Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase – que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios – e, em especial, para escaparem do Brasil – mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

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Tragédia no Egito: mais que futebol

Ontem se escreveu uma página triste na história do futebol, com a briga generalizada após um jogo do Campeonato Egípcio, que deixou mais de 70 mortos. A torcida do Al Masry, de Port Said, invadiu o gramado após a vitória de 3 a 1 sobre o Al Ahly, do Cairo, e agrediu jogadores, comissão técnica e torcida do adversário. Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.

Porém, pelo que já li em algumas páginas de notícias, a origem da tragédia parece estar do lado de fora dos estádios. Uma das torcidas organizadas do Al Ahly, a UA07, foi ativa participante das manifestações que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, no começo do ano passado. Não faltam acusações de que partidários do ex-ditador e a própria junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak teriam provocado o episódio, inclusive com o fechamento dos portões do estádio no lado da torcida do Al Ahly. E nos diversos vídeos que podemos assistir, é perceptível que a polícia nada fez para impedir a violência: simplesmente deixou os torcedores do Al Masry invadirem o gramado.

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A nomenclatura utilizada no futebol deixa muito claro que ele é uma “metáfora da guerra” (ainda mais que é praticado no campo, assim como as guerras em “campos de batalha”). Inclusive, serviu muito como “válvula de escape” da violência, quando da parlamentarização da política na Inglaterra. Assim, muitas vezes os ressentimentos de origem política, social e étnica acabam “transbordando” para o estádio.

A intensa rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo, é muito mais que futebolística. Os confrontos entre os dois clubes simbolizam, para muitos, um embate entre o centralismo de Madri e os anseios nacionalistas da Catalunha (cujas cores o Barça sempre utiliza em sua braçadeira de capitão). A rixa acirrou-se durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), período em que qualquer manifestação de apreço a uma nação que não a Espanha “una” (que só existia nos delírios de fascistas como Franco) era severamente reprimida. Os jogos do Barcelona, principalmente contra o Real Madrid (por ser este o principal clube da capital), eram as raras oportunidades de se demonstrar que a “homogeneidade” espanhola era pura fantasia.

Origem semelhante teve a tensão em uma partida aqui no Brasil, há quase 40 anos. Em 17 de junho de 1972, 110 mil pessoas foram ao Beira-Rio vaiar a Seleção Brasileira, que enfrentava uma “Seleção Gaúcha” (na verdade, um combinado de jogadores da dupla Gre-Nal). Não havia nada de separatismo em jogo, muito pelo contrário: a origem era o ressentimento dos gaúchos pelo Rio Grande do Sul estar cada vez mais marginalizado na política e na economia do Brasil (mesmo que o ditador da época fosse o general bageense Emílio Garrastazu Médici). Fato simbolizado pela não-convocação do lateral-esquerdo Everaldo, titular da conquista da Copa de 1970, para a Seleção Brasileira que disputaria a Taça Independência (popularmente conhecida como “Minicopa”), torneio comemorativo aos 150 anos de independência política do Brasil: apesar do gremista não atravessar uma boa fase em 1972, foi inaceitável para os gaúchos que “o seu único representante” na Seleção perdesse não só a titularidade, como também fosse preterido na reserva por Rodrigues Neto, do Flamengo (que anos depois, ironicamente, seria contratado pelo Inter). Como as manifestações de contestação ao status quo da época eram reprimidas (inclusive as de caráter regional), restava apenas o futebol: vaiar a Seleção, utilizada pela ditadura militar para aumentar sua popularidade (ainda mais após a Copa de 1970), era como vaiar o Brasil “forte e unido” da propaganda oficial.

Se o futebol é uma “metáfora da guerra”, ele também pode ser prelúdio dela, com a violência não sendo meramente simbólica. Em junho de 1969, as tensões entre Honduras e El Salvador se refletiram no confronto entre as seleções dos dois países por uma vaga na Copa do Mundo de 1970. O governo de Honduras havia decidido expulsar os camponeses salvadorenhos que viviam no país (principalmente na região da fronteira com El Salvador), gerando uma onda de xenofobia mútua entre hondurenhos e salvadorenhos, extremamente interessante para os governos de ambos os países por assim desviar o foco de seus problemas internos. No meio disso tudo, as partidas de futebol: a primeira, disputada em Tegucigalpa (Honduras), terminou com vitória hondurenha por 1 a 0; na segunda, em San Salvador (El Salvador), os salvadorenhos venceram por 3 a 0, forçando assim a realização de um terceiro jogo, realizado na Cidade do México e vencido novamente por El Salvador, 3 a 2. A violência nas partidas foi o pretexto que faltava para os dois países romperem relações diplomáticas; semanas depois, tropas salvadorenhas invadiram Honduras, dando início à chamada “Guerra do Futebol”, que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969, por isso sendo também chamada de “Guerra das Cem Horas”) e deixou quase 2 mil mortos.

