Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

O caos no trânsito de Porto Alegre é também um problema de saúde pública

Avenida João Pessoa, defronte à UFRGS, por volta das 6 da tarde da quinta-feira, 26 de abril. Alguém precisou de uma ambulância. E ela ficou presa no caos que é o trânsito de Porto Alegre em todos os finais de tarde.

Não sei qual foi o motivo pelo qual esta ambulância foi chamada. Só espero que tenha sido algo “simples”, tipo uma fratura: dói, mas não põe em risco a vida da pessoa. Bem diferente de um infarto. E o pior é que problemas de saúde não costumam marcar hora: podem vir tanto numa noite de domingo como num final de tarde de quinta-feira. Com ou sem congestionamento.

Aí reclamam que as bicicletas da Massa Crítica atrapalham o trânsito (como se apenas automóveis fossem trânsito). Será que realmente são elas? Ou não será esta montoeira de carros (vista por muitos como “prova da pujança econômica do Brasil”), que impede a passagem de um veículo que tem por objetivo salvar uma vida?

Um ano depois

Ontem, se completou um ano do atropelamento da Massa Crítica de Porto Alegre. O responsável pela barbárie daquele 25 de fevereiro de 2011 responde em liberdade por 17 tentativas de homicídio.

Depois de um ano e de muitas manifestações de solidariedade à Massa Crítica de Porto Alegre, nossa cidade sedia o primeiro Fórum Mundial da Bicicleta, “para discutir o futuro das cidades e o papel da bicicleta nos âmbitos social, econômico, ambiental, esportivo e cultural”, conforme informa a página oficial do evento. Ou seja, apesar dos pesares o atropelamento acabou tendo esta consequência positiva, de fomentar o debate sobre a bicicleta como meio de transporte, e não apenas como lazer.

Porém, nem tudo são flores. Enquanto Porto Alegre deveria se voltar para a discussão de um sistema de mobilidade urbana que deixe de privilegiar os automóveis particulares (modelo que se prova ultrapassado a cada final de tarde em que se locomover pela cidade requer paciência extrema), há um projeto do vereador Alceu Brasinha (PTB) na Câmara Municipal que aumenta o limite de velocidade para 70km/h na cidade – atualmente o máximo permitido é de 60km/h, sendo exceção a Avenida da Legalidade, via expressa na qual se pode transitar a 80km/h.

Alguém acredita que aumentar o limite de velocidade vai melhorar o trânsito? Até porque, com o limite de 60km/h, em horários de pico dificilmente se anda a mais de 20km/h. O que quer dizer que o problema não é a velocidade máxima permitida e sim, a quantidade de carros.

Sem contar o principal: 60km/h já é uma velocidade elevada. Um vento de 60km/h é suficiente para causar alguns transtornos como falta de luz, queda de galhos de árvores etc. Caminhar contra ele, então, requer alguma força.

Agora, imagine o choque de um carro a 60km/h. Melhor só imaginar, jamais querer experimentar.

Motoristas se manifestam em Porto Alegre

Na última sexta-feira de cada mês, ciclistas se reunem na chamada Massa Crítica, que percorre várias ruas de Porto Alegre. É assim não só aqui, como em várias cidades do mundo.

Só que não apenas na última sexta-feira de cada mês, mas sim diariamente, motoristas têm se manifestado em Porto Alegre. É a “Anti-Massa Crítica”, que chama a atenção para a verdade sobre quem são realmente os donos das ruas. As manifestações, iniciadas há anos, estão cada vez maiores. Enquanto os ciclistas celebram a participação de centenas, os motoristas são centenas de milhares!

Confira um pouco do grande ato acontecido em 12 de maio de 2010, no cruzamento das avenidas Plínio Brasil Milano e Carlos Gomes, Zona Norte da cidade:

E eu já estou decidido a aderir, afinal, é preciso fazer o que todo mundo faz. Larguei mão da ideia de ter uma bicicleta, vou é comprar um carro a 300 prestações!

————

Óbvio que os tais “protestos motorizados” (e a minha decisão) nada mais são do que uma ironia quanto aos congestionamentos que são cada vez piores em Porto Alegre. É essa a ideia do genial Vá de Auto: assim como o (infelizmente parado) Classe Média Way of Life, critica um tipo de pensamento através da sátira.

