Nova profissão: comentarista de velório

Está um saco essa onda de “mimimi” sobre o velório de Marisa Letícia. Galera reclamando que Lula “fez discurso político”. Gente que desejou a morte dela agora fica dizendo que foi “desrespeito”.

Ora, mas vão se catar!

E aviso: no meu velório também vou querer discurso político. De esquerda, é óbvio. Pois se alguém se atrever a falar direitices eu juro que volto do além para lhe fazer umas visitinhas… De preferência no meio da madrugada.

O ódio nosso de todo dia

Seguindo minha “linha” de escrever no Medium sobre assuntos ditos “relevantes”, resolvi fazê-lo sobre o ódio que temos vivenciado todos os dias. Quando o texto estiver pronto, divulgarei o link – tanto aqui como também no Facebook, no Twitter…

Vou apenas fazer um breve comentário (seria um “texto-comentário”?) acerca de tal assunto que gera tantos “textões” mas pouca reflexão verdadeira. Como se vê no caso do falecimento de Marisa Letícia, esposa de Lula e importante figura do PT.

Ela foi alvo de muitas manifestações de ódio da direita, isso é fato – e nem surpreende, visto que nossa direita é muito competente em odiar. Porém, muitas pessoas de esquerda estão enveredando pelo mesmo caminho em relação aos “desafetos” do outro lado, ou seja, utilizando os mesmos “métodos” repudiados nos discursos. Com direito até mesmo a linchamentos virtuais – coisa que, aliás, nem é de hoje.

A situação está chegando a um ponto em que as pessoas se sentem intimidadas e preferem não tocar no assunto “política”, pois qualquer comentário pode ser alvo do ódio de ambos os lados. E nem tenho como criticá-las, pois elas não querem ser “apolíticas” como muita gente pensa.

Embora seja verdade que o nível da discussão política no Brasil nunca tenha sido dos mais elevados, a situação atual é cada vez mais preocupante, pois temos duas “metades” que se odeiam e, no meio, uma “maioria silenciosa” que ao não se posicionar abertamente é taxada de “coxinha” ou “petralha”. E isso não parece que vai mudar no curto prazo, infelizmente.

Dia de usar panelas…

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Para cozinhar, é claro. Pois neste domingo, fazer comida é um ato político. Mesmo que, no meu caso, tenha cozinhado apenas um ovo e uma porção de arroz (que, inclusive, eu poderia ter feito no sábado à noite mas deixei para o domingo justamente pelo caráter político da coisa).

“Panelaço” é coisa séria. Se consagrou como um protesto contra a pobreza e a falta de perspectivas – situações que deixam muitas pessoas com as panelas vazias, por falta de grana para comprar comida. Não por acaso, é uma forma de manifestação tipicamente latino-americana – e que chamou a atenção quando chegou à Europa, nos protestos contra a crise financeira na Islândia em 2009.

Mas sempre tem gente que desvirtua as coisas. No caso do “panelaço”, é gente que não passa o drama de estar com as panelas vazias por falta de dinheiro. Os sem-noção aqui do Brasil não são fato novo: na Venezuela, muito se bateu panela contra Hugo Chávez – e tal como aqui, não eram os mais pobres que o faziam. Não por acaso, enquanto rolava “panelaço” na Zona Sul do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão as panelas estavam sobre o fogão cumprindo sua função primordial de fazer comida.

Isso não quer dizer que vá tudo bem com o país. É fato que há inflação: mesmo que ela seja “brincadeira de criança” em comparação com o que tínhamos no final dos anos 80 e no início dos 90, é algo que complica a vida de quem ganha menos. O desemprego subiu: mesmo que ainda possa ser considerado baixo se fizermos uma comparação com outros países e inclusive com o Brasil de um passado não tão distante (10, 15 anos atrás…), causa preocupação a quem tem suas contas a pagar. Toda hora se descobre um novo escândalo de corrupção: a galera esquece que até não tanto tempo atrás o mais comum era as denúncias serem engavetadas e não investigadas, mas isso não inocenta o PT de ter aderido ao esquema apenas “porque os outros também faziam”.