na antiga Iugoslávia, a guerra não teve o futebol como pretexto, mas ele nos deu uma “prévia”. Os ressentimentos entre sérvios e croatas vinham desde a Segunda Guerra Mundial: os primeiros acusavam os segundos de terem colaborado com o nazismo, mesmo que Josip Broz Tito, líder da resistência aos nazistas, fosse croata. Durante os 35 anos em que Tito esteve no poder, as tensões foram aliviadas, devido à liderança de um “símbolo de união nacional”. Porém, com a morte de Tito em 1980, foi implantado um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas que formavam a Iugoslávia; tal sistema não agradava aos nacionalistas sérvios, que por serem a população mais numerosa consideravam injusta a divisão igualitária do poder; ao mesmo tempo, a crise econômica pela qual o país passava levava muitos sérvios a emigrarem para a Croácia, mais desenvolvida, aumentando o sentimento anti-sérvio entre os croatas. O ódio mútuo resultou em um violento conflito entre as torcidas do Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha de Belgrado, durante partida entre os dois clubes realizada na capital croata em 13 de maio de 1990. No ano seguinte, Croácia e Eslovênia (as duas repúblicas mais desenvolvidas) declararam-se independentes e teve início a sangrenta desintegração da Iugoslávia: a guerra se deu principalmente entre sérvios e croatas, com atrocidades de ambos os lados em conflito.

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo

Craque iugonostálgico

Em entrevista ao programa de Ana Maria Braga na Globo, o meia Dejan Petkovic, do Flamengo, deu uma resposta inesperada à apresentadora. A “cansada” (lembram?) tentou induzir o craque sérvio a dizer que a Iugoslávia socialista era um país em que se passavam muitas dificuldades, mas Petkovic a contrariou. (Não reparem no mapa, em que trocaram Croácia e Bósnia-Herzegovina…)

“Iugonostalgia” é o termo utilizado para definir as pessoas que sentem saudades da época em que Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Kosovo formavam apenas um país, a Iugoslávia. Mais específicamente, da época de Tito (1945-1980).

O termo “Iugoslávia”, que significa “união dos eslavos do sul”, passou a denominar em 1929 o reino surgido em 1918 a partir da união entre diversos povos eslavos dos Bálcãs, e que se chamava “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos” (embora também o integrassem diversas outras etnias, como montenegrinos, macedônios, bósnios e albaneses).

Em 1945, sob a liderança do croata Josip Broz Tito, a Iugoslávia se libertou do domínio nazista que lhe fora imposto na Segunda Guerra Mundial, e transformou-se em uma república socialista federativa. Era um socialismo diferente do que se viu em outros países do Leste Europeu: não foi imposto pelos tanques soviéticos, e sim, construído pelos próprios iugoslavos a partir da liderança de Tito.

Desta forma, o socialismo iugoslavo adquiriu características próprias, como o sistema de autogestão nas fábricas e propriedades agrícolas (que não eram pertencentes ao Estado, e sim aos próprios trabalhadores), a democracia direta (em que a representação não se dava por deputados, e sim por grupos de delegados), a descentralização política (as repúblicas e províncias tinham ampla autonomia) e a independência em relação à União Soviética, após o rompimento entre Tito e Stalin em 1948. Mesmo após a melhora das relações entre Belgrado e Moscou, os iugoslavos mantiveram sua política externa independente e não-alinhada nem à URSS, nem aos Estados Unidos.

A Iugoslávia de Tito desenvolveu-se muito até a década de 1970, proporcionando o aumento tanto da qualidade como da expectativa de vida. Porém, a situação mudou totalmente nos anos seguintes. Em 1980, Tito morreu, e conforme previa a Constituição promulgada em 1974, implantou-se um sistema de revezamento do poder entre as repúblicas. Ao mesmo tempo, o país começou a passar por uma crise econômica, que não atingiu igualmente a todas as repúblicas: Eslovênia e Croácia eram mais desenvolvidas e viviam uma situação melhor, o que atraiu trabalhadores de outras partes da Iugoslávia.

