Eduardo Galeano: PRESENTE!

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“Agora não somos mais aquele pequeno ponto no mapa do mundo”. Este comentário, do dirigente uruguaio Atilio Narancio, foi feito após a seleção de futebol do Uruguai conquistar sua segunda medalha de ouro olímpica, em 1928. Não foi por acaso que o país foi escolhido pela FIFA para sediar a primeira Copa do Mundo de futebol, dois anos depois.

O comentário de Narancio foi citado na crônica “O segundo descobrimento da América”, do excelente “Futebol ao Sol e à Sombra”, publicado em 1995 por Eduardo Galeano. Foi este o primeiro livro dele que li, adquirido em uma banca na Feira do Livro de Porto Alegre, vários anos atrás. Antes mesmo de seu clássico “As Veias Abertas da América Latina”.

Galeano era um grande cronista, e também um apaixonado por futebol. Como ele mesmo se definiu, “um mendigo do bom futebol”. Mas ainda que procurasse ser o mais imparcial possível em suas crônicas, jamais abriu mão de seu lado torcedor (que é, afinal, o que leva qualquer pessoa a gostar de futebol). Confessa que, como torcedor do Nacional, fez o possível para odiar os grandes jogadores do arquirrival Peñarol (não conseguiu). E também “alentava” à grande Celeste Olímpica, que “colocou o Uruguai no mapa do mundo” na década de 1920.

Não me esqueço de uma matéria, publicada na Zero Hora se não me engano, do dia em que o Uruguai enfrentaria a Holanda pela semifinal da Copa de 2010: uma das fotos que a ilustrava mostrava a porta da casa de Galeano com um cartaz onde se lia “cerrado por fútbol”. O que me faz lembrar mais um trecho daquela mesma crônica citada dois parágrafos atrás:

A paixão futebolística dos uruguaios vem daquele passado longínquo e suas raízes fundas ainda estão à vista: cada vez que a seleção nacional joga uma partida, seja com quem for, corta-se a respiração do país e calam a boca os políticos, os cantores e os charlatães de feira, os amantes interrompem seus amores e as moscas param o vôo.

Naquele dia, a Celeste Olímpica voltava a disputar uma semifinal de Copa do Mundo após 40 anos. Perdeu, mas não se entregou até o último minuto de jogo. Depois de tanto tempo, os uruguaios voltavam a sentir verdadeiro orgulho de sua seleção, que fazia jus a sua vitoriosa tradição.

Mas, ainda assim, isso não significava que o Uruguai voltava a figurar no mapa do mundo. Pois um país que produz alguém como Eduardo Galeano de forma alguma passaria despercebido.

Hoje em dia o Uruguai está um tanto “na moda”, muito por conta de outra grande personalidade que também merece toda a admiração: José Mujica. Aliás, tem muita gente que se diz fã do Pepe mas fala cada direitice que, felizmente, ele não escuta, pois se ouvisse perigaria morrer de desgosto…

Só que antes do Pepe ser eleito eu já sentia grande carinho e simpatia por nosso vizinho do sul, e inclusive já tinha esta camiseta aí da foto (que, inclusive, visto no momento em que escrevo estas linhas). Muito disso se devia a meu próprio parentesco: minha avó paterna é filha de uruguaios e nasceu bem próxima à fronteira. Mas descobrir o talento de Eduardo Galeano, cuja prosa era também poesia, me fez gostar ainda mais deste pequeno grande país chamado Uruguai.

¡Gracias, Eduardo!

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100 anos de um gênio

Júlio Cortázar (1914-1984)

Júlio Cortázar (1914-1984)

Nesta terça-feira, completam-se 100 anos do nascimento de Julio Cortazar, escritor argentino que, curiosamente, durante boa parte de sua vida morou fora da Argentina. Começando pelo próprio 26 de agosto de 1914: Cortázar nasceu na embaixada argentina em Bruxelas, Bélgica, nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial. Mas a cidade onde mais viveu foi Paris: mudou-se para a capital francesa em 1951 e lá permaneceu até sua morte, em 12 de fevereiro de 1984.

