Henry, o salvador do mundo

Mês passado, postei aqui sobre como os números poderiam levar a um novo “Maracanazo” na Copa do Mundo de 2014. Não refarei toda a conta, o link anterior explica como funciona. Só digo que segundo a fórmula original (e também com as que inventei na hora) o campeão mundial de 2014 seria o mesmo de 1950, ou seja, o Uruguai. O que bem sabemos, não aconteceu, visto que a Celeste foi embora nas oitavas-de-final.

Para a fórmula continuar válida, também seria necessário que o Brasil tivesse sido campeão em 2006 e a Alemanha em 2010; mas como bem lembramos, deu respectivamente Itália e Espanha nessas duas Copas. Porém, vamos supor que tivesse saído tudo conforme os números previam, e tivesse dado Brasil em 2006, Alemanha em 2010 e Uruguai em 2014.

Na próxima Copa, para sabermos o campeão teríamos de subtrair 2018 de 3964, e o resultado seria 1946. Porém, ao olharmos a tabela com os resultados de todos os Mundiais, não encontramos campeão em 1946. E o mesmo acontece com 1942, que indicaria o vencedor de 2022.

A Copa do Mundo de 1942 não aconteceu devido à Segunda Guerra Mundial, que tornava impossível a realização de qualquer torneio internacional de futebol a nível mundial. O conflito só acabou em 1945, o que também inviabilizou a disputa do Mundial no ano seguinte: a Copa só retornaria em 1950, no Brasil, que era um dos candidatos a sede para 1942 (o outro era a Alemanha, que foi proibida de participar em 1950).

Percebam, assim, a importância que teve aquele gol de Thierry Henry marcado contra o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006: foi o que enterrou definitivamente aquela “fórmula”. Caso ela continuasse válida, seria um sinal indiscutível da aproximação da Terceira Guerra Mundial. Ainda mais no atual contexto internacional: a região oriental da Ucrânia vive uma guerra civil, com rebeldes lutando pela anexação das províncias do leste à Rússia.

Com a queda de um avião da Malaysia Airlines justamente na área conflagrada, com suspeitas de que teria sido abatido por um míssil terra-ar, há acusações de lado a lado: o Ocidente acusa os separatistas de terem lançado o míssil que derrubou a aeronave e, de quebra, a Rússia por ter fornecido-lhes armas; já uma fonte do Kremlin diz que o ataque teria sido ordenado pelo governo ucraniano e que o verdadeiro alvo seria o avião presidencial russo (semelhante à aeronave derrubada), ou seja, que o objetivo seria matar Vladimir Putin, que retornava da reunião de cúpula do BRICS acontecida no Brasil (as rotas dos dois aviões eram coincidentes no leste da Europa). Claro que em ambas as versões há coisas estranhas: na primeira, é preciso entender o que levaria os rebeldes a abaterem uma aeronave que não é de uso militar; já na segunda, é de se questionar por que a Ucrânia teria optado por uma maneira tão pouco discreta para tentar assassinar Putin, ainda mais sabendo que um atentado desse nível pode ter consequências seríssimas – há 100 anos, a “faísca inicial” da Primeira Guerra Mundial foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria-Hungria, que nem era a principal potência europeia em 1914 (enquanto a Rússia atual é uma superpotência dotada de milhares de ogivas nucleares). Mas, ainda assim, trata-se de um acontecimento que ainda terá muitos desdobraentos.

Tivesse dado Brasil, Alemanha e Uruguai nas últimas três Copas, a essa altura eu já estaria pensando seriamente em construir um abrigo subterrâneo para me proteger de possíveis ataques nucleares que viriam na iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, graças àquele gol que eliminou o Brasil em 2006 e enterrou a “fórmula mágica”, confio em uma solução diplomática que impeça o fim do mundo.

Obrigado, Henry.

Anúncios

A “hospitalidade” brasileira

A Copa do Mundo no Brasil se aproxima do final, e os estrangeiros elogiam muito a “hospitalidade” do povo brasileiro. O que não é novidade: nosso país sempre teve fama de ser “hospitaleiro”, de receber bem os visitantes.

