Dia de usar panelas…

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Para cozinhar, é claro. Pois neste domingo, fazer comida é um ato político. Mesmo que, no meu caso, tenha cozinhado apenas um ovo e uma porção de arroz (que, inclusive, eu poderia ter feito no sábado à noite mas deixei para o domingo justamente pelo caráter político da coisa).

“Panelaço” é coisa séria. Se consagrou como um protesto contra a pobreza e a falta de perspectivas – situações que deixam muitas pessoas com as panelas vazias, por falta de grana para comprar comida. Não por acaso, é uma forma de manifestação tipicamente latino-americana – e que chamou a atenção quando chegou à Europa, nos protestos contra a crise financeira na Islândia em 2009.

Mas sempre tem gente que desvirtua as coisas. No caso do “panelaço”, é gente que não passa o drama de estar com as panelas vazias por falta de dinheiro. Os sem-noção aqui do Brasil não são fato novo: na Venezuela, muito se bateu panela contra Hugo Chávez – e tal como aqui, não eram os mais pobres que o faziam. Não por acaso, enquanto rolava “panelaço” na Zona Sul do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão as panelas estavam sobre o fogão cumprindo sua função primordial de fazer comida.

Isso não quer dizer que vá tudo bem com o país. É fato que há inflação: mesmo que ela seja “brincadeira de criança” em comparação com o que tínhamos no final dos anos 80 e no início dos 90, é algo que complica a vida de quem ganha menos. O desemprego subiu: mesmo que ainda possa ser considerado baixo se fizermos uma comparação com outros países e inclusive com o Brasil de um passado não tão distante (10, 15 anos atrás…), causa preocupação a quem tem suas contas a pagar. Toda hora se descobre um novo escândalo de corrupção: a galera esquece que até não tanto tempo atrás o mais comum era as denúncias serem engavetadas e não investigadas, mas isso não inocenta o PT de ter aderido ao esquema apenas “porque os outros também faziam”.

Mas ainda assim me recuso a aderir ao coro do “Fora Dilma”. Primeiro, porque nem faz um ano que ela foi reeleita, e assim é descarado que protestos como os de hoje são puro chororô de quem perdeu a eleição e quer ganhar na marra. Coisa de criança mimada que quando não vê sua vontade atendida começa a espernear e a fazer escândalo.

Mas tem outro motivo também: mesmo que apareçam indícios que comprometam Dilma e assim justifiquem a abertura de um processo de impeachment, não tenho como participar de protestos como os de hoje. Um texto escrito por Luis Fernando Veríssimo em 2007 ajuda a explicar (aliás, basta trocar “Lula” por “Dilma” para o texto ficar totalmente atual):

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

Pois bem: ainda que houvesse motivos para o impeachment de Dilma, eu não deixaria de ficar em casa cozinhando ao invés de ir ao protesto (nem sei se vai ter em Ijuí). Pois como bem alerta LFV, antes de entrar num coro eu olho em volta. E nesse em específico, eu me depararia exatamente com o que há de mais preconceituoso e reacionário no país. E como diz o texto (numa aparente contradição de LFV mas que não entendo como tal), não seria na companhia da direita que eu me manifestaria contra qualquer governo: não é “a minha turma”. Jamais serei cúmplice dessa gente que defende “meritocracia” (seria um sistema justo, sem aspas, se a todos fossem dadas as mesmas condições), fim dos programas sociais, expulsão de imigrantes, pena de morte, redução da maioridade penal, e, o pior de tudo, a tal “intervenção militar” (que jamais será “constitucional”). O que deixa bem claro que tolerância com o diferente não é o forte dessa gente.


O negócio, então, é zoar no dia de hoje. E já que a “moda” é protestar “contra a corrupção” vestindo a camisa da Seleção (com o escudo da super-correta e nada corrupta CBF), agora vai ter 7 gols da Alemanha (pois essa gente merece muito os 7 a 1). Se reclamar, vai ter 14. Se reclamar de novo, vai ter 28!