Mas ainda assim me recuso a aderir ao coro do “Fora Dilma”. Primeiro, porque nem faz um ano que ela foi reeleita, e assim é descarado que protestos como os de hoje são puro chororô de quem perdeu a eleição e quer ganhar na marra. Coisa de criança mimada que quando não vê sua vontade atendida começa a espernear e a fazer escândalo.

Mas tem outro motivo também: mesmo que apareçam indícios que comprometam Dilma e assim justifiquem a abertura de um processo de impeachment, não tenho como participar de protestos como os de hoje. Um texto escrito por Luis Fernando Veríssimo em 2007 ajuda a explicar (aliás, basta trocar “Lula” por “Dilma” para o texto ficar totalmente atual):

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

Pois bem: ainda que houvesse motivos para o impeachment de Dilma, eu não deixaria de ficar em casa cozinhando ao invés de ir ao protesto (nem sei se vai ter em Ijuí). Pois como bem alerta LFV, antes de entrar num coro eu olho em volta. E nesse em específico, eu me depararia exatamente com o que há de mais preconceituoso e reacionário no país. E como diz o texto (numa aparente contradição de LFV mas que não entendo como tal), não seria na companhia da direita que eu me manifestaria contra qualquer governo: não é “a minha turma”. Jamais serei cúmplice dessa gente que defende “meritocracia” (seria um sistema justo, sem aspas, se a todos fossem dadas as mesmas condições), fim dos programas sociais, expulsão de imigrantes, pena de morte, redução da maioridade penal, e, o pior de tudo, a tal “intervenção militar” (que jamais será “constitucional”). O que deixa bem claro que tolerância com o diferente não é o forte dessa gente.


O negócio, então, é zoar no dia de hoje. E já que a “moda” é protestar “contra a corrupção” vestindo a camisa da Seleção (com o escudo da super-correta e nada corrupta CBF), agora vai ter 7 gols da Alemanha (pois essa gente merece muito os 7 a 1). Se reclamar, vai ter 14. Se reclamar de novo, vai ter 28!

Criança em tempos de eleição

Mais uma vez chega o dia das crianças e, claro, no Facebook boa parte dos meus contatos trocam a foto de perfil para remeter à infância. Fiz o mesmo com a minha, mas com o adendo de um selinho pedindo voto em Tarso e Dilma no segundo turno (ou seja, faça a vontade do bebê gordo da foto, do contrário ele não te deixa apertar as bochechas dele!).

A combinação entre “lembranças da infância” e “campanha eleitoral” obviamente me faz lembrar as eleições dos tempos em que eu era criança – e nas quais, obviamente, eu não votava. Embora isso não significasse exatamente que eu não tivesse alguma opinião.

A primeira eleição da qual tenho lembranças aconteceu em 15 de novembro de 1988: naquela terça-feira, foram eleitos vereadores e prefeitos municipais. Em Porto Alegre, Olívio Dutra venceu e deu início ao ciclo petista na prefeitura, que duraria 16 anos. Mas o que me marcou mais foi a “eleição” feita na minha turma do Jardim de Infância, no Esquilo Travesso: os coleguinhas pensavam diferente da maioria da população, e votaram majoritariamente em Guilherme Socias Vilella, do PDS; já eu era “brizolista” na época, por causa de minha avó (uma espécie de “retribuição” por ela fazer praticamente todas as minhas vontades, aliás, como as avós sempre costumam fazer), e assim dei meu voto a Carlos Araújo, do PDT – que acabou sendo o único que ele recebeu na turminha. Não recordo se Olívio recebeu algum voto, e se ninguém tiver optado pelo “bigode” eu nem estranharei: meu pai lembra que a escolinha era bastante cara para os padrões de nossa família e, pelo que a lógica indica, com predominância de alunos cujos país eram conservadores (tanto que o “eleito” pela turma foi um candidato da direita e da antiga ARENA, partido que apoiava a ditadura).