Porém, a própria Copa mostra que não é bem assim. Basta ver o que se sucedeu ao jogo Brasil x Colômbia, no qual a Seleção garantiu presença na semifinal ao vencer por 2 a 1, mas também marcado pela lesão que tirou Neymar do Mundial.

O lateral Juán Camilo Zúñiga, autor da joelhada nas costas de Neymar que fraturou uma vértebra do jogador, já disse que o lance não foi intencional. E a meu ver, realmente não foi: houve, sim, muita imprudência por parte do colombiano. Já que a FIFA suspendeu o atacante uruguaio Luis Suárez por nove jogos internacionais e inclusive o proibiu de treinar por quatro meses devido à mordida no zagueiro italiano Giorgio Chiellini durante a partida entre Uruguai e Itália (pena considerada excessiva até mesmo pelo “mordido”), espero que Zúñiga sofra uma punição mais severa, para que não se fique com a impressão de que morder uma adversário é pior do que acertá-lo com uma joelhada que pode ter consequências graves.

Instantes depois do apito final, o zagueiro brasileiro David Luiz teve uma bela atitude: consolou o meia James Rodriguez, destaque da Colômbia, e pediu ao público que aplaudisse o jogador adversário. Um exemplo que infelizmente a maioria das pessoas não segue.

Após a partida os jogadores colombianos decidiram ir a um restaurante. Reconhecidos, foram hostilizados por torcedores brasileiros, com o ônibus que transportava os atletas da Colômbia sendo alvo de latas.

Nas redes sociais, Zúñiga sofre um verdadeiro linchamento virtual (o que, vamos combinar, não é muito surpreendente, dado o apoio de tantos brasileiros à “justiça com as próprias mãos”). No Instagram, o perfil do jogador foi “invadido” por brasileiros, que lhe dirigiram todo o tipo de impropérios. No Twitter, o lateral foi alvo de insultos racistas.

Enfim: é esta a “hospitalidade” que temos a oferecer?

Todos somos pequenos ditadores

“Ninguém é dono da verdade”. Eis uma frase muito dita em trocas de ideias, mas que detesto. Acho-a autoritária: reparem que ela geralmente é usada por uma pessoa que discorda de nós, como que querendo dizer que nosso ponto de vista vale menos que o dela. Diante de uma opinião contrária, é mais fácil tentar desqualificá-la atacando o autor do que responder com argumentos.

“Mas então tu achas que há pessoas donas da verdade?”, alguém pode perguntar. A resposta é: sim e não. O “sim” refere-se a nós mesmos: todos temos nossas “verdades”, e quando expressamos opiniões, é porque as consideramos verdadeiras. Já o “não” é justamente porque nossas “verdades” são nossas, e não de todos.

Um exemplo bem simples: eu não gosto de baladas. Já fui várias vezes e até me diverti, mas não é exatamente “a minha praia” (aliás, nem gosto tanto assim de praia, embora ache muito melhor do que estar no Forno Alegre). Tenho como uma verdade que “baladas são chatas”. Mesmo que a maioria das pessoas discorde.

O exemplo citado refere-se a um gosto pessoal. Mas há verdades que acabam afetando mais pessoas, e neste caso é natural que haja disputas. Como no tocante à política, por exemplo. É impossível agradar a todos, então sempre deve prevalecer a vontade da maioria – mas obviamente respeitando os direitos fundamentais de todos.

Porém, o que não faltam são pessoas que desprezam os direitos fundamentais de todos. Inclusive, o de gostar (ou não) de baladas. Acreditam que seus gostos, suas preferências, são as únicas opções corretas, e que as demais devem ser condenadas e reprimidas. Legítimos ditadores em pequena escala.