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Consciência tranquila

Em 19 de julho de 2007, Luis Fernando Verissimo teve publicada em vários jornais uma excelente crônica, que “norteará” minhas palavras. Vamos a ela.

Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a “guerra de mentira” que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo – inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

O texto foi escrito no auge do “caos aéreo”, época em que, como bem disse LFV, era grande a tentação de vaiar o então presidente Lula. Na antevéspera do dia em que a crônica foi publicada, aconteceu o desastre com o voo da TAM no Aeroporto de Congonhas, que a direita tentou usar para derrubar Lula mas resultou em fiasco (algumas manifestações convocadas sequer reuniram uma dezena de pessoas). E seis dias antes do texto, o presidente fora muito vaiado na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, dando a impressão de que seu governo era muito impopular – não podia haver impressão mais falsa.

Quando Verissimo fala “A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece”, aparentemente cai em contradição, considerando o teor de seu texto. Afinal, ele fala justamente em “cumplicidades”, citando dois excelentes exemplos (a falta de condenação à Alemanha nazista por parte de França e Inglaterra por ser considerada por eles “o mal menor” em comparação à União Soviética, e a fidelidade cega de muitos comunistas à URSS mesmo já sabendo que o stalinismo era um total desvirtuamento do ideal marxista). Logo, seria correto simplesmente apoiar Lula de forma acrítica, mesmo que houvesse muita coisa a ser criticada? Bom, o próprio texto, como um todo, diz que não.

O que depreendo da leitura é que criticar Lula (e também Dilma) não pode ser confundido com entrar no coro da direita. Pois eu critico a falta de regulação da mídia em 12 anos de governo (e considero verdadeira “síndrome de Estocolmo” o financiamento de publicações como a Veja por meio de anúncios estatais), a falta de atenção às questões indígena e ambiental, a capitulação frente aos fundamentalistas religiosos (como se viu no episódio da suspensão da distribuição do kit anti-homofobia nas escolas), a “acomodação” do PT (desejava muito que o partido se esforçasse em aumentar sua bancada parlamentar de modo a depender menos ou mesmo poder abrir mão do PMDB para conseguir governar), e poderia citar outras discordâncias que tenho sem me ver ao lado das forças reacionárias. Pois a turma do “acorda Brasil” acha que regular a mídia é censura (a Inglaterra virou ditadura, pelo visto), que índio é vagabundo e ecologista é ecochato, que atender a pautas LGBT implantará uma “ditadura gay”, que descriminalizar o aborto e as drogas causará a morte de milhões de bebês e obrigará os sobreviventes a fumarem maconha, que cotas são racistas (e não o contrário, uma medida paliativa contra ele), que Bolsa Família é “sustentar vagabundo”, que a ditadura de 1964 foi boa para o Brasil por ter impedido uma “ditadura comunista”, dentre outras barbaridades.

Então chegamos à eleição de 2014. Mesmo com todas as críticas que tenho, votei pela reeleição de Dilma Rousseff. Só que não foi simplesmente para dizer não à volta do PSDB ao governo. Também significava dizer sim à redução da miséria, da fome (pela primeira vez o Brasil saiu do “mapa da fome” da ONU); também era um sim à possibilidade de mais brasileiros entrarem na universidade, seja por meio de bolsas do ProUni ou nas várias universidades federais criadas nos governos Lula e Dilma; também era um sim ao maior protagonismo internacional do Brasil nos últimos 12 anos, com uma política externa mais independente; sem contar que o país passou pelos piores momentos da crise econômica sem ter desemprego em massa como se vê em vários países europeus. O coro no qual entrei não era simplesmente “contra Aécio Neves”: era também em defesa de um Brasil que, a despeito de muitos problemas que persistem, é inegavelmente melhor que aquele de 12 anos atrás. Posso dizer que domingo fui dormir não só aliviado, mas também com a consciência tranquila: as críticas que tenho ao governo Dilma são mantidas (e sei que Aécio não atenderia àqueles anseios, pelo simples fato de serem pautas de esquerda); e ao mesmo tempo votei contra o discurso de ódio à diversidade e à democracia de muitas pessoas (“coxinhas”) que deram seus votos a Aécio.

