Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.

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Racismo, machismo e irresponsabilidade

O Grêmio perdeu para o Santos por 2 a 0 na Arena e praticamente deu adeus à Copa do Brasil. Mas o destaque, infelizmente, são os insultos racistas contra o goleiro santista Aranha. Espero que dessa vez haja punições – inclusive ao Grêmio, para que idiotas pensem muitas vezes e não mais cometam atos racistas.

Várias pessoas chamaram Aranha de “macaco”, mas só uma está “pagando o pato”. Muitos, que provavelmente não ligam nem um pouco para racismo mas adoram “xingar muito” e curtem “fazer justiça com as próprias mãos”, atacam com insultos machistas a torcedora gremista que teve divulgados perfis nas redes sociais, telefone, fotografia, endereço residencial e de trabalho. Ela sofre um “linchamento virtual” e corre risco de sofrer agressões físicas graças a um bando de irresponsáveis.

Não esqueçam de uma coisa: racismo é crime, mas linchamento também. Aliás, só os insultos que ela sofre também já configuram ações criminosas.

Lulu e Tubby: duas faces da mesma moeda

Semana passada, quando falei sobre o aplicativo Lulu previ que logo surgiria um “oposto”, ou seja, no qual as mulheres seriam avaliadas pelos homens. Dito e feito: agora criaram o tal de Tubby, previsto para estar disponível a partir de quarta-feira.

“Igualdade”? Conte outra, por favor. Ambos os aplicativos são duas faces da mesma moeda: o machismo.

O Lulu não tem nada de feminista. Ao contrário, apenas reforça aquela ideia de que a mulher busca um “príncipe encantado” e com grana (aquela velha história do “homem provedor”). Prova disso é que o avaliado ganha pontos se pagar a conta, chamar um táxi para ela ou levá-la para casa (afinal, não dizem que ter carro ajuda a “pegar várias”?). Agora, se ousar propor a divisão da conta… Perde pontos. E muitos.

Como disse, ambos os aplicativos são duas faces do machismo. Porém, como bem sabemos, as faces de uma moeda não são iguais. Ou seja, o Tubby não é o “equivalente masculino” do Lulu: é muito pior.

Antes mesmo de começar a funcionar, os criadores do aplicativo decidiram permitir às mulheres que não querem ser avaliadas a remoção de seus perfis no site do Tubby. Parece uma magnânima atitude, mas acaba por revelar o quão perverso é o app: quando a usuária consegue se descadastrar, aparece uma tela de “despedida” dizendo que ela “arregou”. Só uma prévia do que devem ser as hashtags: realmente ofensivas, ao contrário daquelas bem bobas do Lulu.

Em uma sociedade machista a mulher sempre está em desvantagem, independente de seu comportamento. E o Tubby simboliza bem essa lógica: se ela pede para sair, será chamada de “arregona que certamente tem muito a esconder”; se não exclui o perfil do aplicativo, terá a vida sexual exposta e ainda correrá o risco de ser vítima de mentiras inventadas por algum ex-namorado vingativo, de forma semelhante ao sucedido com jovens que cometeram suicídio após divulgação de vídeos íntimos na internet.

Ou seja, estamos diante de algo ainda mais perigoso. E não basta apenas recomendar às mulheres que se descadastrem do aplicativo: é preciso que nós, homens, não o utilizemos e recomendemos a nossos amigos que também não o usem.

Troque o app por um chope

Até o final da década de 1990, telefone celular era quase “artigo de luxo”. Quem tinha, era por questões profissionais ou por exibicionismo. Sem contar que era coisa de adulto: ver adolescente ou criança com um aparelho era sinal de que os pais queriam encontrá-lo em qualquer lugar, a qualquer hora – lembro do dia em que um colega foi à aula com um celular na pasta e sofreu tanto escárnio que nunca mais levou o aparelho ao colégio.

Isso começou a mudar com o surgimento dos celulares pré-pagos. A partir dali, não era mais necessário ganhar bem: bastava adquirir o aparelho junto à operadora, pôr créditos e “sair falando”, sem precisar pagar conta todo mês. Os principais alvos da publicidade eram os jovens, ansiosos por um telefone “exclusivo” para si; o aparelho deixou de ser motivo de chacota, o que também foi ótimo para os pais: o mecanismo de vigilância (“onde tu anda, que horas vem?”) não só deixou de ser rejeitado como também se tornou desejado pelos filhos, que não se sentiam controlados.

