Um campeão de empates? Por favor, não…

Considerando a campanha do Paraguai até agora nesta Copa América, não teria medo de apostar em mais um empate na tarde de hoje. E assim a Albirroja poderá, ironicamente, ser campeã invicta, mesmo sem ganhar nenhum jogo…

Não chega a ser algo inédito uma seleção ir longe num campeonato só empatando. Em 1990, a Irlanda chegou até as quartas-de-final da Copa do Mundo com quatro empates: três na primeira fase, e nas oitavas-de-final eliminando a Romênia nos pênaltis; nas quartas, os irlandeses não conseguiram empatar mais uma, e foram eliminados pela anfitriã Itália com uma derrota de 1 a 0 (curiosamente, na Copa seguinte as duas seleções se enfrentaram na estreia e a Irlanda devolveu o placar). No Mundial de 1998, Chile e Bélgica tiveram campanhas semelhantes, mas não a mesma sorte: ambas empataram os três jogos da primeira fase, mas os chilenos se classificaram, e os belgas voltaram para casa. Já ano passado, com três empates na primeira fase a Nova Zelândia fez história: apesar de não ir adiante na Copa, foi a única seleção invicta e certamente tirou pontos de todos os que participaram de bolões.

Mas campeão só empatando os seis jogos, que eu saiba, nunca se viu. E espero não ver hoje. Pelo bem do futebol e de minha querida Celeste Olímpica. VAI URUGUAI! (E não me importarei se for nos pênaltis, como naquele jogo com Gana. Tá na hora do Paraguai perder uma desse jeito…)

A “gente diferenciada” e o fascismo do século XXI

Recebi via e-mail do camarada Eugênio Neves a tradução de um artigo de Robert I. Robinson, publicado originalmente em inglês na página da Al Jazeera. O texto demonstra fala sobre os novos contornos que o fascismo vem tomando, de modo a que não seja reconhecido enquanto tal. Afinal, muitas pessoas associam imediatamente “nazi-fascismo” a Hitler e Mussolini, sem terem muito conhecimento sobre tal fenômeno – e aí, defendem algumas medidas sem se darem conta de que são fascistas (como, por exemplo, a “higienização social” da cidade).

Um trecho que o Eugênio destacou, considero fundamental:

Os deslocamentos de massas migrantes e a exclusão só aumentaram a partir de 2008. O sistema abandonou setores muito amplos da humanidade, que foram apanhados num circuito mortal de acumulação-exploração-exclusão. O sistema já nem tenta incorporar esse excesso de população: trabalha diretamente para isolá-lo e neutralizar a força de rebelião que tenham, real ou potencial; para isso, o sistema criminaliza os pobres; em vários casos, com medidas que tendem ao genocídio.

O Estado abandona qualquer esforço para garantir a própria legitimidade em fatias muito amplas da população que foram relegadas como excesso de mão de obra – ou trabalho super explorado –, e passa a recorrer a mecanismos de exclusão coercitiva: prisão em massa e os complexos prisionais-industriais, polícia pervasiva, manipulação do espaço, leis super repressivas de imigração e campanhas ideológicas que visam a seduzir essas legiões de pessoas e a torná-las passivas: e vêm as campanhas publicitárias para induzir ao consumo desmedido e à fantasia escapista.

O fascismo do século 21 não será igual ao fascismo do século 20. Dentre outras coisas, a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa, e sobre a produção de imagens e mensagens simbólicas, implica que a repressão será mais seletiva (como vemos hoje no México e na Colômbia, por exemplo), e será organizada juridicamente, de modo que os encarceramentos em massa e legais vão aos poucos assumindo o lugar dos campos de concentração.

O fascismo do século XX tinha por objetivo a conquista do Estado (ou seja, do poder político), e sem mascarar seu objetivo de segregar – e mesmo exterminar – os “indesejáveis”. Foram essas as bases do fascismo italiano, do nazismo alemão, e do regime do apartheid sul-africano.

Atualmente, a exclusão se dá por meios econômicos (mesmo que não apenas por eles). Não se trata propriamente de um fenômeno novo, mas agora o Estado, aparentemente democrático, apenas “legitima” o abuso do poder econômico e, com justificativas das mais variadas, esconde os projetos segregacionistas que estão em andamento por todas as partes do mundo.

