O saudosismo da infância

Das modinhas do Facebook, a de colocar foto de criança no perfil nos dias que antecedem o 12 de outubro é provavelmente a melhor (ou a menos pior, dependendo do ponto de vista). Impressionante o quanto algumas pessoas mudaram, ou continuam parecidas com o que eram na infância.

Lembrar a infância também remete aos brinquedos da época. E um dos mais marcantes para as crianças do final dos anos 80 e boa parte dos 90 foi, sem dúvida, o Pense Bem. Simulando um computador, oferecia diversos jogos com questões sobre diversos temas – ou seja, além de divertido, era também didático. Bem mais interessante fazer contas num Pense Bem do que numa prova de Matemática, né?

O Pense Bem foi meu presente mais festejado no Natal de 1989, mas se não me engano ele passou a virada do ano já na assistência técnica. Não sei se era porque brincava demais com ele, se tinha defeito etc. Mas várias vezes ele foi parar no conserto. E eram um inferno as pilhas dele: seis grandes que gastavam com uma incrível rapidez. Tanto que, depois do Pense Bem, o presente mais festejado foi uma fonte de alimentação ligada diretamente na rede elétrica, que tornava as pilhas desnecessárias.

Abaixo, um vídeo que mostra o Pense Bem em funcionamento. Feliz 1990 a todos!

Anúncios

A época na qual pensei em ser médico

Essa polêmica absurda em torno da vinda de médicos cubanos (sim, a polêmica é por causa dos cubanos em específico porque a Veja – sempre ela! – disse que eles são “espiões comunistas” que estão invadindo o Brasil) me fez lembrar a minha infância. Não que naquela época tenha acontecido algo semelhante ao que se viu ultimamente (se ocorreu, não recordo), mas sim porque durante um tempo considerável em minha vida, pensei em ser médico.

Em meus primeiros anos de vida, fui um assíduo frequentador de hospitais e consultórios. Fruto de meu nascimento prematuro: meu aniversário é em 15 de outubro pois neste dia, em 1981, minha mãe estava com a pressão arterial muito alta e os médicos do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (onde ela já estava internada desde 30 de setembro) decidiram consultar o meu pai sobre realizar a operação cesariana mesmo que ainda não estivesse “na época” de eu nascer, que seria entre o final de outubro e o início de novembro. Meu pai autorizou a cirurgia e nasci às 23h05min daquela quinta-feira. Por conta do nascimento prematuro, acabei ficando no hospital até 30 de outubro, em observação.

Porém, nascer antes do tempo não me rendeu apenas passar os primeiros 15 dias de vida em um hospital. Tive outros problemas que me levaram a ter muito contato com médicos durante a infância. Fora outras doenças que todas as crianças têm, como sarampo e catapora.

Devido a tudo isso, lembro que tinha pavor de ir a hospitais. Mas, paradoxalmente, ali pelos seis ou sete anos de idade comecei a falar que queria ser médico. Lembro inclusive de em algum Natal ou aniversário ter ganho de presente uma ambulância de brinquedo, que vinha toda equipada para “socorrer” o “paciente” – no caso, um pequeno boneco.

Nem sequer imaginava, àquela altura, que a medicina era uma carreira cujos benefícios financeiros são elevados. Depois que insisti que queria ser médico é que comecei a ouvir as pessoas dizerem “que legal, médicos ganham bem” e outras expressões semelhantes. Mas na época, recordo que o dinheiro era o que menos importava. Ser médico, para mim, significava antes de tudo trabalhar pelos outros, pelas suas vidas. Era uma espécie de “retribuição”: depois de ter sido tão ajudado (e até mesmo salvo, como prova o meu nascimento), seria a minha vez de ajudar muitas pessoas a se livrarem de seus males – na época eu não pensava em “retribuição”, simplesmente achava bacana a ideia de ser médico, mas olhando retrospectivamente, faz todo o sentido.

