Como atentar contra a vida de alguém que tem cérebro?

Existem inúmeras maneiras, mas a mais simples é: mandar um e-mail corrente. Afinal, quem tem cérebro irá rir tanto, mas tanto, que correrá sério risco de acabar como o pessoal desta esquete do Monty Python.

Pois a última “tentativa de assassinato” que sofri se deve a uma das coisas mais toscas que já circularam na internet recentemente. Trata-se de uma “denúncia”: o ex-presidente Lula teria uma fortuna de R$ 2 bilhões de dólares (não, caro leitor, não leste errado: o trecho grifado é exatamente idêntico ao que veio no texto da mensagem), estando assim entre as pessoas mais ricas do mundo. E mais: ele teria aumentado muito seu patrimônio justamente nos anos em que era presidente (ou seja, seria um grande corrupto). Tanto que já teria merecido uma capa da revista Forbes, em edição dedicada aos “bilionários”. Abaixo, a “prova”:

Pois é, tem gente que levou isso a sério. Gente que, sinceramente, parece não ter o mínimo senso do ridículo. Pois basta uma análise bem rápida dessa “capa” para ver que, se fosse verdadeira, o nome de Lula apareceria (afinal, é o “destaque” dela). Mas não: na verdade, o rosto dele tapa parte do texto da capa, comprovando que se trata de uma montagem – e muito mal-feita, por sinal.

Essa aí me fez lembrar uma montagem ainda mais tosca que recebi em 2010 (da qual já tinha falado naquela postagem em que detonei as correntes reaças): uma foto de Dilma fumando um charuto que qualquer amador em Photoshop faz. Pior que isso, só aquela foto de integrantes do MST roubando ovos de tartaruga às margens de um Rio Solimões no qual era possível surfar

Vai ao Nordeste? Leve um casaco…

Navegando pelo Facebook uma noite dessas, vi muitos dos meus contatos reclamando do frio. Obviamente não compartilhei nem curti nada disso, pois não sinto nenhuma saudade do “calor de desmaiar Batista” que fez por aqui no último verão (bom mesmo seria se tivéssemos um “equilíbrio” o ano todo, pena que isso não existe em nossa “grenalizada” Porto Alegre).

Porém, o mais interessante foi uma foto de um termômetro (aliás, nada mais típico dessa época no Facebook do que as fotos de termômetros mostrando o quanto faz frio em algum lugar), marcando 7°C, e na legenda: TRIUNFO, UMA BELEZA. Um gaúcho que vê a imagem logo pensará que se trata da cidade próxima a Porto Alegre – e até estranhando que alguém destaque uma temperatura de 7°C, visto que já registros bem mais baixos neste inverno.

Porém, o estranhamento continua, mas de forma diferente, quando se vê que a Triunfo da foto não é gaúcha, e sim, pernambucana. Trata-se da cidade mais alta de Pernambuco, a mais de mil metros acima do nível do mar, o que resulta em um clima bastante ameno, e com noites até mesmo frias durante o inverno. E, por mais incrível que possa parecer, no verão se passa mais calor em Porto Alegre do que na cidade do sertão pernambucano: basta comparar as temperaturas médias das duas cidades.

Mas se o leitor acha que Triunfo é um caso isolado, está bastante enganado. Há outras cidades no Nordeste onde é perfeitamente compreensível que uma mãe peça ao filho para levar um casaco “porque pode esfriar”. A pernambucana Garanhuns, que foi oficialmente a terra natal de Lula até o desmembramento do município de Caetés, tem um clima até mais ameno do que Triunfo e igualmente um verão com menos calor que em Porto Alegre; no inverno (que pode ter madrugadas com temperaturas abaixo de 10°C), realiza há vários anos um festival que atrai muitos turistas à cidade. E no momento em que escrevo (meia-noite), o CPTEC registra 15°C na capital gaúcha e 13°C em Vitória da Conquista, no sul da Bahia.

Assim, fica a dica a quem quer desesperadamente viajar para o Nordeste para não sentir frio durante o inverno: na dúvida, é melhor levar um casaco…

E por falar em cruzados…

O leitor já imaginou pagar 203 milhões por um carro? Basta uma rápida pesquisa para ver que não se paga tanto nem por uma Ferrari, automóvel mais cultuado pelos carrólatras. Imaginem então o quão bizarro seria desembolsar 203 milhões por um Gol, carro “popular” da Volkswagen.

Pois no Brasil em 1993, isso era possível. Eram os tempos da hiperinflação, que em junho de 1994 alcançaria quase 50% no mês. Naquela época os preços subiam todos os dias, e aconteciam situações bizarras para quem nasceu da década de 1990 em diante, como pagar 203 milhões por um carro “popular”, ou quase 100 mil por uma caixa de bombons.

