Dilma lá

No início desta noite de 31 de outubro de 2010, o Brasil vive um momento histórico, ao eleger pela primeira vez uma mulher para a Presidência da República.

Mais do que uma vitória das mulheres brasileiras, é também uma acachapante e merecidíssima derrota da direita reacionária (a “grande mídia” incluída). De nada adiantaram as manipulações, os boatos, as correntes, os trolls, a “polêmica” sobre o aborto…

Perderam! Bem feito!!!

Enfim, é hora de comemorar a vitória de Dilma – que significa a derrota reacionária. Mas depois, é preciso que não deixemos de ter um olhar crítico sobre o governo Dilma.

E vamos curtir, mais uma vez, o samba que podemos considerar a trilha sonora desta vitória:

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Atualização (31/10/2010, 21:37): Quando falo em derrota da direita reacionária, claro que me refiro apenas ao processo eleitoral, pois é preciso ficar de olho em suas movimentações. Quando o “jornalista” Arnaldo Jabor compara 2010 com 1963 (todos sabem – ou deveriam saber – o que aconteceu em 1964), se isso não é pregação golpista, sei lá o que é.

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Estamos nos acréscimos

Acabou “o jogo”, ou seja, a votação (pelo menos aqui em Porto Alegre). Agora é esperar o resultado final.

Felizmente, parece que ele não será como o daquele inesquecível confronto entre Grêmio e Palmeiras pela Libertadores de 1995, que eu lembrei há pouco mais de duas semanas. Na comparação, podemos dizer que a campanha de Dilma “marcou o gol”, e ainda contou com a ajuda de Serra, que marcou um “golaço contra”: aquela bola – melhor, bolinha de papel – foi “no ângulo”!

Não há argumentos pró-Serra

O texto abaixo foi escrito por meu amigo Fábio Castilhos Figueredo, professor de Língua Portuguesa, e que há um ano ministra aulas no Timor-Leste (mas em breve estará de volta ao Brasil). Leiam:

“Por que não votar na Dilma.” Ou “Votar na Dilma, por que não?”

Todas as pessoas que me conhecem sabem que sou libriano. E como tal, adoro fazer ponderações de toda ordem (mais bunda, menos bunda; beleza, inteligência; esquerda, direita). Sou aquele tipo de libriano que adora ser gentil e perguntar a todas as pessoas “E tu? Prefere o quê?” só para não ter comigo a responsabilidade de escolher o cardápio do dia. No entanto, depois de algumas ponderações, sei perfeitamente escolher, desde que tenha tido a oportunidade de observar todos os pontos.

Como também devem saber, estou vivendo um ano fora do Brasil. Justamente ano de eleição. Apesar de não ter transferido meu título para cá, para não ter toda a burocracia de refazer o processo novamente ao chegar no Brasil, tenho acompanhado os debates e as propagandas políticas da melhor forma possível. Acompanhei algumas propagandas do Tiririca e seus atuais confrontos com a Justiça Eleitoral; fiquei sabendo das vitórias de cada estado; concordei com as derrotas, tanto eleitorais como judiciárias, de muitos medalhões. Por estar mais próximo de pessoas de outros recantos do Brasil, acompanhei a eleição em quase todo o território, do Ceará ao Rio de Janeiro, de Minas Gerais a Bahia. No entanto, não tenho uma televisão para isso.

No Brasil eu gostava de acompanhar o horário eleitoral. Não era, nem sou, um fanático, mas gostava de poder saber porque poderia votar neste ou naquele candidato. Com essa distância das urnas (entenderam a metáfora?), recebi muitas manifestações pela internet, meio de comunicação maravilhoso, pois não tem filtro, é público e nem um pouco criterioso. Como na internet todos podem mandar o que quiserem para quem quiserem, recebi toda a sorte de correntes, piadas, charges, manifestos políticos.