Desisti de ser médico no início do Ensino Médio, depois de começar a me ferrar em Biologia e perceber que não teria saco de varar noites estudando aquilo. Mas minha ideia sobre a medicina não mudou. Sempre nos dizem que devemos escolher a profissão não pelo dinheiro e sim pela vocação, ou seja, pelo que gostamos de fazer. Optar pela medicina significa, portanto, dedicar sua vida para salvar outras, sendo isso mais valioso que o dinheiro no bolso. Não me parece nada bom procurar atendimento médico e recebê-lo de uma pessoa preocupada apenas em receber o pagamento, pouco se importando com meu estado de saúde.

E esse é o temor que despertam os médicos cubanos: mais do que bem qualificados, têm outra visão de mundo, se importando mais com as pessoas do que com o dinheiro, ao contrário dos “revoltadinhos de jaleco” que além de não quererem ir para o interior, não querem que mais ninguém o faça. Quem for atendido por cubanos vai comparar com o atendimento prestado pelos brasileiros, e assim muitos dos “nossos” terão de melhorar muito. Que assim seja.

A infância virou um grande negócio

Quando eu era criança, não ganhava presente no dia 12 de outubro. Não chegava a achar ruim, pois três dias depois vinha o meu aniversário, fazíamos a festinha com os amigos e aí sim ganhava vários presentes.

Porém, o meu irmão também não ganhava nada em 12 de outubro. O motivo é simples: meus pais sempre diziam que devia dividir os presentes com ele. Ou seja, o que era meu também era dele, e vice-versa, e se não o deixasse usar os brinquedos, eu também não poderia brincar. Eu reclamava muito de precisar dividir os presentes porque meu irmão tinha o divertido hábito de destruir os brinquedos, mas de nada adiantavam meus protestos.

Agora, o detalhe principal: eles não davam todos os presentes que queríamos – seja em aniversário, Natal etc. Não digo que ficamos só querendo os brinquedos que pedíamos, mas sabíamos que se a lista fosse longa, ganharíamos muito menos da metade dela. Então, melhor pedir pouca coisa e ser feliz com aquilo: citando um exemplo, no Natal de 1989 um presente só, o Pense Bem, valeu por muitos.

Já hoje, o que acontece? Os pais, cada vez mais ausentes devido à correria dos tempos atuais, convivem pouco tempo com as crianças. E assim se percebem em uma situação terrível: não querem fazer todas as vontades delas, para não deixá-las mal-acostumadas (e também porque o salário tem fim), mas também não conseguem passar mais tempo com elas, e assim “compensam” a ausência dando presentes. E com a paranoia da segurança, se diz que “as ruas são muito perigosas” (e se elas forem abandonadas pela população, realmente ficarão perigosas). Resultado: os pais se sentem mais tranquilos se os filhos brincarem dentro de casa e, principalmente, se passarem a maior parte do tempo na frente da televisão.

As crianças, mais suscetíveis à influência da publicidade que os adultos (que têm um pouco mais de senso crítico), acabam por desejar tudo o que veem anunciado na telinha. Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo etc. E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos (que também estão sempre ganhando coisas novas). E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Mas engana-se quem pensa que é só a publicidade “infantil” (ou seja, de produtos destinados a esse público em específico) que influencia as crianças. Muitas delas conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que fazia embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. E assim vemos cada vez mais crianças que ao invés de brincarem, se transformam em verdadeiros “adultos em miniatura”: têm celular e o trocam até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos se maquiam e calçam salto alto…

É sobre isso que trata o excelente documentário abaixo, “Criança – A alma do negócio” (que pode ser baixado aqui). Assista, reflita e difunda.

————

Seja no Dia da Criança ou em qualquer outro, a ideia é sempre válida: não há melhor presente que a presença. Um brinquedo novo é bacana, mas nada substitui um passeio, uma ida ao parque… E (por que não?) ao estádio de futebol.