Os anos sob a liderança de Tito tinham criado um sentimento de união entre as diversas etnias que formavam a Iugoslávia. Porém, a perda de uma figura que simbolizava a união nacional, somada à crise econômica, fez ressurgirem velhos rancores que haviam sido temporariamente esquecidos (como entre sérvios e croatas – os primeiros consideravam os segundos colaboradores dos nazistas, mesmo que Tito fosse croata), dando origem a movimentos nacionalistas, principalmente na Sérvia, república mais populosa.

Os nacionalistas sérvios, liderados por Slobodan Milosevic (que assumiu a presidência sérvia em 1989), consideravam injusto o sistema de igual divisão do poder: para eles, a Sérvia, mais populosa, deveria ter maior influência sobre os rumos da Iugoslávia, o que obviamente não agradou às demais repúblicas. No decorrer dos anos 80, a etnia (sérvia, croata, eslovena etc.) passou a ter maior valor como referência de pertencimento do que a “nacionalidade” iugoslava.

As rivalidades cada vez mais acirradas se verificavam em diversos aspectos da vida social. No futebol (já que falamos do Petkovic…), o ultranacionalismo entrou em campo no dia 13 de maio de 1990, quando torcedores do Dinamo Zagreb e do Estrela Vermelha de Belgrado travaram uma violenta briga no estádio da capital croata, com muitos feridos. A polícia, controlada pelos sérvios, reprimia com violência os torcedores do Dínamo, e em resposta o craque do time de Zagreb, Zvonimir Boban, aplicou uma voadora em um policial, feito que o transformou em um heroi nacional para os croatas.

Em 1991, Eslovênia e Croácia proclamaram a independência, e começou assim a violenta desintegração da Iugoslávia, com um conflito militar principalmente entre sérvios e croatas, em que ambos os lados cometeram atrocidades. No ano seguinte foi a vez da Bósnia-Herzegovina declarar sua independência, porém, como o país tinha uma população muito diversificada (muçulmanos, sérvios e croatas), o que se seguiu foi uma sangrenta guerra civil que durou três anos e meio, ceifou muitos milhares de vidas e produziu os piores massacres na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic assumiu em 1997 a presidência da Iugoslávia (já não mais socialista e restrita apenas às repúblicas de Sérvia e Montenegro), cargo que ocupou até ser deposto por uma revolta popular em outubro de 2000. Reprimiu violentamente manifestações nacionalistas em Kosovo, província da Sérvia em que a maioria da população era de etnia albanesa, motivando ataques aéreos da OTAN em 1999, o que elevou a tensão entre Ocidente e Rússia – eslava como a Iugoslávia. Tropas da ONU ocuparam Kosovo, que em 2008 proclamou sua independência, não reconhecida pela Sérvia (que considera a região como berço de sua consciência nacional) e por muitos países, dentre eles o Brasil.

Em 2003, a Iugoslávia mudou de nome, e passou a chamar-se “Sérvia e Montenegro”, união que se manteve até 2006, quando em um referendo os montenegrinos optaram pela independência de sua república, aceita sem problemas pela Sérvia. Da antiga Iugoslávia de Tito, restou apenas um parque temático – a “Iugolândia” – e as lembranças de um tempo em que se tinha assistência médica gratuita, emprego garantido e boa aposentadoria, sem contar uma maior liberdade para se viajar (para se ir da Eslovênia à Macedônia, por exemplo, não era preciso cruzar fronteiras internacionais por serem pertencentes ao mesmo país) e, principalmente, a paz decorrente da tolerância mútua entre diversos povos que acabou desaparecendo na década de 1980.

Não houve nenhuma revolução em 1989

Há mais de um mês, o mundo lembrou os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Um fato realmente histórico. Símbolo das grandes mudanças ocorridas na Europa Oriental em 1989.

Eu tinha prometido que postaria algo relativo a tal acontecimento, porém, a monstrografia não deixou. O que não foi tão ruim: mesmo quando terminei o trabalho, achei melhor deixar o texto para hoje, 25 de dezembro. Não pela besteira de “espírito de Natal”, e sim porque há exatos 20 anos foi executado Nicolae Ceausescu, que governara a Romênia com mão de ferro por 24 anos.

