O dia da mentira

Apesar da “comemoração” acontecer no dia 31 de março, a data certa é 1º de abril. Afinal de contas, trata-se da celebração de uma mentira: a de que em 1964 o Brasil foi salvo de uma “ditadura comunista” por meio de uma “revolução”.

Isso mesmo: uma revolução de direita. Alguém já tinha visto uma maluquice dessas?

Só que tem mais. O objetivo declarado dessa “revolução” conservadora era o de “defender a democracia”. Afinal, nada mais “ditatorial” do que o presidente não ser da direita: basta pensar um pouquinho no povo, que já começa a gritaria de que o governo é “comunista”, “autoritário” etc. Democrático é derrubar pelas armas um presidente eleito por um povo que “não sabe votar”, segundo esses tais “revolucionários” da direita.

A “defesa da democracia” se daria colocando um general no governo até 31 de janeiro de 1966, quando se encerraria o mandato do “ditador” João Goulart (sim, “ditador”, pois fora eleito por um povo que “não sabe votar”): em outubro de 1965, certamente o povo já teria “aprendido a votar” e assim um candidato de direita (provavelmente Carlos Lacerda, entusiasmado apoiador da “revolução”) venceria.

Mas, em 1965 o povo ainda não tinha “aprendido” (tanto que a eleição acabaria acontecendo só em 1989). Tinha de “levar mais porrada”, e se só bater não adiantasse, torturas, mortes e desaparecimentos faziam parte do script. Algo tão “democrático”, que até Carlos Lacerda acabou mudando de lado ao perceber que aquela “revolução” iniciada em 31 de março de 1964 e consolidada no dia seguinte duraria bem mais do que prometera da boca para fora.

Aliás, aquele golpe que se utilizou de uma fantasia para acabar com a democracia (já que por meio dela a direita não conseguia retomar a presidência) venceu na data que combina com ele: 1º de abril, o “dia da mentira”, também conhecido como “dia dos bobos”. Pois Lacerda não foi o único a ser enganado. Muita gente acreditou no papo de que se tratava de uma “revolução” que impediria a implantação de uma “ditadura comunista” e assim salvaria a democracia brasileira.

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Mas uma coisa também precisa ser dita: quem organizou aquilo não era nada “bobo”. Já disse uma vez que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes, por serem contestadoras; mas ao mesmo tempo, se os líderes conservadores de 1964 fossem “burros”, não teriam vencido.

Aliás, é preciso ser bem inteligente para engambelar as pessoas por quase 50 anos – sim, ainda há quem acredite que em 1964 fomos “salvos”…

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Campanha da Legalidade – 50 anos

O povo na Praça da Matriz, agosto de 1961

Folha da Tarde, 25/08/1961

Entre o final de agosto e o começo de setembro de 1961, o Brasil esteve na iminência de uma guerra civil. O presidente Jânio Quadros, no poder há menos de sete meses, renunciou ao cargo no dia 25 de agosto denunciando a pressão de “forças terríveis”. Conforme previa a Constituição de 1946, o vice-presidente João Goulart deveria assumir a presidência. Só que este encontrava-se em viagem oficial à República Popular da China, e os ministros militares iniciaram um movimento golpista que tinha por objetivo impedir o retorno de Jango ao Brasil e, consequentemente, sua posse como Presidente da República.

Naquela época o mundo vivia o auge da Guerra Fria. Em abril, uma tentativa de invasão a Cuba – a famosa Invasão da Baía dos Porcos – por exilados cubanos treinados pelos Estados Unidos e ligados à anterior ditadura de Fulgêncio Batista – derrubada pela Revolução Cubana no início de 1959 – resultou em fracasso, e a Revolução, iniciada como um movimento nacionalista, assumiu seu caráter socialista. No dia 13 de agosto, teve início a construção do Muro de Berlim, que por 28 anos impediria o trânsito do lado oriental (capital da República Democrática Alemã, alinhada com a União Soviética) para o lado ocidental (pertencente à República Federal da Alemanha, alinhada com os EUA). Tais fatos aumentaram a tensão entre as duas superpotências mundiais, e obviamente tiveram reflexos no debate político de todo o mundo – antes da renúncia de Jânio Quadros, a crise internacional provocada pela construção do Muro de Berlim era destaque nos jornais.