Pensaste em “Copa do Mundo” e as inúmeras remoções de famílias para “as obras de revitalização para a Copa”, amigo? Acertaste “na mosca”… A Copa e a Olimpíada servem de desculpas para a realização de uma “higienização social” nas principais metrópoles brasileiras. Afinal, “fica ruim para a imagem do Brasil” que haja gente pedindo esmola nas ruas, com um monte de turistas estrangeiros (dólares e euros!) por aqui. Mas, como diminuir a pobreza é uma tarefa longa e a Copa “é amanhã”, se achou a solução: confinar os pobres, mandá-los para bem longe dos locais onde haverá turistas. Como eles farão para chegarem a seus locais de trabalho morando cada vez mais distante deles e em um transporte público que só piora? “Que se virem”…

Traduzindo: que não se atrevam a ir a lugares “que não são seus”. Caso, por exemplo, de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A expansão do metrô da cidade previa uma estação na Avenida Angélica, mas a pressão de 3.500 moradore$ fez com que o governo do Estado (responsável pelo metrô) decidisse deslocar a estação para o Pacaembu – que, com a construção do estádio do Corinthians para a Copa (pra variar…), se tornará um “elefante branco”, sem jogos de futebol.

Dentre os lamentos que foram ouvidos antes da decisão do governo Geraldo Alckmin (PSDB), um é uma pérola: o metrô “atrairia gente diferenciada”. No caso, os pobres, que teriam mais facilidade de acesso a Higienópolis. Os narizes-empinados não pensaram que, com uma estação de metrô, ficaria mais rápido (e barato) para as pessoas que trabalham no bairro mas moram longe chegarem lá. Assim como eles próprios teriam uma nova alternativa de deslocamento, fundamental em uma cidade como São Paulo, de trânsito cada vez mais caótico.

Eles não pensaram, pois uma das características do fascismo é o irracionalismo – e isso não mudou em sua versão do século XXI. O segundo parágrafo da citação lá no começo fala das campanhas ideológicas para “apassivar” as multidões, incluindo aí a publicidade que induz ao consumo desmedido (consumismo) e à ilusão do escapismo – como se vê com os condomínios fechados e os automóveis: reparem que, na propaganda, o carro sempre anda livremente, sem congestionamentos… Então, a opção é de se “isolar” num carrão e ficar três horas no trânsito, ao invés de pegar o metrô e correr o risco de sentar ao lado de “gente diferenciada”, mesmo levando muito menos tempo para chegar ao destino. (Assim, como o transporte coletivo público é “coisa de pobre”, não é prioridade de prefeituras e governos.)

Mas o leitor pode dar uma pesquisada na internet e pensar que nesse caso da “gente diferenciada” os elitistas se deram mal, já que a mudança do lugar da estação pelos citados motivos repercutiu negativamente, e assim o povo vai dar o troco nas urnas. Porém, lembremos do terceiro parágrafo da citação lá do começo: “a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa“…

Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

As Copas que eu vi – Alemanha 2006

No final da tarde do dia 4 de setembro de 2005, me reuni com o meu amigo Diego Rodrigues para tomar cerveja e comer uns pastéis na pastelaria “República do Pastel”. O local, propriedade de um uruguaio, era ponto de encontro de orientales que vivem em Porto Alegre em dias de jogos da Celeste Olímpica. Caso daquele domingo, em que Uruguai e Colômbia se enfrentavam no Estádio Centenário, em Montevidéu, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006, que se disputaria na Alemanha.

Naquele momento, eu nem imaginava que, em menos de seis meses, estaria no local que via pela televisão. Conversávamos sobre desilusões amorosas, e foi quando eu disse que “o amor é regido pela Lei de Murphy”. O Diego gostou tanto do que falei, que parou um garçom, pediu uma caneta emprestada e anotou a frase em um guardanapo que guardou consigo até o início de 2010, quando me repassou o que é um verdadeiro documento histórico.