Não por acaso, a unidade monetária da época – o Cruzeiro (Cr$) – tinha notas de até 500 mil, e moedas de centavo já eram peças de museu. A gíria gaúcha “pila”, que tantas vezes substitui o nome do Real, na época servia para cada mil unidades monetárias: “100 pila” (é assim mesmo, no singular), que hoje denota R$ 100, em 1993 significava Cr$ 100 mil.

Com tanto algarismo nos preços, o governo decidiu cortar os zeros da moeda para facilitar a vida da população. Em 1º de agosto de 1993 o Cruzeiro foi substituído pelo Cruzeiro Real (CR$), com cada Cr$ 1.000 equivalendo a CR$ 1. Não era uma novidade tal medida: desde 1942 (quando o antigo Real – cujo plural era “réis” e não “reais” como hoje – foi substituído pelo Cruzeiro como unidade monetária do Brasil), doze zeros já tinham sido cortados, numa demonstração do quanto a moeda brasileira (que teve diversos nomes, dentre eles o Cruzado implantado por José Sarney em 1986, em um plano econômico que naufragou poucos meses depois) tinha se desvalorizado nos 50 anos anteriores.

Menos de um ano após o Cruzeiro Real entrar em circulação, ele já foi aposentado: no dia 1º de julho de 1994 a moeda brasileira passou a ser o atual Real, com cada unidade monetária valendo CR$ 2.750, cotação em 30 de junho da Unidade Real de Valor (URV), indexador implantado em 1º de março de 1994 (quando valia CR$ 647,50) e que fez a “transição” entre o Cruzeiro Real e o Real.

O Plano Real teve diversas consequências, nem todas positivas. O Brasil não ficou imune às crises econômicas que se deram na década de 1990. Como se viu, ele acabou sendo o melhor cabo eleitoral que Fernando Henrique Cardoso, Ministro da Fazenda que idealizou o plano econômico, poderia ter em sua campanha à presidência: em maio as pesquisas apontavam ampla vantagem de Lula; já em 3 de outubro, FHC foi eleito no primeiro turno para seu primeiro mandato.

Mas o principal objetivo do plano, acabar com a inflação galopante que se tinha no Brasil, foi atingido. Bom para os pão-duros como eu: lembro que minha mãe me dava dinheiro e, ao invés de gastar tudo de uma vez (como fazia meu irmão), eu preferia “economizar”. E assim entendi o que era a tal inflação da qual tanto se falava: quando decidia usar meu dinheiro, ele já não servia para quase nada…

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Uma curiosidade. Apesar de muito alta, a hiperinflação brasileira daquela época não é nada em comparação às que se viram em outros países. Na Alemanha de logo após a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, o dinheiro se desvalorizou tanto em 1923 que era preciso levar um saco cheio de notas para comprar um pão; quando o inverno chegou, a quantidade de cédulas necessária para se obter um pouco de lenha fazia valer mais a pena queimar o dinheiro nas lareiras para aquecer as casas.

Confissão histórica

O que era óbvio, agora é comprovado: a Globo ajudou Fernando Collor de Melo a ser eleito presidente em 1989. E não só com o famoso resumo do último debate que foi ao ar no Jornal Nacional do dia seguinte, mostrando apenas os bons momentos de Collor e os ruins de Lula.

Com a palavra, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni”, criador do “padrão Globo de qualidade”:

Minhas observações sobre o #BlogProgRS

Eu tinha prometido escrever observações sobre o #BlogProgRS, encerrado domingo. Então, já passa da hora de cumprir a promessa. Não falarei especificamente sobre cada asssunto tratado, já que o texto ficaria muito longo, então opto por tratar de alguns aspectos.

Assim como o Alexandre Haubrich, quando vi a programação fiquei com receio de que o encontro servisse apenas para exaltar os governos Dilma e Tarso, já que a maioria esmagadora dos painelistas era ligada ao PT – quando não, inclusive, ao governo do Estado. Faltavam nomes como o do Hélio Paz, e também o pessoal do Coletivo Catarse, que faz um trabalho sensacional.

Felizmente, meu receio não se confirmou (apesar de alguns pesares dos quais falarei mais abaixo). O governo Dilma, se não foi tão criticado como eu achava que poderia ter sido, pelo menos não foi poupado – afinal, a retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura, a tentativa de conciliação com a mídia (lembram?) e a “blindagem” de Antonio Palocci não são coisas fáceis de serem toleradas. Senti falta de críticas à suspensão do kit anti-homofobia; quanto ao fim do Plano Nacional de Banda Larga como foi idealizado por Lula, vamos dar um desconto: a notícia saiu ontem, quando o encontro já havia acabado, assim não foi possível criticar a presidenta por isso (e estou ansioso para saber a opinião dos “governistas acima de tudo” sobre o assunto).

