“A trégua”, de Mario Benedetti

Manhã de segunda-feira. Levantamos da cama, muitas vezes sonhando acordados, literalmente. Sonhando com o final de tarde da sexta-feira.

Já Martín Santomé, personagem principal de “A trégua”, sonha com a aposentadoria. Quase aos 50 anos de idade, já está cansado de seu trabalho maçante no escritório, e conta os dias para finalmente ter o tempo livre para fazer o que gosta. Porém, ainda não tem a menor ideia do que fará após se aposentar: sua mulher morreu quase 20 anos antes e desde então teve poucos envolvimentos amorosos; mora com os três filhos, com os quais não fala muito.

Santomé decide registrar sua rotina em um diário, no qual consiste o romance de Mario Benedetti, publicado em 1960. Por meio do que o personagem escreve, acompanhamos seu dia-a-dia, monótono até a chegada de uma nova funcionária ao escritório, Laura Avellaneda. A jovem de 24 anos lhe causa boa impressão, mas inicialmente apenas isso. Santomé, que sente-se “sentimentalmente ressequido”, demora bastante até admitir que está apaixonado pela funcionária. Não vê futuro em um relacionamento com uma pessoa tão mais nova.

A situação se altera quando Avellaneda, que era comprometida, termina seu namoro, encorajando Santomé a buscar uma aproximação. Porém, isso significa muito mais para ele: é a chance de mudar a monotonia de seu dia-a-dia 20 anos após a morte de sua esposa, última pessoa que realmente amou.

O novo amor faz com que a rotina de Martín Santomé deixe de ser apenas a contagem dos dias para a aposentadoria. Inicialmente, continua a não ver muito futuro em seu relacionamento com Laura Avellaneda e procura mantê-lo “às escondidas” o máximo possível, inclusive alugando um apartamento apenas para encontrá-la. Não pensa que um dia vá casar-se com a jovem, devido à diferença de idade que, acredita, fará com que Avellaneda um dia se apaixone por um homem da mesma faixa etária. Parece um amor fadado a não durar o resto de seus dias, sendo apenas uma trégua para sua vida previsível. Aliás, como acontece com tantas pessoas, que saem da cama na segunda-feira pela manhã sonhando com a sexta-feira à tardinha, e um dia percebem que, sem prévio aviso, tudo mudou.

Porém, a vida de Santomé é definitivamente transformada. Igual ao que acontece com qualquer um de nós: por mais que tentemos, jamais voltaremos a ser o que éramos antes de um grande amor.

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Mario Benedetti (1920-2009)

SOBREVIVENTES

Quando em um acidente
uma explosão
um terremoto
um atentado
salvam-se quatro ou cinco
cremos
insensatos
que derrotamos a morte

mas a morte nunca
se impacienta
pois, com certeza
sabe melhor do que ninguém
que os sobreviventes
também morrem

Poema de Mario Benedetti – nascido em Paso de los Toros (Uruguai) em 14 de setembro de 1920, falecido ontem em Montevidéu.