Correio do Povo, 26/08/1961

E justamente em uma época de tanta tensão internacional, Jânio Quadros, que em outubro de 1960 fora eleito com o apoio da conservadora UDN, dava mostras de que sua política externa não seria voltada apenas ao Ocidente: no início de agosto, recebeu o cosmonauta soviético Yuri Gagarin (primeiro homem a ir ao espaço), e no dia 19, condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul (a mais alta honraria brasileira) o revolucionário argentino e Ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara. Tais atos desagradavam não somente aos conservadores, como também aos Estados Unidos.

A condecoração de Che deu início a uma crise política. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, passou a atacar violentamente o governo federal, inclusive acusando Jânio de tramar um golpe de Estado com o objetivo de tornar-se ditador. Lacerda era dono do jornal Tribuna da Imprensa, que tivera importante papel na crise política de agosto de 1954, que culminara com o suicídio de Getúlio Vargas.

Na manhã do dia 25 de agosto, Jânio Quadros enviou ao Congresso sua carta de renúncia, surpreendendo o país. Diz-se que o verdadeiro objetivo de Jânio era que sua renúncia não fosse aceita tanto pelo parlamento como pelo povo, de forma a que ele pudesse retornar ao governo com poderes ampliados. Porém, nada disso aconteceu.

João Goulart (PTB), o vice-presidente, era considerado pelos setores conservadores como “esquerdista demais”. Contribuía para o temor destes o fato de Jango estar na República Popular da China, onde a revolução socialista se dera no campo – e no Brasil de 1961, a maior parte da população era rural.

Correio do Povo, 29/08/1961

O veto dos ministros militares à posse de Jango desencadeou a chamada Campanha da Legalidade. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (PTB), conclamou os brasileiros a resistirem ao golpe e desta forma garantirem o cumprimento da Constituição e a manutenção do regime democrático. Para que suas mensagens chegassem o mais longe (e o mais rápido) possível, em 27 de agosto Brizola requisitou a Rádio Guaíba, que na época tinha os mais potentes transmissores de rádio no Estado, formando uma rede de radiodifusão que ficou conhecida como “Cadeia da Legalidade”. O principal estúdio foi instalado no porão do Palácio Piratini, de onde Brizola falava. Os transmissores foram ajustados acima da potência máxima permitida por lei, e o sinal chegou a ser captado por radioamadores na Nova Zelândia, do outro lado do mundo.

Os ministros militares estavam decididos a esmagar a resistência e assim consolidar o golpe. Se preciso, o Palácio Piratini seria bombardeado, para calar Brizola e a Cadeia da Legalidade. Por conta da real ameaça, no dia 28 o governador ordenou o fechamento das escolas, e pediu também que a multidão em frente ao palácio se retirasse – pedido que não foi atendido.

Folha da Tarde, 28/08/1961

O III Exército (sediado em Porto Alegre) aderiu à causa da Legalidade, assim como o governador de Goiás (Estado que praticamente circunda Brasília), Mauro Borges. E o golpe não se consumou. Mas ainda assim, não foi uma vitória completa: a solução para o impasse foi uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo como sistema de governo no Brasil (até janeiro de 1963, quando em um plebiscito o povo decidiu pela volta ao presidencialismo), de forma a enfraquecer Jango. E além disso, o golpe apenas foi adiado para 1964 – com os mesmos argumentos de 1961, ou seja, de “combater o comunismo”.

Mas ainda assim, a Campanha da Legalidade tem grande valor histórico. Pois demonstrou a importância de se saber usar a mídia: Brizola percebeu que não bastava declarar resistência, também era preciso comunicá-la o mais rápido possível para o máximo de pessoas, e por isso tratou de logo formar a “Cadeia da Legalidade” com tal propósito. Naquela época, o rádio era o meio mais eficaz de se atingir muita gente: a televisão era incipiente, os jornais não tinham um público leitor tão grande (aliás, como ainda não têm), e não existia internet.

