Algo em comum com Mario Quintana

Não recordo com exatidão o dia em que fui pela primeira vez ao Salão Gomes, na Rua Barros Cassal. Sei que meu pai já cortava o cabelo ali havia muito tempo, e então ele indicou onde eu devia ir para dar um jeito no meu.

Vários anos se passaram, e por um bom tempo não fui cortar meu cabelo lá. É que já faz quase 10 anos que tenho o hábito de simplesmente “passar a máquina”, de modo a disfarçar a calvície. Então, meu irmão cortava meu cabelo e eu “rapava” o dele. Porém, o tempo (tanto dele quanto meu) começou a ficar escasso e então foi natural voltar ao barbeiro.

Já tinha lido matérias de jornal sobre o salão, no qual Alcino Gomes começou a trabalhar em 1963 e que depois acabou adquirindo seu próprio nome. Eis que então cheguei lá no último sábado e vi o jornal abaixo, emoldurado:

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Resumindo, descobri que tenho algo em comum com Mario Quintana, nascido há exatos 107 anos. Não é a poesia, pois para isso ainda terei de comer muito feijão. Mas ao menos temos o mesmo barbeiro.

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Carpe 2013

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

(Mario Quintana)

O Ano Novo, na prática, significa apenas trocar o calendário na parede (além de novos prefeitos onde os atuais não foram reeleitos). Nada há de mágico na mudança de ano, por mais que pareça – afinal, temos o costume de comparar os anos, dizer que 2012 foi melhor ou pior que 2011 etc.

Apesar disso, acho bom que haja esse “fatiamento” no tempo, que nos leva a reflexões sobre o que passou e planos para o que virá. Muitas vezes o que planejamos não sai do papel, mas é importante pensarmos em mudanças, pelo menos uma vez por ano.

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Mas, é justamente por não haver nada de mágico no Ano Novo que devemos fazer nossa parte se queremos que o ano que se inicia seja melhor que o encerrado. Obviamente não depende só de nós, mas fazendo nada, aí sim é que as coisas não vão mudar, e 2013 não será melhor que 2012: numa visão otimista, seguirá tudo na mesma.

Já devo ter dito aqui que meu filme preferido é “Sociedade dos Poetas Mortos”. Resumindo a história: o início do ano letivo em um colégio ultraconservador dos Estados Unidos apresenta uma novidade, o professor John Keating (Robin Williams), de Literatura de Língua Inglesa. Ele estimula seus alunos a pensarem por si próprios, ideia que vai de encontro aos tradicionais valores defendidos pelo colégio. Logo no começo das aulas Keating apresenta aos jovens a expressão latina carpe diem, que significa “aproveite o dia”: o professor lembra que nossa existência é muito breve, algo como um piscar de olhos; então, é preciso aproveitá-la, fazer dela algo extraordinário, ao invés de seguir roteiros pré-determinados e, depois de velho, perceber que a vida passou sem ser realmente vivida.

Não sei como foi o 2012 de cada um. Sobre o meu, posso dizer que foi bom, mas poderia ter sido bem melhor. Por isso, carpe diem é meu lema para 2013.

E é também minha mensagem a todos: façamos o novo ano ser extraordinário. Não devemos esperar as mudanças para melhor, e sim fazer com que elas aconteçam, de modo a que daqui 365 dias possamos olhar para trás e dizer que 2013 valeu a pena.

Um grande abraço, e carpe 2013!

Por um 2012 de mais questionamentos

No segundo semestre de 2005, cursei na faculdade a cadeira de História da América Pré-Colombiana. Quando estudamos os Maias e li que segundo a previsão deles o mundo terminaria em 2012, na hora imaginei (previ?) que logo toda aquela paranoia de fim do mundo voltaria…

Não acredito em previsões para o futuro que não tenham algum embasamento científico. Se mesmo com tecnologia cada vez mais avançada a meteorologia às vezes erra a previsão do tempo para o dia seguinte, o que dizer de uma conclusão baseada em evidência alguma? Tipo, o mundo “vai acabar” em 2012, mas… Por quê?

Logo acima dei um exemplo do que desejo a todos para o próximo ano: questionamentos. Ou melhor, mais questionamentos. Pois se em 2011 tantas pessoas foram às ruas protestar, a ponto de até derrubarem ditadores, isso se deveu justamente ao fato delas terem questionado o status quo.

Se tanto desejamos que o próximo ano seja melhor, devemos fazer algo por isso. E para mudar, é necessário sair da inércia, da comodidade de manter as coisas “como sempre foram”. Logo, é preciso questionar. Sem isso, não há mudanças.

E, já que a ideia é questionar, mostrem que estou errado por não acreditar em previsões sem embasamento científico… Façamos que a profecia dos Maias se cumpra – mas não como um apocalipse, e sim, como o início de um novo mundo, mais solidário e menos individualista, em que o poder do amor vença o amor pelo poder, para que o mundo finalmente conheça paz. Aliás, conforme a “previsão” de Jimi Hendrix, que certamente não é embasada em ciência, mas sim, em sonhos.

E por fim, lembro o grande Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Grande abraço, e um feliz (e cheio de questionamentos) 2012!

Houve uma vez uma noite de Ano Novo…

Há 10 anos, o mundo estava em um quase êxtase. Era a chegada do ano 2000. Nada simbolizava tanto o “futuro” quanto este número tão “redondo”.

Mesmo nos anos 80, a ideia que eu tinha do mundo do ano 2000 era de um lugar onde os carros voavam e as pessoas usavam roupas esquisitas, tipo nos desenhos dos Jetsons.

