Será que o Irã é tudo isso que dizem?

Sábado à tarde, assisti ao final do programa “Zonas de Guerra” sobre o Irã no canal National Geographic. O pouco que vi, recomendo a todos que repetem ipsis litteris o senso comum sobre aquele país.

Em Teerã, o repórter-apresentador visitou judeus, que inclusive frequentam sinagogas. Isso mesmo: em um país majoritariamente (e oficialmente) muçulmano, e cujo presidente já defendeu a destruição do Estado de Israel (e vale lembrar que o programa foi gravado após tais declarações de Mahmoud Ahmadinejad), os judeus têm direito a expressarem sua fé. O Estado iraniano reconhece algumas minorias religiosas do país, e reserva a elas cadeiras no parlamento – ou seja, no Irã os judeus têm inclusive um representante político.

É realmente de se ficar com a “pulga atrás da orelha”: será que tudo o que já se falou sobre o Irã é simplesmente mentira? Bom, acredito que não: como disse, assisti apenas ao final do programa. Não sei se na boa parte que perdi, não se falou alguma coisa sobre as penas de morte por apedrejamento, os direitos das mulheres etc. Sem contar que o fato de que o Estado reconhece algumas minorias religiosas quer dizer que outras não têm tal distinção, e assim podem ser alvo de perseguições.

Mas ao menos, o programa oferece uma oportunidade de se conhecer um pouco do “outro lado” do Irã, que a mídia corporativa brasileira, “tão imparcial e democrática”, insiste em não mostrar.

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A fome no mundo em 2009

Um dos textos mais lidos do Cão Uivador é o que escrevi em 13 de setembro de 2007, comentando o “mapa da fome” feito pela FAO, que tinha dados de 1970 a 2003.

E agora descobri um mapa mais atualizado (2009) sobre este triste flagelo da humanidade, que também merece alguns comentários. Os países são divididos em cinco categorias: a primeira engloba os que têm menos de 5% da população subnutrida; a segunda, vai de 5 a 9%; a terceira, de 10 a 19%; a quarta vai de 20 a 34%, e a quinta corresponde aos países onde 35% ou mais da população sofre de subnutrição.

A situação da África, por exemplo. Mudou muito pouco desde 2003. Naquela ocasião, apenas cinco países africanos estavam na categoria 1: Líbia, Argélia, Tunísia, Egito e África do Sul (único que não se localiza na “África árabe”, setentrional). Agora, mais dois países se juntaram ao seleto grupo: Marrocos (África setentrional) e Gabão (central) – ou seja, a maioria ainda é de países do norte do continente, árabes e muçulmanos (os “malvados” segundo a visão de mundo tosca de muitos).

E por falar em muçulmanos, é digna de nota a situação do Irã, atual “perigo mundial”: segundo o mapa, a subnutrição era um problema para menos de 5% da população iraniana. Ou seja, o país está na mesma categoria que a maior parte da Europa.

Sim, “maior parte”, e não “toda” a Europa. A fome é uma realidade um pouco mais dolorosa para Eslováquia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Bulgária e Moldávia. Países da Europa Oriental, poderá lembrar algum fã da “civilização” e do liberalismo, que ainda dirá que a fome “é fruto do comunismo” – mas convém lembrar que, exceto a Albânia (país mais pobre da Europa), eles não sofriam de tais problemas antes da queda dos regimes “socialistas”; e também que destes oito países, dois integram a União Europeia (Eslováquia desde 2004 e Bulgária desde 2007), que diziam ser “o paraíso”. Dentre os oito, há até mesmo integrantes da categoria 3 (10-19%), caso de Sérvia, Montenegro e Moldávia.

Já na América Latina, nada mudou muito. Cuba continua com menos de 5% de sua população subnutrida, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e México (os dois últimos, novidades em relação a 2003).

O Brasil está um pouco abaixo, de 5% a 9% de subnutrição. Em 2003, o país se enquadrava entre 5 e 15% (ou seja, o critério para categorização era um pouco diferente), e provavelmente o percentual de pessoas subnutridas tenha baixado devido aos programas sociais do governo federal.