O início de mais uma caminhada

O Caue Fonseca escreveu no Impedimento um texto que poderia ter sido muito bem escrito por mim.

São impressionantes as semelhanças: assim como o Caue, eu era sempre o último escolhido para os times de futebol na Educação Física e também comecei a gostar de futebol tardiamente. Em 1991, quando o Grêmio foi rebaixado, não me senti tão humilhado quanto em 2004 (se bem que 2004 realmente foi pior).

Comecei a prestar mais atenção em 1993, quando a professora de Educação Física praticamente impôs que eu jogasse futebol, já que em geral eu ficava sentado assistindo (chegou ao ponto de um colega inventar um gol para mim no passado, pois eu mal tocava na bola quando jogava). Em 1994, não assisti apenas aos jogos do Brasil na Copa – partidaços como Romênia x Colômbia, Romênia x Suécia e Bulgária x Alemanha foram marcantes no início de minha adolescência.

E foi naquela época que comecei a me sentir gremista mesmo. Não me lembro de nada da Copa do Brasil de 1989, mas de 1994 sim: pela primeira vez eu disse “ganhamos”, me sentindo “integrante” da “comunidade imaginada” chamada “torcida do Grêmio”.

No início de 1995 eu ainda era um “gremista em formação”. Para alguém em um processo desses, ganhar a Copa Libertadores da América seria demais. Simplesmente demais. E ela veio.

O Grêmio começou desacreditado, mas foi avançando na competição. Nas quartas-de-final, o adversário era o Palmeiras, grande favorito. Mas em dois jogos inesquecíveis, o Grêmio seguiu adiante: fez 5 a 0 no Olímpico, tomou 5 a 1 em São Paulo e se classificou no saldo. Depois passou pelo Emelec (que já havia enfrentado na primeira fase), empatando em 0 a 0 no Equador e vencendo por 2 a 0 no Olímpico. E na final, o Nacional de Medellín. Vitória de 3 a 1 no Olímpico, e empate na Colômbia em 1 a 1 conquistado no final do jogo, que nos deu o título (pela segunda vez).

Fica fácil entender o motivo pelo qual sou fascinado pela Libertadores. A quero mais do que qualquer outro caneco. Ganhar o Brasileirão em 2008 seria bom, mas o mais importante, a vaga para “La Copa”, nós conquistamos.

E agora, vou lá, começar mais uma caminhada.

Lembranças de um dia 30 de agosto

Há 12 anos, o Grêmio conquistava a América pela segunda vez, ao empatar em 1 a 1 com o Nacional de Medellín, no estádio Atanásio Girardot, em Medellín, Colômbia. Aristizábal marcou o primeiro gol da inesquecível noite de 30 de agosto de 1995 para o Nacional, dando esperança ao time colombiano. Mas aos 40 do segundo tempo, Dinho, de pênalti, empatou para o Tricolor.

A narração do vídeo é do Galvão Bueno – é um compacto da transmissão do jogo pela Globo. Assim, fica de alerta: para não ouvir ele, é preciso desligar o som.

Para maiores lembranças, o texto que escrevi há dois anos atrás, na comemoração do 10º aniversário daquela conquista.

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Relatos de 10 anos atrás

30 de agosto de 1995, uma quarta-feira, ficará para sempre na minha memória. Foi, sem dúvida, um dos dias mais felizes da minha vida.

Depois de uns dias de calor intenso, superior a 30 graus – bem típico do nosso maluco inverno – a temperatura estava mais baixa. Eu tinha aulas à tarde, na volta do colégio para casa cheguei a colocar um moletom. Foi um dos poucos momentos do dia em que não aparecia a minha camisa tricolor.

Era impossível conter o nervosismo, já que dentro de algumas horas o Grêmio estaria em campo em Medellín, na Colômbia, para enfrentar o Nacional e lutar pelo seu segundo título da Libertadores. Se fazia de tudo para tentar levar uma “vida normal” naquele dia decisivo.

Eu, por exemplo, saí para jantar por volta das 19 horas. Meu avô (que era colorado) estava em Porto Alegre, então fui jantar com ele, meu pai (também colorado), meu irmão (colorado fanático) e minha mãe (que é gremista e me fez torcedor do Grêmio). Fomos à galeteria Mamma Mia, na Rua Gaspar Martins.