O que me chama a atenção é que os lendo, senti uma grande falta do que se dizer. Sou professor, eu trabalho com a Língua Portuguesa, ela é meu meio de sustento; sua escrita é meu objeto de estudo; sua argumentação é meu mestrado. Como professor, posso afirmar que li muitas comparações entre os governos Lula e FHC, li ponderações sobre os feitos de um e de outro; admito que FHC foi essencial para o Brasil durante 8 anos de mandato; reconheço que os 8 anos de governo Lula foram os mais crescentes da nação. Não há como negar que a população brasileira teve seus momentos de glória durante a presidência de FHC, mas conseguiu ser mais emergente no governo Lula. Não vamos dar todos os méritos para o Lula, pois sabemos de suas falhas, de seus exageros e de seus “eu não sabia de nada”; contudo, não é possível canonizar um FHC que pouco investiu em educação, saúde e segurança, apesar de tê-lo feito em economia, somente.

Os candidatos que ao povo se apresentam para o pleito devem de fato continuar o trabalho de um ou de outro. O problema, para mim, é como farão isso. Recebi muitas propostas para o governo Dilma. Com algumas concordo, com outras discordo.

Sobre o candidato Serra, nada recebi de proposta. Sempre que abro minha caixa de e-mail recebo diversos pedidos para não votar na Dilma, mas em nenhum deles me dizem seriamente porquê. Não devo votar na Dilma porque ela é mulher; porque ela é dentuça; porque o amigo dela fala errado; porque foi guerrilheira; porque supostamente não vai poder viajar senão será presa logo após a aterrissagem do avião; porque ela é o diabo, vai provocar o armagedom e obrigar as pessoas a fazer abortos. Se descarregar minha caixa de mails, há uma infinidade de piadas (muitas sem graça) para que apenas não vote na Dilma. Mas vou votar em quem? No Serra? Por quê?

A argumentação em Língua Portuguesa se sustenta em vários alicerces. Podemos usar desde o discurso de autoridade até uma argumentação baseada na escolha das palavras. Como linguísta, prefiro observar a linguagem nela mesma. Se um discurso é bem feito, é porque houve uma série de escolhas, de escritas, de construções que o fizeram ser bem feito. Confesso que não recebi nenhuma proposta ou discurso para que imaginasse votar no Serra, nem uma frase, nem uma proposta, nem uma ideia; apenas os clássicos “não vote na Dilma”.

Então me questiono: “Votar na Dilma, por que não?” Desde incentivo à Educação, aos professores e às universidades; desde o combate ao racismo e à violência contra a mulher; desde uma avaliação das diversas bolsas-caridade espalhadas no país, o que aparece como ideia ou descontentamento do brasileiro, meus descontentamentos atuais, estão presentes nas propostas dela. Não como uma coisa extremamente nova, mas como um ajuste ao que vem sendo feito pelo atual governo.

Sei que ninguém é ingênuo na Política. Por vezes, ingênuo é o povo brasileiro, que se deixa levar pelo riso fácil ou pelo discurso religioso. Meus amigos que me conhecem sabem que não sou dado a mails de corrente e de bobagens a toda hora. Se me dou ao trabalho de escrever essas duas páginas de texto, é porque sei que os que lerão poderão perceber que ainda sou o ponderado de sempre. Colocar uma mulher na presidência, por que não?

Prof. Ms. Fábio Castilhos Figueredo

Este é o candidato da TFP…

Olhem a declaração de José Serra:

Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45.

Cada vez mais Serra comprova que merecerá o esquecimento como político após essa campanha eleitoral. Depois da baixaria sobre o aborto, das mentiras sobre a “democracia ameaçada” e da bolinha de papel, agora vem com esta sugestão de que mulheres peçam votos oferecendo sexo em troca (sim, se é para dizerem que “vai ter mais chance quem votar no 45”, é chance do quê?). Além de demonstrar seu machismo, o tucano comporta-se como “cafetão” – tanto que a hashtag #serracafetao chegou a ter destaque nos TTs do Twitter.

A propósito, gostaria de saber o que a TFP, brava defensora “da moral e dos bons costumes” e apoiadora do candidato tucano, acha disso…

O samba da bolinha de papel

Simplesmente sensacional. “Partido Alto Bolinha de Papel”, por Tantinho da Mangueira e Serginho Procopio.

Por que votar em Serra

É simplesmente genial a campanha #votoserrapq, do blog Brasil e Desenvolvimento. O vídeo, carregado de ironia, demonstra o pensamento de muitos dos eleitores de Serra, que obviamente eles não assumem (até porque muitas vezes o defendem sem terem noção disso). É como o Classe Média Way of Life, que muitos seguem à risca sem jamais terem lido o sensacional blog.