Engana-se quem pensa que em uma ditadura simplesmente somos oprimidos por um tirano que toma o poder à força e depois passa a decidir sobre a vida e a morte de todos os cidadãos. Em 1944, o poeta italiano Trilussa (nome artístico de Carlos Alberto Salustri) publicou em seu Libro muto (Livro mudo) o genial poema “Números”, no qual satirizava Benito Mussolini e o fascismo:

Eu valho muito pouco, sou sincero,
Dizia o Um ao Zero,
No entanto, quanto vales tu? Na prática
És tão vazio e inconcludente
Quanto na matemática.
Ao passo que eu, se me coloco à frente
De cinco zeros bem iguais
A ti, sabes acaso quanto fico?
Cem mil, meu caro, nem um tico
A menos nem um tico a mais.
Questão de números. Aliás é aquilo
Que sucede com todo ditador
Que cresce em importância e em valor
Quanto mais são os zeros a segui-lo.

O ditador não é um monstro ou alguém dotado de poderes mágicos. Ele é alguém como nós, com no máximo algumas diferenças, do tipo ser bom em oratória, um apurado senso de oportunismo, e principalmente, um bom “palanque” para que possa ser ouvido pelo máximo possível de pessoas. Já os Zeros, são aqueles que, seduzidos pelo discurso do Um, começam a segui-lo e, consequentemente, a aumentar seu valor.

As aspas do “palanque” se devem ao fato de que não me referia ao palanque propriamente dito, ou seja, aquela estrutura montada, de madeira. Aparecer regularmente na televisão como figura de destaque, por exemplo, é um dos melhores “palanques” que alguém pode ter a seu favor. Porém, não é preciso aparecer na televisão para alguém ter a oportunidade de exercer, em certa escala, seu poder ditatorial.

As páginas de redes sociais (e o Facebook é um dos melhores exemplos) têm aspectos bastante positivos, mas o principal deles é, sem dúvida, permitir que qualquer um se expresse e tenha alguma repercussão – sem necessariamente passar pelo “filtro” da mídia tradicional. Dessa forma, informações incorretas são rapidamente corrigidas e mesmo desmentidas.

Porém, como já foi dito, a diferença entre o Um e o Zero do poema de Trilussa é muito pequena. A oratória e o oportunismo são importantes, mas o principal trunfo do ditador é o “palanque”. E o Facebook fez com que inúmeros Zeros se transformassem em Uns, mesmo que em menor escala – até porque, se não há muitos Zeros, o valor do Um não aumenta tanto. Muito embora vários Uns sejam Zeros ao mesmo tempo, por concordarem entre si e assim não se criticarem em nenhum momento.

O que aconteceu mesmo é a constatação de que todos somos pequenos ditadores, pouco importando o número de “seguidores”: quem nunca se meteu a “cagar regras” via Facebook? Seja em postagens, seja em comentários a algumas delas, todos já tivemos nossos momentos autoritários, tentativas de outorgar nossos gostos pessoais a outras pessoas. (Sim, isso também é uma autocrítica que faço.)

E voltamos a meu exemplo lá de cima: não gosto de baladas. O que faço? Simplesmente não as frequento. Mas há pessoas que, por conta disso, dizem que “baladas são coisas horríveis”, acham que “não deveriam existir”, até usam alguns argumentos que fazem muito sentido (como o da poluição sonora) e rotulam da pior maneira possível quem as aprecia. Também há o lado contrário: os que gostam e atacam quem não gosta. E ainda poderíamos citar mais vários exemplos, de coisas bem mais importantes que gostar (ou não) de baladas, que em nada nos afetam mas ainda assim despertam o pequeno ditador que temos dentro de nós: não contente em ditar normas a apenas uma pessoa, quer impô-las a todos. Contra isso, devemos lutar sempre.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

Nobel da “Paz”

Charge do Kayser, retratando as comemorações em países como Espanha, Portugal, Grécia, Irlanda…

O Prêmio Nobel da Paz foi instituído por iniciativa de Alfred Nobel, químico sueco conhecido por ser o inventor da dinamite. Ao falecer em 10 de dezembro de 1896, deixou um testamento em que defendia a criação de uma fundação, que seria responsável por premiar anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para a humanidade em cinco áreas: Química, Física, Medicina, Literatura e Paz. Os vencedores dos quatro primeiros prêmios são definidos por especialistas suecos, já o da Paz é atribuído por uma comissão definida pelo parlamento da Noruega. (O prêmio de Economia foi criado em 1969, mas não é oficialmente um Nobel, tendo o nome oficial de “Prêmio de Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel”.)