O que assisti do encontro foi bastante interessante. A apresentação de Marcelo Branco sobre as ameaças à liberdade na internet foi excelente, e bastante didática. Altamiro Borges expressou sua opinião contrária à criação de uma “associação de blogs”, devido ao risco de criação de uma estrutura verticalizada que poderia acabar excluindo alguns blogs que não seguissem exatamente a mesma linha da “chefia” (nem preciso dizer que concordo com ele, né?). Eduardo Guimarães lembrou que, enquanto não for quebrada a neutralidade da internet (ameaça que foi bastante comentada na apresentação de Marcelo Branco), ela irá subverter a antiga lógica segundo a qual apenas os poderosos podem “falar alto”. Também me agradou bastante a defesa por parte de Renato Rovai da diversidade de opiniões entre os blogs (o que vai ao encontro do que disse Altamiro Borges), com uma frase que achei sensacional: “A beleza da blogosfera é que nem todas as flores são da mesma cor”.

Agora, conforme o prometido, passando aos “pesares”…

Primeiro: na sexta à noite, a primeira mesa foi aberta por Marcelo Ribas, representando Vera Spolidoro, Secretária de Comunicação e Inclusão Digital, que não teve como comparecer. Tudo bem, o governo Tarso tem algumas medidas bem interessantes para a comunicação – como o Gabinete Digital – e apoiou a realização do #BlogProgRS. Mas acho que um encontro de blogueir@s não deveria ser aberto por um representante do governo, como aconteceu. Eu preferia alguém que escreve em blog na fala de abertura.

Outra falha, bem lembrada pelo Alexandre, foi a distração que deixou o blog oficial do encontro em Copyright – quando durante boa parte do evento se defendeu o Copyleft e o Creative Commons. O erro, vale ressaltar, já foi corrigido.

Algo que também critico é o próprio nome oficial: “Encontro de blogueir@s e tuiteir@s do RS” (#BlogProgRS se deveu ao primeiro encontro nacional, o #BlogProg, acontecido em agosto de 2010). Embora fosse claramente um evento de esquerda, nada impediria que um reacionário se increvesse: se perguntassem por que ele estava lá, era só responder que tinha blog (e o que não falta são reaças que escrevem blogs e têm conta no Twitter – lembram da Mayara Petruso?).

Quanto à organização, gostei: foi possível acompanhar o #BlogProgRS mesmo de casa (como fiz no domingo, quando decidi dormir até mais tarde depois de seis dias seguidos acordando cedo) graças à transmissão ao vivo da TV Software Livre; assim como o Twitter também possibilitava a interação com os participantes. Afinal, mesmo que o mais bacana seja o contato presencial, um encontro de blogueir@s não pode se dar apenas “analogicamente” (como foi minha participação, anotando no papel ao invés de tuitar, já que não tenho laptop).

O primeiro debate presidencial da televisão brasileira

No dia 15 de novembro de 1989, o povo brasileiro foi às urnas eleger o Presidente da República pela primeira vez após o longo interregno imposto pela ditadura militar. A última eleição direta ocorrera em 1960, logo, 29 anos antes.

Conforme a nova Constituição promulgada no ano anterior, como nenhum candidato obteve mais de 50% dos votos válidos, em 17 de dezembro foi realizado um 2º turno entre os dois mais votados, Fernando Collor de Melo (PRN) e Lula (PT). Collor venceu, após uma campanha muito suja (mas que acabaria superada pela de 2010).

Antes disso, foram realizados vários debates. O do dia 17 de julho, na Bandeirantes, foi histórico não só por ser o primeiro daquela campanha eleitoral, como também por ser a primeira vez que candidatos à presidência do Brasil debatiam na televisão.

Dos vinte e dois candidatos, nove participaram: Aureliano Chaves (PFL), Paulo Maluf (PDS), Lula (PT), Leonel Brizola (PDT), Afonso Camargo (PTB), Ronaldo Caiado (PSD), Afif Domingos (PL), Mário Covas (PSDB) e Roberto Freire (PCB). Fernando Collor (PRN) e Ulysses Guimarães (PMDB) foram convidados, mas não compareceram.

