pode defender ideias assim?) e seu partido, o PV, não tem coerência nenhuma. Até agora, só Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, se manifestou contrariamente à manutenção da anistia aos torturadores. Aguardo a publicação do programa de governo (e espero que o PSOL faça uma autocrítica quanto ao acontecido em 2008, quando aceitaram doações de grandes corporações para suas campanhas), mas cresce a pontuação de Plínio no meu “votômetro”.

Ele não tem chances? Azar. Cristóvam também não tinha em 2006.

Votar em Dilma, só no 2º turno, para evitar a volta do PSDB ao governo.

Além disso, a política brasileira não se resume a apenas estes dois partidos. E também é falaciosa a postura adotada por muitos militantes de ambos, de identificar o seu como “o bem absoluto” e o adversário como “o mal absoluto”. Embora haja diferenças entre os dois projetos, eles são muito mais parecidos do que os fanáticos pensam – o de Dilma é menos pior.

Aliás, para os que vêem o Brasil como só tendo duas opções, pouco me importando o lado, mando meu aviso: não me encham o saco.

Feliz aniversário!

Rua Gonçalo de Carvalho, Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Porto Alegre (decreto de 05/06/2006)

Rua Gonçalo de Carvalho, Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de Porto Alegre (decreto de 05/06/2006)

Hoje, 5 de junho, é Dia Mundial do Meio Ambiente. Mas não só.

A data marca também o 3º aniversário do tombamento da Rua Gonçalo de Carvalho como Patrimônio Cultural, Histórico e Ambiental de Porto Alegre. O decreto municipal, assinado em 5 de junho de 2006, sacramentou uma vitória da cidadania sobre o poder econômico.

Em 2005, os moradores da Rua Gonçalo de Carvalho foram informados do projeto de construção de um novo teatro para a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) no terreno onde se localiza o Shopping Total, localizado entre a Avenida Cristóvão Colombo e a Gonçalo. Notícia que agradava a muitos, visto que a OSPA, além de música de qualidade, significa um orgulho para o Rio Grande do Sul.

Porém, o que souberam a seguir fez as opiniões mudarem. Junto ao teatro, seria construído um enorme edifício-garagem, com pavimentos subterrâneos – que para serem escavados demandariam dinamite, o que poderia abalar as estruturas, e até mesmo derrubar prédios mais antigos. Os moradores dos apartamentos de fundo teriam de manter suas janelas fechadas, visto que elas dariam para o fundo da garagem, com toda a poluição proporcionada pelo escapamento dos automóveis. Não bastasse isso, ainda havia o plano de se dar saída aos carros pela Gonçalo de Carvalho, asfaltar a rua e, pasmem, derrubar metade das árvores para realizar o alargamento da via!

Os moradores e amigos da Rua Gonçalo de Carvalho se mobilizaram contra parte da obra: queriam o teatro, como apreciadores da boa música, mas também queriam a preservação da Gonçalo, como apreciadores do meio ambiente. Era uma luta imensamente desigual: grande parte dos porto-alegrenses desconhecia o que aconteceria ali. Só saberiam quando já estivesse feito. A “grande mídia”, com seus interesses, silenciava. Os concretoscos (que de vez em quando se fingem de defensores da cultura, para mascararem sua paixão pelo concreto) chamavam os contrários à obra de “inimigos da cultura e do progresso”.

Como se não fossem suficientes todas as adversidades, no dia 9 de janeiro de 2006 faleceu Haeni Ficht, líder do movimento e primeiro presidente da AMABI (Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência). E  pouco tempo depois o então vice-prefeito de Porto Alegre, Eliseu Santos, chamou os Amigos da Gonçalo de “dois cornos”: ficava muito claro de que lado estava o poder político.

Porém, os cidadãos de várias partes da cidade, do país e do mundo estavam do nosso lado. E a vitória veio em junho.

A Rua Gonçalo de Carvalho tornou-se no Dia Mundial do Meio Ambiente em 2006, pelo que se tem conhecimento, a primeira rua no Brasil e na América Latina a ser tombada como Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de uma cidade. E o melhor de tudo, foi apenas a primeira. A partir de então, várias outras ruas de Porto Alegre que são túneis verdes passaram a pleitear decretos semelhantes por parte do município, muitas delas sendo comtempladas.

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Uma das ruas que merece ser tombada, sem dúvida alguma, é a Rua Pelotas, no bairro Floresta. Reconheço que sou suspeito para falar, visto que morei na rua até agosto de 1992, mas clique aqui e veja as fotos obtidas em 1º de novembro de 2008. Infelizmente já era de tarde, e o espetacular tapete formado pelas flores que caem dos jacarandás havia sido varrido.

Considerando que há árvores doentes, que precisam de cuidados por parte do poder público (nem é só questão de preservação ambiental, também se trata de dar mais segurança a moradores e transeuntes, acabando com os riscos de queda de árvores em dias de muito vento), o tombamento se faz extremamente necessário e urgente.

