Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

Nobel da “Paz”

Charge do Kayser, retratando as comemorações em países como Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda…

O Prêmio Nobel da Paz foi instituído por iniciativa de Alfred Nobel, químico sueco conhecido por ser o inventor da dinamite. Ao falecer em 10 de dezembro de 1896, deixou um testamento em que defendia a criação de uma fundação, que seria responsável por premiar anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para a humanidade em cinco áreas: Química, Física, Medicina, Literatura e Paz. Os vencedores dos quatro primeiros prêmios são definidos por especialistas suecos, já o da Paz é atribuído por uma comissão definida pelo parlamento da Noruega. (O prêmio de Economia foi criado em 1969, mas não é oficialmente um Nobel, tendo o nome oficial de “Prêmio de Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel”.)

O Nobel da Paz já foi atribuído a figuras realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King. Mas nem sempre foi assim. Como se viu em 1973: Henry Kissinger ganhou o prêmio no mesmo ano em que o Chile sofreu um sangrento golpe militar (e que deu início à ainda mais sangrenta ditadura de Augusto Pinochet) porque, nas palavras de Kissinger, os EUA não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual Kissinger falava era a democrática decisão dos chilenos de elegerem o socialista Salvador Allende à presidência, em 1970.

Já em 2009, chegou a ser bizarro: o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ganhou o prêmio “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Só que, ao mesmo tempo em que o Nobel da Paz “se esforçava diplomaticamente”, as tropas dos EUA (das quais ele é o comandante-em-chefe) continuavam a matar no Afeganistão e no Iraque.

Agora, chegou a vez da União Europeia ganhar o prêmio. Surpresa? Nenhuma. Serve apenas como piada, como alguém já disse no Facebook: a UE ganhou o Prêmio Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…