14 de dezembro

Faixa levada por torcedores ao jogo Seleção "Gaúcha" x Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17/06/1972

Dia mais do que especial.

Há exatos dois anos, defendi minha monografia de conclusão do curso de História da UFRGS, trabalho que recebeu conceito “A” da banca. Um dia glorioso: embora oficialmente eu só tenha me tornado bacharel em História após o ato burocrático acontecido em 18 de fevereiro de 2010, a data que festejo é o 14 de dezembro de 2009.

Já um ano atrás… O 14 de dezembro foi o dia não só do primeiro aniversário da defesa do TCC, mas também de risada. De muita risada! Foi o melhor presente que eu poderia ter ganho.

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Morre o criador do “Jean Marie”

O meio esportivo do Rio Grande do Sul está de luto pelo falecimento, no final da tarde da terça-feira, de Escurinho, ex-atacante do Inter e exímio cabeceador. O jogador recebeu justas homenagens de vários ex-colegas, dirigentes, até mesmo do Grêmio e de ídolos tricolores, como Tarciso.

Na terça também se perdeu outro nome ligado aos esportes. Trata-se do jornalista Antônio Carlos Porto, 81 anos, que sofria de câncer. Porto destacou-se como cronista esportivo, e trabalhou nos jornais Folha da TardeFolha Esportiva – no último, assinava a coluna “De alto a baixo”.

Foi justamente na Esportiva que Antônio Carlos Porto começou a definir o título de minha monografia de conclusão de curso, 37 anos antes dela ser escrita.

Em 1972, o Brasil celebrava os 150 anos de sua independência política. Dentre os diversos eventos (dos quais todos eram vistos pelo governo ditatorial como oportunidade de fazer propaganda), havia um torneio de futebol, chamado “Taça Independência” – ou também “Minicopa”, por reunir várias seleções nacionais, algumas delas fortes, como Argentina, Uruguai e França. Apesar das ausências de Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália (na época, as únicas seleções europeias campeãs mundiais), por perceberem que o campeonato era de cunho mais político do que esportivo – e não apenas por parte da ditadura militar: o presidente da CBD, João Havelange, convidou algumas seleções fraquíssimas como a Venezuela (pagando uma cota bem maior do que a cobrada pela Seleção Brasileira), de olho em seus votos na eleição para a presidência da FIFA que ocorreria em 1974 e seria vencida por Havelange.

No dia 15 de maio de 1972 o técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, anunciou a lista de jogadores convocados para representarem o Brasil na “Minicopa”. E nela não constava o nome de Everaldo, lateral-esquerdo do Grêmio titular da Seleção de 1970 – e que mantivera a titularidade desde então. Mais do que passá-lo para a reserva, Zagallo sequer relacionava Everaldo para vestir a camisa da Seleção, e também não convocara mais nenhum jogador de clubes do Rio Grande do Sul.

É, quem acha que antigamente os gaúchos não eram tão bairristas… Começou uma “guerra” de palavras, via imprensa. Na Folha Esportiva do dia 16 de maio, Antônio Carlos Porto foi o primeiro a “jogar lenha na fogueira”: propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, como forma de retaliação à CBD pela ausência de Everaldo na Seleção.

A reação da CBD foi quase imediata. João Havelange afirmou que o boicote à competição que celebrava os 150 anos da independência era uma atitude “antipatriótica” – palavras confirmadas em nota oficial. Porto respondeu em sua coluna do dia 18 de maio:

Até por uma questão de cheiro, poluição ou coisas desta ordem, vamos dispensar qualquer lição de brasilidade que parta do próspero empresário Jean Marie, presidente full-time da CBD. Não vamos invocar os sentimentos de brasilidade de nossa gente e trazer os múltiplos exemplos. Infantilidade ou maldade o chamamento deste sentimento para as coisas simples do futebol, especialmente em se tratando de uma “microcopa” vergonhosamente desprezada pelas seleções mais representativas do Velho Mundo.

Surgiu aí a genial ironia: Havelange acusava os gaúchos de não terem “sentimento de brasilidade”, mas tinha um nome “estrangeiro” – filho de belgas, foi registrado como “Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange”. Dali em diante, os colunistas da Folha Esportiva começaram a constantemente chamar o dirigente apenas por seu nome de batismo, sem sequer citarem o sobrenome.

Um dos jogos da Seleção preparatórios para a “Minicopa” – ou “microcopa”, como os colunistas também passaram a constantemente ironizar – estava marcado para o dia 17 de junho, um sábado, em Porto Alegre. O adversário ainda era indefinido quando do início da polêmica pela não-convocação de Everaldo, mas não demorou a surgir uma proposta que, hoje em dia, pareceria notícia d’O Bairrista: uma “seleção gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal) desafiar a Seleção Brasileira.

Poucos acreditavam que a CBD aceitasse o desafio, mas o fato é que aceitou. E a partida, realizada no Beira-Rio, reuniu o maior público da história do estádio: mais de 110 mil pessoas estiveram presentes. Ficou claro que não havia uma “revolta separatista em curso”: na preliminar, a Seleção Olímpica do Brasil venceu o Hamburgo por 4 a 1 e foi bastante aplaudida. Já no jogo principal (que acabou empatado em 3 a 3, sem que em nenhum momento os “gaúchos” ficassem atrás no placar), de nada adiantou os dois times entrarem em campo juntos e carregando uma bandeira brasileira: a Seleção de Zagallo foi intensamente vaiada pelo público. Que também lembrou Havelange e sua afirmação quanto à “falta de brasilidade” dos gaúchos, com uma faixa: “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”.

Quando vi a foto acima pela primeira vez, na hora já achei o texto “perfeito” para ser parte do nome do meu trabalho – que é intitulado “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972). Embora eu tenha escrito o trabalho em 2009, não posso deixar de lembrar que o título começou a surgir em 18 de maio de 1972, naquela coluna de Antônio Carlos Porto.

A maior tradição do futebol brasileiro

Engana-se quem pensa que vou falar de “futebol-arte” e coisa parecida. Pois isso nem é exclusividade do Brasil: se o que Maradona jogava (e agora Messi joga) não se encaixa nesse conceito de “arte” do qual falam tantos opinistas, não sei mais o que é “futebol bonito”.

A maior tradição do futebol brasileiro chama-se politicagem. Nisso sim, somos inigualáveis. Tanto que, depois de relativa calma nos últimos anos, os clubes trataram de lembrar “os velhos tempos”, com o racha no Clube dos 13 e a possibilidade de acertos em separado com duas emissoras de televisão para a transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012 (fim do mundo?) em diante. (E o Grêmio vai negociar diretamente com a Globo, ou seja, provavelmente ainda teremos por um bom tempo os jogos no maldito horário das 21h50min, sem contar que se manterá o monopólio “global”; e além de tudo, isso poderá ser muito prejudicial ao Tricolor, com clubes do eixo Rio-São Paulo recebendo mais que o Grêmio numa proporção muito superior à da atualidade.)

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