Porto Triste

Passei o último feriadão em Porto Alegre. Quando embarquei sabia que a situação por lá não era das melhores. Desde terça-feira da semana passada eram frequentes as notícias relativas à violência, e colegas de trabalho chegaram a sugerir que talvez fosse melhor ficar em Ijuí. Não fosse a saudade da minha família (desde junho eu não ia para lá), provavelmente eu teria cancelado a viagem, esperando que as coisas acalmassem.

Sexta-feira à noite, quando cheguei, logo soube de mais um tiroteio – que infelizmente resultou na morte do dono de uma padaria do bairro Menino Deus. Na manhã seguinte, li a notícia de que um pub tinha sido assaltado no Moinhos de Vento (bairro “chique”), e em um grupo de amigos do tempo do colégio no WhatsApp, uma amiga disse não ter respondido às mensagens trocadas no dia anterior porque na hora estava em pânico devido a um tiroteio na esquina da casa dela.

Apesar da impressão de estar em meio a um filme de faroeste, saí para a rua, pois queria ir ao Mercado Público tomar um caldo de frutas, para matar a saudade. E no final da tarde de sábado fui para a casa da minha avó, no bairro Bom Fim (onde dias antes um homem fora executado em plena tarde), passar a noite lá – e só me senti tranquilo quando cheguei. Só em ambientes fechados eu me sentia seguro.

No domingo, passei boa parte do dia na casa da minha avó, e à tarde fui à Arena do Grêmio, onde exorcizei minha “síndrome de Mick Jagger” com a vitória de virada do Tricolor sobre o Goiás. Assisti ao jogo com o Hélio, a Lu e o Evandro. Comentei que se não tivessem compromisso depois poderíamos ir à Cidade Baixa, mas aí o Hélio disse que na situação atual, com tantos assaltos, era melhor evitar. Voltei da Arena para o Centro de ônibus, desci no Mercado e pretendia pegar outro para chegar à casa da minha mãe. Só que na hora ele não estava no fim da linha, e por temer ficar esperando quando já escurecia (ainda mais que dias antes houve registros de “arrastões” no Centro), resolvi pegar um táxi: “melhor dar 10 reais para o taxista do que 20 para um assaltante”, pensei. E fiquei em casa na noite de domingo, conversando com a minha mãe – o que não foi ruim, pois não tinha passado muito tempo com ela, que me contou que ultimamente vinha evitando andar a pé na rua à noite.

Embarquei de volta para Ijuí às 13h de segunda-feira (cedo, pois não gosto de viajar à noite). Lamentando pelo feriadão ter passado tão rápido – passei bastante tempo com a família, mas gostaria de poder ficar mais. Só que ao mesmo tempo, com um certo alívio, pois durante a maior parte do tempo que estive em Porto Alegre me senti muito inseguro. Não sou uma pessoa de muitas certezas na vida, mas estou cada vez mais convicto de que não quero voltar a morar na cidade onde nasci e vivi por 33 anos – o que não digo sem uma boa dose de tristeza, pois continuo me sentindo em casa quando estou em Porto Alegre.

Sim, sei que a violência fora de controle neste início de setembro se deveu muito à redução do já deficitário efetivo policial causada pela paralisação em protesto contra o parcelamento dos salários (muito embora eu, como graduado em uma ciência humana, bem saiba que a criminalidade não se resolve simplesmente com “mais polícia”).

Só que no interior vivo muito menos intranquilo que na capital. No último dia 4, quando viajei, Ijuí amanheceu sem policiamento e andei na rua sem a mesma apreensão que senti muitas vezes em certas partes de Porto Alegre mesmo com a polícia trabalhando normalmente. Embora não pense em ter filhos, se um dia resolver tê-los quero que cresçam em uma cidade onde andar na rua não seja algo arriscado.

Por isso eu digo a quem deseja uma vida mais tranquila: quando aparecer uma oportunidade de morar no interior, não deixe de aproveitar. “Ah, mas no interior não se tem tantas coisas para fazer como na capital”: sobre isso falarei outra hora, em outro textão.

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Assalto na Avenida Independência

Fui assaltado ontem em uma parada de ônibus na Avenida Independência, pouco depois das 20h. Após me encostar por baixo da roupa a ponta de uma suposta faca (talvez fosse até mesmo uma ponta de caneta, mas eu não quis tirar a dúvida), o ladrão pediu o celular (não pude mentir que não tinha pois pegara para ver a hora pouco antes); depois pediu o dinheiro mas não quis levar a carteira, como eu não estava com pouca grana o cara foi “gente boa” e me deixou 10 reais “para a passagem”. Prejuízos apenas materiais, portanto.