A Legalidade também serviu de lição aos golpistas, que perceberam a necessidade de terem “apoio da opinião pública” para seu propósito. Tanto que, se em 1961 a população foi às ruas repudiar a quebra da ordem constitucional, três anos depois aconteceu o contrário. O que também deve servir de alerta a todos nós: com base nessa tal de “opinião pública”, se procurou “legitimar” o golpe de 1964.

Leonel Brizola no estúdio instalado no porão do Piratini

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Imagens: Acervo do Museu da Comunicação Social Hipólito da Costa

Carlos Lacerda, o comunista

Certos direitosos se contradizem muito facilmente. Como um tal de Antonio, que deixou um comentário com argumentação facilmente desmontável no texto de quarta-feira, procurando “justificar” o golpe de 1964.

Concordo com sua opinião. mas não esqueça que quem foi perseguido pela ditadura não queria democracia, mas sim uma ditadura comunista como as de Cuba, URSS, etc. Concordo também que os torturadores devem ser punidos. Os torturadores dos dois lados, pois no momento os guerrilheiros estão recebendo polpudas somas devido a terem sido “perseguidos”. Os criminosos de direita e de esquerda devem receber o mesmo tratamento, pois, do contrário, será apenas revanchismo e não democracia onde todos devem ser iguais perante a lei.

Aquele velho papo furado de que o golpe “impediu uma ditadura comunista” (que bela maneira de proteger a democracia, implantando uma ditadura…), de que “é preciso punir os dois lados” (como se ambos fossem equivalentes em força, e nenhum deles tivesse sofrido punição – ou querem coisa pior que tortura, execução e desaparecimentos?), revanchismo etc.

Mas o argumento mais tosco é o de que “quem foi perseguido pela ditadura queria uma ditadura comunista”. Pois bem: se é assim, isso quer dizer que Carlos Lacerda era comunista!

É, ele mesmo, um dos mais ferrenhos anticomunistas que o Brasil tinha nas décadas de 50 e 60. Carlos Lacerda chegou a ser comunista na juventude, mas depois “endireitou”, e foi um modelo perfeito para o famoso ditado “o pior reacionário é o esquerdista recalcado”. Dono do jornal “Tribuna da Imprensa” e líder da conservadora UDN, Lacerda apoiou abertamente o golpe de 1964, ocasião em que era governador do Estado da Guanabara (correspondente ao atual município do Rio de Janeiro).

Deposto João Goulart, era previsto que os militares ficariam no poder até 31 de janeiro de 1966, data em que se encerraria o mandato de Jango e seria empossado o presidente eleito em 3 de outubro de 1965. Dentre os cotados para vencer aquela eleição estavam Carlos Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Só que, como todos sabem, o regime militar não foi apenas “transitório”, e acabou apenas em 1985. E os planos de Lacerda para chegar à presidência foram por água abaixo.

Percebendo que fora “escanteado” pelos militares, Lacerda voltou-se contra a ditadura e uniu-se a seus antigos adversário Juscelino e Jango, formando a “Frente Ampla”. Obviamente o regime não deixou barato: em nome da “segurança nacional”, um dos maiores apoiadores do golpe que instaurara aquela ditadura teve seus direitos políticos cassados, e passou a sofrer perseguição política.

Carlos Lacerda faleceu em 1977, em circunstâncias bastante estranhas (estava internado em uma clínica devido a uma gripe comum, ou seja, nada de grave), levantando a hipótese de que teria sido assassinado pela ditadura.

Dois dias em memória das vítimas da ditadura

Ano passado, propus que nos dias 31 de março e 1º de abril, retirássemos nossas imagens de perfil nas redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter etc.) e as substituíssemos por um “nunca mais”, em lembrança ao aniversário do golpe militar de 1964. A ideia surgiu a partir de uma notícia que li na página do jornal argentino Página 12, sobre a mobilização para lembrar o motivo do dia 24 de março, aniversário do golpe de 1976 na Argentina, ser feriado nacional com o nome de Dia Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia:

Para que quem ainda pergunta por que este dia é feriado, veja como seria se muitas pessoas queridas se ausentassem todas juntas, como aconteceu durante a ditadura.

