A ditadura da sociabilidade

Semana passada correu na internet uma lista, feita por um estadunidense casado com uma brasileira, citando os motivos pelos quais tinha detestado morar no Brasil – e em um fórum dos Estados Unidos, internautas acrescentaram novos itens, “dobrando” o tamanho da lista.

A lista gerou polêmica, por conter muitas generalizações que, obviamente, não são corretas. Nem todas as ruas de nossas cidades são sujas, nem todos os brasileiros querem sempre “levar vantagem em tudo”, não é “quente como o inferno durante nove meses por ano” (Porto Alegre é infernal, mas felizmente não por todo esse tempo) etc. E dizer que, fora Rio de Janeiro e Salvador (mais especificamente, o Pelourinho), as cidades brasileiras são todas feias e “sem árvores”, é sinal de que a pessoa mal conhece o Brasil: Porto Alegre ainda é uma cidade bastante arborizada, apesar de nossa prefeitura se esforçar para mudar tal situação.

Porém, alguns itens são, realmente, perfeitos. Como os que falam na prioridade dada aos carros, na (péssima) qualidade dos serviços de eletricidade e internet, e no fato das elites se julgarem acima das leis. Mas o número 16 da lista, em especial, me chamou a atenção, por tratar de algo que incomoda muito: o da “sociabilidade” dos brasileiros. Transcrevo-o abaixo:

Os brasileiros são super sociais e raramente passam algum tempo sozinho, especialmente nas refeições e fins de semana. Isso não é necessariamente uma má qualidade, mas, pessoalmente, eu odeio isso porque eu gosto do meu espaço e privacidade, mas a expectativa cultural é que você vai assistir (ou pior, convidar amigos e família) para cada refeição e você é criticado por não se comportar “normalmente” se você optar por ficar sozinho.

Não posso dizer que isso seja “coisa de brasileiro”: sou da opinião que “mala” existe em todo lugar. Certamente não faltam pessoas assim nos próprios Estados Unidos.

Mas o fato do texto ter citado as refeições e finais de semana caiu como uma luva. Obviamente gosto de encontrar os amigos, tomar uma cerveja, conversar etc. Mas não sempre. Porém, a maioria das pessoas não entende que alguém possa estar com vontade de ficar só em alguns momentos. Pois acham que devemos ser sempre “sociáveis” e bem humorados; já comigo acontece o contrário, e meu humor se vai quando me sinto forçado a “ter que conviver”.

Gosto de fazer refeições tanto sozinho como acompanhado. Mas com um detalhe: se alguém quer realmente me agradar com sua companhia, tem de ser convidado para sentar à mesa comigo. Pois, se vou almoçar ou jantar só, na verdade não estou realmente só: desfruto de minha própria companhia. Simplesmente chegar com o prato e sentar à mesa, começando a falar, não é “camaradagem”: é interromper um momento de introspecção. É se meter onde não foi chamado. (Às vezes não sobram lugares no restaurante e é preciso dividir a mesa com algum desconhecido, mas nesse caso não vejo problemas pois a outra pessoa não tinha opção.)

Finais de semana é a mesma coisa. Tem ocasiões em que simplesmente quero ficar em casa lendo, escrevendo, ou mesmo “fazendo nada”.

Porém, ninguém aceita um “não estou com vontade” como resposta quando nos convida para sair. Aliás, quantas vezes não precisamos inventar desculpas para recusar um convite, apenas para evitar que a outra pessoa se sentisse ofendida? E o mesmo acontece se estamos em algum lugar sozinhos e alguém “pede licença” para fazer companhia: quantas vezes não dissemos “sim” só por educação, quando na verdade preferíamos continuar sós?

Sem contar as visitas inconvenientes, que todos já receberam várias vezes… Chegam “do nada” (sequer ligam antes para saber se estamos em casa e, caso estejamos, se queremos ou não receber visitas), e ainda se sentem “donas do pedaço”. Não é um saco estar fazendo alguma coisa e ter de interromper só porque alguém chegou sem avisar?

De forma geral, as pessoas encaram o fato de estarem sós como “fracasso social”. Não sabem desfrutar de suas próprias companhias (e existem diversas formas de fazer isso: ler, assistir filmes, escrever etc.), e por conta disso, acabam não suportando estarem consigo mesmas. Ainda mais que vivem nos dizendo que devemos “curtir a vida adoidado”, sempre rodeados de muita gente.