O Nobel da Paz já foi atribuído a figuras realmente importantes para a paz mundial, como Martin Luther King. Mas nem sempre foi assim. Como se viu em 1973: Henry Kissinger ganhou o prêmio no mesmo ano em que o Chile sofreu um sangrento golpe militar (e que deu início à ainda mais sangrenta ditadura de Augusto Pinochet) porque, nas palavras de Kissinger, os EUA não podiam “deixar um país se tornar comunista devido à irresponsabilidade de seu próprio povo”. A “irresponsabilidade” da qual Kissinger falava era a democrática decisão dos chilenos de elegerem o socialista Salvador Allende à presidência, em 1970.

Já em 2009, chegou a ser bizarro: o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ganhou o prêmio “pelos esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos”. Só que, ao mesmo tempo em que o Nobel da Paz “se esforçava diplomaticamente”, as tropas dos EUA (das quais ele é o comandante-em-chefe) continuavam a matar no Afeganistão e no Iraque.

Agora, chegou a vez da União Europeia ganhar o prêmio. Surpresa? Nenhuma. Serve apenas como piada, como alguém já disse no Facebook: a UE ganhou o Prêmio Nobel da Paz, mas perdeu o de Economia…

O que me dá vergonha de ser gaúcho

Espaços para comentários sem moderação, principalmente em matérias da “grande imprensa”, têm uma incrível tendência à baixaria e a demonstrações das piores características de quem comenta. É assim em textos sobre política, cultura, e principalmente, sobre futebol.

Pois bem: hoje, o Esporte Espetacular apresentou uma reportagem sobre o famoso jogo entre a Seleção Gaúcha e a Seleção Brasileira, realizado no Beira-Rio em 17 de junho de 1972. Tem algumas coisas bem interessantes na matéria: a Globo chamou jogadores que disputaram a partida, como Paulo Cesar Caju, Rivellino e Claudiomiro; também apresentou algumas imagens do jogo. Porém, senti muita falta de outras, como uma melhor análise do contexto da época (não só futebolístico, como também político): como não estava com vontade de escrever tudo de novo, recomendo o texto que escrevi logo após o 40º aniversário da partida.

Mas, se a matéria tem seus problemas, terrível mesmo é ler os comentários sobre ela. Um texto lembrando um jogo que se fosse proposto nos dias de hoje (desde então nunca mais a Seleção Brasileira enfrentou algum combinado estadual), pareceria ideia de O Bairrista, só podia resultar em… Bairrismo explícito nos comentários.

Aliás, antes fosse simplesmente bairrismo. Na citada matéria, um dos raros comentaristas sensatos disse que a overdose de comentários “gauchamente orgulhosos” fazia ele sentir vergonha de ser gaúcho. Resultado: os “gaúchos melhores em tudo” começaram a xingá-lo e dizer que ele deveria “ir embora” do Rio Grande do Sul.

A verdade é que o tal de “orgulho gaúcho”, alicerçado na crença absurda de que somos “os melhores em tudo”, já começa a ser mais do que bairrismo, se tornando ufanista e mesmo xenófobo. Não por acaso, para muitos que compartilham dessa visão (e que inclusive comentaram na reportagem da qual falei) o Rio Grande do Sul deveria ser um país independente, por ser “tão diferente” (leia-se “tão melhor em tudo”). Como se a principal característica do Brasil não fosse justamente a diversidade, ainda mais por suas dimensões continentais.

E a chuva de “vai embora” pro cara que criticou o bairrismo e disse ter ficado com vergonha de ser gaúcho me fez lembrar da famosa frase ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o”, dos tempos da ditadura militar: qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de história sabe que o “amor pelo Brasil” na expressão correspondia, na verdade, a não criticar o regime. Quem o fazia, era “traidor da pátria” – assim como os que criticam o bairrismo exagerado viram também “traidores”.

