Os direitosos (nem tão) engraçados

Como já escrevi no dia 6, o governo Lula está longe de ser dos meus sonhos. Mas, como escreveu o Luiz Fernando Verissimo, não entro no coro dos descontentes por causa das péssimas companhias que teria se entrasse.

Por incrível que pareça, tem direitoso apavorado. Crêem que o Brasil está a um passo de se tornar um país comunista! E, para darmos mais gargalhadas, já vi gente que acha que a culpa não é só do Lula: para eles, o “regime socialista” começou com o governo Fernando Henrique!

Certa vez li um artigo que acusava, pasmem, a RBS (sim, a RBS!) de ser petista! Na certa o autor acredita também que Roberto Marinho era comunista desde criancinha – e que ele, como “bom comunista”, comia criancinhas, é óbvio. Certamente ele as saboreava logo depois do programa da Xuxa.

Esses dias, recebi por e-mail o link de uma destas páginas direitosas, com artigos que acusam o governo Lula de ser comunista (é claro!). Nem vou repassar, porque não quero dar mais audiência a esses caras. Afinal, eu acho engraçado eles dizerem que estamos a um passo do comunismo, mas é perceptível a saudade que eles sentem da ditadura militar. E se eles voltarem ao poder, não vai ter graça nenhuma.

———-

Na página a qual me referi, tem um jogo cujo objetivo é matar o maior número possível de patos que têm a cara do Lula. Caso alguém descubra um jogo no qual devemos caçar tucanos, me repasse.

Anúncios

Ironicamente

Na manhã deste domingo, segundo minha mãe, estava programada a realização de um protesto (do estilo “Cansei” e “NoFlyDay”) no Parque da Redenção, aqui em Porto Alegre.

Dava apoio ao protesto um avião com uma faixa “Movimento Luto Brasil”.

———-

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

(Luiz Fernando Veríssimo, Zero Hora, 19 de julho de 2007)