O ano de 1989 foi de mudanças. Ingressei na 1ª série do 1º grau, em novo colégio: fui para o Marechal Floriano Peixoto, estadual – como diz o meu pai, para aprender o conteúdo ministrado nas aulas e também para crescer sem ficar “apartado” da realidade brasileira (como, por exemplo, os problemas da educação), o que não aconteceria caso tivesse toda minha formação básica em escolas privadas. Na Europa Oriental o “socialismo real” baseado no modelo da União Soviética ruía, e tal dissolução era simbolizada pela abertura do Muro de Berlim, fato histórico que tive o privilégio de assistir pela televisão, embora sem entender qual era a importância de um (aparentemente) simples muro.

Já no Brasil, tinha eleição presidencial pela primeira vez desde 1960 (e foi também a última em um ano ímpar). Era o primeiro processo eleitoral totalmente regido pela Constituição promulgada no ano anterior, e o primeiro turno aconteceria justamente no dia em que o Brasil celebrava 100 anos da República (proclamada em 15 de novembro de 1889).

Na véspera do primeiro turno, novamente “votei” no colégio. Mas as “urnas” da minha turma no Floriano deram um resultado ideologicamente oposto aos de um ano antes, no Esquilo. Leonel Brizola, um dos dois principais nomes da esquerda naquela eleição (o outro era Lula), recebeu o meu voto e o da maioria dos colegas; se não me engano, só a professora votou em Lula e Fernando Collor não foi votado por ninguém. No dia seguinte, a eleição “para valer” consagrou Brizola no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro (ambos Estados dos quais ele foi governador), mas quem foi para o segundo turno (realizado em 17 de dezembro) foram Lula e Collor. O último foi eleito, mas sem nenhum voto dos colegas: as aulas terminaram cerca de uma semana antes do segundo turno e assim não houve nova “votação” na turma.


Em 29 de setembro de 1992, dia em que a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, novamente a minha turma no Floriano foi consultada, e ninguém votou favoravelmente ao presidente. Definitivamente, Collor não era popular lá no colégio…

Dia de perdas

A política brasileira está de luto com a trágica morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB. É uma grande perda, a ser lamentada independente da opção política. (E, numa triste coincidência, Campos faleceu exatos nove anos depois de seu avô Miguel Arraes, que também governou Pernambuco e foi um dos nomes mais importantes da política brasileira no Século XX.)

Hoje o dia também é triste para o jornalismo esportivo. Conforme anunciado três semanas atrás, o site Impedimento deixa de ser atualizado após a final da Libertadores, que será jogada logo mais. Mas é uma perda que vai além do mero jornalismo esportivo: a partir do futebol (e com foco na América do Sul), o Impedimento fala também de cultura, sociedade, política etc. Foi lá que li alguns dos melhores textos sobre os protestos de 2013, por exemplo.

Quem não conhece o Impedimento deve estar achando que os dois parágrafos acima não têm relação alguma, relatam apenas (mais) uma triste coincidência. Mas sim, eles têm a ver um com o outro, conforme explicarei agora.

O Impedimento tem vários fatores que o diferenciam dos principais portais e páginas sobre futebol. Um deles é tratar o esporte por uma ótica que foge do senso comum (algo sobre o qual pretendo escrever mais). Uma das consequências disso é o outro diferencial: os comentários em alto nível (salvo raríssimas excessões), com muitas discordâncias, mas que constituem uma discussão em seu sentido original, de “trocar ideias”; não raramente ela acabava fugindo do tema original (ou seja, o artigo publicado), mas não porque algum “troll” o fazia com esse objetivo e sim por uma “evolução natural”, justamente porque os textos fugiam do senso comum e por conta disso atraiam leitores com características semelhantes. Se toda a internet fosse como o Impedimento, aquela máxima “nunca leia os comentários” não faria sentido.

Mas infelizmente a realidade é outra. A maioria dos comentários em portais de notícias é simplesmente odiosa. Mas isso não se resume aos portais: quem comenta lá tem seus perfis em redes sociais, e neles reproduzem as mesmas “opiniões”. Que, ao contrário dos comentários do Impedimento, exalam muito senso comum. É o caso daquela máxima tão difundida de que “político é tudo igual, nenhum presta” (como se eles “chegassem lá” sozinhos, sem necessitarem de votos). Cria-se uma ojeriza à política que tem como resultado comentários celebrando o falecimento de Eduardo Campos, assim como em 2011 comemoraram o câncer de Lula e torceram pela morte do ex-presidente. E tenho certeza de que a maioria que disse tais sandices sequer tem conhecimento do que ambos fizeram como governantes.