Outra coisa que eu não imaginava, era que o Uruguai acabaria ficando fora da Copa. A vitória por 3 a 2 naquele jogo contra a Colômbia foi fundamental para a Celeste chegar à repescagem contra a Austrália, treinada por Guus Hiddink. Na primeira partida, em Montevidéu, 1 a 0 para o Uruguai. Quatro dias depois, em Sydney, 1 a 0 para os australianos nos 90 minutos. Na prorrogação, não foram marcados gols, e assim a decisão foi para os pênaltis. E a vitória foi dos Socceroos por 4 a 2: a Austrália voltava à Copa do Mundo depois de 32 anos – a última (e única) participação fora em 1974, ironicamente também na Alemanha (embora fosse apenas a Ocidental). Continuar lendo

As Copas que eu vi – Coreia do Sul/Japão 2002

Como definiu Eduardo Galeano, eram “tempos de quedas”. Em 11 de setembro de 2001, caíram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Caiu também o mito de que os Estados Unidos eram invulneráveis a ataques externos. Em resposta, a partir de 7 de outubro de 2001 bombas caíram de aviões estadunidenses sobre o Afeganistão – e continuam caindo até hoje.

Caia também o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os argentinos não aguentavam mais a penúria que lhes era imposta pela crise econômica e os ditames do FMI, e foram para a rua pedir a renúncia do governo, em dezembro de 2001. O presidente argentino atendeu aos pedidos das massas no dia 20, mas não sem antes decretar estado de sítio e ordenar a repressão aos protestos.

Para mim também eram “tempos de quedas” – no caso, de convicções “profissionais”. Desde meu ingresso no curso de Física da UFRGS, em março de 2000, eu nunca questionara tanto a opção que eu tinha tomado como começou a acontecer no início de 2002. Aos poucos, fui perdendo totalmente a motivação, mas ainda sem coragem de admitir a outras pessoas que eu havia errado – o que fui fazer apenas no final de abril.

Eu ainda insisti por mais um semestre – que começou só em junho de 2002, devido ao atraso no calendário proporcionado pela longa greve dos professores da UFRGS em 2001 (que fez o segundo semestre daquele ano iniciar-se em 17 de dezembro). O primeiro semestre de 2002 começou junto com a Copa do Mundo, pela primeira vez realizada na Ásia e em dois países, Coreia do Sul e Japão. Foi uma Copa diferente também quanto aos horários dos jogos, com muitos sendo disputados pela madrugada no horário brasileiro, correspondente à tarde na Coreia e no Japão. Continuar lendo

As Copas que eu vi: França 1998

O ano de 1998 começou de forma terrível para mim. Tão ruim que antes mesmo do Carnaval (que é quando começam, na prática, todos os anos no Brasil), eu já queria que chegasse logo 1999. Tudo por causa daquele 5 de janeiro, que considerei como o pior dia da minha vida por quase nove anos.

Mas, aos poucos, aquela dor perdeu boa parte de sua intensidade, e o ano de 1998 foi se transformando em ótimo. Primeiro, porque em abril foi confirmado que aconteceria em agosto a viagem a Montevidéu, para a realização de intercâmbio cultural entre o Colégio Marista São Pedro – onde cursei o 2º grau (1997-1999) – e o Instituto de los Jóvenes (IDEJO), colégio da capital uruguaia. Mas também porque se aproximava a Copa do Mundo da França. Enfim, chegava ao fim aquela longa espera de quatro anos iniciada em julho de 1994! E desta vez haveria mais jogos: o número de seleções participantes foi ampliado de 24 para 32. Continuar lendo

As Copas que eu vi: Estados Unidos 1994

No ano letivo de 1993, como sempre acontecia, eu ia muito bem em todas as matérias. Na verdade, em quase todas as matérias: minhas notas em Educação Artística é que destoavam do resto. Comecei bem a 5ª série, com 9 no 1º bimestre, mas no 2º bimestre minhas notas começaram a decair – fruto do que considero uma certa implicância da professora, pois só com ela que fui mal, mesmo que jamais tenha desenhado bem – e cheguei ao último bimestre precisando de 6,5 para evitar o vexame de pegar recuperação. Não era uma tarefa das mais difíceis para quem tirava 10 em tudo, é verdade, mas eu não estava acostumado a uma situação daquelas; e além disso já tivera uma nota 6 no segundo bimestre (e 6,5 no terceiro). Mas consegui tirar 7, e obter a média final de 7,1: foi a única vez em todo o tempo de colégio (1989-1999) em que vibrei com uma aprovação (já que as outras nem tinham graça).

