Racismo, machismo e irresponsabilidade

O Grêmio perdeu para o Santos por 2 a 0 na Arena e praticamente deu adeus à Copa do Brasil. Mas o destaque, infelizmente, são os insultos racistas contra o goleiro santista Aranha. Espero que dessa vez haja punições – inclusive ao Grêmio, para que idiotas pensem muitas vezes e não mais cometam atos racistas.

Várias pessoas chamaram Aranha de “macaco”, mas só uma está “pagando o pato”. Muitos, que provavelmente não ligam nem um pouco para racismo mas adoram “xingar muito” e curtem “fazer justiça com as próprias mãos”, atacam com insultos machistas a torcedora gremista que teve divulgados perfis nas redes sociais, telefone, fotografia, endereço residencial e de trabalho. Ela sofre um “linchamento virtual” e corre risco de sofrer agressões físicas graças a um bando de irresponsáveis.

Não esqueçam de uma coisa: racismo é crime, mas linchamento também. Aliás, só os insultos que ela sofre também já configuram ações criminosas.

A “hospitalidade” brasileira

A Copa do Mundo no Brasil se aproxima do final, e os estrangeiros elogiam muito a “hospitalidade” do povo brasileiro. O que não é novidade: nosso país sempre teve fama de ser “hospitaleiro”, de receber bem os visitantes.

Porém, a própria Copa mostra que não é bem assim. Basta ver o que se sucedeu ao jogo Brasil x Colômbia, no qual a Seleção garantiu presença na semifinal ao vencer por 2 a 1, mas também marcado pela lesão que tirou Neymar do Mundial.

O lateral Juán Camilo Zúñiga, autor da joelhada nas costas de Neymar que fraturou uma vértebra do jogador, já disse que o lance não foi intencional. E a meu ver, realmente não foi: houve, sim, muita imprudência por parte do colombiano. Já que a FIFA suspendeu o atacante uruguaio Luis Suárez por nove jogos internacionais e inclusive o proibiu de treinar por quatro meses devido à mordida no zagueiro italiano Giorgio Chiellini durante a partida entre Uruguai e Itália (pena considerada excessiva até mesmo pelo “mordido”), espero que Zúñiga sofra uma punição mais severa, para que não se fique com a impressão de que morder uma adversário é pior do que acertá-lo com uma joelhada que pode ter consequências graves.

Instantes depois do apito final, o zagueiro brasileiro David Luiz teve uma bela atitude: consolou o meia James Rodriguez, destaque da Colômbia, e pediu ao público que aplaudisse o jogador adversário. Um exemplo que infelizmente a maioria das pessoas não segue.

Após a partida os jogadores colombianos decidiram ir a um restaurante. Reconhecidos, foram hostilizados por torcedores brasileiros, com o ônibus que transportava os atletas da Colômbia sendo alvo de latas.

Nas redes sociais, Zúñiga sofre um verdadeiro linchamento virtual (o que, vamos combinar, não é muito surpreendente, dado o apoio de tantos brasileiros à “justiça com as próprias mãos”). No Instagram, o perfil do jogador foi “invadido” por brasileiros, que lhe dirigiram todo o tipo de impropérios. No Twitter, o lateral foi alvo de insultos racistas.

Enfim: é esta a “hospitalidade” que temos a oferecer?

Falta muito?

Criança viajando sempre é ansiosa. Entra no ônibus, no carro, no avião, louca para chegar ao destino. Tanto que depois de um tempo, começa a perguntar, toda hora, se falta muito para chegar. Afinal, já viajamos tanto que certamente já estamos chegando. Mas não, o destino ainda está longe.

Com o tempo, aprendemos a apreciar o trajeto, as paisagens que nos separam do lugar para onde vamos. Inclusive, em uma das tantas máximas que usam viagem como exemplo, dizem que a felicidade não é nosso destino, mas sim o caminho. Afinal de contas, quem vive em busca da felicidade, obviamente não tem uma vida feliz – e provavelmente nunca terá.