Obviamente nem todo mundo que votou no candidato do PSDB é “coxinha”. Sei porque há amigos meus que digitaram o 45 e ficaram estarrecidos com a reação de vários eleitores de Aécio, que destilavam ódio ao Nordeste e defendiam separatismo (tremenda burrice, pois tanto Dilma como o tucano tiveram votos em todas as partes do Brasil). Quem votou em Aécio por achar que ele seria melhor para o país e não por acreditarem nas insanidades “coxinhas” certamente pensa: será que é possível ser oposição sem ser “coxinha”? A resposta, obviamente, é sim. O problema é que atualmente quem grita mais alto contra o atual governo são justamente os “coxinhas”, que nem sequer são a favor de algum projeto para o país: querem simplesmente “tirar o PT do governo”. Isso não tira a legitimidade de quem se opõe – é um direito inerente à democracia que deve ser plenamente garantido – mas certamente dá um peso na consciência de quem é favorável a um projeto liberal (que nada tem a ver com o defendido pelos pseudoliberais brasileiros) e não simplesmente “anti-PT”.

Uma resolução para 2014

Dizem que há três coisas que devemos fazer em nossas vidas: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

Discordo. É bom plantar árvores, mas ainda mais fundamental é proteger as que já estão aqui nos proporcionando sombra – as novas levarão um tempão até fazer isso. Quanto a filhos, o que mais se vê é gente simplesmente pondo criança no mundo apenas porque “é coisa que devemos fazer”, esquecendo que é preciso cuidá-la, educá-la etc. (Se alguém diz não pretender ser pai/mãe sempre ouve como respostas coisas do tipo “um dia mudarás de ideia” ou “é fundamental para o amadurecimento” – sinceramente, só sendo muito imaturo para achar que um filho trará, “magicamente”, a maturidade.)

Resta a terceira coisa que “todos devemos fazer em nossas vidas”: escrever um livro.

Todos mesmo? Quem escreve mal, por exemplo, não deveria se dedicar a fazer outra coisa?

Errado. Pois quem acha que escreve mal e não se esforça para melhorar, passará a vida inteira realmente escrevendo mal. Sem contar que também é fundamental ler bastante: nunca se cria nada inteiramente novo; nossas leituras sempre influenciam, mesmo sem percebermos, o que escrevemos. Obviamente nem todos que tentam conseguem, visto que nem todo esforço é recompensado, mas também é verdade que sem esforço não há recompensa.

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Pois bem: toda a enrolação acima foi para anunciar minha resolução única para 2014: pelo menos iniciar um livro. Pois já ouvi mais de uma pessoa dizer que escrevo bem (desconsiderando mãe e pai, é óbvio), que já deveria ter publicado algum trabalho etc. Ainda precisarei comer muito feijão para ser uma referência, daqueles que lançam qualquer coisa e levam uma multidão às livrarias, mas se ficar esperando “o texto perfeito” ele jamais virá.

Inclusive, para citar uma referência, lembro de Luis Fernando Verissimo, que em uma de suas geniais crônicas falou justamente sobre resoluções de ano novo e por que não as faz. Em geral, são promessas que fazemos na noite de 31 de dezembro, sob efeito de álcool; na manhã seguinte, o porre passa e esquecemos o que foi dito, o que obviamente resulta no descumprimento das resoluções para o ano recém iniciado.

Por isso, faço apenas uma resolução. Em 7 de dezembro, ou seja, ainda longe da bebedeira do dia 31. Sendo apenas uma, e feita em estado de sobriedade, fica mais fácil cumpri-la.

A pior invenção do Facebook

Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, tornou público algo que qualquer um que não seja ingênuo já suspeitava: que o governo dos EUA espiona as comunicações em todo o mundo. Afinal, já tinha lido várias vezes acerca da vulnerabilidade de nossa privacidade em redes como o Facebook (definido por Julian Assange como uma “terrivel máquina de espionagem”).

