O otimismo é uma ilusão

“Todo esforço será recompensado. Basta querer, que vai chegar lá.”

Quantas vezes já ouvimos dizerem isso para nós? Chega a parecer que somos os únicos culpados por tudo o que dá errado em nossa vida.

Se não passamos no vestibular, por exemplo. A culpa é nossa, pois “não estudamos o suficiente”, mesmo que tenhamos perdido muitas noites de sono. Pouco importa que fossem centenas de candidatos por vaga ou que não tenhamos acordado bem no dia da prova: sempre seremos os culpados. Sempre.

É muito fácil, quando já se tem uma garantia de futuro, ser otimista e dizer aos demais que “basta ter persistência” para ser “um vencedor”. Não deixa de ser verdade que para “chegar lá” é preciso ser persistente (isso quando já não se nasce “lá”), mas por outro lado, poucos dizem que “lá” não tem lugar para todos. Ou seja, que muitos de nós passaremos a vida “batalhando duro” sem jamais chegarmos ao tal “dia da vitória”.

Obviamente não devemos ser pessimistas, pessoas que “se entregam” antes mesmo de lutar. Nem exageradamente otimistas. Opto pelo realismo, e a realidade me mostra que nem todo esforço será recompensado. Não creio na meritocracia, segundo a qual o jovem da favela e o do condomínio fechado têm as mesmas chances de “vencer na vida”.

Aliás, não quero um mundo em que tenhamos de “vencer”, mesmo com chances iguais a todos. Nem mais vencedores nem perdedores: que sejamos todos um solidário empate.

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Mujica: “Viemos ao planeta para sermos felizes”

Incrivelmente, eu ainda não tinha assistido a este belíssimo discurso do presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, na Rio+20 (que aconteceu em junho). Simplesmente sensacional: embora o que ele diga sobre nosso verdadeiro objetivo na vida ser óbvio, lembra que ser feliz não é acumular bens, como muitos acreditam.

E quando Mujica fala sobre a necessidade de muitos trabalharem cada vez mais para poderem pagar todas as despesas, lembro de tantas pessoas que jogam dinheiro fora com coisas que não precisam, só para mostrarem que podem comprá-las… Mais do que consumismo, isso resume bem a lógica dominante na atualidade, o individualismo extremado: a vida é vista como uma competição acirradíssima, e a solidariedade fica relegada a segundo plano. Sendo assim, vale tudo para “ser melhor que os outros”, até mesmo gastar o dinheiro que nem se tem.

O mundo está doente

Ontem pela manhã, uma motorista que passava pela BR-116 em Canoas ouviu pela Rádio Gaúcha a notícia de que em um ponto da rodovia havia um cão abandonado, junto à mureta que separa os dois sentidos da estrada. Ao enxergar o cachorrinho, não teve dúvidas: parou o carro e o recolheu.

Foi o que bastou para ela ouvir todo o tipo de xingamento. Motoristas de outros carros bufaram pela perda de, sei lá, apenas mais alguns minutos em seu deslocamento. Provavelmente tinham ouvido a notícia sobre o cão, talvez sentissem pena dele, mas retirá-lo daquela situação perigosa… “Nem pensar, não tenho tempo a perder!”, diz o “cidadão de bem”.

Não me resta a menor dúvida de que tudo está muito errado em nossa sociedade. Cada vez mais me convenço de que imaturo não é o jovem que sonha com um mundo diferente, e sim, o velho que não aceita mudanças – e muitas vezes tem menos idade que os jovens sonhadores (que por sua vez, às vezes têm até cabelos brancos).

E há um longo caminho pela frente, como provam os motoristas que esbravejavam. Pois eles representam um dos maiores males da atualidade: a falta de solidariedade.

Mídia conservadora desinforma sobre o #15O

Amanhã é o dia da grande mobilização mundial convocada pelos jovens indignados espanhóis. Em várias cidades – inclusive Porto Alegre – a juventude irá ocupar as praças para exigir a democracia real, não esta falsificada que temos aí.