Isso não significa que aprender a apreciar o caminho torne qualquer viagem boa. Pois saber que o destino é ruim faz com que o trajeto até ele torne-se também ruim. Dá vontade de ir para outro lugar, ou de voltar ao ponto de onde saímos.

Pois é mais ou menos essa sensação que tenho no Brasil de hoje. Vivemos dias de muito ódio, muita raiva, muita mentira. Inventam imbecilidades do tipo “PT vai dar um golpe comunista” (Karl Marx, aniversariante de hoje, dá um duplo twist carpado no túmulo toda vez que alguém curte ou compartilha essa merda), ou difundem absurdos sobre programas sociais e seus beneficiários, reproduzidas constantemente por gente que tem preguiça de fazer uma rápida pesquisa no Google. Um boato de Facebook se espalha, vira “verdade”, e pessoas são linchadas até a morte por conta disso. E isso que a campanha eleitoral ainda não começou: 2010 é brincadeira de criança perto do que se verá neste ano.

Pior é abrir o Facebook e dar de cara com essas coisas. Farei logo a mais ampla seleção de contatos desde que criei minha conta lá, de modo a manter apenas o que vale a pena. Afinal, tenho o direito de não visualizar manifestações do quão maldosa pode ser a espécie humana. Porém, sei que isso equivale apenas a fechar a cortina do ônibus para não enxergar a paisagem que se encontra no lado de fora da janela: ela continua lá, e seguimos viajando.

O destino dessa viagem? A barbárie.

Será que falta muito? Há algum retorno antes de chegarmos lá?

Pena de morte e redução da maioridade penal: vingança ao invés de justiça

Volta e meia, o assunto é amplamente “discutido”. Basta acontecer algum crime violento de autoria de menor(es) de idade (principalmente se eles forem pobres e as vítimas, de classe média para cima), se começa a falar amplamente em redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos. Além, é claro, de defender a implantação da pena de morte no Brasil, geralmente sob o impacto de crimes cometidos com crueldade (de novo, com autores pobres e vítimas de classe média para cima). Apenas a punição é vista como “solução” para a violência.

Pois bem: mês passado, fui assaltado por um cara que eu ficaria bastante surpreso se descobrisse ser menor de idade – afinal, aparentava ter em torno de 30 anos. Sinal de que o fato dele poder ser preso não era suficiente para inibir suas ações criminosas. Se a maioridade penal fosse reduzida a 16 anos, o resultado é que teríamos mais pessoas abarrotando nossas superlotadas penitenciárias – a propósito, se tantos estão presos, isso quer dizer que idade penal não inibe a criminalidade.

E sobre a pena de morte, a maior prova de que ela não funciona como estratégia de dissuasão da criminalidade é o próprio fato de ser aplicada, como se vê em diversos países e, em especial, nos Estados Unidos (sempre citados como “exemplo”). Afinal, se a possibilidade de perder a vida fosse suficiente para inibir o criminoso, crimes puníveis com a pena capital não aconteceriam.

“Mas se matarmos o desgraçado ele não fará mais isso”, alguém dirá. Realmente, depois de morto ninguém comete crime. Porém, o problema maior é: matar o criminoso não reverterá o que ele fez. A pessoa que ele assassinou não voltará à vida.

Ou seja, no fundo o que as pessoas querem não é justiça, e sim, vingança (que, como disse o Seu Madruga no vídeo lá no começo, nunca é plena, e apenas alimenta o desejo do outro lado “dar o troco”). É até natural que tenhamos vontade de nos vingar quando pessoas próximas a nós são vítimas de crimes (muito embora um crime não justifique outro). Somos humanos: animais racionais, mas também emocionais. Só que o Estado não pode ser nem um pouco emocional. Não pode se deixar levar pelo “calor do momento”, ou acreditar que todo autor de crime é “mau por natureza”. Lembro minhas próprias palavras, ditas poucos dias após um linchamento defronte ao Mercado Público de Porto Alegre, em fevereiro:

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

O problema da criminalidade no Brasil é, de fato, grave. Como tal, não há uma solução simples para ele: é preciso, sim, que a lei se faça cumprir (e que seja igual para todos), mas também é necessário eliminar os fatores causadores do desrespeito às leis. Uma sociedade mais justa (o que inclui educação de qualidade) é um primeiro passo.