Fazia mais de 10 anos que não era assaltado, e obviamente me deu muita raiva de ter sido roubado por um homem que, talvez, nem estivesse realmente armado. Mas ao mesmo tempo, o acontecimento de ontem pode nos deixar lições, que vão além do clichê “tomar mais cuidado e não esperar ônibus num lugar com pouco movimento e mal iluminado”.

Como a de que carro passando na rua não é segurança (aliás, coisa que eu já sabia há muito tempo). A Independência é uma das principais vias que saem do Centro de Porto Alegre, e às 20h ainda tem considerável fluxo de veículos. Porém, falta o que realmente pode intimidar a ação de ladrões: pessoas nas calçadas. Após o horário comercial, a movimentação de pedestres na Independência cai muito, tornando-a bastante atraente a criminosos.

Por que cai o movimento? Podemos citar diversos fatores (dentre eles o fato da Independência ser uma via predominantemente residencial, com raros bares ou restaurantes que funcionem à noite). Mas o principal, sem dúvida alguma, é a cultura do medo tão arraigada em nossa sociedade.

Não entendeu? Então ligue a televisão, de preferência naqueles programas asquerosos do estilo mostra-a-cara-do-vagabundo. O que eles fazem não é jornalismo, é terrorismo. Se os levarmos a sério (e infelizmente, muita gente leva), vamos ficar trancados dentro de casa a maior parte da vida, apenas dando mais audiência a eles. Afinal, se é fato que há violência, ao mesmo tempo reparo que na esmagadora maioria das vezes que saí à rua não me aconteceu absolutamente nada.

Porém, tais “noticiários” em geral nos passam a ideia de que a rua é um lugar inóspito, extremamente perigoso. E acreditamos que devemos sair do trabalho, da aula etc., e ir direto para casa, sem escalas. Quanto menos tempo na rua, melhor!

O resultado é esse que senti na pele ontem e muita gente já conhece. As ruas deixam de ser espaços de sociabilidade, já que as pessoas preferem se encontrar no shopping. Tornam-se apenas pontos de passagem (que é feita predominantemente de carro, e não a pé), e por isso mesmo, mais perigosas. E pior ainda: pessoas assustadas aceitam qualquer medida que supostamente acabe com a causa de seu temor. Pode ser um Estado policial, ou mesmo a barbárie de um linchamento.

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Estamos, portanto, trilhando o caminho inverso ao de Bogotá (como mostra a ótima matéria feita por Renata Falzoni em 2010 com o ex-prefeito da capital colombiana, Enrique Peñalosa). Na década de 1990, a cidade era talvez a mais violenta do mundo, e seu trânsito era caótico. Peñalosa assumiu a prefeitura em 1998 e resolveu os dois problemas promovendo uma mudança de mentalidade: ao invés de alargar ruas e erguer viadutos, optou por melhorar o transporte coletivo e pela construção de ciclovias e vias para pedestres, estimulando a retomada das ruas pela população (o que ajuda a inibir a criminalidade, que despencou em Bogotá). Além disso, proibiu o estacionamento nas ruas com um argumento que, de tão óbvio, chega a dar raiva por não ser levado a sério no Brasil: o estacionamento não é um direito constitucional em nenhum país, e o fato das pessoas não terem onde estacionar seus automóveis particulares (ou seja, propriedades privadas) não é problema público.

Sobre poder falar mal do presidente (e de outras coisas mais)

Às vezes tenho a impressão de que quanto mais correntes são detonadas, mais “novidades” surgem. A última que recebi é um texto muito tosco, defendendo a ditadura militar. Me senti na obrigação de escrever uma resposta.

Primeiro vamos ao texto da mensagem, que copiei como veio: mal-formatado e (principalmente) mal-escrito…

É MUITO BEM HUMORADO E MUITO VERDADEIRO. . .
Na época da ‘chamada’ ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem,quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas,sem que isso constituísse crime ambiental,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…

…é falar mal do presidente!

que merda !

Bom, agora vem a parte mais divertida: destruir os “argumentos” de quem escreveu esse lixo e-mail. Continuar lendo

O grande irmão vigia você

Um curto mas ótimo vídeo, chamado “Big Brother State”, que com legendas só achei em espanhol. Mostra como por trás do discurso de “segurança para o cidadão”, os cada vez mais complexos sistemas de vigilância criam um estado policial, no qual todos são suspeitos até prova em contrário.

Perguntinha básica: quantas câmeras vigiam você durante o dia? Talvez sejamos mais vistos do que imaginamos…