Sala de brigação

Eventualmente escuto o Sala de Redação, por conta do rádio estar ligado na Gaúcha quando o programa começa. Não costumo parar para ouvir, até porque seu alegado objetivo de promover “debates esportivos” raramente é atingido: ultimamente, o que mais noto no programa são discussões ríspidas por motivos os mais idiotas possíveis, sem contar quando os participantes resolvem falar de política sempre com um viés reacionário, sem que haja contraponto (em 2009 um artigo de Eurico Booth já alertava para o “endireitamento” da crônica esportiva no Rio Grande do Sul, vale muito a pena reler o texto).

Segunda-feira, quando Kenny Braga chamou Paulo Santana de “fdp”, eu não ouvia o programa. Soube do episódio quando no Facebook vi os primeiros links noticiando a demissão de Kenny e o afastamento de Santana. Então ouvi o áudio do momento em que se deu a baixaria e então algo muito estranho me chamou a atenção.

Kenny Braga, que é colorado, se queixava de “agressividade” do (ex-presidente) gremista Cacalo nos comentários sobre o Gre-Nal vencido por 4 a 1 pelo Grêmio. As críticas de Kenny não se dirigiam a Paulo Santana, mas este ainda assim resolveu interromper o agora ex-colega, que com razão reclamou e pediu que o deixassem falar e concluir seu comentário, elevando o tom de voz. “Vai gritar com a tua mãe”, reagiu Santana, e em resposta Kenny (que perdeu a mãe ainda criança) disparou “a tua mãe, fdp”. O palavrão teria motivado a demissão – mesmo que não tenha sido a primeira vez em que se falou uma expressão de baixo calão no programa.

Na tarde de terça-feira, foi anunciado que Fernando Carvalho, ex-presidente do Internacional, seria o novo integrante do Sala de Redação. Mas a rapidez com que veio a substituição – apenas um dia após a demissão de Kenny Braga – dá a impressão de que talvez a troca já estivesse sendo pensada há certo tempo. Ainda mais que, como comentei, o “fdp” se deu como resposta a uma interrupção agressiva e absolutamente sem motivo de Paulo Santana: teria o veterano integrante da “bancada gremista” no programa (o outro é Cacalo) agido de forma deliberada, de modo a provocar uma reação intempestiva de Kenny? Provavelmente nunca saberemos.


Em postagens sobre o assunto, li vários comentários acerca da “necessidade de não se ter torcedores no debate esportivo para que ele possa ser sério”. Tal ideia é um erro crasso: se alguém debate futebol é porque aprecia o esporte; e a porta de entrada para tal gosto obviamente é o sentimento de identificação com algum clube (ou seja, ser torcedor dele). Ou alguém acredita que os comentaristas que não revelam seu time do coração sejam realmente “neutros”?

Ora, isenção é algo que só existe na ficção. Todos falamos sobre o mundo a partir da visão que temos dele.

Algo diferente de imparcialidade, que consiste em, independentemente de sua visão de mundo, não “brigar com os fatos”. É só reparar no que acontece com a imprensa brasileira no tocante à política: veículos que assumem seus posicionamentos, Carta Capital (esquerda) e o O Estado de São Paulo (direita) são mais imparciais que outras publicações que insistem em negar sua ideologia, como a Veja (especialista na transformação de suposições em afirmações para atacar o PT) e a Istoé (lembram daquela pesquisa na véspera da eleição que mostrava Aécio à frente de Dilma para além da “margem de erro”, contrariando todos os demais institutos?).

Em relação ao jornalismo esportivo, cito dois belos exemplos de que “ter time” não impede ninguém de fazer excelentes análises sobre futebol. O Carta na Manga tem editor gremista (Vicente Fonseca) e promove duas vezes por semana o Carta na Mesa, debate do qual participam jornalistas que assumem seus clubes de coração e onde a presença de gremistas e colorados assumidos no mesmo espaço não gera bate-bocas como se vê no Sala de Redação (que, aliás, já teve brigas motivadas por divergências acerca de esquemas táticos, podem acreditar). Já no saudoso Impedimento havia o predomínio de colorados entre seus autores “fixos”, e isso nunca fez com que o site pudesse ser considerado “imprensa vermelha”.