E em certas ocasiões, a imposição torna-se ainda mais forte. Como assim ficar um sábado à noite em casa, ao invés de ir “causar muito” nas baladas? Onde já se viu alguém passar o Carnaval (logo o Carnaval!) lendo? Que falta de “espírito de Natal” não curtir a festa em família! Pouco interessa que gostemos mais de livros do que de noitadas e carnavais, ou que a convivência com os familiares seja complicada (como realmente é para muitas pessoas): virão os rótulos de “antissocial”, “chato”, “velho”, “mau-humorado”, “revoltado”, “maluco”, “rabugento”, “ranzinza”… Além de outros (aceito sugestões nos comentários).

Como falei na última sexta, todos somos pequenos ditadores: em algum momento de nossas vidas, nos metemos a “cagar regras” aos demais, mesmo que os gostos dos outros em nada nos afete. Quando apenas uma pessoa que tenta nos outorgar seus hábitos, é mais fácil se livrar; agora, quando raros são os que discordam, aquilo que deixa tantas pessoas felizes (será que ficam felizes mesmo?) acaba por oprimir quem não gosta.

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Facebook: nosso “1984” pessoal

Uma das maiores reivindicações dos usuários do Facebook é o botão “não curti”, para sinalizar publicações e comentários que não agradam. Afinal, a única opção que temos, aparentemente, é o “curtir”.

Como disse, “aparentemente”. Pois existe, sim, como “não curtir” comentários no Facebook. Só que o “não curtir” está escondido na opção “denunciar abuso”. Ao clicar nesta, aparece um menu para selecionar o motivo pelo qual o comentário é considerado um abuso – e dentre eles, o “não curti este comentário”. Porém, o “não curtir” nos oferece algo a mais, como comprovei ontem.

Em uma longa discussão sobre política na qual tinha me envolvido no final de semana (não entrarei em detalhes, mas adianto que pretendo escrever um texto mais amplo, no qual discutirei um dos argumentos que nortearam a troca de ideias), o debate corria bem, com concordâncias e discordâncias, mas tudo respeitosamente. Eis que então entrou um cara que não só discordava de mim, como me achava idiota por isso – a propósito, deu para perceber que ele acha idiota qualquer um que não concorde com ele, numa amostra do quão “tolerantes” são os neoliberais fundamentalistas.

A última questão do fanático, decidi que não iria responder, tamanha idiotice que era aquilo. Fiquei na dúvida entre simplesmente não fazer nada, pedir que ele fosse mais respeitoso, mandá-lo àquele lugar ou tomar uma atitude diferente. Me decidi pela última opção: denunciar o comentário como abuso. E lá apareceu o “não curti este comentário”.

Só que, como falei, tinha “algo mais”: era oferecida a possibilidade de bloquear o cara, para que ele “não me enxergue mais”, nem eu o visse mais no Facebook. Resolvi, então, bloquear, e assim ter um fanático de direita a menos para encher o saco.

Mais tarde, voltei à discussão, e os comentários do cara tinham desaparecido… Então entendi: ao bloquear alguém, qualquer coisa que a pessoa já tenha postado antes mesmo do bloqueio “desaparece”. Entre aspas, pois um não vê os comentários do outro.

Diante disso, foi impossível não lembrar do livro “1984”, de George Orwell, que retrata uma sociedade totalitária onde o governo controla absolutamente toda a informação, de modo a simplesmente apagar fatos históricos e não se ter a menor possibilidade de provar a manipulação. “Se algo não existe, nunca existiu”, mesmo que existisse menos de cinco minutos antes.

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Quanto ao bloqueio, apesar da cara de “1984” que ficou, não só o mantenho como também posso vir a usar mais vezes. E quem vier com o papo furado de “censura”, eu mando àquele lugar (já que não mandei o fundamentalista, tem uma vaga sobrando): bloquear uma pessoa no Facebook não a impede de falar, mas ao menos eu não preciso aguentar seus comentários caso eles não me agradem (até porque ela também não terá como ler o que eu escrevo por lá). Quem não gostou, que vá se queixar pro Zuckerberg por ter nos dado tal opção na rede que ele criou (ou me bloqueie, ora!).

Mas os colorados que não se preocupem, não são eles o “alvo”, apesar de alguns serem um pouco malas. Prefiro aguentar flauta do que trollagem reacionária.