Já que muita gente não entende ironia…

Nem perderei meu tempo explicando, pois o Minidicionário Aurélio é mais breve:

ironia sf. 1. Modo de exprimir-se em que se diz o contrário do que se pensa ou sente. 2. Contraste fortuito que parece um escárnio.

Espero não precisar fazer uma explicação dessas novamente.

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Morre o criador do “Jean Marie”

O meio esportivo do Rio Grande do Sul está de luto pelo falecimento, no final da tarde da terça-feira, de Escurinho, ex-atacante do Inter e exímio cabeceador. O jogador recebeu justas homenagens de vários ex-colegas, dirigentes, até mesmo do Grêmio e de ídolos tricolores, como Tarciso.

Na terça também se perdeu outro nome ligado aos esportes. Trata-se do jornalista Antônio Carlos Porto, 81 anos, que sofria de câncer. Porto destacou-se como cronista esportivo, e trabalhou nos jornais Folha da TardeFolha Esportiva – no último, assinava a coluna “De alto a baixo”.

Foi justamente na Esportiva que Antônio Carlos Porto começou a definir o título de minha monografia de conclusão de curso, 37 anos antes dela ser escrita.

Em 1972, o Brasil celebrava os 150 anos de sua independência política. Dentre os diversos eventos (dos quais todos eram vistos pelo governo ditatorial como oportunidade de fazer propaganda), havia um torneio de futebol, chamado “Taça Independência” – ou também “Minicopa”, por reunir várias seleções nacionais, algumas delas fortes, como Argentina, Uruguai e França. Apesar das ausências de Alemanha Ocidental, Inglaterra e Itália (na época, as únicas seleções europeias campeãs mundiais), por perceberem que o campeonato era de cunho mais político do que esportivo – e não apenas por parte da ditadura militar: o presidente da CBD, João Havelange, convidou algumas seleções fraquíssimas como a Venezuela (pagando uma cota bem maior do que a cobrada pela Seleção Brasileira), de olho em seus votos na eleição para a presidência da FIFA que ocorreria em 1974 e seria vencida por Havelange.

No dia 15 de maio de 1972 o técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, anunciou a lista de jogadores convocados para representarem o Brasil na “Minicopa”. E nela não constava o nome de Everaldo, lateral-esquerdo do Grêmio titular da Seleção de 1970 – e que mantivera a titularidade desde então. Mais do que passá-lo para a reserva, Zagallo sequer relacionava Everaldo para vestir a camisa da Seleção, e também não convocara mais nenhum jogador de clubes do Rio Grande do Sul.

É, quem acha que antigamente os gaúchos não eram tão bairristas… Começou uma “guerra” de palavras, via imprensa. Na Folha Esportiva do dia 16 de maio, Antônio Carlos Porto foi o primeiro a “jogar lenha na fogueira”: propôs um boicote aos jogos da “Minicopa” em Porto Alegre, como forma de retaliação à CBD pela ausência de Everaldo na Seleção.

A reação da CBD foi quase imediata. João Havelange afirmou que o boicote à competição que celebrava os 150 anos da independência era uma atitude “antipatriótica” – palavras confirmadas em nota oficial. Porto respondeu em sua coluna do dia 18 de maio:

Até por uma questão de cheiro, poluição ou coisas desta ordem, vamos dispensar qualquer lição de brasilidade que parta do próspero empresário Jean Marie, presidente full-time da CBD. Não vamos invocar os sentimentos de brasilidade de nossa gente e trazer os múltiplos exemplos. Infantilidade ou maldade o chamamento deste sentimento para as coisas simples do futebol, especialmente em se tratando de uma “microcopa” vergonhosamente desprezada pelas seleções mais representativas do Velho Mundo.

Surgiu aí a genial ironia: Havelange acusava os gaúchos de não terem “sentimento de brasilidade”, mas tinha um nome “estrangeiro” – filho de belgas, foi registrado como “Jean Marie Faustin de Godefroid Havelange”. Dali em diante, os colunistas da Folha Esportiva começaram a constantemente chamar o dirigente apenas por seu nome de batismo, sem sequer citarem o sobrenome.

Um dos jogos da Seleção preparatórios para a “Minicopa” – ou “microcopa”, como os colunistas também passaram a constantemente ironizar – estava marcado para o dia 17 de junho, um sábado, em Porto Alegre. O adversário ainda era indefinido quando do início da polêmica pela não-convocação de Everaldo, mas não demorou a surgir uma proposta que, hoje em dia, pareceria notícia d’O Bairrista: uma “seleção gaúcha” (na verdade, um combinado Gre-Nal) desafiar a Seleção Brasileira.