Como mostra o fantástico vídeo que pesquei lá no Impedimento, da primeira vez em que o pequeno torcedor do Racing de Avellaneda entra no estádio do clube. Duvido que algum joguinho eletrônico deixasse o guri tão empolgado.

Palmadas

Duas ótimas charges do Kayser:

Para quem não entendeu a primeira charge: uns anos atrás, a RBS lançou uma campanha institucional contra maus tratos a crianças, cuja “frase de ordem” era justamente “maltratar as criancinhas é coisa que não se faz”.

Campanhas, aliás, que só têm um propósito: enganar, e vender mais jornal. Pois elas são papo furado para boi dormir.

Rua Pelotas, 31 de outubro de 2009

post_capa

Em 1º de novembro de 2008, fui com meu pai tirar fotos da Rua Pelotas, onde vivi minha infância, e as divulguei no blog. Chamei à atenção para o estado dos jacarandás, muitos com os troncos ocos.

Um ano depois, voltamos à rua. Dois daqueles jacarandás não mais existem. Foram cortados pela SMAM em julho e setembro. Em seu lugar foram plantadas outras árvores, que infelizmente levarão muitos anos até tornarem-se tão imponentes quanto o restante.

Clique aqui para acessar as fotos de 31 de outubro de 2009. E lembrando que daqui a uma semana completam-se 20 anos da queda do Muro de Berlim, repare também que, embora há menos tempo, o “Muro da Pelotas” caiu (ele ficava onde agora se vê uma cerca cinza, à direita na foto acima). Em novembro de 1989 eu imaginei que se o derrubasse, apareceria na televisão, igual aos berlinenses. Faltou-me uma picareta e real vontade de derrubar o muro: eu preferia brincar com meus carrinhos ou andar de bicicleta pela rua.

Lembranças do “meu tempo”

Parece “coisa de velho”, mas… Bons tempos aqueles. As crianças brincavam na rua. Apostávamos corridas de bicicleta – eu disputava a hegemonia com o Leonardo, enquanto o Vinicius (meu irmão) e o Diego, os mais novos da turma, brigavam para não ficar em último. Também fingíamos que as calçadas eram as ruas de uma cidade inventada: o Leonardo e eu éramos os patrulheiros, e o Vini e o Diego, para variar, se davam mal.

O trecho acima é do texto “A rua onde eu cresci”, publicado em 7 de julho de 2008. De tantos comentários elogiosos que recebeu, estou convencido de que foi um dos melhores que escrevi… (Espero então que agora receba uma enxurrada de críticas para que eu aprenda a ser humilde.)

Um ano e três meses depois, a Rua Pelotas, da qual falei, está menos verde: dois jacarandás, que estavam doentes, foram removidos em julho e setembro. E ainda há mais árvores doentes na rua, que correm risco de queda – aumentado com ventanias como as registradas na segunda-feira passada e ontem.

Essas horas, começo a de fato me sentir velho: “no meu tempo as coisas não eram assim”. As crianças brincavam na rua, e as árvores não estavam em mau estado.

Mas deixando um pouco de lado a “amargura de velho” e os prazos acadêmicos (afinal, a monstrografia está pronta na minha cabeça, mas boa parte dela ainda precisa ser traduzida ao papel), não custa nada lembrar algumas coisas boas da infância (dentre elas, não ter de escrever uma monstrografia).

