Carpe 2013

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

(Mario Quintana)

O Ano Novo, na prática, significa apenas trocar o calendário na parede (além de novos prefeitos onde os atuais não foram reeleitos). Nada há de mágico na mudança de ano, por mais que pareça – afinal, temos o costume de comparar os anos, dizer que 2012 foi melhor ou pior que 2011 etc.

Apesar disso, acho bom que haja esse “fatiamento” no tempo, que nos leva a reflexões sobre o que passou e planos para o que virá. Muitas vezes o que planejamos não sai do papel, mas é importante pensarmos em mudanças, pelo menos uma vez por ano.

anonovo

Mas, é justamente por não haver nada de mágico no Ano Novo que devemos fazer nossa parte se queremos que o ano que se inicia seja melhor que o encerrado. Obviamente não depende só de nós, mas fazendo nada, aí sim é que as coisas não vão mudar, e 2013 não será melhor que 2012: numa visão otimista, seguirá tudo na mesma.

Já devo ter dito aqui que meu filme preferido é “Sociedade dos Poetas Mortos”. Resumindo a história: o início do ano letivo em um colégio ultraconservador dos Estados Unidos apresenta uma novidade, o professor John Keating (Robin Williams), de Literatura de Língua Inglesa. Ele estimula seus alunos a pensarem por si próprios, ideia que vai de encontro aos tradicionais valores defendidos pelo colégio. Logo no começo das aulas Keating apresenta aos jovens a expressão latina carpe diem, que significa “aproveite o dia”: o professor lembra que nossa existência é muito breve, algo como um piscar de olhos; então, é preciso aproveitá-la, fazer dela algo extraordinário, ao invés de seguir roteiros pré-determinados e, depois de velho, perceber que a vida passou sem ser realmente vivida.

Não sei como foi o 2012 de cada um. Sobre o meu, posso dizer que foi bom, mas poderia ter sido bem melhor. Por isso, carpe diem é meu lema para 2013.

E é também minha mensagem a todos: façamos o novo ano ser extraordinário. Não devemos esperar as mudanças para melhor, e sim fazer com que elas aconteçam, de modo a que daqui 365 dias possamos olhar para trás e dizer que 2013 valeu a pena.

Um grande abraço, e carpe 2013!

Anúncios

Sopa indigesta

Amanhã, a página inicial do blog direcionará para uma especial, criada em protesto contra um projeto de lei que tramita no Congresso dos Estados Unidos, o SOPA (Stop Online Piracy Act), que sob o pretexto de combater a pirataria na internet, acabará por instaurar a censura na rede. E não se engane, pensando que só afeta os EUA: boa parte dos servidores da web – dentre eles, os que hospedam este blog – se encontram lá…

Assim, se considerarem que um blog escrito por um brasileiro que mora no Brasil infringe o SOPA, não adianta o autor argumentar dizendo que vive bem longe dos EUA: adeus, conteúdo.

Por um 2012 de mais questionamentos

No segundo semestre de 2005, cursei na faculdade a cadeira de História da América Pré-Colombiana. Quando estudamos os Maias e li que segundo a previsão deles o mundo terminaria em 2012, na hora imaginei (previ?) que logo toda aquela paranoia de fim do mundo voltaria…

Não acredito em previsões para o futuro que não tenham algum embasamento científico. Se mesmo com tecnologia cada vez mais avançada a meteorologia às vezes erra a previsão do tempo para o dia seguinte, o que dizer de uma conclusão baseada em evidência alguma? Tipo, o mundo “vai acabar” em 2012, mas… Por quê?

Logo acima dei um exemplo do que desejo a todos para o próximo ano: questionamentos. Ou melhor, mais questionamentos. Pois se em 2011 tantas pessoas foram às ruas protestar, a ponto de até derrubarem ditadores, isso se deveu justamente ao fato delas terem questionado o status quo.

Se tanto desejamos que o próximo ano seja melhor, devemos fazer algo por isso. E para mudar, é necessário sair da inércia, da comodidade de manter as coisas “como sempre foram”. Logo, é preciso questionar. Sem isso, não há mudanças.

E, já que a ideia é questionar, mostrem que estou errado por não acreditar em previsões sem embasamento científico… Façamos que a profecia dos Maias se cumpra – mas não como um apocalipse, e sim, como o início de um novo mundo, mais solidário e menos individualista, em que o poder do amor vença o amor pelo poder, para que o mundo finalmente conheça paz. Aliás, conforme a “previsão” de Jimi Hendrix, que certamente não é embasada em ciência, mas sim, em sonhos.

E por fim, lembro o grande Mario Quintana:

Das utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Grande abraço, e um feliz (e cheio de questionamentos) 2012!