Julio Cortázar foi um dos escritores mais originais de seu tempo, e dos mais geniais que já tive o prazer de ler. Muitas de suas obras cruzam a fronteira entre o real e o fantástico, como se vê nas “Histórias de Cronópios e de Famas” (sobre a lápide do túmulo de Cortázar no Cemitério de Montparnasse, em Paris, se ergue a imagem de um “cronópio”).

O conto abaixo é um dos que compõem “Histórias de Cronópios e de Famas”.

Ocupações Maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelope com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca e ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

A volta da reclamação anti-BBB

Começou o ano, e de novo toda aquela reclamação quanto ao BBB no Facebook (em número muito maior do que os comentários sobre ele, como era de se esperar). Ainda não vi ninguém compartilhar aquela imagem dizendo que a cada vez que alguém assiste ao programa um livro comete suicídio, mas não esqueço do comentário feito por meu amigo Paulo Alcaraz no ano passado: “fiquei com vontade de assistir, para ver se o Cinquenta Tons de Cinza se matava”. A frase continua perfeita, basta trocar o best-seller do ano passado pelo atual…

O que o comentário do Paulo quer dizer é: assim como existem programas ruins (e considero o BBB um deles), também há livros ruins. Em geral, trocar a televisão pela leitura é bom, pois não recebemos “tudo pronto” e com isso usamos mais a imaginação (tanto que jamais duas pessoas imaginarão de forma igual a mesma cena narrada em um livro); mas não é garantia de um entretenimento de qualidade.

Porém, o que chama a atenção, da mesma forma que no ano passado, é ver gente defendendo que devemos ler ao invés de assistir ao BBB, mas que não está lendo nada no momento. O motivo é óbvio: gasta tempo com suas reclamações no Facebook ao invés de abrir um livro – o que poderia render comentários bem mais interessantes.

Ninguém é (ou não deveria ser) obrigado a gostar de qualquer coisa. Se você acha que tem muita bobagem no seu Facebook, faça uma “faxina” nos seus contatos. E não me refiro apenas ao BBB no conceito de “bobagem”, pois ele varia de pessoa para pessoa: há quem não goste de propaganda eleitoral, religião, futebol etc.

Aliás, se tem coisa para a qual ultimamente ando sem saco é debate “grenalizado” sobre futebol, tanto que quando ele toma tal rumo prefiro nem participar mais. É muito pior do que comentários sobre o BBB. Muito pior mesmo.

Adoramos ler mas não temos tempo… Será?

Sensacional a matéria de Alan Bisset no The Guardian, e que o Milton Ribeiro traduziu para o Sul 21. Começa com o autor falando sobre sua decisão de reler Guerra e Paz, de León Tolstói, e pegá-lo na estante, com o marcador na página 55. Depois, notou que havia outros livros com marcadores, sinais de várias leituras iniciadas e não acabadas.

Na sequência, Bisset fala na grande quantidade de opções que temos hoje em dia para distração. Incrivelmente posso citar minha própria experiência: durante a maior parte da década de 1990 não tinha computador em casa, então me distraía basicamente lendo e escrevendo (na máquina de escrever). Tinha a televisão também, mas à medida que o tempo passava eu tinha menos saco de ficar parado na frente dela.

Hoje, temos a internet, que é um extraordinário meio de comunicação (e é graças a ela que o leitor chega a este texto e à matéria que indiquei). Podemos não só receber informação, como também difundi-la, sendo ativos e não só passivos como defronte à televisão. Também nos oferece a possibilidade de escolher o que queremos ver, enquanto a TV nos empurra aquilo “goela abaixo”. Porém, ainda não aprendemos bem a fazer isso: somos sufocados por um monte de informações nem um pouco relevantes (e não necessariamente em páginas de fofoca: o próprio Facebook colabora muito com isso), e assim levamos mais tempo para realmente ficarmos sabendo do que é importante.

E o pior de tudo é que depois reclamamos da falta de tempo para ler. Quando na verdade ele nunca nos faltou: apenas o desperdiçamos com outras coisas.

Desligue o anti-BBB e abra um livro

Pedro Bial deveria ser lembrado não como o apresentador do Big Brother, e sim como o jornalista da Globo que estava em Moscou no histórico 25 de dezembro de 1991, dia em que a União Soviética deixou de existir.