Saí de lá com a minha mãe e o meu irmão, mas antes de irmos para casa, resolvemos fazer uma visita rápida a nossos ex-vizinhos da Rua Pelotas. O primeiro que encontramos era colorado, que disse ser “Inter… Nacional”. Depois encontramos os gremistas, nervosos, ansiosos pelo início da partida. Ainda faltava cerca de meia hora para o jogo começar.

Logo que chegamos em casa, meu irmão foi dormir, tinha aula no dia seguinte. Além disso, eu não queria saber de secador por perto durante o jogo.

E a partida começou. A primeira chance foi do Grêmio: numa falha grotesca do zagueiro Marulanda, do Nacional (o mesmo que marcou um gol contra na vitória tricolor de 3 a 1 no Olímpico, no primeiro jogo da final), Jardel pegou a bola e ficou cara a cara com Higuita. “Vai fazer, vai fazer!”, pensei e torci. Mas não fez: ruim com a bola no pé, Jardel mandou a bola na arquibancada…

Aos 12 minutos de jogo, gol do Nacional, 1 a 0, explosão de alegria no estádio em Medellín, pânico para os gremistas lá presentes e para os milhões que, como eu, acompanhavam o jogo pela TV. O 1 a 0 ainda servia para o Grêmio, mas se o Nacional fizesse 2 a 0, a decisão iria para os pênaltis. Seria necessária muita raça dali em diante, para agüentar a pressão colombiana.

No final do primeiro tempo, o Grêmio teve uma boa chance com Paulo Nunes, mas Higuita defendeu. O intervalo não me trouxe tranqüilidade, minha mãe me fez tomar um copo de água com açúcar para me acalmar. Ainda restavam 45 minutos de jogo, era tempo demais.

O segundo tempo começou semelhante ao primeiro: apenas o Nacional no ataque, o Grêmio se segurando lá atrás, do jeito que dava. À medida que o tempo passava, o nervosismo, ao invés de diminuir, aumentava: se o Grêmio levasse outro gol, teria menos tempo para fazer o seu…

Até que aos 40 minutos do segundo tempo, Nildo fez lançamento para Alexandre, que penetrou na área e foi derrubado. O árbitro chileno Salvador Imperatore não pensou duas vezes e apontou: pênalti!

Dinho pegou a bola para cobrar a penalidade. Eu sentia alívio e nervosismo ao mesmo tempo. Se Dinho convertesse, a taça era nossa. Agora, se ele errasse… Eu nem queria pensar nessa possibilidade.

Dinho bateu a bola à direita de Higuita, e o colombiano, já caído para a esquerda, não tinha o que fazer. Gol!

Mas a partida ainda não havia acabado. Ainda deu tempo de Goiano cometer uma falta violenta, um carrinho num colombiano, e ser expulso, depois de quase acontecer uma briga. Mas àquela altura, não era problema. Já passávamos dos 45 do segundo tempo.

E veio o alívio, e ainda mais, a alegria, com o apito final. Grêmio, de novo, Campeão da Libertadores! Pulei, apesar de morar no segundo andar do prédio: quem conseguia dormir com tanto foguete estourando?

No dia seguinte, acordei com dor de barriga. Alguma coisa que comi no Mamma Mia deve ter feito mal… Mas eu nem me sentia mal! Assim que levantei, liguei o rádio, a toda hora tocavam a música do Bi da América, e repetiam a narração do gol do Dinho.

Depois do almoço, coloquei a camisa do Grêmio, e fui para a aula. Mas ao chegar ao colégio, surpresa: todo mundo estava saindo. “Liberaram a gente para ver o Grêmio passar na Farrapos!”, diziam. Uma decisão que agradou a todos: os colorados estavam felizes por não terem aula.

Quase não cabia gente na Avenida Farrapos naquela tarde de 31 de agosto de 1995. As paradas do corredor de ônibus estavam tomadas. Parecia que a cidade toda (ou pouco mais da metade dela, para ser imparcial) estava ali.

Foi uma festa inesquecível. Nem parece que já fazem 10 anos. E vendo o Grêmio atual, confesso: que saudade!