Quanto falta para o fundo do poço?

Na madrugada de segunda-feira, Porto Alegre foi palco de uma barbárie. Próximo ao Mercado Público, um morador de rua foi linchado por um grupo de pessoas, devido ao fato de supostamente ter tentado assaltar uma delas.

“É um a menos, tem de dar uma camaçada de pau nesses vagabundos mesmo!”, diz, espumando, o “comentarista-padrão” dos grandes portais. E sai bradando “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, dentre outras pérolas típicas dos mais apaixonados “defensores da civilização ocidental” – sim, eles acreditam que são “civilizados” empreendendo uma “cruzada” contra os “monstros” que querem “destruir nossa sociedade”.

Só que tem um problema: monstros não existem, são personagens de ficção. Todas aquelas pessoas que só de lembrarmos dá medo, por conta dos atos “desumanos” que cometeram, eram tão humanas quanto nós. Por mais incômodo que seja, todos temos algo em comum com Adolf Hitler e quaisquer criminosos: somos da mesma espécie biológica.

É muito fácil dizer que um criminoso é um “monstro” e que, por isso, é irrecuperável e não deve ter seus direitos humanos respeitados (o que obviamente não significa tolerar o crime cometido). E muito cômodo também. Pois reconhecer naquele “bandido” ou naquele ditador sanguinário um ser biologicamente igual a nós significa a necessidade de refletir sobre o quão culpados somos, enquanto sociedade, pela existência de pessoas assim. (Afinal de contas, nem todos os criminosos são psicopatas – ou seja, pessoas acometidas de um transtorno de personalidade.)

Em março de 2010, escrevi um texto sobre a estupidez que aflora toda vez que se fala sobre criminalidade. Muita gente exige pena de morte, “pau nos vagabundos” etc. Ou seja, o “cidadão médio” defende o uso da violência justamente para acabar com ela: é algo como o alcoólatra que sofre uma crise de abstinência achar que a solução para seu problema é encher a cara… Uma frase de Martin Luther King, que usei como epígrafe naquele texto, resume bem minha ideia.

A velha lei do olho por olho deixará a todos cegos.

Mortos não falam

Muammar al-Gaddafi está morto. Segundo a versão do governo de transição da Líbia, o ditador morreu em consequência de um tiroteio após sua captura.

Não lamento nem um pouco sua morte, pois Gaddafi foi um ditador cruel e sanguinário. Mas também não celebro.

Afinal, é fácil demais acusar um ditador de desrespeitar os direitos humanos, mas depois capturá-lo e ao invés de levá-lo à Justiça, optar por uma pura e simples “vingança”. Pois embora se diga que Gaddafi morreu devido ao tiroteio, outra versão fala que o ex-ditador teria sido executado – ou seja, assassinado. Talvez, até mesmo linchado. E pelo que vi em vários vídeos gravados após a captura, a hipótese do linchamento não me parece absurda.

O Ocidente saudou a morte de Gaddafi, ao invés de lembrar que melhor seria se ele fosse julgado pelos crimes cometidos em 42 anos de ditadura. O que não é surpresa. Aliás, a capa de hoje do jornal italiano L’Opinione resume bem os motivos da execução de Gaddafi – e da consequente aprovação do Ocidente.

Como Gaddafi está morto, ele não terá oportunidade de dizer em um tribunal muitas coisas que não sabemos, além do que já é conhecido: o mesmo Ocidente “simpático” aos rebeldes que se levantaram contra sua brutal ditadura também a apoiou quando conveniente. Afinal, se até a década de 1990 Gaddafi era um dos “vilões” para o Ocidente, nos anos 2000 o ditador “fez as pazes” com os antigos inimigos, a ponto dos serviços secretos de Estados Unidos e Reino Unido terem colaborado com a ditadura, entregando-lhe opositores.