Sim, sou desses que detestam BBB. Quando chega essa época do ano, lembro de várias vezes em que fiquei sem assunto em rodas de amigos, por não assisti-lo. Tanto que já falei mal dele aos montes.

Pois bem: o programa começou. Abri o Facebook e vi um monte de postagens falando do BBB. Falando mal. Pedindo que não se poste nada sobre ele.

Tem mais comentários depreciativos ao programa e a quem o assiste, do que tratando do que acontece nele. Houve quem postasse uma imagem acreditando, ingenuamente, que com um milhão de compartilhamentos a Globo tiraria o BBB do ar.

Pois bem: a Globo certamente não o tirará do ar enquanto ele der audiência. E não será falando mal do BBB e de seus fãs no Facebook que alguém fará com que menos gente o assista. Aliás, quem tentar me convencer a deixar de achar alguma coisa bacana com o “argumento” de que é “isso é burrice”, pode ter certeza de que não atingirá seu objetivo.

É comum recomendar aos fãs do programa que o troquem por um livro. Acho ótima ideia. Mas então, é bom dar o exemplo e realmente ler, ao invés de só ficar reclamando nas redes sociais. Até porque assim poderemos trocar ideias sobre nossas leituras, o que é bem melhor do que só falar do BBB. Seja pró ou contra.

E, enfim, lembro o que falei quando tinha gente reclamando de quem fazia campanha eleitoral pelo Facebook: se só tem (o que você considera) “lixo” no seu feed, é melhor fazer uma “faxina” nos seus contatos ao invés de ficar “cagando regra”, dizendo o que os outros podem ou não postar.

Carro pra quê?

Terça-feira era dia de aula na especialização. Assim, ao invés de sair do trabalho e voltar a pé para casa, embarquei em um ônibus da linha T1.

Na hora de descer, me deparei com o par de olhos mais lindo que já vi. Até agora me pergunto se o rosto dela era tão belo assim, ou se era só reflexo daqueles olhos verdes…

Isso também me faz perguntar: comprar um carro, pra quê? Quando saio com os amigos, também me acompanha a cerveja – o que me deixa inapto a voltar dirigindo. Assim, melhor pegar carona com quem não bebe, ou um táxi, ou até ônibus no caso deles ainda passarem.

Usar carro durante a semana, para ir e voltar do trabalho? Nem pensar. Se andando a pé (ou de ônibus, como na última terça) já sou estressado ao extremo, imaginem dirigindo no “fantástico” trânsito de Porto Alegre? Isso não iria acabar bem.

De qualquer forma, adoro andar de ônibus, apesar dos pesares (como os constantes aumentos na passagem que não correspondem a uma melhoria no serviço – o que motiva mais gente a usar o carro no dia-a-dia). Ao contrário do Milton Ribeiro, não consigo ler durante o trajeto (embora eu siga insistindo em levar um livro toda vez que viajo de ônibus), então procuro observar as pessoas, as paisagens. Olho tanto para fora como para dentro do ônibus, e vejo tanto coisas ruins como boas.

Quando se está dirigindo, por sua vez, é impossível fazer tais observações sem correr sérios riscos. A única coisa que interessa é saber a distância do carro da frente, cuidar a velocidade, a sinalização etc. E a coisa piora quando o trânsito está caótico. Enfim, acho um saco dirigir na realidade, esse negócio que acontece fora das propagandas de automóveis.

Sem contar que dirigindo não há a possibilidade de poder observar um belo par de olhos verdes: se olhar demais, o sinal é que fica verde e preciso acelerar para não ser xingado até a quinta geração.

No que se tornou a Feira do Livro

Termina hoje a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, sem que eu sequer tenha chegado perto da Praça da Alfândega – o que não acontece desde quando eu era criança.

Contribuíram para isso motivos climáticos, financeiros e também “de espaço”. Gosto mais de ir à Feira quando chove, pois assim fica mais fácil caminhar pelos corredores – que ficam abarrotados em dias de sol. E faltou chuva na Feira esse ano. Na última terça-feira choveu (e foi um temporal), mas só à tarde. Mas de qualquer jeito, mesmo que chovesse todos os dias eu provavelmente não iria à Feira, pois com pouco dinheiro, seria difícil não voltar “zerado” (é difícil resistir a livros). E por fim, mesmo com chuva e carteira recheada, também teria o problema sério de falta de espaço para novos livros na minha estante.