Enquanto os demais países da Europa Oriental anunciavam reformas e eleições pluripartidárias, a Romênia mantinha-se “fiel ao comunismo” (não seria melhor dizer “ao stalinista Ceausescu”?). Porém, as notícias que não eram divulgadas abertamente corriam de boca em boca: além da sequência de “anúncios de reformas” nos países vizinhos (ao final de 1989, além da Romênia, só a Albânia não as tinha anunciado), no dia 17 de dezembro, manifestantes foram massacrados pela Securitate (a temida polícia secreta) em Timisoara, cidade no oeste do país. A manifestação transformou-se em revolta popular contra a ditadura, potencializada pelo sofrimento da população causado pelo racionamento de tudo (até da calefação durante o inverno) há vários anos no país. No dia 21, Ceausescu discursou pela última vez, na sacada da sede do Partido Comunista Romeno em Bucareste; as milhares de pessoas levaram muitas faixas de apoio e retratos do ditador e de sua esposa, Elena. Mas o povo romeno não o aplaudia mais.

No dia seguinte, o casal Ceausescu fugiu em um helicóptero da capital, onde já se travavam combates nas ruas, mas foi capturado por militares que aderiram à revolta. Após um julgamento sumário, em 25 de dezembro de 1989, Nicolae e Elena foram executados, e as imagens foram transmitidas pela televisão. Acabava-se o “comunismo” na Romênia, mas não o poder dos antigos burocratas, que apenas criaram um novo partido para manterem-se no comando do Estado, e colocaram o PCR na ilegalidade para dar ao desfecho dos acontecimentos, que ficariam conhecidos no país como “Revolução de 1989”, a aparência de “grande mudança”. O que começou com cara de revolução (lembrando uma história que se conta da Revolução Francesa, segundo a qual o rei Luís XVI ao notar uma grande mobilização popular teria comentado “parece uma revolução”, sem perceber que ela de fato acontecia), terminou com todo o jeito de golpe de Estado.

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A Romênia foi o único país da Europa Oriental no qual o socialismo caiu com violência. Em todos os outros, houve uma transição pacífica, o que levou ao surgimento da expressão “revolução de veludo” para designar as mudanças acontecidas em 1989. Inclusive Hobsbawm considera que nenhum dos regimes socialistas do Leste Europeu foi derrubado – vejo a Romênia como a exceção que confirma esta “regra”.

Não houve nenhum comunista apaixonado disposto a morrer em defesa dos regimes do Leste: mesmo os que pegaram em armas para tentar impedir a queda de Ceausescu na Romênia, provavelmente o fizeram mais por medo de serem perseguidos por um novo governo. Nem mesmo na Rússia, onde tudo havia começado em 1917, se fez algum esforço além da atrapalhada tentativa de golpe em agosto de 1991 – que acabou selando os destinos da União Soviética. O que demonstra a situação vivida em tais países: aquele modelo de socialismo falira.

Embora os países do Leste Europeu tivessem se desenvolvido bastante durante o período socialista, não conseguiram acompanhar o ritmo da Europa Ocidental, ainda mais com a estagnação econômica iniciada na década de 1970. Diante da deterioração da qualidade de vida, que se agravou na década seguinte, era difícil defender o regime: apenas comunistas idealistas poderiam fazê-lo, imaginando um futuro melhor.

Em geral, as pessoas procuravam se adaptar ao sistema porque era o existente, mesmo sem acreditarem no comunismo. O que me leva a um questionamento: foram estes que saíram às ruas para protestar? Não seria mais lógico que tais pessoas, mais conformadas, justamente ficassem em casa, e depois procurassem “se adaptar” ao que viesse?

Pois esse tipo de pessoa, que procura simplesmente “se adaptar ao sistema”, sem criticá-lo, não costuma protestar. Ainda mais correndo tamanho risco de apanhar da polícia. Quem toma coragem de se manifestar, em geral, é gente que acredita em alguma coisa além de simples bens de consumo. Ou seja: será que as pessoas que protestavam em 1989 não desejavam um outro tipo de socialismo? Provavelmente, conforme as palavras do filósofo esloveno Slavoj Zizek:

Quando as pessoas protestavam em regimes comunistas do Leste Europeu, a grande maioria delas não estava pedindo por capitalismo. Eles queriam a liberdade de viver suas vidas fora do controle estatal, de ir e vir e falar o que desejassem; eles queriam uma vida de simplicidade e sinceridade, liberta da indocrinação ideológica primitiva e da cínica hipocrisia dominante.

