As Copas que eu vi – Alemanha 2006

No final da tarde do dia 4 de setembro de 2005, me reuni com o meu amigo Diego Rodrigues para tomar cerveja e comer uns pastéis na pastelaria “República do Pastel”. O local, propriedade de um uruguaio, era ponto de encontro de orientales que vivem em Porto Alegre em dias de jogos da Celeste Olímpica. Caso daquele domingo, em que Uruguai e Colômbia se enfrentavam no Estádio Centenário, em Montevidéu, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, que se disputaria na Alemanha.

Naquele momento, eu nem imaginava que, em menos de seis meses, estaria no local que via pela televisão. Conversávamos sobre desilusões amorosas, e foi quando eu disse que “o amor é regido pela Lei de Murphy”. O Diego gostou tanto do que falei, que parou um garçom, pediu uma caneta emprestada e anotou a frase em um guardanapo que guardou consigo até o início de 2010, quando me repassou o que é um verdadeiro documento histórico.

Outra coisa que eu não imaginava, era que o Uruguai acabaria ficando fora da Copa. A vitória por 3 a 2 naquele jogo contra a Colômbia foi fundamental para a Celeste chegar à repescagem contra a Austrália, treinada por Guus Hiddink. Na primeira partida, em Montevidéu, 1 a 0 para o Uruguai. Quatro dias depois, em Sydney, 1 a 0 para os australianos nos 90 minutos. Na prorrogação, não foram marcados gols, e assim a decisão foi para os pênaltis. E a vitória foi dos Socceroos por 4 a 2: a Austrália voltava à Copa do Mundo depois de 32 anos – a última (e única) participação fora em 1974, ironicamente também na Alemanha (embora fosse apenas a Ocidental). Continuar lendo

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40 anos do AI-5

A “Lei de Murphy” diz em um de seus “artigos” que “nada está tão ruim que não possa piorar”.

Tal “artigo” é claramente aplicável ao Brasil entre 1964 e 1968 – mas dali até 1978, não havia como piorar.

O golpe militar de 1964 havia instituído a censura e suprimido muitas liberdades no país. Em 1968, questões nacionais, aliadas ao contexto mundial, em que a ordem vigente – tanto “de direita” quanto “de esquerda” – era contestada, levaram muitas pessoas às ruas para pedir a restauração da democracia. Afinal, os militares tinham tomado o poder em 1964 prometendo “reestabelecer a ordem”, que segundo os setores reacionários da sociedade estava ameaçada pelo “perigo comunista” representado pelo presidente João Goulart – que, vale lembrar, não era comunista.

No dia 2 de setembro de 1968, o deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso no Congresso pedindo que o povo boicotasse as comemorações do 7 de Setembro e que as mulheres defensoras da liberdade se recusassem a sair com oficiais, que foi considerado ofensivo aos militares. O governo fez ao Congresso um pedido de licença para processar o deputado – negado na sessão de 12 de dezembro.

Em resposta, no dia 13 (uma sexta-feira) o ditador Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5 (AI-5). Ao contrário de atos anteriores, tinha vigência por tempo indeterminado – tanto que valeu até 31 de dezembro de 1978. Foram proibidas reuniões e manifestações públicas de caráter político, acusados de “crimes políticos” perderam direito a habeas corpus, foi recrudescida a censura, o Presidente da República passou a ter direito de decretar o estado de sítio e prorrogá-lo pelo prazo que considerasse necessário, dentre diversas outras medidas autoritárias. A ditadura iniciada em 1964 mostrava que não era simplesmente “transitória”.

Para ler mais sobre o AI-5, três dicas:

Grande Murphy

Há tempos eu sou fiel seguidor de Murphy.

O descobrimento de sua Lei mudou minha vida. São vários “artigos”, mas pode-se dizer que ela se resume à frase: “se algo pode dar errado, dará”.

Certa vez, em um período de fossa, afoguei minhas mágoas num copo de cerveja. Meu amigo Diego (do blog Pensamentos do Mal) estava no bar para ouvir meus lamentos sobre um amor frustrado. Falei que “o amor é regido pela Lei de Murphy”: foi só eu começar a gostar dela, que ela começou a gostar de outro (dica: se você é mulher e procura namorado, me conquiste mesmo que eu não seja o seu tipo, que logo aparece outro cara para você!). O Diego gostou tanto da frase que pediu uma caneta emprestada ao garçom, para anotá-la no guardanapo. Ele jura que guarda até hoje aquele guardanapo.

O reconhecimento da força da Lei de Murphy fez com que eu nunca mais sofresse por amor. Pois cada paixonite é uma fossa em potencial. Toda vez que me livrei de paixões frustradas, entendi o significado da palavra “liberdade”. E aprendi a amar minha liberdade acima de tudo. Pois este amor não me deixa na fossa.

Mas eu não quero simplesmente falar de amor.

Em conversa com amigos ontem, eles achavam que era exagero eu comentar que o meu pai disse sentir “cheiro de 64”. Afinal, os tempos são outros: a Guerra Fria acabou, o Lula não é socialista, não há uma crise generalizada como em 1964, etc.

Pois bem: realmente parece exagero da minha parte escrever diversos textos “convocando à resistência”. Mas, como disse o Celso Lungaretti, não devemos subestimar a extrema-direita. Conforme o penúltimo parágrafo do texto dele, Há uma lâmina suspensa sobre nossa democracia. Poderá jamais ser acionada. Mas, melhor do que rezarmos para que não aconteça o pior, é desarmarmos o quanto antes essa guilhotina.

Assim como o fato de eu declarar amor incondicional à minha liberdade não impede que eu venha a me apaixonar (se será uma “guilhotina” só as conseqüências, felizes ou tristes, poderão dizer), o fato de poucos apoiarem um golpe não quer dizer que não haja a mínima chance dele acontecer. Não esqueçamos de Murphy.

Até porque eu também amo incondicionalmente a liberdade de expressão.

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Frase do dia: Se eu levasse um fora hoje e ele fosse noticiado, amanhã os jornais publicariam editoriais culpando o Lula.