Afinal, a ironia serve justamente para isso: fazer as pessoas pensarem, e perceberem o que afinal elas andam fazendo e/ou defendendo.

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Agora, (mais) um bom motivo para não votar Serra: o PL 84/99, ou AI-5 digital, cujo autor é tucano, o senador Eduardo Azeredo.

O Brasil não precisa disso

Depois da bolinha de papel, agora há um rolo de fita adesiva. O vídeo que um jornalista da Folha de São Paulo gravou com seu celular, exibido pela Globo e analisado por um perito (cuja especialidade é áudio), deixa bem claro: José Serra foi agredido duas vezes. (Sim, seja bolinha de papel, fita adesiva ou simples palavrões, agressão é agressão e isso deve ser repudiado.)

Não mudo minhas afirmações de ontem: a atitude dos militantes petistas de protestarem contra Serra foi extremamente burra, por ser óbvio que isso resultaria em confusão, já que o tucano estava acompanhado de muitos apoiadores. Assim como continuo a considerar a própria campanha de Serra como responsável pelo clima de intolerância no atual processo eleitoral. Foram eles que começaram toda a baixaria com as correntes, as fichas falsas de Dilma, os trolls (muitas vezes, pagos para tumultuar os debates na blogosfera de esquerda) etc.

Resta torcer para que, sendo derrotado, o PSDB reveja sua maneira de fazer campanha. Pois o Brasil não precisa de ódio na política, como aconteceu em tempos tão sombrios (e nem tão distantes) de sua História.

Acabou a farsa

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem explícito o meu repúdio aos acontecimentos de ontem no Rio de Janeiro, envolvendo militantes do PT e do PSDB. Por mais que houvesse motivos para protestar contra Serra, foi uma atitude extremamente burra: afinal, o candidato tucano estava acompanhado por muitos apoiadores, ou seja, obviamente o resultado seria a confusão que se viu – e, saindo na “grande mídia”, a probabilidade da notícia ser tendenciosa pró-Serra era enorme.

Por sorte, foi justamente um dos veículos desta “grande mídia” que acabou desmascarando a farsa que os demotucanos estavam tentando construir: a de que Serra levara uma “pedrada” durante o tumulto. O vídeo do SBT mostra muito bem: o candidato foi atingido por um objeto que não é claramente identificável, mas parece ser uma bolinha de papel (colégio, lembram?). Tanto que ele sequer leva a mão à cabeça na hora, o que seria natural se fosse um objeto mais pesado, que causasse dor. É só mais adiante, provavelmente orientado por assessores, que Serra age como se estivesse sentindo dor.

Mas ao mesmo tempo que repudio o acontecido ontem, também não posso deixar de dizer que Serra “colheu o que plantou”. Pois sua campanha só tem pregado o ódio, a intolerância.

O ideal é que não se caia em provocações de adversários – pois tudo o que eles querem é confronto, para posarem de vítimas. O problema é que ninguém tem “sangue de barata”, e por isso é que eles provocam.

Telemarketing direitoso

Se tem coisa que me deixa irritado, é receber ligação de telemarketing. Em geral, aqueles malas (não me refiro aos trabalhadores, e sim aos seus patrões, que ordenam os telefonemas) me oferecem produtos que, se eu os quisesse, obviamente não precisaria ser induzido a adquiri-los via telefone! (Exato, eu não sou um consumista que sai comprando qualquer porcaria só porque “tá barato” ou “tá na moda”.)

E agora, fiquei sabendo da “novidade”: o telemarketing direitoso. O azarado atende ao telefone e ouve uma mensagem contra Dilma. Exato: não é a favor de Serra, e sim, contra Dilma.

Isso dá apenas mais uma amostra de como é canalha a campanha do PSDB. Por não terem argumentos em favor de seu candidato, apenas atacam a adversária. E chegam a fazer isso da pior maneira possível, que é incomodando as pessoas (sim, incomoda ter de atender ao telefone quando se está ocupado com alguma coisa – ainda mais para receber uma bosta de uma propaganda).

Por sorte, ainda não atendi a uma ligação dessas. Pelo visto, é uma mensagem gravada, ou seja, não poderei responder na hora que a estiver ouvindo. Assim, já deixo registrado aqui o “vai tomar no cobre” para essa porra de telemarketing direitoso!