Porém, antes desta primavera seca, sem grana e de estante abarrotada, eu já não vinha mais tendo o mesmo entusiasmo que tinha pela Feira do Livro em anos anteriores. A última vez em que realmente percorri os corredores em busca de livros foi em 2007. Eu cursava uma cadeira sobre mídia na faculdade, e teria de ler “Sobre a televisão”, de Pierre Bourdieu. Como havia retirado o livro na biblioteca da UFRGS e percebido o quanto era bom, decidi comprá-lo na Feira. Devo ter procurado em mais de cem bancas… Já estava praticamente decidido a desistir e ir a uma livraria, quando consegui encontrar o livro. No ano seguinte, em busca de outra obra de Bourdieu (“O poder simbólico”), nem perdi tempo procurando na Feira, e fui direto à livraria.

Aí é que está: para concorrerem com a Feira do Livro, várias livrarias de Porto Alegre também oferecem descontos nesta época. Ou seja, pode-se gastar um pouco menos (os livros apenas ficam menos caros), com direito a ar condicionado (num dia como foi a segunda-feira passada, faz diferença) e a achar as obras que têm menor apelo comercial e por isso não vão para a Feira – onde o mais fácil de se encontrar são os best-sellers.

E foi para criticar a atual mercadologização da literatura que a escritora Telma Scherer apresentou a performance artística “Não alimente o escritor” na Feira do Livro, na última sexta-feira. Apresentação que foi encerrada pela Brigada Militar (aliás, quem chamou a Brigada?). Pouco me interessa que Telma não tivesse autorização ou apresentação prevista na programação da Feira, visto que a Constituição Federal, no artigo 5º, inciso IX, estabelece que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; sem contar que o espaço em que a Feira acontece é público.

E pior é que não se tratou de um fato isolado: no último dia 16 de outubro, uma apresentação de teatro de rua foi interrompida na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas – o ponto da cidade que ironicamente é conhecido como “Esquina Democrática”.

E quem não gosta de Carnaval, faz o quê?

Não sou fã de Carnaval. Mas não tenho com a data a mesma relação que tenho com o Natal.

O Carnaval, simplesmente não sou muito chegado, mas não o detesto. Diferentemente do Natal.

Pode ser fruto do meu ateísmo. Pois embora o Carnaval esteja vinculado a uma questão religiosa – termina 40 dias antes da chamada “sexta-feira santa” – ele é uma festa pagã. Não vejo nada de hipocrisia em ser ateu e “pular Carnaval”. Diferente de não ser cristão e comemorar o Natal, que é uma festa cristã.

Só que eu sou ateu e não “pulo Carnaval”. Prefiro os livros – ou os blogs. Se eu estivesse agora em Pernambuco, bom, aí não veria o menor sentido em não entrar na festa pelo menos uma vez: não conheço pessoalmente o Carnaval pernambucano, mas tem jeito de ser divertido. E mesmo que eu estivesse errado, provavelmente ainda acharia melhor do que passar uma noite inteira no sambódromo assistindo desfile de escolas de samba – jamais eu gastaria dinheiro nisso.

Mas o brabo disso tudo é a “obrigação de se divertir”. Ninguém deveria ser obrigado a estar feliz todos os dias – até porque nunca se tem só dias felizes. Mas, ouse fazer cara aborrecida uma vez sequer – se for no Natal ou no Carnaval, fica ainda melhor para o resultado final da experiência. É, meu caro amigo, serás taxado de “mal-humorado” e “anti-social”, mesmo que passes o resto do ano sempre de bom humor e com amigos à volta!

E aqueles “bem-humorados de ocasião” provavelmente sejam os mesmos que de março a novembro fazem cara feia “porque o verão não chega nunca”.

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Não vês a hora que acabe o Carnaval? Então, o negócio é ler bastante para aproveitar o feriadão. Blogs ou livros, a escolha é tua!