  • No Natal de 1986 (sim, eu gostava de Natal!), chegou-se à solução de um sério problema: o que fazer para que eu comesse alguma coisa na ceia? Como eu sempre gostei muito de sopa (aprende, Mafalda!), a ideia foi de fazer um creme de ervilha. O “lance decisivo” foi a travessura do Papai Noel, que tomou um prato de creme de ervilha. Meu pai “ouviu um barulho”, foi verificar o que era e “expulsou o bom velhinho” (velhinho aos 35 anos???) a pontapés, por comer nossa ceia. Seguindo o exemplo do Papai Noel, eu quis creme de ervilha e assim, utilizando as palavras de Eric Hobsbawm (a academia me persegue, mesmo no passado), foi inventada uma tradição na nossa família, a do creme de ervilha no Natal, seguida à risca até hoje. Exceto a parte do Papai Noel: embora o “bom velhinho” ainda retornasse por mais alguns Natais (apesar dos pontapés de 1986), hoje ele foi deixado de lado, é claro;
  • Em novembro de 1989, a televisão começou a falar da queda de um muro em Berlim e de como aquilo era importante. Na hora eu não entendia o real motivo para tanta falação: achei que derrubar muros era algo digno de aparecer na televisão, então imaginei que se derrubasse um muro na Rua Pelotas, seria notícia no mundo inteiro. Ainda bem que eu não tinha uma picareta a meu alcance;
  • Na mesma época, tinha eleição para presidente. Eu já entendera mais ou menos o que era o negócio: os candidatos são eleitos mas não ficam o resto da vida “lá”, então periodicamente se realizavam eleições para determinar quem entrava no lugar. Então ouvi o noticiário dizer “os brasileiros votam para presidente pela primeira vez em 29 anos” e não entendi mais nada. Vale lembrar também que fizemos uma simulação daquela eleição na minha turma do colégio (eu estava na 1ª série) e o Brizola ganhou disparado, com direito ao meu voto. Depois eu aprendi a fazer o “L do Lula” para o segundo turno, mas infelizmente deu Collor;
  • Também na mesma época, durante uma ida ao Iguatemi com minha mãe, vi uma equipe da RBS, que acabara de gravar uma reportagem sobre… O Natal! Os caras se preparavam para levarem as fitas à emissora, mas de tanto eu encher o saco, aceitaram me gravar. E eu apareci na televisão! Ou seja: “meu passado me condena”;
  • Ainda em 1989, desta vez no dia de Natal, ganhei um “Pense Bem” de presente. Feliz da vida, quis chamar meus amiguinhos para conhecerem a novidade, mas todo mundo tinha ganho um “Pense Bem”;
  • No inverno de 1993, a Rua Pelotas sediou a inesquecível Copa América de futebol de botão, com a participação de quatro seleções: Argentina (Diego), Brasil (Leonardo), Equador (eu) e Uruguai (Vinicius). A Celeste foi campeã, mas não de forma invicta: na primeira rodada, perdeu por 2 a 1 para o Equador (que acabou em 4º lugar, ou seja, último). De qualquer forma, chora Vini!

O “progresso” mata a memória

Em fevereiro, escrevi aqui sobre o caso do Esquilo Travesso. A casa onde a escolinha funcionava era alugada: o proprietário vendeu, a escola fechou. Ao ler a notícia, não levei um segundo para entender qual seria o destino da casa.

Havia ficado de passar na frente dela pela última vez. Adiei diversas vezes a “despedida”, ora porque estava muito quente (e eu suo demais, o que é extremamente desconfortável, daí todo o ódio que sinto pelo verão), ora por não ter tempo, ora por me esquecer mesmo. No último domingo, após almoçar com a minha mãe e o meu irmão, lembrei que havia tempo e não estávamos longe, então decidimos passar pela Rua Dona Laura.

Logo que entramos na rua, a mãe já foi diminuindo a velocidade do carro, para estacionar. Mas vi que no lugar da casa havia apenas um tapume daqueles “imitação de muro”.

Nem estacionamos o carro, e fomos embora. Não havia mais motivos.

Para o meu irmão, que frequentou o Esquilo apenas em 1988 e não lembra de nada (pois era muito pequeno), certamente não foi tão significativo ver aquele tapume. Mas eu fui aluno por três anos (1986-1988), e senti uma certa tristeza, embora já soubesse desde fevereiro que aquilo aconteceria. Pois ver um tapume no lugar da escola deu a impressão de que aquela época está “fisicamente” acabada, com a destruição de seu símbolo (a casa), permanecendo apenas na minha memória – que, com o passar do tempo, se tornará ainda mais falha do que já é. Antes, mesmo que ficasse muitos anos sem passar na frente da escola, pelo menos eu sabia que ela estava lá.