O leitor deve estar pensando: “tá, e o que isso tem a ver com futebol?”. A resposta é que pouco depois da notícia, comentei com um colega: “escapei da repescagem!”. Referência à situação vivida pela Argentina, que só se classificou para a Copa do Mundo de 1994 após vencer a Austrália na repescagem entre América do Sul e Oceania. Sinal dos tempos: eu já me interessava por futebol, graças a uma professora de Educação Física (cujo nome infelizmente esqueci) do Colégio Estadual Marechal Floriano Peixoto, que na segunda semana de aulas de 1993 praticamente me obrigou a jogar, pois não queria mais me ver parado – foi o bizarro episódio em que um colega inventou um gol que eu teria marcado no passado, que tenho certeza absoluta de jamais ter feito (lembro de ter marcado pela primeira vez no colégio na 6ª série, foi tão marcante que até o dia eu recordo: 19 de outubro de 1994).

Assim, o Mundial realizado nos Estados Unidos em 1994 não foi uma Copa qualquer, foi A Copa. A primeira que eu, mais que “dar bola”, curti aos montes. Isso após eu voltar a apenas observar meus colegas na Educação Física: no dia 14 de abril eu acordei com uma estranha dor de barriga que não passava, fui à aula de tarde e comecei a me sentir pior; voltei para casa, me deitei, e quando levantei novamente, não conseguia mais caminhar direito e ainda vomitei; minha mãe me levou ao médico e ele de cara deu o diagnóstico: apendicite – e a cirurgia teria de ser feita urgentemente. Uma semana depois, saí do hospital, mas com atestado médico me liberando da Educação Física. Eu queria jogar, mas não podia… Continuar lendo

As Copas que eu vi: Itália 1990

A Copa do Mundo de 1990, realizada na Itália, é a primeira da qual eu tenho lembranças. Mesmo assim, não chegou a ser marcante para mim, visto que na época, mesmo que já com 8 anos de idade, eu não gostava muito de futebol – talvez por sempre ser o último escolhido na hora de montar os times nas aulas de Educação Física. Eu preferia ser “craque” em outras coisas, como em Matemática e Ciências (matéria na qual fui aprovado com média final 10 na 2ª série do 1º grau, que eu cursava naquele ano). Assim, acabei por não dar muita bola para a Copa.

Posso dizer que não perdi muita coisa em matéria de futebol. O Mundial da Itália foi o de menor média de gols por partida até hoje: 2,2 (115 em 52 jogos). O artilheiro foi “da casa”: o italiano Salvatore “Toto” Schillaci, com 6 gols.

Como eu disse, poucas coisas me marcaram desta Copa. Mas, vamos a elas.

Primeiro, a vinheta da RAI que sempre abria as transmissões dos jogos da Copa. Provavelmente a mais bacana dos Mundiais recentes.

Também foi marcante o “Amarelinho”. Aquele bonequinho redondo, de cor amarela, que me fazia sempre querer ver os jogos do Brasil no SBT. Ele reagia de diversas formas aos lances do jogo: vibrava e berrava a cada gol do Brasil, roía as unhas nas horas de sufoco, e chorava quando a Seleção perdia.

No dia 24 de junho de 1990, eu não vi o choro do Amarelinho, pois assistia o jogo pela Bandeirantes. Melhor, quase todo o jogo. Justo na hora do gol da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas-de-final, eu estava fazendo cocô… Então, 20 anos depois, aí está o vídeo (mas claro que eu já vi antes, meu pai gravou aquele jogo) – e reparem que na hora que Luciano do Valle narra o gol, ao fundo o comentarista (cujo nome esqueci) Juarez Soares diz um “puta que pariu”…

O Brasil, de qualquer jeito, não enchia os olhos de ninguém. Numa Copa marcada pelo defensivismo, quem chamou a atenção foi Camarões, que logo de cara surpreendeu a Argentina, campeã de 1986, na partida de abertura.

Com um futebol ofensivo e mais “brasileiro” do que o próprio Brasil, e ainda por cima contando com o veterano craque Roger Milla (jogando muito aos 38 anos), os Leões Indomáveis seguiram surpreendendo, chegando até as quartas-de-final, feito até então inédito para uma seleção da África (que seria igualado por Senegal em 2002). Camarões caiu diante da Inglaterra, mas só na prorrogação – e no tempo normal esteve a 10 minutos da semifinal.