O ano em que não fui à Feira do Livro

Fiz minha primeira visita à Feira do Livro em 1992, acompanhado do meu pai e do meu irmão. Lembro do meu fascínio no meio de todos aqueles livros. Mas a opção minha e do meu irmão foi “conservadora”: compramos um grande gibi, de faroeste… E olha que eu já tinha lido livros inteiros, histórias fascinantes como Robinson Crusoe, Moby Dick, Vinte Mil Léguas Submarinas, Cinco Semanas num Balão, etc.

Não lembro de ter ido à Feira em 1993, e tenho a impressão de que fui em 1994. Mas de 1995 em diante, aí sim, posso dizer que fui a todas. Jamais passara um ano sem passear pelas bancas.

Bom, fui a todas, menos à de 2009, que acabou domingo. Pode parecer uma contradição, já que terça-feira passada, comprei um livro na… Feira! Mas porque simplesmente passei por lá e decidi dar uma olhada na banca da Editora da UFRGS. E só. Comprei um livrinho sobre o nazi-fascismo na América Latina, do Hélgio Trindade. Paguei, guardei na mochila e segui meu caminho, sem sequer parar nas outras bancas.

Dizer que não fui por causa do TCC não explicaria tudo. Claro que tendo um trabalhão desses, não me sentia muito disposto a passar horas na Feira do Livro, que eu poderia usar para tocar em frente o trabalho. Mas, eu pensava seriamente em algumas pausas para ir à Feira.

Porém, razões climáticas impediram minha ida à Feira. Não foram as chuvas que têm caído constantemente – tempo que considero ideal para ir à Feira, pois assim vai menos gente e fica melhor de se caminhar pelos corredores. O problema é o calor insuportável que anda fazendo em Porto Alegre, que me desestimulou a inclusive fazer tais pausas no trabalho. Preferia me estressar na frente do computador a ter de sair para a rua por qualquer motivo, de modo a suar o mínimo possível.

Sem contar que certamente eu não encontraria o livro que pensava em comprar, do Bourdieu, na Feira. Melhor ir a uma livraria, onde há menos atrolho e o calor é expulso pelos poluidores aparelhos de ar condicionado (mais um motivo para preferir o inverno: não gosto de ar condicionado ligado no quente).

Pobre História…

A Rede Globo inicia, no Fantástico deste domingo, um quadro sobre a História do Brasil, cujo maior protagonista é o jornalista Eduardo Bueno, o “Peninha”.

O Luiz Carlos Azenha foi direto: o Brasil é o “país da piada pronta”. Disse que é capaz da Globo dizer que foi uma das vítimas da ditadura militar…

Mas é muito fácil criticar o Peninha. Afinal, ele escreve seus livros numa linguagem fácil, acessível ao “grande público” (as aspas são devidas ao fato de que o “grande público” não representa a maioria dos brasileiros, esta não compra livros porque são muito caros). Por conta disso, o Peninha é uma das maiores “autoridades” em História do Brasil. Os historiadores de verdade, que passaram anos estudando (graduação, mestrado, doutorado etc.), são deixados de lado.

E eu sei explicar bem o motivo, afinal, faço faculdade de História e não sinto remorso de dizer: nós, futuros historiadores, lemos bastante (o que é bom), mas nossas leituras muitas vezes são chatíssimas, mesmo para nós (o que é muito ruim).

Consiga um livro de um historiador, preferencialmente algum de formação recente. Uma tese sobre um tema especificíssimo, muito comum hoje em dia. Que tenha bastante discussão teórica, com o autor citando as opiniões de muitos outros e nunca expressando a sua. Se esforce para ler até o fim.

Faça isso e então você entenderá porque o Peninha é tão lido.

Eu não quero ser o Peninha, mas também não quero escrever livros chatíssimos que quase ninguém terá paciência de ler. Não que eu só pense em dinheiro – claro que ganhar dinheiro fazendo o que gosto é melhor, mas não é tudo.

O que mais me interessa é que nossa História seja acessível a qualquer um, que seja escrita de maneira crítica, mas que qualquer leitor entenda, não só meia-dúzia de acadêmicos. Enquanto os historiadores continuarem escrevendo numa linguagem que é um porre, o público “leigo” continuará lendo os Peninhas da vida.