A preocupação das grandes corporações com o ambiente

A rede de ativismo Avaaz.org criou um anúncio satirizando a “preocupação” da Exxon Mobil com o meio ambiente. Afinal, os lucros da empresa petrolífera significam uma agressão ao meio ambiente, visto que são frutos de mais poluição causada pela queima de combustíveis.

A rede pediu doações para poder colocar o anúncio no ar, na CNN. De acordo com eles, 100 mil dólares (quantia já alcançada) seriam suficientes, mas quanto mais se puder pagar à emissora, melhor – diminui assim o risco do lobby da Exxon Mobil falar mais alto.

Há 20 anos, o “progresso” matava o defensor da floresta

No dia 22 de dezembro de 1988, foi assassinado Francisco Alves Mendes Filho – que o mundo todo conhecia como Chico Mendes.

Chico lutava pela Amazônia, que era também o meio de subsistência dos seringueiros como ele. A expansão do agronegócio levava à derrubada das árvores, privando os seringueiros de seu sustento.

Logo, uma luta que parecia apenas em defesa de uma classe de trabalhadores, tornou-se pela natureza e, conseqüentemente, pela humanidade. Chico Mendes chamou a atenção do mundo para a ação predatória e violenta dos fazendeiros do Acre contra a floresta e os trabalhadores.

Por defender o “atraso” que é a preservação da Amazônia, Chico foi vítima do “progresso”. Mas o mundo não o esqueceu. Jamais o esquecerá.

Chico Mendes sempre estará ao lado de cada um que lute pelo meio ambiente!

Um bom exemplo

Terça-feira, escrevi sobre a situação da educação pública no Brasil, com base no texto do Moldura Digital. Em geral, é triste.

Mas eis que no dia seguinte, descobri um bom exemplo vindo de uma escola pública.

Alunos e professores da Escola Municipal São Pedro, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, mantém um blog para conscientizar as pessoas da necessidade de preservar o meio ambiente. Vale a pena visitar e incentivar eles a continuarem!

Transporte público: necessidade urgente

O final de tarde da última quinta-feira foi caótico em Porto Alegre. Boa parte da cidade ficou congestionada. Um colega de faculdade embarcou num ônibus da linha D43 (Universitária) às 17:30 e chegou ao Campus do Vale às 19:00 – em condições normais, a viagem duraria entre 30 e 40 minutos.

O pior de tudo, é que o acontecido na última quinta-feira tem tudo para se tornar rotina não só em Porto Alegre, mas em todas as metrópoles do mundo: cada vez mais pessoas usam o automóvel apenas para se deslocarem de casa ao trabalho, e vice-versa. É um uso desnecessário. Na maioria das vezes, é uma pessoa que ocupa um espaço onde cinco poderiam estar bem acomodadas.

Daí a necessidade de se investir maciçamente em transporte público de qualidade, para se combater não só os problemas de circulação viária, mas também ambientais. Porto Alegre tem andado na contramão: enquanto o número de automóveis nas ruas aumenta, o sistema de ônibus piora a olhos vistos, o que contribui para afastar os passageiros e – óbvio! – aumentar a frota de carros.

É muito fácil dizer a uma pessoa para que ela deixe seu carro em casa e vá para o trabalho ou para a faculdade de ônibus. Qual a vantagem que eles verão em deixar o conforto (e o ar-condicionado) do carro para andarem em ônibus quentes e lotados? De nada adianta dizer que é para o bem da cidade e do planeta: em geral os motoristas são extremamente individualistas, pensam apenas em si. Poluição? Provavelmente eles morrerão antes das piores conseqüências do uso irracional de seus carros.

Ou seja: não adianta só falar, é preciso que haja melhorias de fato no sistema de transporte público. E não apenas investimentos em ônibus: é preciso alternativas menos poluentes. Para fazer a pessoa deixar o automóvel em casa, é preciso que haja vantagem nisso. O motorista tem que pensar “por que me estressar no trânsito, quando posso ir muito bem de ônibus ou trem?”. Enquanto isto não acontecer, ele continuará a engarrafar as ruas com seu carro, pensando: “está tudo trancado mesmo, mas eu estou sentado confortavelmente no ar-condicionado, enquanto os ônibus estão lotados e quentes”.

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Esta é minha contribuição para o Dia de Ação dos Blogs, cujo tema é meio ambiente. Não tive tempo de melhorar o texto, por causa de uma prova de lascar que farei na próxima quarta. Quando puder, escreverei mais – e melhor – sobre a questão do excesso de carros nas cidades.

Sobre Meio Ambiente

No próximo dia 15 de outubro (coincidentemente, dia do meu aniversário), acontecerá uma blogagem coletiva, no mundo inteiro, sobre o tema Meio Ambiente. O Cão Uivador se fará presente.

Enquanto o dia 15 não chega, leia esta postagem do blog do movimento Porto Alegre Vive: A Insanidade Urbana de Porto Alegre.