Os celulares deixaram de ser simplesmente telefones. Começou com o fato de eles marcarem as horas: meu relógio de pulso estragou há anos e sequer cogitei a possibilidade de consertá-lo, pois para ver o horário confiro o celular. Depois vieram as mensagens SMS, mais baratas que ligações e, portanto, vantajosas para quem quer apenas perguntar algo do tipo “vai demorar muito?”. Mais adiante surgiram os aparelhos com câmera fotográfica: a qualidade das fotos era péssima, mas como bem sabemos tudo que é novidade vende, e muitas pessoas correram para trocar seus celulares mesmo que os anteriores cumprissem bem sua função de fazer e receber chamadas e mensagens de texto.

Os toques dos celulares, um pouco diferentes, mas que eram claramente “telefônicos”, também mudaram. Tornou-se possível trocar o som de campainha por música (o que, convenhamos, é bem mais agradável). A qualidade das câmeras também melhorou, com as fotos tendo maior definição.

As novidades tecnológicas não pararam. Tornou-se possível navegar pela internet com o celular, com o uso do 3G; mais adiante, surgiram aparelhos que se conectam a redes wi-fi, permitindo a navegação gratuita em espaços onde o sinal é liberado ao público.

Os aparelhos mais sofisticados nem são mais chamados de “telefones celulares”: agora são “smartphones”, nos quais fazer e receber chamadas é apenas uma função dentre várias possíveis. Baixando aplicativos, é possível navegar na internet, tirar fotos e publicá-las na mesma hora, acessar as redes sociais e saber coisas nem tão importantes assim, alugar bicicletas, chamar táxis etc. E agora, inclusive, saber se aquela pessoa da qual se está a fim realmente vale a pena ou não: o assunto do momento é o aplicativo através do qual as mulheres avaliam os homens, mas logo surgirá um app no qual elas é que serão avaliadas, não tenham dúvida disso.

Sinceramente, será que não estamos nos tornando extremamente dependentes da tecnologia? Pois não precisamos estar na internet o tempo inteiro, tirar uma foto e postá-la na mesma hora, olhar o Facebook na cama… É verdade que alugar bicicleta e chamar táxi são funções úteis, mas é possível fazer o mesmo telefonando, sem necessidade de aplicativos no celular.

E agora, para saber se a pessoa é legal, ao invés de bater um papo com ela preferimos acessar um aplicativo para ver qual é sua “nota”. Baseamo-nos na avaliação dos outros para saber se alguém é bacana para nós, esquecendo que gosto varia de pessoa para pessoa, que características agradáveis a uns não são a outros etc. Para saber se ele ou ela é realmente bacana, é melhor esquecer o app e convidar para ir tomar um chope.

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Porém, tudo tem seu lado positivo. A polêmica sobre esse tal aplicativo “Lulu” também serviu para termos uma ideia do que é ser tratado como objeto, se sentir vulnerável… Resumindo: do que é ser mulher em uma sociedade machista.

Afinal, as queixas não recaem sobre o fato de elas estarem nos avaliando – é óbvio que fazem isso, assim como também as avaliamos – e sim quanto a isso ser “público”, de forma que uma ex-namorada com raiva nos pode “detonar” por vingança e suas observações serem vistas por outras pelas quais temos interesse. Nada muito diferente do que fazem muitos homens com mulheres que não querem (mais) nada com eles… Mas ainda assim, tem uma grande diferença: mulheres têm sido não apenas rotuladas, mas também vítimas da cruel “pornografia da revanche”, com duas jovens cometendo suicídio por não suportarem a repercussão da divulgação na internet de vídeos íntimos nos quais aparecem.

Assim, talvez essa polêmica tenha vindo em boa hora, e quem sabe sirva para gerar uma boa discussão sobre as desigualdades de gênero em nossa sociedade. O “Lulu” pode ser uma modinha como tantas que vemos nas redes sociais, já o debate não pode ser passageiro, de forma alguma.

Especial para os “machões” de plantão

– Elas reclamam, mas no fundo gostam.

