17 de abril

A guerra mais longa de todos os tempos não foi a Guerra dos Cem Anos (que durou 115 anos), como a maioria pensa. Hoje pela manhã, descobri pelo meu amigo Antonio Duarte, em seu perfil do Facebook, que houve um conflito quase três vezes mais longo.

Foi a Guerra dos Trezentos e Trinta e Cinco Anos, entre a Holanda e as Ilhas Scilly, localizadas a sudoeste do Reino Unido. O conflito, que se iniciou em 1651, teve origem na Guerra Civil Inglesa de 1648-1649. Defensores da monarquia absolutista (realistas) e do parlamentarismo se enfrentaram. A marinha britânica estava ao lado do rei, mas acabou forçada a se retirar para as Ilhas Scilly.

A Holanda, que recém havia proclamado sua independência, decidira apoiar militarmente os parlamentaristas. Mas sua marinha acabou sofrendo pesadas baixas, impostas pelos realistas baseados nas Ilhas Scilly, e os holandeses decidiram exigir uma indenização. Sem obter resposta, a decisão da Holanda foi de declarar guerra às pequenas ilhas – e só a elas, já que o restante das ilhas britânicas encontrava-se em mãos dos parlamentaristas.

Logo após a declaração de guerra, os realistas foram forçados a renderem-se aos parlamentaristas, e a marinha holandesa retirou-se das Ilhas Scilly sem disparar nenhum tiro. Porém, a Holanda esqueceu-se de um detalhe: assinar a paz. (Sim, antigamente as guerras tinham início e fim formalmente, não eram que nem hoje, quando se inventa uma desculpa do tipo “nós vamos libertar vocês” e assim se mantém indefinidamente a invasão.)

Dessa forma, tecnicamente, as pequenas ilhas continuaram a ser inimigas dos holandeses até 17 de abril de 1986, quando o tratado de paz foi assinado após uma pesquisa histórica comprovar que realmente a Holanda declarara guerra em 1651. Terminava assim, sem nenhum tiro e nenhuma morte, a guerra mais longa de todos os tempos.

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Mas, se uma guerra que durou mais de 300 anos não matou ninguém, um acontecimento acontecido num dia específico – 17 de abril de 1996 – resultou em 19 mortes.

Cartum de Carlos Latuff

Hoje, completam-se 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Nenhum dos policiais responsáveis pela matança foi punido.

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Intolerância e o massacre no Rio

Ontem pela manhã, aconteceu em São Paulo um ato em defesa do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) e suas declarações abertamente preconceituosas. Basta dar uma olhada nas fotos dos apoiadores de Bolsonaro para perceber o quão “do bem” eles são: caras fechadas, tatuagens nazistas, rostos cobertos (ué, se são “do bem” não deveriam temer mostrar a cara, né?) etc. Em contraposição, a esquerda convocou um ato para o mesmo local e no mesmo horário, inclusive reunindo mais gente que os fascistas. A polícia formou um “cordão de isolamento” entre os nazi-fascistas e os manifestantes de esquerda para evitar que houvesse um confronto, e prendeu oito pessoas: seis da direita (dentre eles o responsável por uma bomba na Parada Gay de São Paulo no ano passado e um dos envolvidos na agressão com lâmpadas a homossexuais na Avenida Paulista, em novembro passado, além de outros que eram acusados de homicídio) e duas da esquerda (dois punks que estavam sem documento de identidade).

Vivemos um momento de crescimento da intolerância não apenas no Brasil, é verdade. Mas é terrível que isso ocorra num país como o nosso, onde o “normal” é justamente a diversidade. Chega a ser risível (mas também assustador) que certas pessoas achem que “o brasileiro típico” é branco, heterossexual e católico; e pior, que só estes devam ser respeitados.

A cultura da intolerância é a causa do chamado bullying nas escolas e em outros ambientes. Afinal, as vítimas das agressões são sempre pessoas que não são aceitas por não se encaixarem nos “padrões” – até mesmo sendo brancas, heterossexuais e católicas. Afinal, é preciso também ser “bonito” (qualquer que seja o padrão de beleza), extrovertido, bom no futebol etc. Se fugir um pouco disso, vêm os rótulos, os apelidos depreciativos… Muita gente não se encaixa exatamente no “padrão”, e inclusive chega a se identificar com a vítima, mas por medo de passar a ser alvo de chacota, procura evitar ao máximo o colega agredido, ou pior ainda, une-se aos que o atacam.

Aí eu leio diversos textos sobre o massacre na escola de Realengo com uma importante informação: Wellington Menezes de Oliveira era vítima de bullying. Era gozado pelos colegas por ser “diferente”.

Obviamente isso não quer dizer que toda a vítima de bullying um dia irá invadir a escola onde estudou (ou estuda) e disparar dezenas de tiros. Mas não se pode achar que o alvo de gozações aceita isso numa boa – ainda mais durante a adolescência. Com agressões repetidas ao longo de muito tempo, é difícil que a vítima não sinta a menor vontade de se vingar de seus algozes.

Se o agredido tiver problemas psicológicos – caso de Wellington – ele procurará de fato a vingança. E se não puder acertar as contas com seus verdadeiros agressores, o fará com quem mais se assemelhe: no caso de Realengo, foi com os atuais alunos da escola (principalmente meninas, ou seja, ódio por mulheres, a misoginia), que nada fizeram a ele, e provavelmente nem o conheciam.