O momento da tentativa de assassinato

Vídeo feito por um dos participantes da Massa Crítica de sexta-feira, que aos 55 segundos mostra o atropelamento de vários ciclistas pelo bandido motorizado.

Abaixo, charge do Kayser.

Começou a criminalização

É simplesmente inacreditável o que disse o delegado Gilberto Almeida Montenegro, da Divisão de Crimes de Trânsito de Porto Alegre, sobre a Massa Crítica, vítima de uma tentativa de assassinato na sexta-feira. Bom, na verdade não: é apenas mais um reflexo da carrocracia que impera na cidade.

O primeiro erro crucial foi esse evento ciclístico. Esse grupo cometeu um erro grave, qualquer evento desse porte se avisa a Brigada Militar (BM), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), a Secretaria de Segurança, para se formar um aparato para evitar situações desse tipo.

Então quer dizer que para se locomover é preciso avisar a Brigada e a EPTC? Pois a Massa Crítica nada mais é do que ciclistas pedalando juntos, se deslocando pela cidade (embora isso tenha sim um sentido de manifestação – mas para lembrar que ciclistas também são trânsito). Por essa lógica, é preciso avisar a BM e a EPTC para formarem um aparato em todos os finais de tarde, visto que os motoristas adquiriram o interessante hábito de protestar nesses horários, levando o caos à maior parte da cidade.

Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta.

Ah, é? “Aqui não é a Líbia”, mas se desagradar ao Gaddafi, digo, ao fluxo de automóveis… Pelo jeito é legítimo que um bandido dirigindo um carro passe por cima de ciclistas.

Não pode impedir o fluxo de carros (que na maioria esmagadora das vezes é impedido por eles mesmos), mas de pedestres e ciclistas pode, né? Pois o tempo que aquele assassino poderia ter esperado para que a Massa Crítica passasse, é o mesmo que muitas vezes eu espero para atravessar uma rua (isso quando não preciso esperar mais).

Barbárie em Porto Alegre

Na tarde dessa sexta-feira (a última do mês, como é tradicional, e também acontece em São Paulo), aconteceu mais uma Massa Crítica em Porto Alegre, em que ciclistas se reúnem e pedalam por várias ruas, de modo a lembrar que eles também são o trânsito (ao contrário do que diz a mídia, que eles “atrapalham o trânsito”). E também serve para chamar a atenção para a situação que eles vivem: para pedalar com segurança, só assim, em grandes grupos.

Na verdade, nem assim. Na tarde dessa sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011, a Massa Crítica foi vítima de uma tentativa de assassinato na Cidade Baixa. Um motorista simplesmente avançou por cima de todo mundo com sua arma seu carro, resultando em vários feridos e em uma justíssima revolta por parte dos ciclistas e das testemunhas da barbárie.

Eu não estava lá, mas ninguém conseguirá me convencer de que os depoimentos do vídeo acima não são verdadeiros. Pois como percebi em outra ocasião, em que estava caminhando e vi a Massa Crítica passar, muitos motoristas de Porto Alegre são assassinos em potencial. Lembro de um que, indignado por ter de esperar as bicicletas passarem, desceu do carro e começou a fazer gestos obscenos. Afinal, o coitado estava perdendo cinco minutos da vida dele (como se já não tivesse perdido muito mais em congestionamentos).

O que motoristas como esse que citei não percebem é que o tempo perdido por eles é, na maioria das vezes, culpa deles mesmos. Pois com as raras exceções dos que realmente precisam do carro para trabalhar (como os taxistas), o trajeto que eles costumam seguir diariamente (da casa para o trabalho, e do trabalho para casa) poderia muito bem ser feito no transporte público, de bicicleta, ou até mesmo a pé.

“Ah, mas os ônibus são muito ruins”, dizem eles. Entenderam então por que os “baderneiros” reclamam que a passagem subiu???

Só que, como a boiada prefere comprar um carro em 99 prestações do que exigir um transporte público de qualidade ou mais segurança para se andar de bicicleta ou a pé