– Mas também, vestindo essa roupa, ela pediu.

– Fica se insinuando e depois reclama de assédio.

Quantas vezes não ouvimos pessoas – inclusive mulheres – falando tais frases? É tão frequente, que nos leva ao questionamento: será que a luta feminista é sem sentido? Que as queixas relativas a assédio sexual são apenas “da boca pra fora”? Enfim: será que realmente as mulheres gostam disso?

Pois bem: uma pesquisa mostra que 83% delas não gostam de ouvir cantadas. Ou seja, uma maioria esmagadora. E tem mais: 81% das mulheres já deixaram de fazer coisas por medo de assédio, 90% trocaram de roupa pensando no lugar que iam por temerem abordagens desrespeitosas por parte dos homens, e 73% não respondem aos assédios que ouvem na rua, principalmente por medo de serem vítimas de violência sexual.

Os homens que insistem em afirmar que “elas reclamam, mas gostam” estufam o peito para bradar seu “orgulho hétero”. Afinal, não basta “ser homem”: é preciso deixar isso bem explícito, para que ninguém pense o contrário. Demonstrações de afeto? Isso não é coisa de “macho”, pois “homem que é homem” é insensível, é “caçador”, tem de “pegar todas” e, principalmente, mostrar, pois como já foi dito, não se pode dar margem a dúvidas.

Isso não tem nada de natural. É fruto de uma cultura machista, que cria padrões a serem seguidos por homens e mulheres – e que, por ser ensinada desde a infância, no dia-a-dia, parece ser natural. Mas não é.

Nós, homens, aprendemos a tratar as mulheres não apenas como objetos, mas também como números, “estatísticas”: quanto mais “pegamos”, mais “pontos” ganhamos como “machos”. Já com elas acontece o contrário: se “pegam muitos” são taxadas de “vadias”, vão para aquela “relação” das que “não servem para casar”; se bem que isso também não faz lá muita diferença, pois por mais “donzela” que a mulher seja, basta dizer um “não” para ser igualmente chamada de “vadia”. Ou seja, sempre serão rotuladas, independentemente de suas atitudes… Desigualdade de gênero, na qual o homem leva vantagem sobre a mulher; resumindo em uma palavra só: machismo.

Como foi dito, aprendemos a ver isso com naturalidade. Aceitamos que o homem assedie mulheres na rua, pois é “macho”, e que elas “reclamam, mas gostam”. Porém, a maioria esmagadora delas não gosta. Não podia haver recado mais claro a nós, homens: fomos ensinados que somos “fodões” e podemos desrespeitar as mulheres; já passa da hora de aprendermos o contrário.

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Atualização (10/09/2013, 19:56). Depois de reler o texto, percebi algo: da maneira que escrevi, parece que só devemos respeitar as mulheres por conta do resultado da pesquisa. Reparem só como o machismo age: afinal, não devemos respeitá-las sempre? Mesmo que a proporção fosse inversa (ou seja, que a maioria esmagadora delas não visse problema em ouvir cantadas), ainda assim deveríamos tratá-las com respeito. E falo de todas, pois mesmo dentre as que gostam de cantadas (sejam minoria ou maioria), duvido que alguma se sinta confortável diante de um tarado que lhe mostra o pênis na rua (leiam os depoimentos).

Hoje não foi o meu dia

Pela manhã, ouvi no rádio que hoje era o Dia Nacional do Homem. E descobri que existe também um Dia Internacional do Homem, celebrado a 19 de novembro: o Brasil só resolveu “adiantá-lo” em quatro meses e quatro dias.

A origem do Dia do Homem é bem interessante. Trata-se de uma data que tem dentre seus objetivos alertar para os riscos à saúde masculina. Algo que, de fato, faz todo o sentido: basta reparar nas estatísticas, que sempre apontam uma expectativa de vida maior para as mulheres. Pois “machões” que somos, temos a tendência de acreditar que somos invencíveis. Como bem disse o Sakamoto, “o sentimento de invencibilidade masculino encurta a vida (‘Eu sou fodão! Nada me atinge!’) e o orgulho de macho besta (‘Prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!’) leva mais cedo à sepultura”.