Ah, se toda a internet fosse como o Impedimento…

O Itaquerão não me representa

E não é por ser o estádio do Corinthians (afinal, sou gremista).

O que não me representa são os xingamentos, com direito a palavrões, contra a presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo. O governo dela merece muitas críticas, mas as minhas não são as mesmas daqueles que pagaram caro por um ingresso para o jogo e fizeram o Brasil sentir vergonha. Talvez seja fruto das camisas “contra o Brasil atrasado” que eles andam comprando: resolveram demonstrar o tal “atraso” dando um espetáculo de incivilidade para as câmeras que transmitiam a partida para o mundo inteiro. Só que eles não me representam, da mesma maneira que não representam muitos milhões de brasileiros ditos “sem educação” (na verdade, que não têm dinheiro para pagar colégios caros e comprar roupas de marca) que certamente não fariam aquilo.

Dentre as críticas que tenho ao governo Dilma se encontra o que aconteceu com o futebol brasileiro em consequência da Copa do Mundo de 2014 – trazida ao Brasil por Lula, de cujo governo o atual representa a continuidade. Quando o país foi designado como sede, nenhum estádio brasileiro atendia ao chamado “padrão FIFA”, exigido para partidas do Mundial. Nos seis anos e meio que se seguiram, sete “arenas” foram construídas “do zero” e outros cinco estádios já existentes foram totalmente reformados para se adequarem às exigências da FIFA. São canchas modernas, confortáveis… Mas de ingressos caríssimos. E assim o estádio de futebol deixou de ser um ambiente onde havia convívio entre diversas classes sociais: não se vê mais povo na arquibancada.

Aqueles que odeiam a diversidade do Brasil agora não precisam mais conviver com o povo no estádio. Deveriam agradecer aos governantes. Mas não: reclamaram da “roubalheira da Copa”, para depois pagarem ingresso e ofender Dilma. Provaram que, além de mal-educados, são ingratos.


Um exemplo pessoal que sempre lembro em ocasiões como estas, em que uma horda dá um show de incivilidade. Quando eu tinha por volta de 12 anos, meu pai me levou ao Desfile Farroupilha. Na época o Rio Grande do Sul era governado por Alceu Collares, que era muito criticado – inclusive pelo meu pai.

Quando foi anunciada a chegada de Collares, meu pai se levantou e aplaudiu. Acostumado a vê-lo criticando o governo, estranhei, e ele me explicou: aquele evento era para homenagear o Rio Grande do Sul e não para vaiar o governador que, gostássemos ou não dele, tinha sido eleito democraticamente. Apupá-lo naquele momento seria desrespeitar o povo gaúcho.

Mas não é de estranhar que a elite apupe ou xingue governantes – em especial, que não foram eleitos com os votos dela – em ocasiões inadequadas. Afinal de contas, o que ela mais odeia é o povo.

O Imposto de Renda

Começa a época da declaração do Imposto de Renda, e com ela o “mimimi” contra a “fúria arrecadatória”. “ESSE LULLA E ESSA DILMA SÓ NOS COBRAM IMPOSTOS, CHEGA DE TANTO IMPOSTO!!!111!!!”, brada revoltado o “cidadão de bem”.

Porém, sinto muito informá-lo de que o Imposto de Renda começou a ser cobrado no Brasil em 1922, quando Lula e Dilma sequer estavam nos planos de suas respectivas famílias (o pai de Dilma, para se ter uma ideia, ainda morava na Bulgária). Naquele ano, em que se celebrava o centenário da Independência, houve também troca de governo: no dia 15 de novembro, Epitácio Pessoa foi sucedido por Artur Bernardes na presidência. Se o “cidadão de bem” quiser reclamar deles, vá em frente, mas é uma boa ideia descobrir uma maneira de se comunicar com os mortos para que eles possam ouvir as queixas: Epitácio Pessoa faleceu a 13 de fevereiro de 1942, e Artur Bernardes não está mais entre nós desde 23 de março de 1955.