Poucos acreditavam que a CBD aceitasse o desafio, mas o fato é que aceitou. E a partida, realizada no Beira-Rio, reuniu o maior público da história do estádio: mais de 110 mil pessoas estiveram presentes. Ficou claro que não havia uma “revolta separatista em curso”: na preliminar, a Seleção Olímpica do Brasil venceu o Hamburgo por 4 a 1 e foi bastante aplaudida. Já no jogo principal (que acabou empatado em 3 a 3, sem que em nenhum momento os “gaúchos” ficassem atrás no placar), de nada adiantou os dois times entrarem em campo juntos e carregando uma bandeira brasileira: a Seleção de Zagallo foi intensamente vaiada pelo público. Que também lembrou Havelange e sua afirmação quanto à “falta de brasilidade” dos gaúchos, com uma faixa: “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”.

Quando vi a foto acima pela primeira vez, na hora já achei o texto “perfeito” para ser parte do nome do meu trabalho – que é intitulado “Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí”: futebol e identidade “gaúcha” nas páginas da Folha Esportiva (1967-1972). Embora eu tenha escrito o trabalho em 2009, não posso deixar de lembrar que o título começou a surgir em 18 de maio de 1972, naquela coluna de Antônio Carlos Porto.

Por que votar em Serra

É simplesmente genial a campanha #votoserrapq, do blog Brasil e Desenvolvimento. O vídeo, carregado de ironia, demonstra o pensamento de muitos dos eleitores de Serra, que obviamente eles não assumem (até porque muitas vezes o defendem sem terem noção disso). É como o Classe Média Way of Life, que muitos seguem à risca sem jamais terem lido o sensacional blog.

Afinal, a ironia serve justamente para isso: fazer as pessoas pensarem, e perceberem o que afinal elas andam fazendo e/ou defendendo.

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Agora, (mais) um bom motivo para não votar Serra: o PL 84/99, ou AI-5 digital, cujo autor é tucano, o senador Eduardo Azeredo.

Classe Média Way of Life

Sem dúvida alguma, foi a novidade mais genial da blogosfera em 2009. O blog Classe Média Way of Life faz uma sátira do setor mais reacionário (literal e ironicamente, em média) da sociedade brasileira.

É um assunto que já foi tema de posts aqui e em outros blogs. Inclusive procuro diferenciar “ortograficamente” a classe média (formada por pessoas que não podem ser consideradas pobres mas ao mesmo tempo também não são ricas – como é o meu caso) da classe mérdia, que é formada por pessoas de classe média mas que são ultra-reacionárias, individualistas, conformistas, têm pavor de pobre e costumam bajular – e muito – os “ricos e famosos”, na esperança de receberem uma migalha de “reconhecimento” deles. E é justamente esse o tipo de pessoa retratado pelo Classe Média Way of Life.

Se eu já falei disso em um post (e bem por cima além de tudo), o Classe Média Way of Life tem um mérito: transformar algo aparentemente simples em um blog temático, com vários posts. E o melhor de tudo – que é justamente o detalhe que o faz genial – é a ironia do autor, Pierre do Brasil, em cada uma das “dicas” para agir como a classe média brasileira. Pois o blog é escrito justamente como um “manual de instruções” – que, pasmem, é “seguido à risca” por muita gente que conheço.

Claro que as pessoas que “seguem” todas as “dicas” se manifestam. E não é com palavras amistosas. Sinal de que o blog está cumprindo um de seus objetivos: através do humor, criticar a mentalidade de boa parte da classe média. A prova de que a crítica é bem feita, são os xingamentos: o “médio-classista padrão” não costuma ter senso de humor e nem aceitar alguma crítica a seu modo de pensar e agir. Nem aceitam que alguém que seja de classe média faça alguma crítica à própria classe média. Acham que é “ofensa”.

Uma prova de que o blog não é “ofensivo à classe média” porra nenhuma é que eu sou de classe média e não me sinto ofendido. O chapéu não me serve, diferentemente de quem deixa comentários “tipicamente médio-classistas”. Fica a esperança de que depois de um xingamento padrão (“Vai trabalhar!”, “Petralha vagabundo” etc.) surja quem sabe alguma reflexão nas cabeças dessas pessoas.