Infelizmente, a maioria da imprensa brasileira (assim como dos jornalistas) não tem o costume de admitir abertamente de que lado está, em nome de uma suposta “credibilidade”. É uma pena, pois deixar claro seu posicionamento é, antes de tudo, honestidade com o público, que assim sabe que as análises sobre os fatos em tal veículo terá determinado viés.

Dia de perdas

A política brasileira está de luto com a trágica morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência pelo PSB. É uma grande perda, a ser lamentada independente da opção política. (E, numa triste coincidência, Campos faleceu exatos nove anos depois de seu avô Miguel Arraes, que também governou Pernambuco e foi um dos nomes mais importantes da política brasileira no Século XX.)

Hoje o dia também é triste para o jornalismo esportivo. Conforme anunciado três semanas atrás, o site Impedimento deixa de ser atualizado após a final da Libertadores, que será jogada logo mais. Mas é uma perda que vai além do mero jornalismo esportivo: a partir do futebol (e com foco na América do Sul), o Impedimento fala também de cultura, sociedade, política etc. Foi lá que li alguns dos melhores textos sobre os protestos de 2013, por exemplo.

Quem não conhece o Impedimento deve estar achando que os dois parágrafos acima não têm relação alguma, relatam apenas (mais) uma triste coincidência. Mas sim, eles têm a ver um com o outro, conforme explicarei agora.

O Impedimento tem vários fatores que o diferenciam dos principais portais e páginas sobre futebol. Um deles é tratar o esporte por uma ótica que foge do senso comum (algo sobre o qual pretendo escrever mais). Uma das consequências disso é o outro diferencial: os comentários em alto nível (salvo raríssimas excessões), com muitas discordâncias, mas que constituem uma discussão em seu sentido original, de “trocar ideias”; não raramente ela acabava fugindo do tema original (ou seja, o artigo publicado), mas não porque algum “troll” o fazia com esse objetivo e sim por uma “evolução natural”, justamente porque os textos fugiam do senso comum e por conta disso atraiam leitores com características semelhantes. Se toda a internet fosse como o Impedimento, aquela máxima “nunca leia os comentários” não faria sentido.

Mas infelizmente a realidade é outra. A maioria dos comentários em portais de notícias é simplesmente odiosa. Mas isso não se resume aos portais: quem comenta lá tem seus perfis em redes sociais, e neles reproduzem as mesmas “opiniões”. Que, ao contrário dos comentários do Impedimento, exalam muito senso comum. É o caso daquela máxima tão difundida de que “político é tudo igual, nenhum presta” (como se eles “chegassem lá” sozinhos, sem necessitarem de votos). Cria-se uma ojeriza à política que tem como resultado comentários celebrando o falecimento de Eduardo Campos, assim como em 2011 comemoraram o câncer de Lula e torceram pela morte do ex-presidente. E tenho certeza de que a maioria que disse tais sandices sequer tem conhecimento do que ambos fizeram como governantes.

Ah, se toda a internet fosse como o Impedimento…

Julho amaldiçoado

Acabo de saber que um avião da Air Algérie que se dirigia de Burkina Faso para a Argélia caiu, com 116 pessoas a bordo. Mais um…

Neste julho de 2014 já tivemos outros dois aviões no chão. Além daquele da Malaysia Airlines lá na Ucrânia (e que ainda não se sabe quem o derrubou), ontem uma outra aeronave caiu em Taiwan após tentativa de pouso em meio a um tufão que atingia a região.

Este mês também é péssimo para a literatura brasileira. Três escritores se foram: João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna.

No futebol, mais perdas. A Copa do Mundo teve sua organização elogiada, mas a Seleção Brasileira levou 7 a 1 da Alemanha (que ainda ganhou o título, quebrando a escrita de nunca uma seleção europeia ter sido campeã na América). No tocante à crônica esportiva, tivemos a triste notícia de que o Impedimento (melhor página de futebol do país) deixará de ser atualizado após a Libertadores.

Relacionada à Copa, a questão dos ativistas presos e processados, acusados por violência em protestos antes mesmo deles acontecerem (não me parece coincidência as prisões terem se dado na véspera da final da Copa, e as razões para elas seguem nebulosas). A “Sininho” não é a “Che Guevara” que os esquerdistas mais cegos dizem que é, mas também não é uma “Bin Laden” como a velha imprensa procura pintar – discurso repetido, tristemente, por alguns petistas tão cegos quanto os ultraesquerdistas, não percebendo que quem sai mais prejudicado com a polêmica é justamente o governo Dilma, dado que muitas pessoas não sabem distinguir as diversas esferas governamentais (federal, estadual e municipal) e também esquecem que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes uns dos outros.