Inclusive lembro de um diálogo com o meu pai no dia do aniversário dele em 1999 (ou seja, 31 de dezembro!). Falávamos sobre o ano 2000, que finalmente chegava, e eu lembrava a visão inspirada nos filmes que eu tinha da data: “Pois é, e os carros não estão voando” (apesar de alguns motoristas doidos tentarem isso até a morte – literalmente).

No dia 31 de dezembro de 1999, a televisão passou o dia mostrando imagens da entrada do ano 2000 em diversas partes do mundo. E, claro, não terminava nunca aquela discussão sobre o final do século XX (e do milênio).

E o “bug do milênio”? Havia todo aquele temor quanto às falhas nos computadores na virada do ano, que levariam o mundo ao caos. Inclusive dizia-se que os sistemas de controle das armas nucleares russas seriam muito defasados, e que a partir da meia-noite de 1º de janeiro de 2000 as ogivas nucleares simplesmente se disparariam, acabando com o mundo. Claro que nada disso aconteceu, pois estamos todos aqui…

Esperei a entrada na Usina do Gasômetro. Chovia em Porto Alegre, senti frio por estar molhado e precisei comprar uma capa de chuva. E não chegava nunca meia-noite: não era culpa da expectativa, e sim, dos “excelentes” shows musicais daquela noite… À meia-noite, aconteceu algo comum na vida de um gremista: um foguetório comemorativo. Era o “futuro” chegando.

————

O “ano do futuro” não foi tão maravilhoso como se esperava. Nem no âmbito pessoal. Já em janeiro, passei no vestibular para Física na UFRGS: eu largaria o curso dois anos depois, mas fiquei feliz, é claro. Só que o primeiro ano foi desastroso: nas poucas cadeiras nas quais fui aprovado, o conceito foi “C”, ou seja, “suficiente para passar”. Mesmo assim, em nenhum momento de 2000 eu pensei em abandonar o curso (em 2001 eu pensaria nisso pela primeira vez, embora brevemente).

Mas o mais incrível de tudo é perceber que o “futuro” já se encontra 10 anos atrás. Quando estivermos entrando em 2020, o que falaremos dos dias de hoje (e também dos de 10 anos atrás, que lá serão “20 anos atrás”)? E, se o assunto é “futuro”, estará o mundo de daqui a 10 anos semelhante ao do filme Soylent Green, que se passa em 2022?

Não basta “torcer para que não esteja”, e sim, é preciso que também façamos a nossa parte, procurando evitar desperdício de comida, água e energia, consumindo somente o realmente necessário, caminhando mais e andando menos de carro (gastar gasolina para andar duas quadras sozinho é o cúmulo – e o motorista engorda e não sabe por quê…). Quem não age assim, que tal começar em 2010?

Afinal, o “futuro perfeito” que eu acreditava ser o ano 2000, além de já ser passado, também é irreal. O futuro – seja bom ou ruim – será consequência de nossos atos hoje.

E se muito do que desejamos parece impossível, a ponto de nos desmotivar… Passo a palavra a Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

A todos os leitores do Cão Uivador, um grande abraço e FELIZ 2010!

Por um 2009 utópico

mafalda

A mensagem acima foi enviada pela amiga Cláudia Cardoso, do Dialógico. Considero-a perfeita para a época em que vivemos.

Pois pensar em um 2009 de paz parece difícil, diante da barbárie perpretada pelas forças israelenses na Faixa de Gaza. Prosperidade, depende de qual tipo se quer: se o objetivo é só ganhar dinheiro, isso nunca foi possível para todos, e com a crise será privilégio ainda mais restrito. Amor, é algo cada vez mais em falta. Justiça e igualdade parecem piada. Recompensa pelo esforço, assim como o Guile (irmãozinho da Mafalda), eu nunca vi. Desejos cumpridos, nunca se consegue todos – e na maioria dos casos, não dependem apenas de nós. E um mundo em que se realizem as utopias… Bom, é mais uma utopia.

Então, que tal pelo menos fazermos nossa parte para que tenhamos um pouco de tudo o que citei acima?

Que haja prosperidade não só em termos materiais: tem coisa muito mais importante que dinheiro. O ano de 2008 foi a prova disso para mim, quando conheci pessoas fantásticas, que fazem sua parte na luta por um mundo melhor. Posso dizer que enriqueci muito nesse ano que termina, mesmo sem ganhar muito dinheiro.

Diante da guerra e da injustiça, manifeste seu repúdio, não faça de conta que “não é da sua conta”: hoje é no Oriente Médio; no futuro, quem garante que não será aqui?

Já que o amor está em falta, contribua para que falte menos.

Lute por mais justiça e igualdade.

Tenha desejos, sonhos, mas não esqueça de fazer o necessário para que se tornem realidade.

E, quanto às utopias, passo a palavra para Mario Quintana:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Um abraço a todos os leitores do Cão Uivador, e feliz 2009!

Dia da Poesia

Sexta-feira, 14 de março, foi o Dia da Poesia.

Embora este blog tenha começado com poesia, é a prosa que predomina aqui. Nada melhor do que, em comemoração ao Dia da Poesia, abrir espaço para ela.

Poeminha do contra

(Mario Quintana)

Todos estes que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Vento sul

(Rodrigo Cardia)

Sopra o vento sul
Trazendo o sinal do frio,
Vai levando a chuva embora,
Vem trazendo o sol de volta.

Sopra forte o vento sul,
Chegando às minhas paragens,
Trazendo novos ares,
Lá da terra dela.

Chega com tudo o vento sul,
Vento forte, vento destruidor.
Saiu da terra dela,
Para arrasar o meu coração.

E vai-se embora o vento sul,
Me deixando o frio e o sol.
Vai-se em direção ao norte,
Deixando para trás os pedaços de mim.

(Escrita em 28 de agosto de 2005)