“MAS A ALÍQUOTA ATUAL É COISA DESSES PETRALHAS!!!11!”, continua reclamando o “cidadão de bem”. Em primeiro lugar, é uma boa ideia conhecer as regras quanto à obrigatoriedade da declaração: como não vale a pena copiar todas para cá, nada melhor do que ir direto à Receita Federal. Lembrem também que sempre podemos incluir na declaração despesas com saúde, educação etc., o que muitas vezes resulta na restituição de valores retidos na fonte – ou seja, descontados quando recebemos nosso contracheque.

Além disso, reparemos próprio nome do imposto: “de renda”. Logo, é cobrado sobre a renda, sobre o que ganhamos. Quanto mais dinheiro recebemos, mais pagamos – portanto, é um dos impostos mais justos que existem. Para ficar livre dele, só existem duas possibilidades.

A primeira, é ter recebido no ano passado menos do que a quantia que torna obrigatória a declaração. Ou seja, uma boa dica para quem quer se ver livre da declaração é ganhar mal. Que tal?

Outra possibilidade é simplesmente não pagar, ou seja, sonegar o imposto. Mas é bom lembrar que sonegação fiscal é crime, e que se os tais “justiceiros” atualmente na moda decidirem ser coerentes, lincharão qualquer criminoso sem levarem em conta a cor da pele ou o extrato bancário.

Duas décadas em um piscar de olhos

A passagem do tempo é algo muito interessante. Sabemos que a cada dia que passa estamos mais perto da morte, essa coisa que tanto assusta mas que no fundo é o que de mais democrático existe (afinal, é o destino inexorável de todos nós, pouco importando renda, etnia, sexo ou clube do coração). Só que não costumamos parar para pensar nisso, até que alguém lembra que se passou bastante tempo de um fato importante.

Hoje, 4 de julho de 2013, a seleção da Argentina completa vinte anos sem levantar taças. Não são só dez, são vinte. Duas décadas. Duas vezes dez anos. Mas quem acha que o restante do texto é flauta e que no fim “reclamarei” que o Brasil não ganha nada há quatro dias, pode parar de ler. Não, melhor… Continue lendo.

Constatar que a Argentina está há 20 anos sem erguer um troféu no futebol me fez perceber que muita coisa mudou de lá para cá. Afinal, lembro daquela Copa América, decidida num aparentemente “próximo” 4 de julho de 1993, com vitória argentina de 2 a 1 sobre o México.

  • Estava na 5ª série, ia bem em todas as matérias, exceto em Educação Artística, na qual quase peguei recuperação. O final daquele ano foi o mais dramático que tive no colégio, e quando a professora anunciou as médias finais vibrei e disse “escapei da repescagem”. Referência justamente à situação da Argentina nas eliminatórias para a Copa de 1994, quando só obteve classificação via repescagem, “com as calças na mão” contra a Austrália;
  • Ainda tinha bastante cabelo, e não queimava a cabeça nos dias de verão;
  • O presidente do Brasil era Itamar Franco, que há menos de um ano assumira o cargo no lugar do destituído Fernando Collor;
  • Nunca tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. De Lula e Brizola sim, pois lembrava da campanha eleitoral de 1989;
  • Na minha carteira, carregava cruzeiros. Ou melhor, logo a esvaziava, pois mesmo sem me desfazer das notas o dinheiro se ia, comido pela hiperinflação;
  • Quando me perguntavam o que seria quando crescesse, dizia “médico”. Ideia que alimentaria por mais quatro anos, até as primeiras aulas de Biologia no 2º grau;
  • Das aulas de Geografia, lembro muito bem que a professora tinha pedido que sempre levássemos um atlas. O meu era novo, mas os de alguns colegas eram um pouco mais antigos e em seus mapas aparecia um gigantesco país chamado “União Soviética”;
  • Aliás, por que raios de motivos a URSS tinha deixado de existir? Eu ainda nem sabia…

Este país que não é sério

Esses dias um amigo compartilhou no Facebook uma informação que me deixou indignado. Descobri que nós, cidadãos de bem, nos matamos trabalhando para sustentar um monte de vagabundo. Somos os palhaços desse circo chamado Brasil.