Tudo isso num só mês, e que ainda tem uma semana pela frente… Será que não dá para “pular” estes sete dias e começar agosto amanhã?

Cachorro em campo é vida

O pessoal do Impedimento apoia declaradamente as invasões caninas aos gramados de futebol. Como eles costumam dizer, “cachorro em campo é vida”.

Os cães já entraram em campo diversas vezes. Até mesmo em Copa do Mundo: no Mundial de 1962, no Chile, dois perros invadiram o gramado durante o jogo Brasil x Inglaterra – e um deles driblou ninguém menos que Garrincha.

Na Copa América de 2011, na Argentina, novamente um “cusco” esteve em campo. Foi durante a partida entre Brasil e Venezuela.

E agora, como foi dito no Impedimento, o Campeonato Brasileiro “atingiu sua maturidade”: um cão invadiu o gramado de São Januário no jogo Botafogo x Náutico, sendo ovacionado pela torcida presente.

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Por motivos óbvios, este blogueiro é totalmente favorável às invasões caninas nos campos de futebol. Do contrário, seria obrigação moral trocar o nome do blog…

Árbitro irregular

Há exatos 29 anos, o futebol brasileiro vivia um momento histórico.

Na tarde daquele domingo, 9 de outubro de 1983, Santos e Palmeiras se enfrentavam no Morumbi, em partida válida pelo Campeonato Paulista. O Peixe vencia por 2 a 1, mas cedeu o empate já nos acréscimos do segundo tempo. Só que o “heroi” palmeirense naquele jogo não foi nenhum de seus jogadores, e sim o árbitro José de Assis Aragão: a bola bateu no juiz, que como todo artilheiro estava “no lugar certo, na hora certa”. O Santos reclamou muito da validação do gol que, como mostram as imagens, foi irregular.

“Mas tu não conheces as regras do futebol, não sabes que o juiz é neutro?”, perguntará alguém. Sei sim. Tanto que em situações normais o gol é legal: se o árbitro chutar a bola da intermediária e ela entrar, é gol.

Porém, não foi o caso deste lance. Como se vê desde o começo da jogada, Aragão está na linha de fundo. E quando o palmeirense Jorginho dá o chute que bateria no juiz e entraria, não há mais nenhum jogador do Santos à frente do árbitro, só um na mesma linha.

Ou seja, Aragão estava impedido. E por isso, deveria ter anulado seu gol…

“Eu não sei que sentimento não tive no Olímpico”

A frase acima é da crônica de Rômulo Arbo, publicada no Impedimento. Mais uma lembrança do cada vez mais próximo último jogo do Grêmio no Estádio Olímpico Monumental.

É impressionante: toda vez que tenho contato com algum material sobre o estádio e, principalmente, sua história, me dá aquele aperto no peito. Como o texto já citado, e o documentário abaixo, “Uma Era Monumental: a história do Estádio Olímpico”.

Alguém deve estar perguntando quando começarei a postar as minhas memórias do Olímpico. Respondo: pretendo iniciar o mais breve possível. Poderia citar “falta de tempo” como desculpa para a demora – mas aí ela deveria me impedir de escrever sobre qualquer outra coisa.

Então percebo a verdade: no momento em que começar, estarei falando do Monumental apenas no passado… Como se ele não existisse mais. E assim, escrever as memórias será um sofrimento antecipado. Ou melhor: me fará sofrer mais por antecipação, pois pensar que só faltam três meses para o fim já é doloroso. Assim, a “enrolação” nada mais é do que uma espécie de “escapismo”, por mais inútil que ele seja.

Vexame

Foi em 2009 que o Impedimento promoveu sua hilária série “Top 10 – humilhações”, sobre os principais fiascos de vários clubes brasileiros – com textos produzidos por torcedores dos times humilhados. Sobre os vexames do Grêmio, concordo com alguns, outros eu acho que poderiam ser substituídos por jogos ainda mais vergonhosos.

Pois a partida de quinta seria digna de integrar tal lista, se feita agora. Pois o Grêmio não simplesmente perdeu jogando horrivelmente mal: o Oriente Petrolero já estava eliminado, logo, decidiu poupar titulares para a competição que pode vencer, que é o Campeonato Boliviano. Mas, ainda que jogasse com força máxima, ainda assim a vitória era obrigação para o Tricolor, mesmo sem Douglas.

