Um retrato do “novo Brasil”

Um deputado deixando o país por ameaças de morte. E o cidadão que, incrivelmente, foi eleito presidente deste mesmo país, comemora o fato ao invés de se indignar com ele e garantir a segurança do parlamentar.

Esse é o Brasil de 2019. O país que elegeu um completo despreparado para a presidência – que tem uma horda apoiadora, a qual não pensará sequer uma vez antes de apontar o dedo para a oposição a cada burrada cometida por seu “mito”. Dirão que é “tudo culpa dessa esquerdalha que fica torcendo contra”, como se política fosse futebol e como se não tivéssemos direito de criticar o governo quando ele erra.

Bom, mas é exatamente isso que essa turma fascista aí quer. Que fiquemos calados e não critiquemos nada. Que nos resignemos e andemos pela rua de cabeça baixa. O pior que pode acontecer é justamente fazermos o que eles querem.

Inclusive por isso não critico Jean Wyllys. Não acho que ele tenha sido “covarde” ao deixar o Brasil por ter medo de ser assassinado. Por mais importante que Jean fosse na Câmara de Deputados, é melhor tê-lo vivo no exterior, para denunciar os absurdos que, infelizmente, acontecerão com ainda mais frequência em nosso país. De mártir, já nos basta Marielle Franco – cujo assassinato completará um ano em menos de dois meses e duvido que um dia os autores (e os mandantes) sejam presos…

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Vale tudo por audiência

Charge do Kayser

Não assisto BBB. A única vez que tentei assistir foi na primeira edição: enchi o saco logo no começo. (E pelo que sei, a única coisa realmente boa que o programa fez ao Brasil foi tornar conhecido Jean Wyllys, que hoje é deputado federal pelo PSOL-RJ e empreende no Congresso uma valorosa luta contra a homofobia.)

Porém, com todo mundo falando do programa na época de sua exibição (o que é um dos motivos pelos quais odeio o verão), praticamente não tinha como saber sobre a acusação de abuso sexual cometido por um dos participantes. A vítima, sob efeito de álcool e visivelmente desacordada no momento, já é acusada pelos machistas de plantão de “ter se insinuado”. Sim: para eles, mulher vítima de abuso sexual “fez por merecer”.

(Assim, caso vejas uma mulher de minissaia na rua, pode ter certeza: ela não está com calor – o mesmo que te faz destilar suor – e sim, quer ser agarrada… Ela vai gritar, te chamar de tarado, mas não dá bola, isso é só para “se fazer de difícil”: vai fundo e mostra quem é o dominador nessa história.)

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O participante acusado de abuso foi expulso do BBB pela produção do programa, e provavelmente terá de se explicar à polícia (que foi aos estúdios da Rede Globo para investigar a denúncia). Ótimo.

Porém, o que acontecerá com a Globo, que transmitiu as cenas ao vivo, depois dessa? Não fosse a grande repercussão do caso na internet (que levou a polícia ao Projac), podem ter certeza de que a emissora teria “posto panos quentes” no assunto, que “morreria” em poucos dias. Afinal, pelo que li, a Globo já tinha negado qualquer possibilidade de abuso sexual no programa, e Pedro Bial ainda teria dito “o amor é lindo”, em referência ao fato.

Acho que já passa muito da hora de rever as concessões (que são públicas) para emissoras que fazem qualquer coisa por audiência.