Lulu e Tubby: duas faces da mesma moeda

Semana passada, quando falei sobre o aplicativo Lulu previ que logo surgiria um “oposto”, ou seja, no qual as mulheres seriam avaliadas pelos homens. Dito e feito: agora criaram o tal de Tubby, previsto para estar disponível a partir de quarta-feira.

“Igualdade”? Conte outra, por favor. Ambos os aplicativos são duas faces da mesma moeda: o machismo.

O Lulu não tem nada de feminista. Ao contrário, apenas reforça aquela ideia de que a mulher busca um “príncipe encantado” e com grana (aquela velha história do “homem provedor”). Prova disso é que o avaliado ganha pontos se pagar a conta, chamar um táxi para ela ou levá-la para casa (afinal, não dizem que ter carro ajuda a “pegar várias”?). Agora, se ousar propor a divisão da conta… Perde pontos. E muitos.

Como disse, ambos os aplicativos são duas faces do machismo. Porém, como bem sabemos, as faces de uma moeda não são iguais. Ou seja, o Tubby não é o “equivalente masculino” do Lulu: é muito pior.

Antes mesmo de começar a funcionar, os criadores do aplicativo decidiram permitir às mulheres que não querem ser avaliadas a remoção de seus perfis no site do Tubby. Parece uma magnânima atitude, mas acaba por revelar o quão perverso é o app: quando a usuária consegue se descadastrar, aparece uma tela de “despedida” dizendo que ela “arregou”. Só uma prévia do que devem ser as hashtags: realmente ofensivas, ao contrário daquelas bem bobas do Lulu.

Em uma sociedade machista a mulher sempre está em desvantagem, independente de seu comportamento. E o Tubby simboliza bem essa lógica: se ela pede para sair, será chamada de “arregona que certamente tem muito a esconder”; se não exclui o perfil do aplicativo, terá a vida sexual exposta e ainda correrá o risco de ser vítima de mentiras inventadas por algum ex-namorado vingativo, de forma semelhante ao sucedido com jovens que cometeram suicídio após divulgação de vídeos íntimos na internet.

Ou seja, estamos diante de algo ainda mais perigoso. E não basta apenas recomendar às mulheres que se descadastrem do aplicativo: é preciso que nós, homens, não o utilizemos e recomendemos a nossos amigos que também não o usem.

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Troque o app por um chope

Até o final da década de 1990, telefone celular era quase “artigo de luxo”. Quem tinha, era por questões profissionais ou por exibicionismo. Sem contar que era coisa de adulto: ver adolescente ou criança com um aparelho era sinal de que os pais queriam encontrá-lo em qualquer lugar, a qualquer hora – lembro do dia em que um colega foi à aula com um celular na pasta e sofreu tanto escárnio que nunca mais levou o aparelho ao colégio.

Isso começou a mudar com o surgimento dos celulares pré-pagos. A partir dali, não era mais necessário ganhar bem: bastava adquirir o aparelho junto à operadora, pôr créditos e “sair falando”, sem precisar pagar conta todo mês. Os principais alvos da publicidade eram os jovens, ansiosos por um telefone “exclusivo” para si; o aparelho deixou de ser motivo de chacota, o que também foi ótimo para os pais: o mecanismo de vigilância (“onde tu anda, que horas vem?”) não só deixou de ser rejeitado como também se tornou desejado pelos filhos, que não se sentiam controlados.

Os celulares deixaram de ser simplesmente telefones. Começou com o fato de eles marcarem as horas: meu relógio de pulso estragou há anos e sequer cogitei a possibilidade de consertá-lo, pois para ver o horário confiro o celular. Depois vieram as mensagens SMS, mais baratas que ligações e, portanto, vantajosas para quem quer apenas perguntar algo do tipo “vai demorar muito?”. Mais adiante surgiram os aparelhos com câmera fotográfica: a qualidade das fotos era péssima, mas como bem sabemos tudo que é novidade vende, e muitas pessoas correram para trocar seus celulares mesmo que os anteriores cumprissem bem sua função de fazer e receber chamadas e mensagens de texto.

Os toques dos celulares, um pouco diferentes, mas que eram claramente “telefônicos”, também mudaram. Tornou-se possível trocar o som de campainha por música (o que, convenhamos, é bem mais agradável). A qualidade das câmeras também melhorou, com as fotos tendo maior definição.

As novidades tecnológicas não pararam. Tornou-se possível navegar pela internet com o celular, com o uso do 3G; mais adiante, surgiram aparelhos que se conectam a redes wi-fi, permitindo a navegação gratuita em espaços onde o sinal é liberado ao público.

Os aparelhos mais sofisticados nem são mais chamados de “telefones celulares”: agora são “smartphones”, nos quais fazer e receber chamadas é apenas uma função dentre várias possíveis. Baixando aplicativos, é possível navegar na internet, tirar fotos e publicá-las na mesma hora, acessar as redes sociais e saber coisas nem tão importantes assim, alugar bicicletas, chamar táxis etc. E agora, inclusive, saber se aquela pessoa da qual se está a fim realmente vale a pena ou não: o assunto do momento é o aplicativo através do qual as mulheres avaliam os homens, mas logo surgirá um app no qual elas é que serão avaliadas, não tenham dúvida disso.

Sinceramente, será que não estamos nos tornando extremamente dependentes da tecnologia? Pois não precisamos estar na internet o tempo inteiro, tirar uma foto e postá-la na mesma hora, olhar o Facebook na cama… É verdade que alugar bicicleta e chamar táxi são funções úteis, mas é possível fazer o mesmo telefonando, sem necessidade de aplicativos no celular.

E agora, para saber se a pessoa é legal, ao invés de bater um papo com ela preferimos acessar um aplicativo para ver qual é sua “nota”. Baseamo-nos na avaliação dos outros para saber se alguém é bacana para nós, esquecendo que gosto varia de pessoa para pessoa, que características agradáveis a uns não são a outros etc. Para saber se ele ou ela é realmente bacana, é melhor esquecer o app e convidar para ir tomar um chope.

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Porém, tudo tem seu lado positivo. A polêmica sobre esse tal aplicativo “Lulu” também serviu para termos uma ideia do que é ser tratado como objeto, se sentir vulnerável… Resumindo: do que é ser mulher em uma sociedade machista.

Afinal, as queixas não recaem sobre o fato de elas estarem nos avaliando – é óbvio que fazem isso, assim como também as avaliamos – e sim quanto a isso ser “público”, de forma que uma ex-namorada com raiva nos pode “detonar” por vingança e suas observações serem vistas por outras pelas quais temos interesse. Nada muito diferente do que fazem muitos homens com mulheres que não querem (mais) nada com eles… Mas ainda assim, tem uma grande diferença: mulheres têm sido não apenas rotuladas, mas também vítimas da cruel “pornografia da revanche”, com duas jovens cometendo suicídio por não suportarem a repercussão da divulgação na internet de vídeos íntimos nos quais aparecem.

Assim, talvez essa polêmica tenha vindo em boa hora, e quem sabe sirva para gerar uma boa discussão sobre as desigualdades de gênero em nossa sociedade. O “Lulu” pode ser uma modinha como tantas que vemos nas redes sociais, já o debate não pode ser passageiro, de forma alguma.