Porém, engana-se quem pensa que a espionagem no Facebook é feita apenas pelo governo dos EUA. Ter um perfil na rede significa, basicamente, permitir que seus amigos espionem sua vida (e que nós espionemos as deles), visto que costumamos compartilhar muita coisa que talvez fosse melhor deixar “offline”.

Aquela pessoa pela qual se é apaixonado, por exemplo. No tempo em que Luis Fernando Verissimo escreveu sua genial crônica, quando batia o desespero para saber se ela tinha alguém, lá ia o amigo à meia-noite se esconder detrás de um poste, “sob o olhar curioso de cachorros e porteiros”, para ver se ela chegava em casa acompanhada. Hoje não é mais preciso fazer isso, ou melhor, o poste apenas mudou de nome: basta dar uma olhada no perfil dela no Facebook.

Porém, algumas coisas ainda eram, em tese, possíveis de serem “escondidas” no Facebook. Como as mensagens privadas, em que é possível falar com alguma pessoa em específico sem que ninguém saiba o conteúdo da conversa. Ou seja, algo não tão diferente do bom e velho e-mail, mas com a vantagem de que condiz mais com a ideia de bate-papo, enquanto o e-mail parece mais adequado ao envio de textos mais longos.

Era assim até meados do ano passado. Foi quando inventaram de acabar com a possibilidade de fingir não ter visto a mensagem.

Quando mandamos um e-mail, a não ser que enviemos um pedido de confirmação automática de recebimento (que só funciona em programas específicos, como o Outlook), não sabemos quando o destinatário recebe a mensagem. É algo bom: se quem recebe precisa pensar bastante em uma resposta, pode demorar a enviá-la, e se questionado por isso, pode inventar uma história, dizendo que respondeu na hora em que finalmente acessou a internet e viu os e-mails.

Já nas mensagens privadas do Facebook, isso acabou: ao abrir a mensagem recebida, quem mandou já sabe que ela foi lida. Uma maneira de “enganar” o sistema seria não abrir a mensagem, mas aí se ela é longa não há como ler na íntegra.

Muitas vezes é bobagem e não é necessário responder, pensa quem recebeu. Porém, será que a pessoa que mandou tem a mesma opinião? Aí, além dela esperar, ainda recebe aquela punhalada na alma que é saber o momento em que a mensagem foi visualizada; passam-se minutos, horas, dias, e nada de vir uma resposta.

Se a mensagem não foi respondida três dias depois, mesmo que não houvesse a confirmação do recebimento seria um tanto óbvio que o destinatário leu mas simplesmente ignorou – ainda mais que no Facebook somos todos “Obamas em potencial”, espionamos os perfis alheios e sabemos que a pessoa fez um monte de coisas, menos responder. Porém, sempre haveria a possibilidade de que ela tivesse recebido muitas mensagens e ainda nem tivesse lido a nossa, e pelo menos seria possível alimentar a ilusão de que, mais cedo ou mais tarde, a resposta viria. E com o tempo, talvez a mensagem até fosse esquecida.

Porém, o Facebook acabou com isso, e restou apenas a irritação que dá mandar uma mensagem e esperar que ela seja respondida, e a frustração que vem quando passam vários dias e fica óbvio que o Taiti vai ganhar a Copa do Mundo antes de recebermos a resposta. Afinal, já sabemos (e o Obama também sabe) que ela viu e não deu importância.

Mais Cão, menos Facebook

Como gremista, sou daqueles que dizem “o jogo só termina quando o juiz apita”. O mesmo vale para o ano: me recuso a fazer qualquer retrospectiva antes de 1º de janeiro.

Ainda assim, uma coisa posso afirmar sem medo de errar, infelizmente: fiquei devendo muito a vocês, leitores do Cão Uivador, neste ano que se aproxima do término (que pode ser tanto o “normal”, dia 31, como o “fim do mundo” na próxima sexta…). Postei bem menos do que desejava, e mesmo do que poderia.