Porém, acho muito mais adequado que o dia seja expressamente voltado à saúde masculina, ao invés de dizer que é “do homem”. Pois não tem nada de “igualdade” em haver datas dedicadas às mulheres e aos homens: o Dia Internacional da Mulher existe não para presenteá-las, mas sim por conta da histórica desigualdade de gênero, a qual ainda não foi superada. Por que um Dia Internacional do Homem? Para reclamarmos de que em média ganhamos mais do que as mulheres para fazermos exatamente o mesmo serviço? De que em caso de estupro a culpa será da vítima por ter nos “provocado”?

Alguém pode lembrar, porém, que o machismo prejudica também aos homens, e assim faria sentido que houvesse uma data para nos manifestarmos. É fato: o “padrão” é que sejamos agressivos, fortes, insensíveis etc., em oposição às características ditas femininas, mais “delicadas”. Aí, como já disse, quando sentimos uma dor forte, nos recusamos a procurar atendimento médico pois somos “machos” e vamos “aguentar firme”; o resultado disso é: as estatísticas não mentem. Quanto à sensibilidade, se diz que demonstrações de afeto são “coisa de mulher”, mesmo que nós também tenhamos nossas emoções: preferimos dar a entender que elas não existem, pois somos “fortes”. Sem contar a estúpida exigência (que não é uma lei, mas socialmente é muito forte) de que sejamos os “provedores”, que faz serem malvistos os homens que ganham menos que suas companheiras.

Ainda assim, não faz sentido que haja um Dia Internacional do Homem por conta disso. Em primeiro lugar porque, enquanto gênero, o homem é o opressor. Obviamente nem todos são “ogros”, machistas, mas é preciso reconhecer que somos parte do problema. E se queremos deixar de ser opressores e, principalmente, que não haja mais opressão, devemos estar ao lado do grupo oprimido.

Na questão de gênero, trata-se das mulheres, cuja luta já tem uma data-símbolo: 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Assim como os dias que simbolizam o combate a outros preconceitos também fazem homenagem às vítimas (negros, índios, homossexuais etc.), não aos algozes. Não faz sentido que nós, homens brancos heterossexuais que somos contra machismo, racismo e homofobia tenhamos um dia “nosso” para nos manifestarmos contrariamente a tais discriminações: temos é de nos juntar aos oprimidos que, repito, já têm datas que simbolizam suas lutas.

O “crime” de sofrer um crime

Era uma vez um lugar onde ser vítima de um crime era crime. Lá, quando o sujeito estava na rua e era roubado, não ia à polícia nem contava nada a ninguém. Quando as autoridades sabiam do acontecido, o assaltado era detido, e levava umas porradas para “aprender a não ficar andando em lugar perigoso”.

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Surreal, né? Mas engana-se quem pensa que algo desse tipo não existe de verdade. A diferença é que não acontece com todo mundo que é vítima. Só integrantes de certos grupos sociais (que obviamente não são os dominantes, ou seja, homens brancos heterossexuais) cometem o “crime” de sofrerem certos crimes.

É o que se passa, por exemplo, com as mulheres que são assediadas na rua ou no ambiente de trabalho, sofrem abusos sexuais etc. A “culpa” é sempre delas: andam com roupa muito curta, se insinuam etc. É capaz de muitos chegarem a sentir pena dos homens que as violentam: afinal, essas “vadias” ficam “provocando”.

(Então acontece de um programa de televisão, que dizem ser de humor, mandar uma equipe que conta com uma moça vestindo uma saia curta ao lançamento de um livro, com o objetivo de entrevistar o autor. O entrevistado enfia a mão entre as pernas dela, por baixo da roupa.  E todo mundo acha normal. Afinal, “a culpa é dela”: foi de vestido muito curto, a calcinha aparecia, ela provocou… Sempre o mesmo papo furado.)

Responsabilizar a mulher pelo abuso sexual sofrido é igual a dizer que num caso de roubo a culpa é da vítima. Rigorosamente igual.

8 de março

Já faz um tempo que a Prefeitura de Porto Alegre vem me surpreendendo. Quando penso que atingiu o máximo no quesito “falta de noção”, ela vai lá e se supera.