Já cheguei a ler comentários de argentinos falando que seu país “tem a memória fraca”, por incrível que pareça – por lá ao menos os responsáveis pela carnificina estão sendo julgados e condenados.

Se a Argentina é um país “de memória fraca”, o que dizer do Brasil então? Nosso país é o único do Cone Sul que nada fez em busca de reparação aos familiares das vítimas da ditadura. Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai estão “passando a limpo” o seu passado ditatorial. Já aqui, continua tudo na mesma, em nome de “evitar o mal-estar com os militares”. Aliás, me pergunto se não seria melhor para a imagem das Forças Armadas colaborar para a elucidação dos crimes da ditadura, e deixar de tecer loas a militares que violaram a lei máxima do Brasil (ou seja, a Constituição) em 1964.

Por parte do governo não podemos esperar nada nesse sentido (que decepção, Dilma!), mas nós mesmos podemos fazer algo. Assim como no ano passado, vamos retirar nossas imagens de perfil das redes sociais nos dias 31 de março e 1º de abril, e substituí-las por um “nunca mais”. Mas, claro, não basta isso: é bom colocar na descrição do perfil o motivo – ou seja, explicar que é pelos 47 anos do golpe – para que as pessoas entendam com mais facilidade o nosso objetivo, que é induzi-las a pensar, lembrar que houve uma ditadura em nosso país e isso não deve ser esquecido, e também para dizer: DITADURA NUNCA MAIS!

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Atualização (13/03/2011, 22:53): Vamos também usar uma hashtag no Twitter e tentar levá-la aos TTs nos dois dias. Proponho #DitaduraNuncaMais, quem tiver outra ideia, fique a vontade para sugerir nos comentários.

A Copa e a política no Brasil (parte 3)

Clique e confira a segunda parte, caso ainda não a tenha lido.

Acharam que só porque a Copa acabou, eu não ia continuar com a série? Como eu poderia acabá-la sem falar da época da ditadura, quando o governo mais se utilizou do futebol para obter dividendos políticos?

Desta vez, o texto – longo, por sinal – não se restringe apenas às Copas, mas trata bastante justamente da influência política sobre a Seleção Brasileira na época. Continuar lendo

A Copa e a política no Brasil (parte 2)

Clique e confira a primeira parte, caso ainda não a tenha lido.

A prática esportiva está ligada ao respeito às regras estabelecidas, em que os vencedores reconhecem os direitos dos vencidos, e estes por sua vez não contestam a vitória do adversário. Logo, o esporte se fundamenta no “saber perder sem apelar para a violência”. Assim, ele tornou-se um “símbolo de civilização”, facilitando sua difusão – afinal, todos queriam ser reconhecidos como “civilizados”. O que explica por que a chegada do futebol tanto ao Brasil como à Argentina e ao Uruguai está ligada à presença inglesa em cidades portuárias: afinal, boa parte dos navios que circulavam pelos mares ao final do século XIX era de origem britânica, “civilizada”.

O fato de ser um esporte coletivo pesou muito para que o futebol se tornasse também um símbolo de identidade coletiva e nacional nos países em que mais se popularizou. Afinal, nele a individualidade não podia ser mais importante do que o grupo, simbolizando a ideia de que cada cidadão deveria estar pronto para defender sua nação, deixando seus desejos individuais em segundo plano. Logo, fazia mais sentido representar desportivamente a nação por meio de um esporte coletivo e popular. Sem contar que depois da traumática Primeira Guerra Mundial, tornou-se bem mais atraente “lutar pela pátria” metaforicamente, através de uma “representação da guerra” ao invés de um conflito militar propriamente dito.

Se o esporte era considerado como um símbolo de civilização e nacionalidade, organizar um evento esportivo era visto de forma idêntica. Daí o Brasil ter se candidatado para sediar a Copa do Mundo de futebol.