Posso citar diversos motivos. Um deles é o fato de agora estar cursando uma especialização, o que me toma tempo: além de ter aulas duas vezes por semana, também tem ocasiões em que não posso sentar na frente do computador e escrever aqui, por ter algum texto para ler ou um trabalho para entregar. Enfim, nada com que eu não tenha me acostumado em seis anos de faculdade. A diferença é que naquela época eu era (um pouco) menos estressado do que hoje.

Então parei para pensar e reparei no fundamental: fico tempo demais no Facebook. É incrível: chego em casa, ligo o computador, e lá me vou acessar a cria de Mark Zuckerberg. “Quero me manter informado”, penso.

Mas nem toda a informação que obtenho pelo Facebook é realmente interessante. Ou será que preciso realmente saber que fulano de tal esteve no buteco X na hora Y com um certo número de pessoas? No fundo, a tal de “privacidade”, que tantos diziam ser ameaçada pelo Facebook, realmente vai para o espaço. E pior: abrimos mão dela voluntariamente. As pessoas se expõem a um ponto que aquela genial crônica de Luis Fernando Verissimo pode ser atualizada, pois o cara não precisa mais se esconder atrás de um poste à meia-noite, “sob o olhar curioso de cachorros e porteiros”, para ver se a Gesileide chega em casa com alguém: basta “espiar” o perfil dela.

Um fato que pode parecer irônico: há uma grande possibilidade do leitor ter chegado aqui graças a um link no Facebook. Mas não acho contraditório: lembro que saí do Orkut em 2006 e voltei no início de 2009 (ao mesmo tempo em que entrei no Facebook) com o objetivo de aumentar as visitas ao Cão. Até perto do final de 2010 o que eu fazia no Facebook era basicamente divulgar as atualizações do blog (ou seja, o mesmo que no Orkut), só comecei a usá-lo mais durante a campanha eleitoral (em conjunto com o Twitter, que anda meio “abandonado” mas pretendo retomar).

Ou seja, no fundo minha ideia inicial com o Facebook (e a de retomar o Orkut) em 2009 era a de usá-lo como ferramenta de divulgação, da mesma forma que o Twitter. E nesse sentido, ele é ótimo. O problema, como falei, é o “vício” de estar “por dentro” de coisas que não são exatamente as mais importantes do dia.

Sendo assim, tomei uma decisão: ficar menos tempo no Facebook e mais escrevendo aqui no Cão, ou lendo. Não é “resolução de ano novo” pois pretendo pôr em prática já, sem contar que fazer “resoluções de ano novo” é o primeiro passo para não cumpri-las.

E por fim, lembro que lá no começo do texto falei em “retrospectiva”. Pois é, o Facebook ofereceu uma (com fatos escolhidos por ele próprio) para postarmos em nossos perfis.

Pois eu não postarei. Favor não insistir.

Em favor de uma verdadeira Comissão da Verdade

Amanhã, poderá entrar na pauta da Câmara Federal a proposta que cria a Comissão Nacional da Verdade, destinada a apurar denúncias de violações dos direitos humanos no Brasil durante a ditadura militar (1964-1985). Inegavelmente trata-se de um avanço: finalmente, parece que haverá uma revisão na “história oficial” daquele período. Porém, há alguns problemas que fazem o jornalista Luiz Cláudio Cunha dizer que, se aprovada desta forma, a Comissão da Verdade será “de meia verdade”.

O primeiro deles: a lei de anistia de 1979 seguirá sem ser discutida. Isso quer dizer que a Comissão da Verdade poderá desvendar crimes cometidos pelos agentes do Estado durante a ditadura, mas não haverá punições, já que a anistia livrou a cara dos torturadores. E assim eles seguirão livres, sem pagar por seus crimes.

Outro problema é o tempo restrito de atuação da Comissão (dois anos) e o pequeno número de integrantes – e dentre eles poderão estar, pasmem, militares que apoiaram a ditadura… Desse jeito, se corre o risco de ter apenas “mais do mesmo” e não uma versão democrática da história do Brasil, como defende Luis Fernando Verissimo em um dos prefácios (reproduzo o texto abaixo) da coletânea A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História e Memória, lançada no início do ano passado.