Alguém pode argumentar que o “orgulho gaúcho” é muito diferente do “Brasil: ame-o ou deixe-o”, por não ter um regime autoritário por trás. Porém, há uma certa imprensa (que inclusive apoiava a ditadura militar) o insuflando, ao transformar gaúchos em referências sobre qualquer acontecimento no mundo – mesmo que na hora ele esteja a mais de mil quilômetros de onde o fato ocorre. Pois ver um naufrágio na costa da Itália ser transformado em “drama gaúcho” é de se finar de rir (e certamente tem muita gente rindo de nós por conta disso), mas há quem leve isso muito a sério e realmente acredite que o Rio Grande do Sul é o centro do universo.

————

Atualização (07/08/2012, 23:07). O leitor Causlos deixou um comentário que corrige uma informação errada – a correção virou novo post.

Definitivamente, estou ficando velho

Lembram do dia 17 de julho de 1994? Pois é, hoje fez 18 anos

Brasil x Itália, final da Copa do Mundo de 1994. A Seleção voltava a decidir um Mundial depois de 24 anos (a última final fora em 1970, coincidentemente, também contra a Itália). Nas ruas de Porto Alegre (e certamente de todo o país) se vivia um clima de absoluta empolgação, visto que muitos jamais tinham visto o Brasil chegar à decisão. Meu pai, então com 42 anos, era mais “cauteloso” e alertava sobre a festa antecipada, imaginando o clima “de velório” que tomaria conta do país caso a Seleção perdesse.

Foi um jogo “morno”, sem graça, como comprovei no verão de 1995: em casa, de férias, decidi assistir à gravação da partida e quase dormi… Ficamos tensos naquele 17 de julho só porque era o Brasil em campo (naquela época eu ainda conseguia torcer pela Seleção).

Obviamente os italianos, fanáticos por futebol como os brasileiros, também sofreram muito naquela tarde; e foi até mais, por terem perdido. Assim, o vídeo que posto aqui é da televisão italiana – mas reparem o quão “calmo” é o narrador, principalmente na hora que Roberto Baggio chuta o último pênalti para fora. Um belo contraste com os gritos enlouquecidos de Galvão Bueno, que aqui no Brasil já assistimos incontáveis vezes nos últimos 18 anos.

E eu lembro disso como se tivesse sido ontem. Tinha apenas 12 anos de idade, agora tenho 30… Definitivamente, estou ficando velho em uma velocidade absurda!

Balotelli 2 x 0 racismo

Não, caro leitor, não é nada do que deves estar pensando. Sei que a vitória italiana foi por 2 a 1, assim como não seria estúpido de dizer que ser alemão é sinônimo de ser racista (afinal, isso também é preconceito). Os 2 a 0 de Mario Balotelli não foram contra o racismo na Alemanha (que obviamente existe, como sentem bem os turcos que vivem lá), mas sim, contra o que ele sofre na própria Itália.

Prova disso é uma charge publicada no Gazzetta dello Sport, principal jornal esportivo italiano, caracterizando Balotelli como “King Kong”. Sem comentários…

Na Itália existe racismo até mesmo entre italianos. Como prova a rixa entre nortistas e sulistas, com os primeiros tratando os segundos como “inferiores” e mesmo “não-italianos”. Não por acaso, quando Maradona foi jogar no Napoli e foi decisivo para o clube do sul conquistar o título italiano em 1987 e 1990 (derrotando os clubes do norte cujas torcidas reagiram com cânticos e cartazes abertamente racistas), tornou-se um ídolo tão amado que, na semifinal da Copa do Mundo de 1990 entre Itália e Argentina, disputada em Nápoles, os napolitanos ficaram divididos entre torcer para seu país ou para o jogador que representava o anseio dos sulistas em serem melhor tratados pelos nortistas. Com um estádio não tão favorável à Itália, a vitória acabou sendo argentina, nos pênaltis. (Na final entre Argentina e Alemanha, disputada no Estádio Olímpico de Roma poucos dias depois, o norte “se vingou” vaiando intensamente o hino nacional argentino, e Maradona não deixou barato: quando percebeu que aparecia na tela, soltou um perceptível “hijos de puta”.)