(…) esperava-se que através de tal competição o Brasil demonstrasse ao resto do mundo – em especial às nações ditas “civilizadas”, tomadas pelos brasileiros como modelo de civilização – que o estágio de atraso nacional estava já superado.¹

Assim, a Copa do Mundo de 1950 significava bem mais para o Brasil do que um simples campeonato de futebol. Era preciso mostrar o progresso que o país vivia (a propósito, dá para traçar um paralelo com 2014, né?), e por tal motivo se decidiu construir o maior estádio do mundo, o Maracanã.

O estádio recebeu 200 mil pessoas na partida decisiva do Mundial, entre Brasil e Uruguai, em que um empate bastava para dar o título à Seleção Brasileira, o que seria o “fecho de ouro” para uma Copa cuja organização fora bastante elogiada por jornalistas estrangeiros. Um triunfo uruguaio era considerado improvável, já que o Brasil vinha massacrando seus adversários (7 a 1 na Suécia, 6 a 1 na Espanha).

Porém, a taça acabou ficando com o Uruguai, que venceu de virada, 2 a 1. E o momento em que o Brasil se afirmaria como “grande nação” acabou por aumentar o que Nelson Rodrigues chamava “complexo de vira-latas”: na hora decisiva, o Brasil enquanto povo “tremeria” diante dos estrangeiros, sendo a Seleção Brasileira mero reflexo disso. Contribuiu para a difusão de tal ideia as afirmações de que Bigode teria “se acovardado” depois de supostamente ter sido agredido pelo capitão uruguaio Obdulio Varela – fato negado por muitos dos jogadores brasileiros que participaram daquela partida.

Dois meses e meio após a trágica derrota, Getúlio Vargas cumpriu a promessa de que “voltaria nos braços do povo” à presidência da República, feita logo após ser derrubado por um golpe militar em 1945. Chegou ao poder pela via eleitoral, e não pelas armas, como ocorrera 20 anos antes. E obteve 48% dos votos, quando a eleição não tinha segundo turno. Em 1950, pela primeira vez aconteceu a coincidência de ocorrerem no mesmo ano Copa do Mundo e eleição presidencial no Brasil (em 1930 o pleito foi em março, portanto antes do Mundial, e de qualquer forma ele “não valeu”), o que torna tentadora a ideia de que a derrota da Seleção beneficiou o “pai dos pobres”. Mas é preciso lembrar que desde o Carnaval (portanto, antes da Copa) já estava “na boca do povo” a marchinha Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar. Óbvia referência a Vargas, que “estava voltando”.

O “vira-latismo” brasileiro no futebol só foi superado em 1958, na Copa do Mundo da Suécia. A conquista da Seleção provocou um sentimento de euforia na população, que ia ao encontro do momento vivido na política: o governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1956-1961) era marcado pelo otimismo em relação ao desenvolvimento nacional que supostamente viria com a indústria automobilística que se instalava no Brasil. O futebol apenas contribuiu para amplificar o sentimento de que, finalmente, o país conquistara seu lugar junto às “grandes nações”. Ainda mais que a Seleção enfrentara apenas adversários europeus em sua campanha, e jogando um belo futebol: era a consagração do chamado “estilo brasileiro” na Europa. E a revelação dos geniais Garrincha e Pelé (com apenas 17 anos), que encantaram o público nos estádios suecos.

O próprio futebol brasileiro também progredia, não apenas a Seleção. A partir de 1959, começou a ser disputado o primeiro torneio de caráter realmente nacional: a Taça Brasil, que dava a seu vencedor o direito de disputar a Taça Libertadores da América, que começou a ser realizada no ano seguinte. Participavam da TB todos os campeões estaduais: logo, era um torneio interestadual muito mais abrangente que o Roberto Gomes Pedrosa, disputado desde 1950 mas apenas por clubes de São Paulo e Rio de Janeiro (apesar de que mesmo na Taça os clubes dos dois Estados eram beneficiados, entrando apenas nas etapas decisivas). Ao longo da curta história do torneio, clubes de fora do eixo Rio-São Paulo fizeram bonito, como Bahia (campeão da primeira edição batendo o Santos na final, e vice em 1961 e 1963), Cruzeiro (campeão em 1966, com direito a goleada sobre o Santos na final), Fortaleza (vice em 1960 e 1968) e Náutico (vice em 1967).