E o pior de tudo, é ver concretoscos chamando isso de “progresso”.

Documentário: “Criança, a alma do negócio”

Excelente dica achada no Dialógico: o documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner, trata sobre a publicidade que é dirigida às crianças no Brasil. Abaixo, o trailer:

O texto abaixo foi copiado da página do Instituto Alana:

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?

Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que umn adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Para baixar o vídeo completo, clique aqui.

————

Não só a publicidade “infantil” (ou seja, que anuncia produtos destinados àquele público em específico), como também a publicidade “normal” influencia as crianças.

Muitas crianças conhecem marcas de cerveja por causa daquelas propagandas engraçadinhas, tipo as da tartaruguinha que faz embaixadinhas (veiculadas durante a Copa de 2002), ou com outros bichinhos. Começam a falar de assuntos nada adequados para sua idade, graças à televisão. Cada vez mais vemos crianças que deveriam estar brincando, se transformando em verdadeiros “adultos em miniatura”: trocando de celular até mais de uma vez por ano, meninas com menos de 10 anos maquiadas e calçando salto alto…

E o pior de tudo, é que muitos pais se percebem em uma situação terrível. Não querem fazer todas as vontades dos filhos – para não deixá-los mal-acostumados – mas ao mesmo tempo não têm muito tempo para conviverem com as crianças, devido aos muitos compromissos profissionais. Resultado: a “babá eletrônica” (televisão) acaba tendo mais influência sobre as crianças do que os próprios pais.

Então, elas querem sempre um brinquedo, uma roupa, um tênis novo (um dos meninos mostrados no filme tem em seu armário mais tênis do que eu tive nos últimos 20 anos). E logo que ganhem, querem outro. Por um motivo simples: se não tiverem nada de novo para mostrar por muito tempo, acabam se sentindo excluídas da turminha de amigos. E os pais acabam cedendo ao desejo das crianças.

Chega a parecer “coisa de velho”, mas “no meu tempo” (ou seja, quando eu era criança, e isso nem faz tanto tempo – menos de 20 anos), meu pai e minha mãe não davam tudo o que eu pedia. E quando eu ganhava algum presente, sempre devia dividi-lo com o meu irmão – e de nada adiantava eu protestar. Egoísmo não fez parte da minha educação.

A perda de uma referência

Um tempo atrás, o Kleiton escreveu no Cataclisma 14 a respeito do Colégio Marista Irmão Weibert, onde estudou de 1994 a 2000. Falido, o colégio encerrou suas atividades no final de 2006, sendo vendido para a Arquidiocese de Porto Alegre e transformado em Colégio Senhor Bom Jesus. Ele falou que, apesar do prédio de seu antigo colégio continuar lá, não sentia mais a mesma identificação: era como enxergar um lugar que parece familiar mas não passa nenhum vínculo, nenhuma referência com seu passado – pois sabia não ser mais “o mesmo colégio” que era quando se formou.

Algo semelhante está para acontecer comigo, mas em relação a um período ainda mais recuado no tempo. Semana passada, recebi do meu pai um e-mail com um link para uma matéria do caderno de bairro ZH Moinhos. A leitora Hedy Schmidt lembrava o dia, há 20 anos, em que foi escolher uma escolinha para a filha Mariana e havia encontrado na Rua Dona Laura o Berçário, Maternal e Jardim de Infância Esquilo Travesso. Desde então, passar pela rua e acenar para as professoras Bia Leiderman e Elisa Martins Dias, responsáveis por muitos “esquilinhos” durante 30 anos, tornou-se rotina mantida até hoje.

