A época na qual pensei em ser médico

Essa polêmica absurda em torno da vinda de médicos cubanos (sim, a polêmica é por causa dos cubanos em específico porque a Veja – sempre ela! – disse que eles são “espiões comunistas” que estão invadindo o Brasil) me fez lembrar a minha infância. Não que naquela época tenha acontecido algo semelhante ao que se viu ultimamente (se ocorreu, não recordo), mas sim porque durante um tempo considerável em minha vida, pensei em ser médico.

Em meus primeiros anos de vida, fui um assíduo frequentador de hospitais e consultórios. Fruto de meu nascimento prematuro: meu aniversário é em 15 de outubro pois neste dia, em 1981, minha mãe estava com a pressão arterial muito alta e os médicos do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (onde ela já estava internada desde 30 de setembro) decidiram consultar o meu pai sobre realizar a operação cesariana mesmo que ainda não estivesse “na época” de eu nascer, que seria entre o final de outubro e o início de novembro. Meu pai autorizou a cirurgia e nasci às 23h05min daquela quinta-feira. Por conta do nascimento prematuro, acabei ficando no hospital até 30 de outubro, em observação.

Porém, nascer antes do tempo não me rendeu apenas passar os primeiros 15 dias de vida em um hospital. Tive outros problemas que me levaram a ter muito contato com médicos durante a infância. Fora outras doenças que todas as crianças têm, como sarampo e catapora.

Devido a tudo isso, lembro que tinha pavor de ir a hospitais. Mas, paradoxalmente, ali pelos seis ou sete anos de idade comecei a falar que queria ser médico. Lembro inclusive de em algum Natal ou aniversário ter ganho de presente uma ambulância de brinquedo, que vinha toda equipada para “socorrer” o “paciente” – no caso, um pequeno boneco.

Nem sequer imaginava, àquela altura, que a medicina era uma carreira cujos benefícios financeiros são elevados. Depois que insisti que queria ser médico é que comecei a ouvir as pessoas dizerem “que legal, médicos ganham bem” e outras expressões semelhantes. Mas na época, recordo que o dinheiro era o que menos importava. Ser médico, para mim, significava antes de tudo trabalhar pelos outros, pelas suas vidas. Era uma espécie de “retribuição”: depois de ter sido tão ajudado (e até mesmo salvo, como prova o meu nascimento), seria a minha vez de ajudar muitas pessoas a se livrarem de seus males – na época eu não pensava em “retribuição”, simplesmente achava bacana a ideia de ser médico, mas olhando retrospectivamente, faz todo o sentido.

Desisti de ser médico no início do Ensino Médio, depois de começar a me ferrar em Biologia e perceber que não teria saco de varar noites estudando aquilo. Mas minha ideia sobre a medicina não mudou. Sempre nos dizem que devemos escolher a profissão não pelo dinheiro e sim pela vocação, ou seja, pelo que gostamos de fazer. Optar pela medicina significa, portanto, dedicar sua vida para salvar outras, sendo isso mais valioso que o dinheiro no bolso. Não me parece nada bom procurar atendimento médico e recebê-lo de uma pessoa preocupada apenas em receber o pagamento, pouco se importando com meu estado de saúde.

E esse é o temor que despertam os médicos cubanos: mais do que bem qualificados, têm outra visão de mundo, se importando mais com as pessoas do que com o dinheiro, ao contrário dos “revoltadinhos de jaleco” que além de não quererem ir para o interior, não querem que mais ninguém o faça. Quem for atendido por cubanos vai comparar com o atendimento prestado pelos brasileiros, e assim muitos dos “nossos” terão de melhorar muito. Que assim seja.

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Deixa eu ver se entendi

Antes o governo federal pretendia trazer médicos estrangeiros para suprir a carência em regiões pouco assistidas. As entidades de classe protestaram, um panfleto reacionário que se acha revista disse que os médicos cubanos seriam “espiões comunistas”. E no fim, o governo decidiu fazer diferente: vai priorizar a contratação de brasileiros; e a partir de 2015 quem cursar Medicina terá, obrigatoriamente, de prestar dois anos de serviço (bem remunerado, aliás) ao SUS para obter o diploma.

A ideia de levar os alunos em final de curso para trabalhar no SUS não é inédita. E nem é “coisa de comunista”: é inspirada no que foi feito no Reino Unido, que tem um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo. (Em tempo: obviamente sei que não basta aumentar o número de médicos para melhorar a qualidade da saúde pública, mas tal melhora passa por isso.)

Então, começou a gritaria de novo. Agora, contra a obrigatoriedade de se trabalhar (repito, remuneradamente) no SUS por dois anos para receber o diploma. Não duvidem se daqui a pouco os mesmos que reclamavam dos médicos cubanos começarem a clamar pela vinda deles.

Pensar que eu adoraria iniciar uma faculdade sabendo que nos dois últimos anos do curso teria trabalho e (boa) renda garantidos pelo Estado sem a necessidade de prestar concurso público… Vá entender esses reclamões.

A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…