Não havia a desculpa da altitude, visto que a partida era em Santa Cruz de la Sierra (416 metros, mais baixo que Gramado). E lembremos que o Grêmio já venceu quatro partidas “acima das nuvens” em Libertadores passadas – curiosamente, todas por 2 a 1: Bolívar, em La Paz (1983); El Nacional, em Quito (1995); América, na Cidade do México (1998) e Aurora, em Cochabamba (2009).

Mas o pior nem é o que aconteceu na Bolívia. Pois acontece muitas vezes de um time vir bem, e numa partida simplesmente tudo dar errado. O problema, é que o jogo de quinta não foi exatamente uma exceção em 2011: o Grêmio só ganhou o primeiro turno do Gauchão porque o Caxias abdicou de jogar futebol no 2º tempo daquela decisão; se classificou como um dos piores segundos colocados na Libertadores, num grupo em que poderia ter sido um dos melhores primeiros; e são raras as boas atuações neste ano (só lembro de duas: contra o Ypiranga, nas quartas-de-final do primeiro turno do Gauchão; e semana passada contra o Júnior Barranquilla).

Na quinta, as coisas “apenas” foram piores, com Escudero tropeçando duas vezes na bola, Borges perdendo gol a la Jonas, Gabriel jogando nada e fora de posição (se na lateral já não andava muito bem…), Rodolfo sendo expulso de forma estúpida, e o segundo gol do Oriente Petrolero deu uma amostra do que foi o time do Grêmio na partida: o último “defensor” no lance era Vinícius Pacheco – afinal, onde é que estava a zaga?

Quando eu “liguei a enxuta”

Depois da hilária série “Top 10 – Humilhações”, com posts sobre os maiores vexames dos grandes clubes brasileiros, o Impedimento lançou uma nova, dedicada apenas ao que o torcedor mais faz no futebol, além de torcer: secar.

Cheguei a fazer uma lista preliminar das minhas maiores secadas, mas agora a completo. E boa parte das referentes ao Inter é dessa década: afinal, os anos 90 foram gremistas, não era preciso secar muito… Era muito fácil o Inter perder quando os colorados mais acreditavam naquele ditado de que “agora, vai”.

Vale a pena chamar a atenção também que não só o Inter foi alvo da minha secação, como vocês verão – e elas nem sempre aconteceram por motivos meramente futebolísticos. Mas nenhum time foi mais secado do que o da beira do rio, afinal, eu tenho “inimigo na trincheira”: modéstia a parte, eu sou um herói por aguentar o meu irmão Vinicius (colorado mais chato da face da Terra) por tanto tempo sem lhe dar sequer um soquinho. Creio que a melhor maneira de suportar isso é… Secando!

Então, vamos ao meu “Top 10 – Secadas”.

10. Flamengo 1 x 0 Inter (13/12/1987)

Eu assisti o jogo decisivo do Campeonato Brasileiro junto com o meu pai e o meu irmão, os dois colorados. Se bem que o meu irmão tinha só 2 anos e meio, assim, ainda não incomodava.

Não que tenha sido uma grande secada, mas é a mais antiga que eu lembro, então precisa estar na lista.

9. Bragantino 1 x 0 Inter (24/11/1996)

Essa entra não tanto pela secada, e sim pelo “ato coletivo”.

Jogavam Grêmio e Goiás no Estádio Olímpico, e ao mesmo tempo, Bragantino e Inter em Bragança Paulista. Já classificado para as finais do Campeonato Brasileiro, o Grêmio jogou um dos piores primeiros tempos que já vi (provavelmente foi o pior daquele glorioso ano de 1996), foi para o intervalo levando 3 a 0, debaixo de vaias. Um vexame digno do “Top 10 – Humilhações” parecia se anunciar. Mas aquele era o Grêmio do Felipão. Sabe-se lá que impropérios o treinador falou no vestiário, mas o time voltou melhor no segundo tempo, e até fez um gol. O Goiás seguia na frente, com 3 a 1 no placar.

Porém, naquele momento a atenção se voltava a Bragança Paulista. O Inter precisava vencer um adversário já rebaixado para também ir às finais – se empatasse dependeria de resultados paralelos (dentre os quais, uma vitória do Grêmio seria bem-vinda). Os colorados já se sentiam jogando em Tóquio em dezembro de 1997. Só esqueceram de avisar o Bragantino, que venceu por 1 a 0.

