Um ano sem José

Como disse Pilar del Río: “Este não é um ano sem Saramago. É um ano sem José.”

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José Saramago

Faleceu hoje pela manhã o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998 – o primeiro de um autor em língua portuguesa.

Fato muito triste, ainda mais se levarmos em conta que Saramago era não só um grande escritor, como também um grande cidadão, bastante crítico da sociedade atual. Que nunca deixou de denunciar as principais mazelas de nosso planeta.

Há quem simplesmente passa pelo mundo, existe por um certo número de anos e depois morre, sem deixar nenhum legado, nada de importante a ser lembrado.

Já pessoas como José Saramago, podem até morrer fisicamente. Deixam de conviver conosco. Mas o que fizeram, a mensagem que deixaram… Isso sempre será lembrado. E continuará a ter muita importância nas vidas de muitos.

Por isso, podemos dizer que Saramago jamais morrerá no coração dos amantes da boa literatura e dos que desejam um mundo mais justo.

Desencanto

Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo.

Pensar, pensar

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

José Saramago: “Os problemas estão aí, mas o que as pessoas fazem para resolvê-los?”

Assisti ao vídeo abaixo no blog dos Amigos da Gonçalo, e posto aqui. Não deixe de ver: são pouco menos de nove minutos que dizem muito mais sobre o mundo do que um “Jornal Nacional” inteiro.