A História, segundo um cínico e surrado adágio, é sempre a versão dos vencedores. Uma mentira oficial se instala e se institucionaliza e com o tempo vira verdade. Mas o tempo nem sempre colabora. Com o tempo vem a resignação e a opção por não turvar águas passadas ou reabrir velhas feridas – mas também vem a distância necessária para reexaminar mentiras estabelecidas. O tempo perdoa ou condena, confirma ou desmente. O tempo traz o esquecimento – ou aguça a memória. E nada ameaça mais a versão dos vencedores do que memórias aguçadas.

Depois do fim do regime militar instaurado em 1964 vivemos, no Brasil, num curioso estado de faz-de-conta, exemplificado pela anistia geral dada a vencidos e vencedores. Buscava-se um “desarmamento dos espíritos” (frase muito usada na época, mas inadequada: não foram exatamente espíritos armados que nos dominaram durante 20 anos), mas o verdadeiro objetivo era fingir que nada tinha acontecido. Assim os militares voltaram para as casernas sem remorso ou desculpas, os civis que os apoiaram continuaram suas carreiras políticas sem atos de contrição, as vítimas sobreviventes do regime refizeram suas vidas e – a ideia era esta – não se falava mais nisso. Mas havia as memórias. Durante estes últimos anos o país conviveu com duas histórias, a oficial, a do deixa pra lá, e a da memória das pessoas. Com o tempo esse desencontro se agravou. A memória aguçada – assim como a cobrança dos que reivindicam a verdade apenas para saber onde alguém foi enterrado – exige o fim do faz-de-conta.

E afinal, mesmo aceitando-se a realidade que são os vencedores que contam a história, a exigência não muda. O fim do regime militar foi uma vitória de uma democracia imperfeita e até agora não consolidada, mas democracia. O que se quer é a versão democrática da história do Brasil.

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Apesar dos “poréns”, sou totalmente favorável à aprovação da proposta que cria a Comissão da Verdade. Mas, depois de aprovada, será preciso lutar para melhorá-la.

Pelo desarquivamento do Brasil

Hoje, a presidenta Dilma Rousseff inicia uma visita a Argentina. Além de encontrar sua colega Cristina Kirchner, Dilma também se reune com as líderes das Madres e das Abuelas de Plaza de Mayo, que há muitos anos lutam por informações sobre o paradeiro de seus filhos e netos, mortos e desaparecidos na ditadura militar de 1976-1983 no país vizinho.

Tomara que isso sirva de motivação para Dilma promover uma mudança na relação do Brasil com a ditadura de 1964-1985. Pois em matéria de memória e justiça, os argentinos “dão de relho” na gente. Lá, o dia 24 de março (aniversário do golpe de 1976) é feriado nacional desde 2006 com o nome de Dia Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia, os ditadores e torturadores não estão livres de serem punidos (e muitos já foram), locais que eram utilizados pela repressão viraram centros de memória (como a antiga Escuela de Mecánica de la Armada – ESMA), e os arquivos da ditadura estão abertos.

A Argentina, é verdade, sofreu uma ditadura muito mais violenta que o Brasil. Em apenas sete anos, foram mais de 30 mil mortos e desaparecidos. Mas isso não faz com que os 21 anos de regime militar brasileiro mereçam ser esquecidos. Pois aqui também se prendeu, torturou, desapareceu e matou. E não temos feriado, a anistia de 1979 livrou a cara dos torturadores e permitiu que os todos os ditadores morressem sem sequer serem ameaçados de processo, qualquer intenção de se criar uma comissão da verdade fica só nisso, e os arquivos da ditadura permanecem inacessíveis, impedindo muitas famílias de saberem que fim levaram seus entes queridos (se na Argentina é difícil, no Brasil é impossível).