A origem do Dia Internacional da Mulher

Por muito tempo, ouvi a história de que o 8 de março era o Dia Internacional da Mulher devido a um acontecimento de 1857. Naquele dia, mulheres que trabalhavam numa fábrica teriam sido queimadas vivas por ordens do dono da empresa, em punição ao fato de estarem em greve. Inicialmente eu acreditava, mas depois de um certo tempo pensei que se o cara realmente fez isso, ele queimou não só sua mão-de-obra, como também as máquinas. E sabemos que, para um capitalista, nada pode ser mais importante que a produção: ele caga e anda para a mão-de-obra; agora, as máquinas…

E de fato, é possível que esta greve não tenha acontecido – ou não com um final tão trágico. De acordo com o blog Quem mandou nascer mulher?, não há registros históricos sobre tal acontecimento de 8 de março de 1857.

Já tinha lido que a escolha do 8 de março se devia a um acontecimento da Revolução Russa de 1917: sua primeira etapa, a “Revolução de Fevereiro”, começou nesse dia (23 de fevereiro pelo calendário juliano, utilizado pela Rússia naquela época), quando teve início uma greve de operárias têxteis, que saíram às ruas protestando contra a fome e a participação na Primeira Guerra Mundial (cujas trincheiras ceifavam muitas vidas). Só que, de acordo com o link que citei no parágrafo anterior, a escolha da data se deveu justamente ao fato de já ser, na época, considerada como Dia Internacional da Mulher.

Assim, a razão pela qual se considera o dia de hoje como Dia Internacional da Mulher permanece desconhecida. Agora, o que se sabe é o motivo de existir um dia dedicado às mulheres: a luta contra a exploração. Não é uma data comercial, para se dar rosas, como muitos fazem.

Seja pela tal greve de 1857 da qual falta documentação, seja pelas operárias russas de 1917, o que se percebe é que o Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionado à luta contra o capitalismo – sistema que gera toda a exploração que elas enfrentaram, e ainda enfrentam*.

Logo, engana-se quem pensa que a luta das mulheres “é problema delas”. Nós, homens que defendemos um mundo mais justo, não podemos deixar de apoiá-las, e também devemos combater o machismo que ainda está enraizado em nossa sociedade (dentro de nós mesmos, muitas vezes). Até porque isso é prejudicial não só às mulheres, como até mesmo aos homens que não se encaixam no padrão de “masculinidade” que é socialmente imposto.

Ou seja, sem a superação do machismo, será impossível que se tenha uma sociedade mais justa.

————

* Alguém pode lembrar que nos países ditos “socialistas reais” uma mulher jamais chegou ao poder, e é verdade. Porém, é bastante questionável a ideia de que aquilo era, realmente, socialismo: afinal, o regime que pregava a igualdade apenas criava uma nova elite dirigente, a burocracia do Partido Comunista (os “mais iguais” dos quais falava George Orwell em seu excelente “A Revolução dos Bichos”). E, como qualquer elite, ela era predominantemente masculina.

Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!

Por um 2009 utópico

mafalda

A mensagem acima foi enviada pela amiga Cláudia Cardoso, do Dialógico. Considero-a perfeita para a época em que vivemos.

Pois pensar em um 2009 de paz parece difícil, diante da barbárie perpretada pelas forças israelenses na Faixa de Gaza. Prosperidade, depende de qual tipo se quer: se o objetivo é só ganhar dinheiro, isso nunca foi possível para todos, e com a crise será privilégio ainda mais restrito. Amor, é algo cada vez mais em falta. Justiça e igualdade parecem piada. Recompensa pelo esforço, assim como o Guile (irmãozinho da Mafalda), eu nunca vi. Desejos cumpridos, nunca se consegue todos – e na maioria dos casos, não dependem apenas de nós. E um mundo em que se realizem as utopias… Bom, é mais uma utopia.

Então, que tal pelo menos fazermos nossa parte para que tenhamos um pouco de tudo o que citei acima?

Que haja prosperidade não só em termos materiais: tem coisa muito mais importante que dinheiro. O ano de 2008 foi a prova disso para mim, quando conheci pessoas fantásticas, que fazem sua parte na luta por um mundo melhor. Posso dizer que enriqueci muito nesse ano que termina, mesmo sem ganhar muito dinheiro.

Diante da guerra e da injustiça, manifeste seu repúdio, não faça de conta que “não é da sua conta”: hoje é no Oriente Médio; no futuro, quem garante que não será aqui?

Já que o amor está em falta, contribua para que falte menos.

Lute por mais justiça e igualdade.

Tenha desejos, sonhos, mas não esqueça de fazer o necessário para que se tornem realidade.

E, quanto às utopias, passo a palavra para Mario Quintana:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!

Um abraço a todos os leitores do Cão Uivador, e feliz 2009!