A Copa de 1990 teve a participação do Uruguai, que foi eliminado pela anfitriã Itália nas oitavas-de-final, em partida que assisti com a minha avó, filha de uruguaios. Desde então, a Celeste só jogou uma Copa em 2002, e sem passar da primeira fase.

A taça ficou com a Alemanha Ocidental, que bateu a Argentina (que teve dois jogadores expulsos) na final por 1 a 0, gol marcado por Andreas Brehme em um pênalti que foi, no mínimo, duvidoso.

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Agora, algumas curiosidades sobre a Copa do Mundo de 1990 (não necessariamente ligadas à minha memória):

  • Três seleções fizeram sua estreia em Copas na Itália: Costa Rica, Emirados Árabes e Irlanda;
  • Três também se despediram. A Tchecoslováquia, que se dissolveu em 1º de janeiro de 1993, ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (iniciadas em 1992), mas sem obter classificação. A União Soviética deixou de existir em dezembro de 1991, quando a tabela das eliminatórias para a Copa de 1994 já estava pronta, e foi substituída pela Rússia, considerada “herdeira” da URSS pela FIFA – às outras ex-repúblicas soviéticas não foi dado o mesmo direito. A outra despedida, mas em tom bem mais feliz, foi da Alemanha Ocidental, que durante a Copa “unificou” a torcida em um país que legalmente ainda era dividido; no dia 3 de outubro de 1990 a Alemanha voltou a ser uma só, e a seleção também;
  • O goleiro italiano Walter Zenga estabeleceu um recorde de invencibilidade em Copas, passando 517 minutos sem levar gol. O primeiro foi na semifinal contra a Argentina – justamente o do empate que levou a decisão aos pênaltis, na qual a Itália foi eliminada;
  • A estreante Irlanda conseguiu uma façanha: foi até as quartas-de-final sem vencer nenhum jogo e marcando apenas 2 gols;
  • O grupo F da Copa, formado por Inglaterra, Irlanda, Holanda e Egito, foi um dos piores da história dos Mundiais: em 6 partidas, foram marcados apenas 7 gols. O único jogo que não acabou empatado foi Inglaterra x Egito, vencido pelos ingleses por 1 a 0;
  • Em sua segunda participação em Copas, a Colômbia foi às oitavas-de-final, classificação obtida em um empate no último minuto contra a Alemanha Ocidental. O goleiro colombiano era o folclórico René Higuita, que tinha o hábito de ficar adiantado e, às vezes, sair driblando os atacantes adversários. Mas, foi inventar de fazer isso com o camaronês Roger Milla, na prorrogação… Resultado: Colômbia eliminada, Camarões nas quartas;

  • Na final, o gênio argentino Maradona foi hostilizado pelos torcedores italianos presentes ao Estádio Olímpico de Roma. Além do remorso pela eliminação da Itália diante da Argentina, havia também outro motivo: Maradona era o grande ídolo do Napoli, e também representava o anseio dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelos do norte – que, pelo visto, mantinham a mesma atitude. Quando o hino nacional argentino foi executado, os italianos vaiaram, apupos que nitidamente aumentam quando Maradona aparece na tela, e o craque não deixou barato, soltando um perceptível “hijos de puta”.

Diego Armando Maradona É O CARA!

Terça-feira teve post no Impedimento sobre os comentaristas de futebol da “grande mídia”. Lembrando um outro, de junho de 2008, acerca do desprezo dos profissionais da mídia corporativa pelo torcedor: para eles, ninguém pode ter opinião que não concorde com a deles. Não por acaso, se consideram “formadores de opinião” – vejo-os muito mais como “deformadores”.

A “grande mídia” se considera muito justa e imparcial. Seria ótimo se realmente fosse assim, mas não é. Um desentendimento com ela é pior do que tentar dormir com um mosquito à volta (aquele filho da puta sempre chega perto do nosso ouvido justamente no momento em que pegaríamos no sono): mais do que incomodar, a mídia corporativa pode acabar com a reputação de uma pessoa. Como se viu no caso da Escola Base, cujos donos foram injustamente acusados de promoverem orgias com alunos – e condenados pela mídia, que mostrou uma simples acusação como se fosse verdade.