Os nomes das professoras me ajudaram a “abrir a porta” da parte da minha memória onde eu guardava as lembranças daquele tempo. Eu freqüentei o Esquilo de meados de 1986 ao final de 1988, saindo por um motivo de força maior: conclusão do Jardim de Infância. Nunca mais voltei à escolinha, mas mais de uma vez passei pela frente apenas para recordar aqueles tempos.

O Esquilo fora indicado pela terapeuta com a qual eu me tratava na época, apesar de caro para os padrões da minha família – meu pai disse que não foi fácil pagar todos os meses. E no último ano, meu irmão(zinho), quase bebê de colo naquela época, foi matriculado. Como ele chorava toda hora, muitas vezes as professoras me chamavam para ir brincar com ele – imagina só, eu, com 6 anos, brincando com criancinhas de 1 e 2… O que me rendeu o apelido de “paizinho”.

Uma vez a professora (infelizmente lembro poucos nomes) designara um símbolo para cada aluno se identificar: o meu era um triângulo vermelho. O problema é que eu não aceitava usar a cor do time da beira do rio… Venci a disputa com um colega e fiquei com um quadrado azul. Mas isso era para quem ainda não soubesse escrever: e foi lá que aprendi, a 1ª Série do 1º Grau serviu para melhorar a minha caligrafia.

Também lembro do “primeiro amor”: tinha uma menininha muito simpática que eu não desgrudava, chegava a encher o saco dela. Mas eis que, no dia do meu aniversário, ela me deu um ursinho de presente! Porém, o pateta aqui esqueceu o presente na escola aquele dia. Logo que cheguei em casa reparei a burrada. No outro dia não esqueci o ursinho, ainda mais depois de saber que a menina havia ficado muito triste, por achar que eu não tinha gostado do presente. Que vergonha…

Assim como aconteceu com o Irmão Weibert, o Esquilo Travesso vai fechar. Segundo escreveu a leitora do ZH Moinhos, a casa onde funciona a escolinha será vendida. Infelizmente, sinto que comigo acontecerá algo bem diferente do Kleiton: ele pelo menos ainda pode passar pelo prédio onde seu colégio funcionava, mesmo que não sinta mais a identificação que tinha antes (ao menos, como ele disse, “não virou um centro comercial, um posto de gasolina, um complexo esportivo”); no caso do Esquilo, considerando a valorização daquela região da cidade, provavelmente a casa não será mantida.

Espero que eu esteja errado.

Volta ao passado

“Dia disso”, “dia daquilo”… O “dia das crianças” em si é, assim como os outros, uma bobagem inventada para as lojas venderem mais. Mas não nego que é também uma oportunidade de voltar no tempo e relembrar os bons tempos de infância. Ainda mais quando se está a três dias de ficar “um ano mais velho”.

Já apostei corrida de bicicleta (detalhe: com minha bicicleta sem freio, que estava estragado), brinquei de avião, joguei futebol (dentro de casa e também na rua Pelotas, debaixo dos jacarandás floridos de outubro), e, principalmente, muito botão.

Se das outras brincadeiras eu não participo mais – pois a Pelotas hoje em dia continua com os seus jacarandás, mas parece não ter mais crianças – e jogar futebol é para mim uma utopia – pois o que eu faço com a pobre bola pode ser chamado de qualquer coisa, menos futebol -, o botão eu ainda jogo. E o Torneio Farroupilha de 2008 (que de “farroupilha” só conserva o nome) é disputado neste fim-de-semana. Antigamente, era disputado sempre próximo ao 20 de setembro.

Minha expectativa é de voltar ainda mais ao passado e repetir o que fiz na primeira edição do campeonato, em 1992: ser campeão. Ganhei aquele título jogando com o glorioso FC Cascavel, do Paraná; já agora eu quero levar o Vovô à glória. Conseguirei?

———-

Atualização:

Parte do objetivo foi alcançado: Vovô nas semifinais!!! E o melhor de tudo: o Guri está fora…