Ano passado, quando do lançamento da coletânea “A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História e Memória”, reproduzi no blog um dos prefácios presentes nos quatro volumes, de Luis Fernando Verissimo. Vale a pena relê-lo:

A História, segundo um cínico e surrado adágio, é sempre a versão dos vencedores. Uma mentira oficial se instala e se institucionaliza e com o tempo vira verdade. Mas o tempo nem sempre colabora. Com o tempo vem a resignação e a opção por não turvar águas passadas ou reabrir velhas feridas – mas também vem a distância necessária para reexaminar mentiras estabelecidas. O tempo perdoa ou condena, confirma ou desmente. O tempo traz o esquecimento – ou aguça a memória. E nada ameaça mais a versão dos vencedores do que memórias aguçadas.

Depois do fim do regime militar instaurado em 1964 vivemos, no Brasil, num curioso estado de faz-de-conta, exemplificado pela anistia geral dada a vencidos e vencedores. Buscava-se um “desarmamento dos espíritos” (frase muito usada na época, mas inadequada: não foram exatamente espíritos armados que nos dominaram durante 20 anos), mas o verdadeiro objetivo era fingir que nada tinha acontecido. Assim os militares voltaram para as casernas sem remorso ou desculpas, os civis que os apoiaram continuaram suas carreiras políticas sem atos de contrição, as vítimas sobreviventes do regime refizeram suas vidas e – a ideia era esta – não se falava mais nisso. Mas havia as memórias. Durante estes últimos anos o país conviveu com duas histórias, a oficial, a do deixa pra lá, e a da memória das pessoas. Com o tempo esse desencontro se agravou. A memória aguçada – assim como a cobrança dos que reivindicam a verdade apenas para saber onde alguém foi enterrado – exige o fim do faz-de-conta.

E afinal, mesmo aceitando-se a realidade que são os vencedores que contam a história, a exigência não muda. O fim do regime militar foi uma vitória de uma democracia imperfeita e até agora não consolidada, mas democracia. O que se quer é a versão democrática da história do Brasil.

E para que tenhamos a versão democrática da história do Brasil, é importante que sejam lançados livros, mas não podemos ficar só nisso. Precisamos ter acesso aos arquivos da repressão. Sem eles, a história continuará incompleta – e portanto, não será democrática.

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Este texto é parte da campanha “Desarquivando o Brasil”, lançada pela Niara e pelo Tsavkko, em favor da abertura dos arquivos da ditadura militar. Quem quiser colaborar, pode fazê-lo escrevendo um texto inédito sobre o assunto em seu blog (usando a charge do início do meu texto, do cartunista Ton nOise); divulgando outros textos, entrevistas, charges etc.; e no Twitter, usando a hashtag #desarquivandoBR.

E também vale a pena colaborar com a Campanha pela Memória e pela Verdade promovida pela OAB/RJ, assinando (e divulgando) a petição em favor da abertura dos arquivos.

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Atualização (01/02/2011, 00:04). A blogagem coletiva #desarquivandoBR se estenderá por dez dias, até 10 de fevereiro.

A banalização do termo “nazista”

Um dos raros motivos que me levam a dar uma olhada na Zero Hora é a coluna de Luis Fernando Verissimo. E hoje, então, o texto dele é tão bom que vale a pena ser postado aqui no Cão também. Literalmente “assino embaixo” do que ele escreveu.

Nazistas

Nos filmes da série Guerra nas Estrelas, os oficiais do império intergalático usavam uniformes parecidos com os dos oficiais alemães na II Grande Guerra. Era para identificá-los imediatamente como maus. Ou seja, mil anos no futuro, a analogia nazista ainda continuaria funcionando. Como funciona hoje, 65 anos depois da derrota do nazismo, quando se quer caracterizar um mal ou insultar alguém. Uma recente e maluca analogia foi feita por opositores do plano de saúde universal do Barack Obama, que chamaram o plano de nazista. O plano que o Baraca finalmente conseguiu aprovar é menos abrangente do que o que existe na maioria dos países industrializados do mundo, mas “nazista” era um epíteto mais ressoante do que “social-democrata” – que para a direita americana já é um palavrão. Cartazes do Obama com o bigodinho do Hitler faziam parte da campanha contra.