Mario Balotelli, então, combina dois fatores que causam ódio nos nortistas: além de ser filho de ganeses, ainda nasceu no sul da Itália (em Palermo, Sicília).

Mas, para o desespero dos racistas, foi Balotelli o jogador que manteve a escrita da Itália jamais perder para a Alemanha em jogos oficiais. Tomara que seja também ele o autor do gol do título italiano na Eurocopa. Será bom demais ver o racismo derrotado duas vezes.

Um campeão de empates? Por favor, não…

Considerando a campanha do Paraguai até agora nesta Copa América, não teria medo de apostar em mais um empate na tarde de hoje. E assim a Albirroja poderá, ironicamente, ser campeã invicta, mesmo sem ganhar nenhum jogo…

Não chega a ser algo inédito uma seleção ir longe num campeonato só empatando. Em 1990, a Irlanda chegou até as quartas-de-final da Copa do Mundo com quatro empates: três na primeira fase, e nas oitavas-de-final eliminando a Romênia nos pênaltis; nas quartas, os irlandeses não conseguiram empatar mais uma, e foram eliminados pela anfitriã Itália com uma derrota de 1 a 0 (curiosamente, na Copa seguinte as duas seleções se enfrentaram na estreia e a Irlanda devolveu o placar). No Mundial de 1998, Chile e Bélgica tiveram campanhas semelhantes, mas não a mesma sorte: ambas empataram os três jogos da primeira fase, mas os chilenos se classificaram, e os belgas voltaram para casa. Já ano passado, com três empates na primeira fase a Nova Zelândia fez história: apesar de não ir adiante na Copa, foi a única seleção invicta e certamente tirou pontos de todos os que participaram de bolões.

Mas campeão só empatando os seis jogos, que eu saiba, nunca se viu. E espero não ver hoje. Pelo bem do futebol e de minha querida Celeste Olímpica. VAI URUGUAI! (E não me importarei se for nos pênaltis, como naquele jogo com Gana. Tá na hora do Paraguai perder uma desse jeito…)

A “gente diferenciada” e o fascismo do século XXI

Recebi via e-mail do camarada Eugênio Neves a tradução de um artigo de Robert I. Robinson, publicado originalmente em inglês na página da Al Jazeera. O texto demonstra fala sobre os novos contornos que o fascismo vem tomando, de modo a que não seja reconhecido enquanto tal. Afinal, muitas pessoas associam imediatamente “nazi-fascismo” a Hitler e Mussolini, sem terem muito conhecimento sobre tal fenômeno – e aí, defendem algumas medidas sem se darem conta de que são fascistas (como, por exemplo, a “higienização social” da cidade).

Um trecho que o Eugênio destacou, considero fundamental:

Os deslocamentos de massas migrantes e a exclusão só aumentaram a partir de 2008. O sistema abandonou setores muito amplos da humanidade, que foram apanhados num circuito mortal de acumulação-exploração-exclusão. O sistema já nem tenta incorporar esse excesso de população: trabalha diretamente para isolá-lo e neutralizar a força de rebelião que tenham, real ou potencial; para isso, o sistema criminaliza os pobres; em vários casos, com medidas que tendem ao genocídio.

O Estado abandona qualquer esforço para garantir a própria legitimidade em fatias muito amplas da população que foram relegadas como excesso de mão de obra – ou trabalho super explorado –, e passa a recorrer a mecanismos de exclusão coercitiva: prisão em massa e os complexos prisionais-industriais, polícia pervasiva, manipulação do espaço, leis super repressivas de imigração e campanhas ideológicas que visam a seduzir essas legiões de pessoas e a torná-las passivas: e vêm as campanhas publicitárias para induzir ao consumo desmedido e à fantasia escapista.