O alívio só após o apito final

A vaga do Grêmio nas semifinais da Libertadores de 1995 estava praticamente assegurada. Afinal, era impossível (ou melhor, parecia impossível) o Palmeiras conseguir reverter a grande vantagem tricolor construída uma semana antes, numa histórica vitória de 5 a 0 no Olímpico. Quando a bola rolou na noite de 2 de agosto de 1995 no Parque Antártica, nenhum gremista imaginava que os próximos 90 minutos seriam dos mais angustiantes da história do Grêmio. E os palmeirenses que foram ao estádio mesmo numa situação amplamente desfavorável a seu time, tiveram o privilégio de assistir a um jogo sensacional, no qual o Palmeiras quase conseguiu o que seria considerado um milagre.

Os dois times estavam desfalcados por suspensões devido à briga generalizada da semana anterior. O Palmeiras não tinha Rivaldo e Válber, e o Grêmio perdera Dinho e também Danrlei, que fora suspenso com base em imagens da televisão, já que o árbitro não vira a agressão de Danrlei a Válber na briga. Murilo seria o goleiro naquela noite.

Havia sido criado um clima de guerra para aquela partida, conseqüência da pancadaria de Porto Alegre, e também em decorrência da grande desvantagem do Palmeiras, que na prática entrava em campo perdendo por 5 a 0. O Grêmio poderia perder por até 4 gols de diferença para se classificar às semifinais.

Logo, o Grêmio começou jogando com extrema tranqüilidade, que aumentou já aos 8 minutos de partida, quando Jardel fez o primeiro gol da noite. “Já era!”, pensei. O Palmeiras poderia empatar, até virar o jogo. Mas precisaria fazer 6 a 1 para levar a decisão aos pênaltis, e 7 a 1 para se classificar. O Grêmio, com o gol de Jardel, poderia levar 5 que se classificaria. Os gremistas otimistas, como eu, pensaram até mesmo em uma nova goleada, pois o Palmeiras teria de partir para cima de qualquer jeito, e se abriria na defesa, permitindo os contra-ataques tricolores.

Mas não foi o que aconteceu. O Palmeiras partiu para cima, abriu espaços, mas o Grêmio não conseguiu fazer mais nenhum gol. Quem fez gols foi o Palmeiras.

O empate alvi-verde chegou aos 29 minutos do primeiro tempo, com Cafu. Aos 39, Amaral virou para 2 a 1. Eu continuei tranqüilo no intervalo.

Aos 13 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro fez 3 a 1 para o Palmeiras. Pensei: “o Grêmio tá jogando mal, deixando o Palmeiras fazer gols, mas não vai perder a vaga, agora vai acordar”. Que nada! Aos 24 minutos, pênalti para o Palmeiras, convertido por Mancuso: 4 a 1. A partir daí, comecei a me preocupar. Afinal, o Palmeiras precisava de mais 2 gols para levar a decisão aos pênaltis, e tinha bastante tempo. Depois de ter feito um gol aos 13 e outro aos 24 do segundo tempo, ou seja, em um intervalo de 11 minutos, os cerca de 20 minutos restantes eram uma eternidade para os gremistas.

Minha preocupação se transformou em pânico aos 39 minutos, quando Cafu fez 5 a 1 para o Palmeiras. O time alvi-verde precisava de apenas mais um gol para levar a decisão aos pênaltis.

Restavam poucos minutos. Mas para os gremistas, passaram como se fossem uma, duas, três partidas inteiras. Foram os poucos minutos mais longos da história do Grêmio.

Quando o juiz soprou o apito final, tive uma das maiores sensações de alívio da minha vida. Parecia incrível que uma classificação tão fácil tivesse se tornado tão dramática. Por pouco o Grêmio não entregara o ouro para o Palmeiras. “Desse jeito, o Grêmio não ganha a Libertadores de jeito nenhum!”, pensei irritado com a atuação do time.

Mas fui conhecendo melhor a história do Grêmio e descobri: nunca o Grêmio teve moleza! O torcedor gremista se acostumou com isso. Não a “sofrer” (pois isso é coisa de colorado, que só uma vez na vida comemora título importante), mas sim, a se “angustiar”. Todas as grandes conquistas do Grêmio tiveram alguma dramaticidade. Afinal, se fosse fácil, não teria graça!