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O “concursismo” e as contradições da classe média

Postei o vídeo acima não por concordar totalmente com o que Lobão disse – aliás, mais discordo do que concordo. Afinal, a crítica que ele faz ao funcionalismo público “esquece” de citar que na iniciativa privada os salários são menores e que sempre se corre risco de demissão para “cortar gastos”. Sem contar que nem todos têm “vocação empreendedora” (nem dinheiro) para abrir um negócio como ele defende, e que certos profissionais praticamente não têm mercado a não ser no serviço público. Além disso, tenho amigos que são funcionários públicos e que não se enquadram naquele estereótipo do “bater ponto, pendurar o paletó na cadeira e passar o dia tomando cafezinho” que é geralmente associado à função: já os vi até mesmo estressados após um dia de trabalho.

Agora, o que eu quero falar, e no que concordo com Lobão: sobre o fato de cada vez mais jovens sonharem em ser funcionários públicos (assim, genericamente), e de como isso é ruim. Afinal, não se trata de escolher uma profissão por ela ser prazerosa, agradável: é única e exclusivamente pelo dinheiro. Ou seja, para melhor se integrar ao sistema.

Quem trabalha no serviço público tem de ser, acima de tudo, uma pessoa responsável, honesta, ética. Afinal, é o dinheiro de todos nós que paga seu salário. Mesmo que tenha a tranquilidade de saber que não será demitido por “corte de gastos” (como acontece muito na iniciativa privada), o funcionário público precisa ter em mente que trabalha não só para receber no final do mês, como também para o povo.

Porém, o sentimento que predomina é o individualismo, o “se dar bem na vida”. Obviamente todos desejam ter uma vida melhor, mas muitos pensam nisso de forma individual, e nunca coletiva. E isso, o individualismo, é um fenômeno típico da classe média.

Não por acaso, é dela que sai a maioria dos aprovados em concursos públicos. Afinal, para passar é preciso estudar (e muito!) conteúdos dificílimos como legislação, além de, é óbvio, ir bem na prova – e falo de ir bem mesmo, de preferência gabaritando. Ou seja, é preciso tempo para os estudos, e dinheiro para pagar o material ou um cursinho. O que falta para os mais pobres, que muitas vezes precisam trabalhar em dois empregos para conseguirem se manter, sobrando tempo apenas para descansar, e pouco dinheiro.

Aí se revela uma das maiores contradições da classe média: com base no que lê na Veja, o típico médio-classista reclama dos impostos, diz que o Estado brasileiro é “cabide de emprego”, defende as privatizações, mas tem como sonho… Ser empregado pelo Estado!

E outra das grandes, é em relação a Lula (que inclusive é lembrado por Lobão, ao falar do “concursismo”). Talvez o governo Lula tenha sido um dos que mais realizou concursos públicos na história do Brasil. Mas o médio-classista não pode nem ouvir falar do ex-presidente sem começar a babar de raiva. Já agora, o corte de gastos ordenado por Dilma significará menos concursos, e obviamente menos nomeações para o serviço público. Mas, como até a Veja já elogiou a presidenta, o médio-classista deve estar adorando este início de governo

É para isto que Dilma foi eleita?

Segunda-feira, aconteceu a festa de 90 anos do jornal Folha de São Paulo. A comemoração contou com a presença da presidenta Dilma Rousseff, que em discurso chegou a elogiar o jornal!

Sim, parece piada. Ainda mais depois de tudo o que já se viu nas páginas da Folha: “ditabranda”, ficha falsa, campanha pró-Serra disfarçada de “imparcialidade”, censura… Dilma perdeu uma excelente oportunidade de ficar em Brasília.

Por que motivos Dilma foi bajular o jornal? Esperança de que ele não lhe faça oposição, como fez ao governo Lula? Pfff…

Dilma Rousseff, que tem domicílio eleitoral em Porto Alegre, deveria aprender com o exemplo do Rio Grande do Sul. Em 2007, durante homenagem aos 50 anos da RBS na Câmara de Deputados, vários parlamentares bajularam a empresa, dentre eles Maria do Rosário (PT), Manuela D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL) – que no ano seguinte foram candidatas à prefeitura de Porto Alegre.

Adiantou alguma coisa? Não! O então prefeito José Fogaça (PMDB), ex-funcionário da RBS, foi reeleito mesmo sem ter feito nada que prestasse. Não bastasse isso, Luciana Genro – que em 2003 teve a dignidade de se recusar a prestar um minuto de silêncio pela morte de Roberto Marinho – não conseguiu se reeleger, mesmo tendo recebido cerca de 129 mil votos (foi a deputada não eleita mais votada do Brasil), pois o PSOL não alcançou o quociente eleitoral no Rio Grande do Sul. E Luciana ainda tornou-se inelegível no Estado, já que seu pai Tarso Genro é o governador.