Em 1962, a Seleção conquistou o bicampeonato no Chile. E a conquista serviu aos propósitos do presidente João Goulart de retomar os plenos poderes presidenciais: após a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, a posse de “Jango” só aconteceu com a aprovação de uma emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo no Brasil – condição aceita pelos ministros militares, temerosos das tendências esquerdistas de Goulart. O presidente fazia questão de vincular-se ao futebol, inclusive lembrando seu passado como jogador (atuou nas categorias de base do Inter) e mostrando o quanto torcia pela Seleção, para aumentar sua popularidade e conseguir apoio para a restauração do presidencialismo: um plebiscito sobre o assunto aconteceria junto com a eleição presidencial marcada para 1965. Mas “Jango”, com aprovação popular, antecipou a consulta para 6 de janeiro de 1963, saindo-se vencedor.

Em 1º de abril de 1964, João Goulart foi deposto por um golpe militar, que contou com o apoio da “grande mídia” e de boa parte da classe média, apavorada que estava por conta do “perigo comunista” que seria representado pelo presidente e suas “reformas de base” (que eram similares às adotadas em vários países desenvolvidos do mundo capitalista).

E o futebol brasileiro, claro, também foi afetado pelo golpe de 1964.

(Continua)

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¹ FRAGA, Gerson Wasen. A “derrota do Jeca” na imprensa brasileira: nacionalismo, civilização e futebol na Copa do Mundo de 1950. Porto Alegre: UFRGS/IFCH, 2009, p. 375. Tese de doutorado. Disponível na Biblioteca Digital da UFRGS.

Difunda esta ideia

Ontem, a Argentina lembrou o aniversário do golpe militar de 1976, que derrubou o governo de Isabelita Perón e deu início a uma ditadura militar no país. Desde 2006 o dia 24 de março é feriado na Argentina, sendo chamado Dia Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia.

Na rede social Facebook, uma interessante ideia surgiu entre os argentinos: uma convocação aos usuários para retirarem suas imagens de perfil no dia 24 de março, deixando no lugar apenas a silhueta que aparece quando não se escolhe nenhuma foto. Eis o motivo (que tomei a liberdade de traduzir ao português):

Para que quem ainda pergunta por que este dia é feriado, veja como seria se muitas pessoas queridas se ausentassem todas juntas, como aconteceu durante a ditadura.

Logo que tomei conhecimento da mobilização argentina (aliás, à qual eu aderi), pensei: que tal fazermos algo semelhante no Brasil? Seja em 31 de março ou 1º de abril, o golpe militar que derrubou João Goulart completará 46 anos. E por aqui não temos feriado, muito menos lembranças – o que facilita a vida dos que dizem não ter havido ditadura no Brasil (negar algo contra todas as evidências históricas, isso lembra algo, né?) ou, que até teve, mas ela foi branda, “ditabranda”.

Pensando melhor, não basta tirarmos imagens de perfil no Facebook (e também no Orkut, onde há muito mais brasileiros). Façamos mais: é necessário que as pessoas entendam que há um motivo importante para a mudança da imagem e assim seja atiçada a sua curiosidade: “o que ele(a) quer dizer?” – do contrário, poderá parecer apenas uma falha do Facebook ou do Orkut.

Assim, nos dias 31 de março e 1º de abril, substituamos nossas imagens de perfil no Facebook e no Orkut por um NUNCA MAIS. Pode ser apenas as duas palavras em um fundo branco, ou a silhueta de quando não se escolhe nenhuma foto – também com o NUNCA MAIS, é claro. Induzamos as pessoas a pensarem, a lembrarem que houve uma ditadura militar em nosso país, e que isto não deve ser esquecido.