É bom que o mundo nunca se esqueça do nazismo e seus símbolos continuem a evocar um passado de horrores por muitos anos, mas a banalização do termo esvazia seu sentido. Quando tanto a direita quanto a esquerda se xingam de “fascista”, “fascista” passa a não ter significado histórico algum, ou aplicação fora do calor da briga. E “nazista” como a suprema imprecação de certa maneira libera vocações totalitárias e prepotentes que não se reconhecem no modelo execrado. Não foram poucas, a julgar pelo que se lia nos jornais, as pessoas que concordaram com a frase dita depois da matança de meninos na Candelária, a de que aquilo não tinha sido uma chacina e sim uma faxina. Quando se pode chamar até um plano de saúde de nazista, o verdadeiro pensamento nazista fica sem nome.

O Baraca conseguiu a aprovação do seu meio plano, mas continua sob fogo da direita – e da esquerda. Está sendo tímido nas mudanças sociais prometidas e não acabou com a intervenção americana no Afeganistão, o que não tinha sido prometido mas era esperado. Mandou mais tropas. E o Afeganistão continua sendo um sumidouro, engolindo o seu terceiro império seguido, depois dos ingleses e dos russos. Enquanto isto, a direita religiosa reza pela morte de Obama e “nazista” é apenas um dos rótulos que lhe deram.

Sucesso absoluto

Passei bem mais de uma hora na fila para pegar os quatro volumes da coletânea A Ditadura de Segurança Nacional no Rio Grande do Sul (1964-1985): História e Memória, distribuída gratuitamente na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Às vezes a longa fila parava por completo, enquanto renovavam-se os estoques de livros. Depois, fiquei ainda mais tempo no Vestíbulo Nobre da Assembleia Legislativa, para pegar os autógrafos dos vários autores.

Se a espera foi um teste de paciência, ao mesmo tempo me deixou muito satisfeito. Pois é um sinal de que há interesse pelo assunto “ditadura”, o que vai de encontro às pretensões daqueles que a fizeram, os quais acham que é preciso “esquecer e olhar para a frente”. Definitivamente, é preciso sim “olhar para a frente”, pensar no nosso futuro; mas esquecer o passado, jamais!

Um dos prefácios presentes nos quatro volumes da obra é de Luis Fernando Verissimo – que tem o sério defeito de ser colorado, mas fazer o quê, ninguém é perfeito… Vale a pena ler:

A História, segundo um cínico e surrado adágio, é sempre a versão dos vencedores. Uma mentira oficial se instala e se institucionaliza e com o tempo vira verdade. Mas o tempo nem sempre colabora. Com o tempo vem a resignação e a opção por não turvar águas passadas ou reabrir velhas feridas – mas também vem a distância necessária para reexaminar mentiras estabelecidas. O tempo perdoa ou condena, confirma ou desmente. O tempo traz o esquecimento – ou aguça a memória. E nada ameaça mais a versão dos vencedores do que memórias aguçadas.

Depois do fim do regime militar instaurado em 1964 vivemos, no Brasil, num curioso estado de faz-de-conta, exemplificado pela anistia geral dada a vencidos e vencedores. Buscava-se um “desarmamento dos espíritos” (frase muito usada na época, mas inadequada: não foram exatamente espíritos armados que nos dominaram durante 20 anos), mas o verdadeiro objetivo era fingir que nada tinha acontecido. Assim os militares voltaram para as casernas sem remorso ou desculpas, os civis que os apoiaram continuaram suas carreiras políticas sem atos de contrição, as vítimas sobreviventes do regime refizeram suas vidas e – a ideia era esta – não se falava mais nisso. Mas havia as memórias. Durante estes últimos anos o país conviveu com duas histórias, a oficial, a do deixa pra lá, e a da memória das pessoas. Com o tempo esse desencontro se agravou. A memória aguçada – assim como a cobrança dos que reivindicam a verdade apenas para saber onde alguém foi enterrado – exige o fim do faz-de-conta.

E afinal, mesmo aceitando-se a realidade que são os vencedores que contam a história, a exigência não muda. O fim do regime militar foi uma vitória de uma democracia imperfeita e até agora não consolidada, mas democracia. O que se quer é a versão democrática da história do Brasil.