As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.

Mais sobre pontos corridos x “mata-mata”

Mais dois ótimos textos a respeito da tentativa da Rede Globo de impor suas vontades sobre o futebol brasileiro:

  • O primeiro é do Hélio Paz, que relembra inclusive um post escrito por ele mesmo em outubro de 2007 sobre a fórmula e lembra que a credibilidade de um campeonato depende fundamentalmente da sua regularidade – e é o que vem acontecendo com os Campeonato Brasileiro, desde 2006 com o mesmo regulamento: pontos corridos, 20 clubes e rebaixamento de quatro equipes. Número de vagas à Libertadores é algo que não depende somente da CBF, embora também não tenha sofrido alterações desde então;
  • O segundo, que foi citado pelo Hélio também, é do Bruno Coelho, no Grêmio 1903, que considera o retorno do “mata-mata” como um retrocesso para o futebol brasileiro (e de fato, é), e também detona alguns mitos contra os pontos corridos, como a tal “falta de emoção”.

Os dois apresentam bons argumentos a favor dos pontos corridos. Já em favor do mata-mata, o que existe? Só os interesses comerciais da Globo, que deseja conquistar a esmagadora maioria da audiência brasileira em uma tarde de domingo, transmitindo a “grande final”.

Espero que a CBF, que merece muitas críticas, desta vez faça por merecer um elogio e não se curve à Globo. Inclusive na questão dos horários dos jogos: o presidente Ricardo Teixeira deseja que no Brasileirão 2010 os jogos no meio de semana comecem às 20h, e não mais às 21h ou 21h45min – o último é o horário da transmissão da Globo, depois da novela, reservado aos jogos “mais imporantes”.

Jogos às 20h são muito melhor para o torcedor, já que terminariam por volta das 22h (exceto se fossem eliminatórios, onde haveria a possibilidade de prorrogação ou pênaltis), horário em que ainda há uma boa disponibilidade de linhas de ônibus. Para se ter uma ideia, em jogos da Libertadores que fui gastei uma nota em táxi porque a partida terminou à meia-noite e perdi o último T5, que só conseguiria pegar se saísse rápido do estádio e ainda teria de contar com a sorte para não pegar atrolhado – tanto que pego o ônibus algumas paradas antes para que esteja vazio.

Tomara que se dê um passo para diminuir a influência da televisão no futebol, que decide onde, quando e como se joga. É hora de deter a “telecracia”, nas felizes palavras de Eduardo Galeano em seu ótimo livro “Futebol ao sol e à sombra” (L&PM, 2002, p. 195):

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão européia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

– Suo. Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha, hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.

Diego Armando Maradona É O CARA!

Terça-feira teve post no Impedimento sobre os comentaristas de futebol da “grande mídia”. Lembrando um outro, de junho de 2008, acerca do desprezo dos profissionais da mídia corporativa pelo torcedor: para eles, ninguém pode ter opinião que não concorde com a deles. Não por acaso, se consideram “formadores de opinião” – vejo-os muito mais como “deformadores”.

A “grande mídia” se considera muito justa e imparcial. Seria ótimo se realmente fosse assim, mas não é. Um desentendimento com ela é pior do que tentar dormir com um mosquito à volta (aquele filho da puta sempre chega perto do nosso ouvido justamente no momento em que pegaríamos no sono): mais do que incomodar, a mídia corporativa pode acabar com a reputação de uma pessoa. Como se viu no caso da Escola Base, cujos donos foram injustamente acusados de promoverem orgias com alunos – e condenados pela mídia, que mostrou uma simples acusação como se fosse verdade.

Ontem, após a suada classificação da Argentina para a Copa de 2010, Diego Armando Maradona soltou o verbo contra a imprensa. Foi o desabafo contra a avalanche de críticas que sofreu por seu trabalho como treinador da Seleção.

Não que as críticas sejam infundadas. Maradona como técnico provou que é um desastre, a ponto de levar 6 a 1 da Bolívia: tudo bem que foi em La Paz, mas em se tratando de grandes jogadores considero Argentina e Brasil como equivalentes, e a Seleção Brasileira perdeu só por 2 a 1. Não dá para culpar a altitude pela goleada.

Porém, a imprensa argentina já estava inventando histórias, tudo para vender mais jornal. De repente, surgiu uma briga entre Maradona e Carlos Bilardo, diretor de seleções da Associação do Futebol Argentino. Briga que segundo Don Diego, jamais aconteceu – prova disso foram os emocionados abraços entre os dois após o jogo de ontem. Dentre muitas acusações infundadas.

Não é de hoje que o ídolo não se dá com a imprensa. E Maradona sempre teve o hábito de falar o que pensa, sem pensar antes de falar. Um exemplo foi o acontecido na final da Copa do Mundo de 1990, contra a Alemanha. O hino nacional da Argentina era vaiado pela torcida no Estádio Olímpico de Roma, e Maradona não pensou duas vezes: quando percebeu uma câmera de televisão perto dele, soltou um perceptível “hijos de puta”.

Claro que ao falarmos o que pensamos, sem pensar antes de falar, podemos acabar falando demais. Ele ficaria marcado pelos donos do poder no futebol, que mal sabem chutar uma bola (ou seja, eu tenho chance de ser cartola).

E em termos de idolatria, sou muito mais fã de Maradona do que de Pelé. Não tive oportunidade de ver Pelé jogar, mas por diversos vídeos que já assisti, posso dizer que jogava mais do que Maradona – que foi o melhor dos que vi “ao vivo” (via televisão).

Porém, Pelé é de uma frieza que chega a ser constrangedora. Enquanto Maradona não esconde o que sente, e ainda afronta os poderosos: quando jogava, foi uns do que propôs a criação de um sindicato internacional de jogadores – ideia que obviamente não agradava à dona PIFA. Jogando pelo Napoli, com seu futebol genial e sua rebeldia, Maradona encarnou o desejo dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelo norte; a ponto da semifinal da Copa de 1990, Itália x Argentina em Nápoles, ter tido um público que não era tão italiano: muitos napolitanos preferiram torcer por Maradona – o que talvez explique o ódio dos nortistas que se expressou nas vaias ao hino argentino na final.

Quando Maradona manda jornalistas “chuparem”, diz o que muita gente tinha vontade de falar mas não sentia coragem. Não vejo como uma ofensa ao jornalismo como profissão – que é indispensável – mas sim ao mau jornalismo, especialidade não só da imprensa esportiva nas corporações de mídia.

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Ah, tinha esquecido de avisar: ontem, torci pelo Uruguai. Mas não fiquei triste com os resultados combinados, pois não queria que a Argentina ficasse fora (certamente ganharia a repescagem, caso tivesse de disputá-la). Não consigo imaginar uma Copa do Mundo sem Brasil ou Argentina.

Quem vaia, ouve…

8 de julho de 1990, grande final da Copa do Mundo. A Alemanha conquistou seu terceiro título ao vencer por 1 a 0 (gol de Brehme, marcado de pênalti) a Argentina, que na semifinal havia eliminado nos pênaltis a anfitriã Itália.

A maior parte do público presente ao Estádio Olímpico de Roma torcia pela Alemanha: os próprios alemães, e os italianos que desejavam ver a Argentina derrotada. Durante a execução do hino nacional argentino, uma forte vaia se fez presente, e Maradona, ao ver a câmera de televisão passar, não pensou duas vezes e desabafou…