No Olímpico, o jogo já era burocrático: o resultado era bom para o Goiás, que se classificava; e o Grêmio só esperava seu adversário nas quartas-de-final. E ainda por cima, o Inter estava fora. Numa jogada de mestre, o responsável pelo placar do Olímpico fez com que o letreiro passasse a exibir os dizeres “TORCEDOR GREMISTA, ‘ELES’ ESTÃO FORA”. Assim os gremistas que já pensavam em vaiar o time ao final do jogo (até eu vaiaria!), saíram do estádio felizes da vida, cantando músicas que debochavam dos vermelhinhos.

8. São Caetano 5 x 0 Inter (13/12/2003)

Eu não vi, não ouvi, nem prestei atenção em boa parte deste jogo da última rodada do Campeonato Brasileiro. Tinha uma atividade no PT (velhos tempos de filiado no PT…) que começava aproximadamente junto com o segundo tempo. Quando saí de casa e me dirigi à avenida João Pessoa, o São Caetano já vencia por 1 a 0.

O fato de não ter prestado atenção não queria dizer que eu não desejasse ardentemente a derrota vermelha. Afinal, bastava um empate para o Inter se classificar para a Libertadores de 2004. Um pontinho apenas, e eles fariam o que não conseguiam desde 1993. Seria um péssimo final para o ano do centenário gremista.

Eu também havia sido convidado para ir a uma pizzaria, comemorar o aniversário de uma amiga. A princípio eu não iria. Porém, quando recebi uma mensagem da minha mãe, me informando que o São Caetano havia vencido por 5 a 0, minhas convicções políticas foram vencidas pela fome – estomacal e “flauteal”. Informei que teria de sair, peguei um ônibus e me mandei para a pizzaria. Cheguei lá, e antes mesmo de cumprimentar a aniversariante, mostrei uma mão aberta a um amigo, primo dela, que era colorado…

Ainda bem que no dia seguinte o Grêmio fez 3 a 0 no Corinthians e se livrou do rebaixamento, se não toda essa diversão da véspera teria sido em vão.

7. Fluminense 2 x 1 Inter (01/09/2004)

Sequei muito, mas não adiantou. O Fluminense venceu o Inter por 2 a 1… PERAÍ??? Não tá errado esse troço???

Não: naquela noite, secar o Inter era… Torcer pelo Inter!

O técnico do Inter era Joel Santana. Desde que fora contratado, já se dizia que não daria certo, seu estilo não combinaria com o “futebol gaúcho”.

E de fato, não deu certo. Joel assumiu o time em 6º lugar no Campeonato Brasileiro, e já estava em 18º. Alguns já diziam que ia conseguir acabar atrás do pior Grêmio de todos os tempos. Se perdesse para o Flu, “tchau tchau, Joel”. Se ganhasse, seria ótimo para nós gremistas: o técnico ganharia uma sobrevida, e depois perderia mais umas três ou quatro partidas… Mas, por perder aquela, acabou demitido.

6. Inter 0 x 4 Juventude (02/06/1999)

Algumas horas antes daquele jogo, eu comentei com uma colega do curso de espanhol que eu fazia, colorada: “o Inter não vai perder hoje, vai ser 2 a 2”. De fato, era o que eu torcia que acontecesse, não imaginava uma vitória do Juventude no Beira-Rio. O empate com gols classificaria o Ju para a final da Copa do Brasil, já que o jogo de Caxias havia acabado em 0 a 0.

Tamanho pessimismo antes do jogo fez com que eu soltasse gargalhadas ao final da partida. Principalmente ao lembrar do meu irmão, sempre confiante, que estava no estádio assistindo àquele baile… É bom demais o Inter dar vexame e o meu irmão assistir ao vivo!

5. Inter 0 x 1 Cruzeiro (13/11/2002)

Penúltima rodada do Campeonato Brasileiro. O Inter estava na zona do rebaixamento, e precisava vencer para não colocar o pé na cova. Os colorados lembravam o jogo contra o Palmeiras, em 1999. Havia uma imensa mobilização deles.

Que não deu certo. O Cruzeiro venceu por 1 a 0, alguns jogadores do Inter já falavam em ficar para jogar a Segundona em 2003, de tão certa que era a queda. No bom e velho portão 8, muitos protestos, e muitas lágrimas.