Como muitos analistas observaram, os ideais que levaram os manifestantes às ruas eram, de alguma forma, uma extensão daqueles da própria ideologia socialista – as pessoas aspiravam por algo que pode ser melhor aproximado através do termo “socialismo com um rosto humano”. Talvez essa atitude mereça uma segunda chance.

Desta forma, nada mais incorreto do que chamar os acontecimentos de 1989 de “revolução”, termo muito tentador naquele ano em que se celebrava o bicentenário da Revolução Francesa. Mesmo na Romênia, onde houve violência: Ion Illiescu, que assumiu o poder com o fuzilamento de Ceausescu, era um antigo burocrata do PCR. Igual a seus pares em vários outros países do “bloco socialista” – inclusive a Rússia, onde Boris Yeltsin era também um membro do PC. Uma notável exceção foi a Polônia, em que o líder do opositor sindicato Solidarność, Lech Walesa, ganhou a primeira eleição presidencial no pós-socialismo.

E não são tão poucos os que sentem saudade dos tempos de socialismo. Nos quais não havia muita liberdade, mas em compensação, a vida era mais fácil do que sob o capitalismo: além da garantia de sobrevivência dada pelo regime, havia mais solidariedade entre as pessoas, minada pela excessiva competitividade estimulada pelos novos tempos. Não por acaso, se verifica um sentimento de nostalgia até mesmo onde não se esperava vê-los, como a “ostalgia” (de ost, leste em alemão) na Alemanha (cuja divisão fora o maior símbolo da Guerra Fria, e onde a reunificação parecia ser vontade geral da população) e a “yugonostalgia” na antiga Iugoslávia (que se dissolveu a partir de 1991 com uma violenta guerra).

Racismo e xenofobia

Depois que terminou o jogo de ontem, fiquei sabendo (e assisti um pouco pela televisão) sobre a denúncia do volante Elicarlos, do Cruzeiro contra o atacante gremista Maxi López, por injúria racial: o argentino teria chamado o adversário de “macaco”. Na hora, claro que todo mundo lembrou do episódio de 2005 entre o então atacante são-paulino Grafite e o zagueiro Leandro Desábato, do Quilmes.

Se houver provas, Maxi López tem de ser punido exemplarmente, e também dispensado do Grêmio. Afinal, o racismo é um mal que precisa urgentemente ser erradicado, em todo o mundo. E penso o mesmo da xenofobia, “irmã gêmea” do racismo.

Afinal, nessas horas vai aparecer muita gente que, além de acusar toda a torcida do Grêmio de ser racista (e isso não é preconceito também?), começará a dizer que a atitude de Maxi López (se realmente ocorreu) é “típica de argentino”. O que aconteceu em 2005, no episódio do Desábato.

Vale lembrar que o futebol, muitas vezes, é mais do que apenas esporte. Ele pode ser uma espécie de “válvula de escape” para os mais variados sentimentos – como a xenofobia. Em 1969, havia uma crescente tensão entre Honduras e El Salvador, que se refletiu nas partidas entre as seleções dos dois países, válidas pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, e levou a um conflito militar que ficou conhecido como “Guerra do Futebol”, já que o esporte serviu de pretexto.

Algo semelhante ocorreria 20 anos depois, em uma partida pelo antigo campeonato iugoslavo: no dia 13 de maio de 1990, as tensões entre croatas e sérvios entraram em campo na partida entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha de Belgrado, resultando em violentos conflitos no estádio da capital croata, com várias mortes. Foi uma “prévia” da guerra na qual mergulharia a região dos Balcãs a partir do ano seguinte.

E podemos dizer que não há xenofobia na relação Brasil-Argentina, nem mesmo no tocante ao futebol?

Os leitores lembram de uma infame propaganda de uma cerveja durante a Copa do Mundo de 2006, em que “valia qualquer coisa” para ganhar da Argentina? E de como a “grande mídia”, principalmente do centro do país, fala mal dos argentinos?

Enfim, repito: se houver provas da injúria racial de Maxi López contra Elicarlos, que ele seja punido e mandado embora do Grêmio. Mas, por favor, sem hipocrisia. Rotular toda uma torcida – e também um povo – devido à atitude (da qual nem se tem provas) de uma pessoa, é preconceito também.