Quando nem a direita acredita nas mentiras reaças

Semana passada, recebi novamente aquela “corrente” sobre a “bolsa bandido”, que teria sido supostamente criada pelo governo Lula – mentira destroçada pelo Vinicius Duarte. Obviamente respondi, e como o meu amigo havia mandado o lixo e-mail sem usar a opção “com cópia oculta”, cliquei em “responder a todos”, enviando apenas o link para o texto do Vinicius, nada mais, para que mais gente recebesse o “antídoto” contra a mentira.

Já recebi duas respostas – ambas apenas para mim, e não para todos. Uma delas foi a que mais me deixou satisfeito. Pois veio de um outro amigo, que é de direita. E ele disse que achara a “denúncia” sobre a “bolsa bandido” exagerada… Inclusive, me agradeceu pelo esclarecimento.

Ou seja: há uma luz no fim do túnel. Há pessoas que são conservadoras e não saem acreditando em qualquer bobagem só por ser “contra o governo Lula”. Quanto menos gente tendo mentiras como verdades, melhor.

Campanha antidemocrática

"Cabos eleitorais do Serra", por Carlos Latuff

Quando anunciei minha mudança de voto no primeiro turno, de Plínio para Dilma, meu amigo Diego Rodrigues, que foi de Marina, criticou a decisão. Pelo que entendi, não foi por meu voto em si, mas sim pela motivação: declarei que iria votar contra a realização de um segundo turno nesta eleição presidencial de 2010, devido ao jogo sujo da direita. O Diego afirmou que era muito problemático a candidata petista ser eleita apenas por conta de “transferência de votos” gerada pela altíssima popularidade do presidente Lula, de cuja política Dilma representa a continuidade, e que seria “bom para o Brasil” a realização de um segundo turno – embora ele mesmo ache que o PSDB não tem projeto para o país.

Pois minha pergunta é: no que esta campanha para o segundo turno, que já é considerada mais suja até mesmo que a de 1989 por quem tem lembranças “em primeira mão” (eu tinha oito anos, lembro, mas não entendia realmente o que acontecia), está sendo boa para o Brasil? Como o Diego mesmo disse, a campanha do PSDB deixa clara a ausência de um projeto para o país: ao invés de apresentar argumentos que sustentem a afirmação “Serra é o melhor para o Brasil” (da qual discordo), a maior preocupação é difamar Dilma. Vale tudo, até o repetido uso de mentiras, uma estratégia goebbeliana (Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, disse que “uma mentira muitas vezes repetida, torna-se verdade”).

Collor jogou sujo em 1989, utilizando-se de vários factoides para disseminar no eleitorado o medo de uma vitória do PT. Que iam desde o “anticomunismo” (enquanto os brasileiros escolhiam seu futuro presidente, os regimes burocráticos que se diziam “socialistas” caíam no Leste Europeu) até a declarações de que “os empresários iriam embora do Brasil” caso Lula fosse eleito. Mas não se chegou ao ponto de usar a religião como “arma política”, como está se vendo agora – Dilma já falou em “Deus” no seu programa (aliás, ela nunca negou ter fé), assim como Serra.

Como eu já declarei várias vezes, não acredito na existência de algum ser superior. Mesmo assim, me dou muito bem com gente que tem fé. Como religiões são baseadas em dogmas, e todo dogma é algo considerado “inquestionável”, evito discutir tal tema, ainda mais com amigos, por saber que não haverá a mínima possibilidade de alguma concordância (a não ser que esteja conversando com quem eu sei ser agnóstico ou ateu). Fé, definitivamente, trata-se de uma questão de foro íntimo: por mais que eu critique as religiões, sei que uma pessoa religiosa lerá o que eu escrevo e não deixará de ser religiosa; assim como ela poderá deixar um comentário falando sobre a existência de um ser superior, céu, inferno etc., e eu continuarei a não acreditar em nada disso.

O problema é que muita gente não tem a tolerância que, modéstia a parte, eu tenho com quem tem fé religiosa – e estes comigo. E quando Serra diz que se eleito defenderá “os valores cristãos”, o que ele faz (mesmo que não seja sua intenção) é estimular a intolerância religiosa num país cujo Estado é laico – ou seja, no qual seu presidente não deve defender “valores cristãos” ou de qualquer outra religião, e sim, o direito de todos os brasileiros, de quaisquer crenças (inclusive, os que não têm crença nenhuma), a se expressarem e acreditarem (ou não) no que quiserem.

E por conta disso, considero que a campanha de José Serra é, sim, antidemocrática. Pois a palavra “democracia” significa “governo do povo”, logo, exercido em nome de e para todos, não apenas para os que têm determinada fé.