As manifestações terão como alvo os poderes financeiro, político (que é subjugado pelo primeiro), militar e midiático. Este último é uma das explicações para a mentira descarada que foi publicada em jornais de Porto Alegre ontem. Segundo a mídia conservadora guasca, amanhã Porto Alegre terá uma “marcha contra a corrupção” convocada pela OAB, e não uma manifestação que é parte de uma mobilização mundial. Detalhe: seguindo exatamente o mesmo roteiro previsto para a marcha do #15O.

Obviamente a corrupção nos causa indignação. Só que o #15O e as “marchas contra a corrupção” são movimentos absolutamente distintos.

O #15O questiona o modelo político e econômico vigente, defende um mundo com mais solidariedade em lugar de tanto individualismo e consumismo. E obviamente, é crítico à corrupção: basta lembrar que quem se corrompe o faz objetivando vantagens ilícitas sobre os outros. Em um mundo mais solidário e menos individualista, as pessoas passarão a pensar mais nas outras e não só em si mesmas: não é óbvio que com isso, a tendência é de que a corrupção diminua (ou até mesmo acabe)?

Já as tais “marchas contra a corrupção” não questionam o status quo. São manifestações apenas moralistas e de caráter conservador, ainda mais quando se percebe quem está por trás: tem um tal de grupo “Acorda Brasil” (lembram daquelas malditas correntes?) apoiando, além da “juventude maçom”.

A companhia de gente desse “naipe”, eu não quero de jeito nenhum.

O que está acontecendo com parte da juventude?

Não acho a juventude dos dias de hoje “sem noção”, mesmo com a onda de preconceito no Twitter após a eleição (eram jovens destilando ódio). Afinal, generalizar a partir do que alguns racistas disseram, é também ser preconceituoso, é ignorar que há sim muitos jovens que não aceitam a estupidez reinante.

Mas, não podemos negar que há uma tendência ao crescimento do percentual de jovens de classe média (que está em expansão) que não são simplesmente conservadores, mas sim reacionários, raivosos. Que não têm vergonha de expressarem opiniões totalmente preconceituosas (e que eles não acham ser isso, mas sim “a verdade”). Não fazem uma reflexão crítica sobre o que ouvem, o que lêem.

Engana-se quem pensa que eles não são rebeldes, “coisa típica da juventude”. O problema, é que hoje em dia até a rebeldia foi “enquadrada”, virou “produto”, “moda”, como prova uma loja em um centro comercial de Porto Alegre especializada em “rock e cultura alternativa”. Agora é assim: quer ser “alternativo”, vá ao shopping… E, por favor, isso não é culpa dos jovens. Eles não se tornam consumistas “ao natural”, e sim, porque são compelidos a isso. Afinal, praticamente vivem dentro do shopping, ouvem o tempo todo que “a rua é muito perigosa”. É muito difícil resistir a este verdadeiro terrorismo que é praticado pela “grande mídia”.

Além disso, eles refletem um problema sério de nossa época, que é a aparente falta de uma utopia, de um ideal pelo qual lutar, como lembra muito bem o excelente documentário Utopia e Barbárie, de Sílvio Tendler. Tanto que, a quem acha que a vida dos jovens de hoje é melhor por não estarmos mais sob uma ditadura, o meu amigo Diego Rodrigues lembra em um ótimo texto escrito em seu antigo blog Pensamentos do Mal (clique aqui para ler na íntegra):

Os que dizem que a vida dos jovens hoje é mais fácil não têm idéia do que é viver sem causa, numa época que não pensa, que não reflete. Faço parte da juventude mais revolucionária de todos os tempos, mas que não tem inimigo. Não sabemos contra o que lutar. Vivemos na era da descrença: as religiões são uma farsa; a política, uma hipocrisia; e os sonhos, ilusões. Isso é que a juventude pensa, e de forma cada vez mais individualista.

Assim, quais são os principais sonhos de boa parte dos jovens? Ganhar dinheiro, “subir na vida”… Uma luta extremamente solitária, o que fortalece o individualismo e faz com que eles não descubram o quão podem ser revolucionários. Enquanto quem luta por algum ideal se insere num grupo de pessoas com objetivos semelhantes, laços que reforçam a solidariedade e a motivação para seguir sonhando.