Lembrando Mauss

Em uma cadeira de Antropologia que cursei na faculdade, tive a oportunidade de ler parte da obra de Marcel Mauss, que é conhecido pelo chamado “princípio da reciprocidade”.

De acordo com Mauss, nada é dado “de graça”. Sempre se espera receber algo em troca. Que não necessita ser material. Pode ser um bem simbólico. O princípio é resumido pela tríade “dar-receber-retribuir”.

Embora haja críticas ao modelo de Mauss – que não serão discutidas aqui nesta postagem -, seu princípio é facilmente observável na nossa sociedade.

Quando presenteamos alguém, por exemplo, esperamos que a outra pessoa também nos presenteie, com algo que tenha valor semelhante. Daí a razão dos tradicionais amigos-secretos de final de ano terem um preço máximo para os presentes: é preciso haver um equilíbrio entre todos os participantes, independentemente do poder aquisitivo de cada um, para não quebrar o espírito de confraternização. Caso contrário, haveria o risco de uma pessoa gastar 100 reais para comprar um presente e receber em troca algo que custa 2 reais. E vice-versa. O que seria extremamente desconfortável para o grupo: o “gastão” seria chamado de ostentador, e o que tem pouco dinheiro, de “mão-de-vaca”.

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Aonde quero chegar com tudo isso? Bom, quero é falar sobre a questão das doações feitas por empresas para campanhas à prefeitura de Porto Alegre.

O Grupo Gerdau doou (deu) dinheiro à todos os candidatos, com exceção de Vera Guasso (PSTU), que não aceitou. Não pensem que foi por “bondade”. Não achem que, por ter doado 100 mil reais à campanha de Luciana Genro (PSOL), a Gerdau tenha tornado-se “socialista” e “verde” (já que o PSOL está aliado ao PV).

De qualquer um que se eleger – a exceção seria Vera Guasso, que certamente não se elegerá – a Gerdau espera uma “retribuição”. Não será a devolução do dinheiro doado, mas sim, que a prefeitura atenda a seus interesses. Que não são, necessariamente, os mesmos da população de Porto Alegre…

Por essa razão, decidi: vou de Vera Guasso. O PSTU é o único partido que não está “de rabo preso” nessa eleição. Não é o único coerente: o pessoal da direita receber dinheiro de empresas não é nada estranho. De se lamentar, é ver o PSOL fazer o que tanto criticava no PT…

“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, poderia ser o lema deles.

E além disso, é urgente uma mudança na legislação eleitoral. Todos os partidos tinham de ter tempo igual na televisão e no rádio, para assim terem – pelo menos teoricamente – a mesma chance de vencer. E também para que as coligações partidárias levassem em conta programas políticos, e não “tempo de exposição na mídia”.

E também deveria ser expressamente proibido receber doações de empresas privadas. O financiamento de campanhas eleitorais deveria ser público. Acabaria esse negócio de candidatos com o “rabo preso”, que ajudados na campanha procurariam retribuir em seus mandatos para os financiadores de sua eleição.

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