Ano passado, tivemos a inauguração da “menor ciclovia do mundo”. No começo de fevereiro o prefeito justificou o corte de árvores no Gasômetro dizendo que as pessoas “não as usavam”. E agora, a Prefeitura decidiu fazer uma campanha institucional pelo Dia Internacional da Mulher… Falando de unhas quebradas, chocolate e salto alto.

Ao contrário do que a grande maioria pensa, o Dia Internacional da Mulher não é uma data comemorativa. Não é para se dar chocolates e flores.

A razão da existência de um dia dedicado às mulheres, é o mesmo pelo qual há datas em homenagem aos negros, índios, homossexuais e outras minorias: a luta contra a injustiça que marca nossa sociedade. É o que explica também porque não faz sentido a existência de um dia do homem branco heterossexual (apesar de já terem tentado instituir algo desse tipo): significaria exaltar a opressão.

“Mas tu não és homem branco heterossexual? Vai aceitar que te chamem de opressor?”, pode vir alguém aqui bradar. Pois bem: nem todo homem branco heterossexual é machista, racista e homofóbico. Mas só o machista, racista e homofóbico fica irritado quando alguém o contesta. Afinal, se irritar é mais fácil do que refletir sobre o preconceito enraizado dentro de nós mesmos – a ponto de muitas vezes só o percebermos quando alguém se ofende com alguma atitude nossa e nos diz que agimos mal.

Logo, por mais que nos sintamos “inocentes”, também somos parte do problema. Obviamente não gosto disso, e então percebo ter duas alternativas: fazer de conta que não é comigo, ou combater o problema. Opto pela segunda.

Então é Natal…

E de repente, começa aquela “metamorfose”, que faz todo mundo virar bonzinho. Gente que nem lembra que existimos, começa a nos desejar “muita saúde, paz e felicidade” (pelo visto esqueceram que o meu aniversário é em outubro). Depois de passarem onze meses só se preocupando com o próprio umbigo (e dizendo que quem deseja um mundo melhor “não tem nada para fazer”), em dezembro os reacionários decidem ter “espírito de Natal” e posar de solidários. Tudo parece tão lindo, maravilhoso… Mas depois da festa, acabou. Só ano que vem.

Aí alguém questiona essa falsa bondade, e começam os rótulos. Mal humorado, rabugento etc.

Posso até ser rabugento. Mas vamos combinar que é melhor do que ser hipócrita e fingir ser o que não sou.

O que há de tão bom nessa época? Ver a família? A bondade, mesmo que sazonal, mas “melhor que nada”?

A reunião familiar, por mim, pode acontecer em qualquer época do ano (e na minha família, geralmente acontece várias vezes mesmo, nos reunimos para comer um churrasco, tomar uma cerveja e jogar conversa fora), sem esse clima forçado. E isso que eu tenho sorte de não ter nenhum daqueles parentes malas que só aparecem no Natal para encherem o saco: coitadas das crianças pequenas que têm suas bochechas apertadas enquanto ouvem o tradicional “como você cresceu!”; e depois que crescem ainda têm de ficar dando satisfação quanto à vida sexual (perguntam “e as namoradas?” para os guris, e “quando é que vai nos apresentar um namorado?” para as gurias*).

Quanto à bondade, acho ótimo que as pessoas sejam amorosas. Mas então, que sejam assim o ano inteiro, ao invés de só fingirem ter bom coração em dezembro.

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* O uso do plural para os guris e do singular para as gurias não é mero acaso. Afinal, “mulher que presta” é de um homem só e desde cedo, ter vários ou casar tarde não é coisa que “moça de família” faça.

Sobre poder falar mal do presidente (e de outras coisas mais)

Às vezes tenho a impressão de que quanto mais correntes são detonadas, mais “novidades” surgem. A última que recebi é um texto muito tosco, defendendo a ditadura militar. Me senti na obrigação de escrever uma resposta.

Primeiro vamos ao texto da mensagem, que copiei como veio: mal-formatado e (principalmente) mal-escrito…

É MUITO BEM HUMORADO E MUITO VERDADEIRO. . .
Na época da ‘chamada’ ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem,quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas,sem que isso constituísse crime ambiental,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…

…é falar mal do presidente!

que merda !

Bom, agora vem a parte mais divertida: destruir os “argumentos” de quem escreveu esse lixo e-mail. Continuar lendo