Claro que poderá acontecer de muitos não entenderem o motivo do NUNCA MAIS, daí a importância de se colocar no perfil uma explicação – pode ser lembrando que 31 de março/1º de abril é aniversário do golpe de 1964, e que nosso objetivo é dizer DITADURA NUNCA MAIS.

Procure difundir esta ideia, seja em blogs ou por e-mail, para que tenhamos a maior adesão possível – no Brasil e mesmo fora do país!

Lições de 31 de março de 1964

Há 44 anos, o Brasil entrava em uma era de terror. Um golpe militar, ironicamente chamado por alguns reacionários de “revolução democrática”, fazia o país mergulhar na longa noite da ditadura militar. O movimento “contra a corrupção, contra a subversão” dizia que colocaria “ordem na casa” e devolveria o poder aos civis já em 1966, quando tomaria posse o presidente eleito em outubro de 1965. Mas os militares governaram até 1985, e o povo brasileiro só voltou a votar para presidente em novembro de 1989.

Já fazem mais de 20 anos que os militares deixaram o poder, mas engana-se quem acha que o apreço pelo autoritarismo não existe mais no nosso país. Nos últimos dias tivemos vários exemplos disso.

O primeiro, foi a decisão do TSE em relação à propaganda política para a campanha eleitoral de 2008. De acordo com ela, a “propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral”. Mas, o que será considerado “propaganda eleitoral”? Se eu me pronunciar em favor de determinado candidato isto será considerado “propaganda”? Seremos nós, blogueiros, proibidos de expressarmos nossas opiniões?

Outros episódios recentes também mostram a tentação autoritária dos velhos donos do poder, que estão na “grande mídia”. Em março, dois blogueiros perderam seus espaços: o primeiro foi Paulo Henrique Amorim, que cunhou a expressão “PIG” (Partido da Imprensa Golpista) para se referir aos grandes meios de comunicação e perdeu seu espaço no IG; e o segundo foi o Marco Weissheimer, do RS Urgente, que não pôde mais utilizar seu endereço antigo, pertencente ao UOL.

E tem ainda toda a adoração pelo “Capitão Nascimento” demonstrada por boa parte da classe média, que adoraria ter uma polícia ao estilo do BOPE carioca: atira primeiro, pergunta depois. Isto é o maior perigo: com a mídia falando toda hora em violência, muita gente fica assustada e acha que irá levar tiro assim que colocar o pé para fora da porta de casa. Amedrontar a população é a melhor maneira de “amaciá-la” e assim fazê-la aceitar quaisquer medidas, por mais autoritárias que sejam, que supostamente irão resolver o problema que lhes causa medo.

Como aconteceu 1964? Disseminou-se o medo do comunismo! Fizeram a classe média acreditar que os comunistas estavam prestes a tomar o poder, e que se isso acontecesse “os cidadãos de bem” (na verdade, “de bens”) perderiam tudo o que tinham conquistado “com muito suor”. Quando o que o governo de João Goulart faria seriam reformas, e não uma revolução socialista: Jango era pressionado tanto pela direita, que não admitia mudanças, como pela esquerda – principalmente por Brizola – que desejava maior rapidez nas reformas.

Quando Goulart optou pela esquerda e começou a mobilizar as massas em seu favor – como aconteceu no comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio -, a classe média, já seduzida pela campanha de medo da direita, saiu às ruas e deu aval aos golpistas: foram as famosas “marchas pela liberdade”. Ficou apenas faltando a “gota d’água”, que se deu com a demonstração de solidariedade de Jango a sargentos rebeldes no final de março, que militares de alto escalão interpretaram como “quebra de hierarquia” – apesar do Presidente da República ser, pela Constituição, a mais alta autoridade do país, inclusive sobre as Forças Armadas.

E assim, no dia 31 de março, deu-se o golpe. No dia 2 de abril, João Goulart partiu para o exílio no Uruguai, depois de ter sido formalmente derrubado pelo Congresso, que declarou vaga a presidência mesmo com o titular do cargo ainda estando no Brasil.

Iniciava-se a longa noite da ditadura.