Ontem, após a suada classificação da Argentina para a Copa de 2010, Diego Armando Maradona soltou o verbo contra a imprensa. Foi o desabafo contra a avalanche de críticas que sofreu por seu trabalho como treinador da Seleção.

Não que as críticas sejam infundadas. Maradona como técnico provou que é um desastre, a ponto de levar 6 a 1 da Bolívia: tudo bem que foi em La Paz, mas em se tratando de grandes jogadores considero Argentina e Brasil como equivalentes, e a Seleção Brasileira perdeu só por 2 a 1. Não dá para culpar a altitude pela goleada.

Porém, a imprensa argentina já estava inventando histórias, tudo para vender mais jornal. De repente, surgiu uma briga entre Maradona e Carlos Bilardo, diretor de seleções da Associação do Futebol Argentino. Briga que segundo Don Diego, jamais aconteceu – prova disso foram os emocionados abraços entre os dois após o jogo de ontem. Dentre muitas acusações infundadas.

Não é de hoje que o ídolo não se dá com a imprensa. E Maradona sempre teve o hábito de falar o que pensa, sem pensar antes de falar. Um exemplo foi o acontecido na final da Copa do Mundo de 1990, contra a Alemanha. O hino nacional da Argentina era vaiado pela torcida no Estádio Olímpico de Roma, e Maradona não pensou duas vezes: quando percebeu uma câmera de televisão perto dele, soltou um perceptível “hijos de puta”.

Claro que ao falarmos o que pensamos, sem pensar antes de falar, podemos acabar falando demais. Ele ficaria marcado pelos donos do poder no futebol, que mal sabem chutar uma bola (ou seja, eu tenho chance de ser cartola).

E em termos de idolatria, sou muito mais fã de Maradona do que de Pelé. Não tive oportunidade de ver Pelé jogar, mas por diversos vídeos que já assisti, posso dizer que jogava mais do que Maradona – que foi o melhor dos que vi “ao vivo” (via televisão).

Porém, Pelé é de uma frieza que chega a ser constrangedora. Enquanto Maradona não esconde o que sente, e ainda afronta os poderosos: quando jogava, foi uns do que propôs a criação de um sindicato internacional de jogadores – ideia que obviamente não agradava à dona PIFA. Jogando pelo Napoli, com seu futebol genial e sua rebeldia, Maradona encarnou o desejo dos italianos do sul de serem ouvidos, depois de tanto tempo sendo desprezados pelo norte; a ponto da semifinal da Copa de 1990, Itália x Argentina em Nápoles, ter tido um público que não era tão italiano: muitos napolitanos preferiram torcer por Maradona – o que talvez explique o ódio dos nortistas que se expressou nas vaias ao hino argentino na final.

Quando Maradona manda jornalistas “chuparem”, diz o que muita gente tinha vontade de falar mas não sentia coragem. Não vejo como uma ofensa ao jornalismo como profissão – que é indispensável – mas sim ao mau jornalismo, especialidade não só da imprensa esportiva nas corporações de mídia.

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Ah, tinha esquecido de avisar: ontem, torci pelo Uruguai. Mas não fiquei triste com os resultados combinados, pois não queria que a Argentina ficasse fora (certamente ganharia a repescagem, caso tivesse de disputá-la). Não consigo imaginar uma Copa do Mundo sem Brasil ou Argentina.

“Brasil” 2 x 0 Itália

O melhor comentário sobre o amistoso de ontem nem fala sobre o jogo em si. É do André, lá no Cataclisma 14:

Eu ia comentar sobre a demissão do Big Phil, mas tudo indica que ele voltará a treinar o Brasil – não há nada oficial ainda, claro, mas o técnico já admitiu que permanecerá residindo na Inglaterra que, como todos sabem, é a atual terra natal da seleção brasileira.

Depois comentei o texto dele, lembrando que, em breve, a Seleção Brasileira passará a se chamar “Brazilian Team”, e convocará jogadores como “Little Robbie” e “Little Ronald”. E a confederação responsável por ela passará a ser a “Brazilian Football Confederation”.