Em casa, meu irmão tão quieto, mas tão quieto, que chegava a assustar. Nem cheguei a flautear na hora. Decidi guardar as energias para a última rodada.

Eu tinha tanta certeza, que nem fiz força para secar no último jogo, Paysandu x Inter. Já previa uma Série B 2003 com Palmeiras, Botafogo e Inter: apenas dois subiam, assim sobraria um grande para ficar mais um ano no purgatório. Mas eu não contava com a, no mínimo, amarelada do Paysandu, diante de sua torcida em Belém do Pará.

4. Irã 2 x 1 Estados Unidos (21/06/1998)

Esse era o jogo mais aguardado da primeira fase da Copa do Mundo de 1998. Afinal, reunia dois países que estavam há quase 20 anos sem relações diplomáticas. Rivalidade extra-campo entre duas seleções sem tradição no futebol.

Não era admirador do regime teocrático do Irã. Mas também detestava os Estados Unidos e sua política imperialista. Como não eram as palavras em persa que aos poucos iam se incorporando ao dia-a-dia do Brasil, ficou óbvio para quem – ou melhor, contra quem – eu torceria.

E de fato, sequei os Estados Unidos. Bastante no jogo contra o Irã – com direito a muita vibração nos gols iranianos – mas também em toda a primeira fase da Copa do Mundo. A seleção dos EUA perdeu seus três jogos (Alemanha, Irã e Iugoslávia) e ficou em último lugar na Copa.

3. Palmeiras 1 x 2 Cruzeiro (19/06/1996)

Quando um clube brasileiro disputa a decisão da Libertadores contra um estrangeiro, o doutor em Física Galvão Bueno sempre diz: “fulano é o Brasil na Libertadores!”.

Naquela noite, o Cruzeiro, hoje “Brasil na Libertadores”, era “o Grêmio na final da Copa do Brasil”. Tudo porque na semifinal entre Grêmio e Palmeiras, o bandeirinha anulara um gol legítimo de Jardel. Fiquei com ainda mais raiva do Palmeiras – que eu considerava, à época, o verdadeiro rival do Grêmio, já que o Inter não ganhava nem torneio de cuspe.

E de fato, o Cruzeiro “foi Grêmio” naquela noite. Após a vitória de virada dos mineiros, um de seus jogadores falou que a Raposa havia “vingado o Grêmio”.

No dia seguinte, cheguei cedo à aula. Pouco depois, chegou meu colega palmeirense Giuseppe (que no dia anterior já se dizia campeão), com aquela típica cara de “tive uma noite terrível”. Chovia e fazia frio naquela manhã, tempo perfeito para se pegar uma gripe, então recomendei ao Giuseppe que tomasse um Energil-C: o nome do comprimido de vitamina C estampava a camisa do Cruzeiro campeão.

2. Inter 2 x 2 São Paulo (16/08/2006)

Às vésperas desse jogo, ouvi alguns gremistas falarem em um tal de “ser gaúcho”. O que justificaria… Torcer pelo Inter!

Claro que não engoli tamanha sandice. Afinal, se o São Paulo ganhasse a Libertadores pela 4ª vez, teria todo aquele destaque na televisão, etc., etc., mas a solução para isso era muito simples: desligar a TV. E os são-paulinos, salvo um ou outro perdido por aqui, estão em São Paulo. Já os colorados estão aqui, muitas vezes dividindo o mesmo teto – meu caso. Aguentá-los, não é para qualquer um.

A tarefa do São Paulo era complicada, mas não impossível. Precisava vencer por dois gols de diferença para ser campeão – se vencesse por 1 a 0 nos 90 minutos, haveria mais 30 de prorrogação. Havia esperança.

Que parecia se ir quando o Inter fez 1 a 0. Mas renasceu no início do segundo tempo, com o empate são-paulino. O Inter ainda faria 2 a 1, mas o São Paulo ainda buscou o 2 a 2, faltando poucos minutos – apavorando os colorados e enchendo de esperança os gremistas de verdade. Eu já vislumbrava o Clemer levando o frango da vida dele, e um Beira-Rio inundado de lágrimas.

Mas, o frango não aconteceu, e deu Inter, campeão da Libertadores pela primeira vez. Para escapar da flauta, tive uma boa ideia: cumprimentar os rivais, que ficaram bastante surpresos com minha atitude. Bastante compreensível, afinal, nem tudo estava perdido. Ainda.