A tragédia de Realengo

Ainda não tinha tido tempo de escrever sobre a tragédia acontecida quinta-feira no Rio de Janeiro – algo que eu estava acostumado a só ver no noticiário internacional. E com tantas “explicações” para o massacre, fica difícil formar uma opinião que não seja mera reprodução de uma das versões para o fato. Porém, o que me parece indiscutível é que, em momento de comoção como o atual, sempre aparece um monte de gente com “explicações simples” para o problema.

A primeira, é o equívoco de se culpar a venda legal de armas de fogo e munição pela tragédia. Por acaso alguém acha que Wellington Menezes de Oliveira obteve suas armas de maneira legal? Ora, mesmo que a opção “sim” tivesse sido a mais votada no referendo de 2005, a venda de armas de fogo não teria acabado: ela continuaria a existir, apenas ilegalmente, assim como o tráfico de drogas (que há décadas é combatido, mas não acaba nunca).

Outra, que foi bastante explorada pela mídia corporativa, foi sobre o suposto (e põe suposto nisso!) “fundamentalismo islâmico” de Wellington. Basta ler a carta atribuída a ele e divulgada pela própria mídia, para perceber que ele fala muito em Jesus Cristo, ou seja, que o cara é cristão, e não muçulmano. Ou seja, aquela velha história de tratar os muçulmanos como “terroristas em potencial”, como se todos (e apenas) eles fossem “fanáticos”, e não existisse fanatismo em outras religiões.

Pior, é repetirem constantemente que Wellington era “retraído, antissocial, vivia no computador etc.”, criando o estereótipo de que todo mundo que é assim, um dia vai comprar armas (ilegalmente, repito), invadir uma escola e matar um monte de gente. Ora, o que não falta no mundo são pessoas tímidas, fechadas, e que usam bastante o computador – e nem por isso temos tantos assassinos em potencial. Wellington era alguém com problemas psicológicos, que precisava de tratamento: afinal, a pessoa sã vai pensar muitos milhares de vezes antes de sair matando todo mundo (e não cometerá tal ato).

Assim, acaba deixando-se de discutir o que realmente é necessário, como o bullying nas escolas e em diversos ambientes sociais, o fato de Wellington ter matado prioritariamente meninas, o ódio ao diferente que é cada vez mais fomentado (Bolsonaro, lembram?), o individualismo e aquela estúpida divisão entre “vencedores e perdedores” (que se vê muito em filmes estadunidenses que retratam escolas, mas que também está presente no Brasil), dentre outras questões. Mas isso, vou deixar para o(s) próximo(s) post(s).

Manifestação em apoio à luta do povo palestino

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Aconteceu na manhã desta terça-feira um ato contra o genocídio na Faixa de Gaza. A concentração foi em frente à Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (onde também foi formado um comitê de solidariedade ao povo palestino), e depois ocorreu caminhada pelas ruas do Centro até a Esquina Democrática.

O ato contou com a presença de deputados estaduais e também com representantes da colônia palestina de Rosário do Sul.

Para ver mais fotos do ato, clique aqui.

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Atualização: Gravei alguns vídeos na manifestação e coloquei no YouTube.

Liberdade aos “Shministim”!

A palavra “shministim” significa “secundarista” em hebraico. Alguns deles foram, estão ou serão presos por recusarem o alistamento no exército de Israel, por objeção de consciência. Eles não concordam com a ocupação dos territórios palestinos, e sofrem pressão de familiares, amigos e do próprio governo israelense.

No dia 18 de dezembro de 2008, foi iniciada uma campanha mundial pela libertação destes estudantes, mediante o envio de cartões e mensagens eletrônicas ao Ministro da Defesa de Israel. Clique aqui e faça a sua parte.

A mídia e o massacre em Gaza

O texto abaixo foi postado em comentário do leitor Paulo Cesar no blog RS Urgente.

Doze Regras de Redação da Grande Mídia Internacional Quando a Notícia é do Oriente Médio
Adaptado de um texto em francês de autoria desconhecida

  1. No Oriente Médio, são sempre os Árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Esta defesa chama-se represália.
  2. Os Árabes, Palestinos ou Libaneses, não têm o direito de matar civil. Isso se chama “Terrorismo”.
  3. Israel tem o direito de matar civil. Isso se chama “Legitima Defesa”.
  4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedido. Isso se chama “Reação da Comunidade Internacional”.
  5. Os Palestinos e os Libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isso se chama “Seqüestro de Pessoas Indefesas”.
  6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos Palestinos e Libaneses desejar. Atualmente são mais de 10.000 dos quais 300 são crianças, e 1.000 são mulheres. Não é necessário qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter os seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades democraticamente eleitas pelos Palestinos. Isso se chama “Prisão de Terroristas”.
  7. Quando se menciona a palavra “Hezbollah”, é obrigatório a mesma frase conter a expressão “apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.
  8. Quando se menciona “Israel”, é proibida qualquer menção à expressão “apoiado e financiado pelos Estados Unidos”. Isso pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo existencial.
  9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões “Territórios Ocupados”, “Resoluções da ONU”, “Violações de Direitos Humanos” ou “Convenção de Genebra”.
  10. Tanto os Palestinos quanto os Libaneses são sempre “covardes” que se escondem entre a população civil, a qual “não os quer”. Se eles dormem em suas casas com as suas famílias, a isso se dá o nome de “Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama “Ações Cirúrgicas de Alta Precisão”.
  11. Os Israelenses falam melhor o Inglês, o Francês, o Espanhol e o Português que os Árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidade do que os Árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama “Neutralidade Jornalística”.
  12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são “Terroristas Anti-Semitas de Alta Periculosidade”.