Por isso decidi que não quero mais saber de trabalhar. Afinal, posso viver numa boa por conta do governo comunista do PT, que dá Bolsa Família para tudo que é vagabundo, pelo resto da vida.

Terei muito tempo para fazer sexo loucamente, e assim minha mulher terá incontáveis filhos. Como sustentar essa prole toda? Basta entrar para o mundo do crime. Se o assalto der certo, ótimo, mas se der errado também: vou preso e aí receberei o Bolsa Bandido, que paga R$ 971,78 mensais por filho. Ou seja, minha família passará a ter uma baita renda mensal. Tudo isso sem trabalhar!

Enquanto estiver preso, não terei tempo de dizer à criançada para que fique longe das drogas. É capaz de começarem a fumar crack. Bom, aí terão direito ao Bolsa Crack: R$ 1.350,00 por mês. Multiplique isso por um número grande e pense na fortuna que minha família fará… Viva o PT!

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Se você está indignado, clique aqui. Aliás, devia é ter clicado nos links anteriores, onde entenderia que as coisas não são bem assim como dizem no Facebook.

O Bolsa Família é apenas assistência e não sustenta uma família: se alguém largou o emprego para receber o benefício, pode ter certeza de que essa pessoa trabalhava por um salário de fome. O auxílio-reclusão existe há mais de 50 anos e é previsto na Constituição de 1988, logo, não é “coisa do Lula”; ele é pago à família do preso, mas não é proporcional ao número de filhos e sim à contribuição do detento para o INSS (ou seja, o “vagabundo” precisa ter emprego com carteira assinada), e tem o objetivo de evitar que a família passe necessidades por não mais contar com a renda do sujeito foi para a cadeia (afinal, ela não tem culpa do crime que o cara cometeu). Já o Cartão Recomeço é do governo do Estado de São Paulo (desde 1995 nas mãos do PSDB) e só pode ser usado para o dependente de crack buscar tratamento em comunidades terapêuticas privadas (o que é alvo de críticas), sem possibilidade de se receber qualquer valor em dinheiro.

Agora, se você continua indignado e pretende deixar um comentário cheio de palavrões para me xingar… Pena é o que sinto.

Como atentar contra a vida de alguém que tem cérebro?

Existem inúmeras maneiras, mas a mais simples é: mandar um e-mail corrente. Afinal, quem tem cérebro irá rir tanto, mas tanto, que correrá sério risco de acabar como o pessoal desta esquete do Monty Python.

Pois a última “tentativa de assassinato” que sofri se deve a uma das coisas mais toscas que já circularam na internet recentemente. Trata-se de uma “denúncia”: o ex-presidente Lula teria uma fortuna de R$ 2 bilhões de dólares (não, caro leitor, não leste errado: o trecho grifado é exatamente idêntico ao que veio no texto da mensagem), estando assim entre as pessoas mais ricas do mundo. E mais: ele teria aumentado muito seu patrimônio justamente nos anos em que era presidente (ou seja, seria um grande corrupto). Tanto que já teria merecido uma capa da revista Forbes, em edição dedicada aos “bilionários”. Abaixo, a “prova”:

Pois é, tem gente que levou isso a sério. Gente que, sinceramente, parece não ter o mínimo senso do ridículo. Pois basta uma análise bem rápida dessa “capa” para ver que, se fosse verdadeira, o nome de Lula apareceria (afinal, é o “destaque” dela). Mas não: na verdade, o rosto dele tapa parte do texto da capa, comprovando que se trata de uma montagem – e muito mal-feita, por sinal.

Essa aí me fez lembrar uma montagem ainda mais tosca que recebi em 2010 (da qual já tinha falado naquela postagem em que detonei as correntes reaças): uma foto de Dilma fumando um charuto que qualquer amador em Photoshop faz. Pior que isso, só aquela foto de integrantes do MST roubando ovos de tartaruga às margens de um Rio Solimões no qual era possível surfar