Hoje posso dizer que o título da Libertadores de 1995 veio graças a essa angústia contra o Palmeiras. Depois de quase perder a vaga na semifinal, o Grêmio percebeu que não podia calçar salto alto. Por isso, foi campeão.

A noite em que tive a certeza do título da Libertadores de 1995

Em 26 de julho de 1995, o Grêmio alcançou uma de suas vitórias mais incríveis. Antes da bola rolar, uma goleada de 5 a 0 jamais passou pela cabeça de dirigentes, comissão técnica, jogadores e torcedores. Ainda mais sobre o Palmeiras, que na época tinha um timaço. Em seu estrelado elenco, contava com nomes como Cafu, Roberto Carlos e Rivaldo. O Grêmio queria fazer 2 a 0 no Olímpico para depois garantir a classificação em São Paulo.

Antes do Grêmio marcar os gols, a partida foi disputadíssima, e com muitos lances ríspidos. A violência empregada por ambas as equipes tornava evidente que a qualquer momento ia dar briga. Afinal, o Palmeiras ainda não havia esquecido a eliminação da Copa do Brasil pelo mesmo Grêmio em pleno Parque Antártica, três meses antes, num jogo que também teve confusão, além de muita dramaticidade.

O primeiro alvi-verde expulso foi Rivaldo: após uma entrada dura de Rivarola, o craque palmeirense deu-lhe um pisão e levou o vermelho. Alguns minutos depois, o gremista Dinho e o palmeirense Válber trocaram socos e também foram expulsos. Parecia o fim da confusão, mas na verdade apenas estava começando…

A televisão logo tirou o foco do jogo e passou a filmar a parte do gramado atrás da goleira à direita do vídeo: os dois jogadores partiram um em direção ao outro, ninguém conseguia segurá-los. A primeira porrada foi de Dinho, que se jogou de voadora para cima de Válber, fazendo a torcida gremista vibrar como se fosse gol. Danrlei deu um soco em Válber pelas costas, o que lhe rendeu a suspensão para a partida de volta em São Paulo – além dos que haviam sido expulsos. Logo, todo mundo estava atrás da goleira, trocando sopapos. Após o jogo, Dinho e Válber foram prestar esclarecimentos numa delegacia de polícia.

Após 14 minutos de paralisação, o jogo recomeçou. E o Grêmio desandou a marcar gols. O primeiro foi de Arce, que soltou uma bomba da intermediária, após a defesa palmeirense rebater um escanteio. O segundo gol foi de Arílson: a bola chutada por ele desviou no volante argentino Mancuso e encobriu o goleiro palmeirense Sérgio. O primeiro tempo terminou 2 a 0 para o Grêmio. Já estava ótimo, tudo conforme os planos tricolores.

Mas o Grêmio não quis parar por aí. No início do segundo tempo, Jardel fez algo raro: um gol com o pé, já que em geral ele marcava gols apenas com a cabeça, pois era ruim com a bola no pé. O quarto gol gremista foi novamente de Jardel, e foi típico dele: de cabeça. E no quinto gol, Jardel deu duas cabeçadas: a primeira foi defendida por Sérgio, mas o artilheiro tricolor aproveitou o rebote do goleiro e cabeceou novamente a bola. 5 a 0!

Assisti a essa partida longe de Porto Alegre: estava passando as férias de inverno na casa da minha tia Zita, em São João do Polêsine. No intervalo, fui até um bar, onde meu tio João assistia o jogo. Na hora ele comentou: “quando a briga começou, comecei a torcer que o Dinho acabasse com aquele cara!”.

Com os 5 a 0, os gremistas já pensavam no adversário da semifinal da Libertadores. Eu já tinha certeza não só da classificação, mas também de que o título seria do Grêmio. A partida de volta contra o Palmeiras seria mera formalidade.

Uma semana depois, aprendi que “o jogo só termina depois que o juiz apita”.

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Dez anos depois (eu disse dez anos), o Dinho encontrou o Válber numa boate de Porto Alegre, e quase houve briga novamente. Aquela noite de 26 de julho de 1995, ao menos para os dois, jamais vai acabar.