O fascismo do século 21 não será igual ao fascismo do século 20. Dentre outras coisas, a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa, e sobre a produção de imagens e mensagens simbólicas, implica que a repressão será mais seletiva (como vemos hoje no México e na Colômbia, por exemplo), e será organizada juridicamente, de modo que os encarceramentos em massa e legais vão aos poucos assumindo o lugar dos campos de concentração.

O fascismo do século XX tinha por objetivo a conquista do Estado (ou seja, do poder político), e sem mascarar seu objetivo de segregar – e mesmo exterminar – os “indesejáveis”. Foram essas as bases do fascismo italiano, do nazismo alemão, e do regime do apartheid sul-africano.

Atualmente, a exclusão se dá por meios econômicos (mesmo que não apenas por eles). Não se trata propriamente de um fenômeno novo, mas agora o Estado, aparentemente democrático, apenas “legitima” o abuso do poder econômico e, com justificativas das mais variadas, esconde os projetos segregacionistas que estão em andamento por todas as partes do mundo.

Pensaste em “Copa do Mundo” e as inúmeras remoções de famílias para “as obras de revitalização para a Copa”, amigo? Acertaste “na mosca”… A Copa e a Olimpíada servem de desculpas para a realização de uma “higienização social” nas principais metrópoles brasileiras. Afinal, “fica ruim para a imagem do Brasil” que haja gente pedindo esmola nas ruas, com um monte de turistas estrangeiros (dólares e euros!) por aqui. Mas, como diminuir a pobreza é uma tarefa longa e a Copa “é amanhã”, se achou a solução: confinar os pobres, mandá-los para bem longe dos locais onde haverá turistas. Como eles farão para chegarem a seus locais de trabalho morando cada vez mais distante deles e em um transporte público que só piora? “Que se virem”…

Traduzindo: que não se atrevam a ir a lugares “que não são seus”. Caso, por exemplo, de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. A expansão do metrô da cidade previa uma estação na Avenida Angélica, mas a pressão de 3.500 moradore$ fez com que o governo do Estado (responsável pelo metrô) decidisse deslocar a estação para o Pacaembu – que, com a construção do estádio do Corinthians para a Copa (pra variar…), se tornará um “elefante branco”, sem jogos de futebol.

Dentre os lamentos que foram ouvidos antes da decisão do governo Geraldo Alckmin (PSDB), um é uma pérola: o metrô “atrairia gente diferenciada”. No caso, os pobres, que teriam mais facilidade de acesso a Higienópolis. Os narizes-empinados não pensaram que, com uma estação de metrô, ficaria mais rápido (e barato) para as pessoas que trabalham no bairro mas moram longe chegarem lá. Assim como eles próprios teriam uma nova alternativa de deslocamento, fundamental em uma cidade como São Paulo, de trânsito cada vez mais caótico.

Eles não pensaram, pois uma das características do fascismo é o irracionalismo – e isso não mudou em sua versão do século XXI. O segundo parágrafo da citação lá no começo fala das campanhas ideológicas para “apassivar” as multidões, incluindo aí a publicidade que induz ao consumo desmedido (consumismo) e à ilusão do escapismo – como se vê com os condomínios fechados e os automóveis: reparem que, na propaganda, o carro sempre anda livremente, sem congestionamentos… Então, a opção é de se “isolar” num carrão e ficar três horas no trânsito, ao invés de pegar o metrô e correr o risco de sentar ao lado de “gente diferenciada”, mesmo levando muito menos tempo para chegar ao destino. (Assim, como o transporte coletivo público é “coisa de pobre”, não é prioridade de prefeituras e governos.)

Mas o leitor pode dar uma pesquisada na internet e pensar que nesse caso da “gente diferenciada” os elitistas se deram mal, já que a mudança do lugar da estação pelos citados motivos repercutiu negativamente, e assim o povo vai dar o troco nas urnas. Porém, lembremos do terceiro parágrafo da citação lá do começo: “a habilidade dos grupos dominantes para controlar e manipular o espaço e para exercer controles sem precedentes sobre os veículos e os meios de comunicação de massa“…