A pior invenção do Facebook

Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, tornou público algo que qualquer um que não seja ingênuo já suspeitava: que o governo dos EUA espiona as comunicações em todo o mundo. Afinal, já tinha lido várias vezes acerca da vulnerabilidade de nossa privacidade em redes como o Facebook (definido por Julian Assange como uma “terrivel máquina de espionagem”).

Porém, engana-se quem pensa que a espionagem no Facebook é feita apenas pelo governo dos EUA. Ter um perfil na rede significa, basicamente, permitir que seus amigos espionem sua vida (e que nós espionemos as deles), visto que costumamos compartilhar muita coisa que talvez fosse melhor deixar “offline”.

Aquela pessoa pela qual se é apaixonado, por exemplo. No tempo em que Luis Fernando Verissimo escreveu sua genial crônica, quando batia o desespero para saber se ela tinha alguém, lá ia o amigo à meia-noite se esconder detrás de um poste, “sob o olhar curioso de cachorros e porteiros”, para ver se ela chegava em casa acompanhada. Hoje não é mais preciso fazer isso, ou melhor, o poste apenas mudou de nome: basta dar uma olhada no perfil dela no Facebook.

Porém, algumas coisas ainda eram, em tese, possíveis de serem “escondidas” no Facebook. Como as mensagens privadas, em que é possível falar com alguma pessoa em específico sem que ninguém saiba o conteúdo da conversa. Ou seja, algo não tão diferente do bom e velho e-mail, mas com a vantagem de que condiz mais com a ideia de bate-papo, enquanto o e-mail parece mais adequado ao envio de textos mais longos.

Era assim até meados do ano passado. Foi quando inventaram de acabar com a possibilidade de fingir não ter visto a mensagem.

Quando mandamos um e-mail, a não ser que enviemos um pedido de confirmação automática de recebimento (que só funciona em programas específicos, como o Outlook), não sabemos quando o destinatário recebe a mensagem. É algo bom: se quem recebe precisa pensar bastante em uma resposta, pode demorar a enviá-la, e se questionado por isso, pode inventar uma história, dizendo que respondeu na hora em que finalmente acessou a internet e viu os e-mails.

Já nas mensagens privadas do Facebook, isso acabou: ao abrir a mensagem recebida, quem mandou já sabe que ela foi lida. Uma maneira de “enganar” o sistema seria não abrir a mensagem, mas aí se ela é longa não há como ler na íntegra.

Muitas vezes é bobagem e não é necessário responder, pensa quem recebeu. Porém, será que a pessoa que mandou tem a mesma opinião? Aí, além dela esperar, ainda recebe aquela punhalada na alma que é saber o momento em que a mensagem foi visualizada; passam-se minutos, horas, dias, e nada de vir uma resposta.

Se a mensagem não foi respondida três dias depois, mesmo que não houvesse a confirmação do recebimento seria um tanto óbvio que o destinatário leu mas simplesmente ignorou – ainda mais que no Facebook somos todos “Obamas em potencial”, espionamos os perfis alheios e sabemos que a pessoa fez um monte de coisas, menos responder. Porém, sempre haveria a possibilidade de que ela tivesse recebido muitas mensagens e ainda nem tivesse lido a nossa, e pelo menos seria possível alimentar a ilusão de que, mais cedo ou mais tarde, a resposta viria. E com o tempo, talvez a mensagem até fosse esquecida.

Porém, o Facebook acabou com isso, e restou apenas a irritação que dá mandar uma mensagem e esperar que ela seja respondida, e a frustração que vem quando passam vários dias e fica óbvio que o Taiti vai ganhar a Copa do Mundo antes de recebermos a resposta. Afinal, já sabemos (e o Obama também sabe) que ela viu e não deu importância.

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Sobre a visita de Yoani Sánchez ao Brasil

No início da semana passada, a blogueira cubana Yoani Sánchez deu início a uma “turnê” mundial, na qual pretende visitar diversos países, após o governo de Cuba ter diminuído as restrições para viagens ao exterior. Sánchez começou seu “giro” pelo Brasil, onde foi alvo de protestos tanto em sua chegada ao país, no aeroporto do Recife, como em Feira de Santana (BA).

Sinceramente, achei uma tremenda burrice tais manifestações. Serviram apenas para a velha mídia repetir suas teses hipócritas de que a esquerda é contra a liberdade de expressão: embora saibamos que os campeões da restrição à livre expressão são justamente as grandes corporações midiáticas, ao mesmo tempo ficou claro que para alguns militantes de esquerda, o fato de Yoani Sánchez criticar o governo de Cuba é um incômodo.

“Ah, mas Yoani Sánchez é agente da CIA e blá-blá-blá”. Pode até ser. Inclusive, há muita coisa mal-explicada sobre ela. E justamente por isso que é preciso deixá-la falar: para que mais de suas contradições se tornem visíveis (uma delas já é notória: Yoani, a “defensora da democracia”, apareceu numa foto junto com o deputado Jair Bolsonaro, nostálgico da ditadura militar).

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Em geral, as opiniões sobre Cuba são “contaminadas”, variando conforme a ideologia de cada um. É muito grande a probabilidade de que o país não seja nem um inferno como costuma definir a direita, nem o “paraíso” pintado por muitos da esquerda: obviamente tem qualidades (como a educação e a saúde famosas por serem públicas e de qualidade), mas também problemas. (Recentemente o Alexandre Haubrich esteve lá e escreveu uma matéria sobre as eleições gerais que aconteceram no dia 3 de fevereiro, em breve certamente teremos mais relatos dele sobre Cuba.)

Um dos problemas certamente diz respeito à liberdade de expressão: há muitas acusações de que ela não existe em Cuba. Dar uma opinião sem correr risco de perseguição política tem de ser um direito assegurado, e a luta por ele é das mais legítimas.

Porém, é preciso que ela se dê em toda a parte, não só onde os Estados Unidos não têm seus interesses atendidos. Muitos dos que endeusam Yoani Sánchez não costumam falar nada sobre Julian Assange, fundador do WikiLeaks, que há meses está refugiado na embaixada do Equador em Londres para não ser preso devido a uma acusação por crime sexual na Suécia (que veio à tona, curiosamente, logo após o WikiLeaks revelar telegramas secretos da diplomacia dos EUA): há o temor de que caso o australiano seja entregue às autoridades suecas, ele acabe sendo extraditado para os EUA e condenado à morte.

Charge de Carlos Latuff