1. Ih, cadê a 1???

Esta fica para um post a parte. Primeiro, porque este já está muito grande. Segundo, porque, de fato, merece um post a parte, só para ela.

Sobre interesses comerciais

As transmissões do Gauchão 2009 têm primado por uma pérola – além das tradicionais do Paulo Brito, “heinhÔ Batista?” e “Futebol Clube Santa Cruz” (nunca vemos o Brito chamar Grêmio ou Inter por seu nome completo, só o Santa Cruz – deve ser implicância pelo clube ter o mesmo nome da cidade, já que ele torce para o rival Avenida).

De repente, um clube cujo nome é Sport Club Ulbra (heinhÔ Batista?) passou a ser chamado de “Canoas” nas transmissões e nos programas esportivos da RBS. Sendo que a cidade já tem um clube chamado Canoas Futebol Clube. No ano passado, já vinham chamando o time de “Ulbra-Canoas” – até entenderia bem em programas transmitidos para todo o Brasil, pois há também um Sport Club Ulbra em Ji-Paraná, Rondônia.

E não adiantou a direção do clube de Canoas divulgar uma nota oficial criticando a denominação da RBS e reafirmando que se chama Sport Club Ulbra. Os programas da emissora, assim como as transmissões dos jogos, continuam falando no “Canoas”.

E o pior é que o negócio pode ficar ainda mais esdrúxulo. Por exemplo, caso o Quilmes, da Argentina, venha a enfrentar algum time brasileiro em uma Libertadores ou Sul-Americana, qual será o nome que a Globo lhe dará? Pelo que li no Impedimento, parece ser determinação da emissora (e como a RBS é repetidora da Globo…) chamar times que têm nomes de “empresas” (Ulbra, em tese, é uma universidade, não empresa) pelo nome das cidades onde se situam. Só que o Quilmes fica em… Quilmes! A famosa cervejaria argentina e o clube devem seus nomes à cidade.

O início de mais uma caminhada

O Caue Fonseca escreveu no Impedimento um texto que poderia ter sido muito bem escrito por mim.

São impressionantes as semelhanças: assim como o Caue, eu era sempre o último escolhido para os times de futebol na Educação Física e também comecei a gostar de futebol tardiamente. Em 1991, quando o Grêmio foi rebaixado, não me senti tão humilhado quanto em 2004 (se bem que 2004 realmente foi pior).

Comecei a prestar mais atenção em 1993, quando a professora de Educação Física praticamente impôs que eu jogasse futebol, já que em geral eu ficava sentado assistindo (chegou ao ponto de um colega inventar um gol para mim no passado, pois eu mal tocava na bola quando jogava). Em 1994, não assisti apenas aos jogos do Brasil na Copa – partidaços como Romênia x Colômbia, Romênia x Suécia e Bulgária x Alemanha foram marcantes no início de minha adolescência.

E foi naquela época que comecei a me sentir gremista mesmo. Não me lembro de nada da Copa do Brasil de 1989, mas de 1994 sim: pela primeira vez eu disse “ganhamos”, me sentindo “integrante” da “comunidade imaginada” chamada “torcida do Grêmio”.

No início de 1995 eu ainda era um “gremista em formação”. Para alguém em um processo desses, ganhar a Copa Libertadores da América seria demais. Simplesmente demais. E ela veio.

O Grêmio começou desacreditado, mas foi avançando na competição. Nas quartas-de-final, o adversário era o Palmeiras, grande favorito. Mas em dois jogos inesquecíveis, o Grêmio seguiu adiante: fez 5 a 0 no Olímpico, tomou 5 a 1 em São Paulo e se classificou no saldo. Depois passou pelo Emelec (que já havia enfrentado na primeira fase), empatando em 0 a 0 no Equador e vencendo por 2 a 0 no Olímpico. E na final, o Nacional de Medellín. Vitória de 3 a 1 no Olímpico, e empate na Colômbia em 1 a 1 conquistado no final do jogo, que nos deu o título (pela segunda vez).

Fica fácil entender o motivo pelo qual sou fascinado pela Libertadores. A quero mais do que qualquer outro caneco. Ganhar o Brasileirão em 2008 seria bom, mas o mais importante, a vaga para “La Copa”, nós conquistamos.

E agora, vou lá, começar mais uma caminhada.