“Mudar não mudando”

Essa expressão foi proferida em 1997 pelo presidente do Internacional na época, Pedro Paulo Záchia. O Inter era treinado por Celso Roth, vinha mal no Campeonato Gaúcho, e como se não bastasse, o Grêmio era o então campeão brasileiro e fortíssimo candidato ao título da Libertadores daquele ano. A pressão por mudanças na comissão técnica colorada era enorme, mas Záchia decidiu manter Roth e anunciou que o Inter iria “mudar não mudando”. Deu certo: o time ganhou o Gauchão e fez sua melhor campanha da década em Campeonatos Brasileiros, acabando em terceiro lugar; como se não bastasse, o centroavante Christian desandou a marcar gols, fazendo 23 só no Brasileirão.

Pois foi algo semelhante que fez a Igreja Católica, ao eleger papa o argentino Jorge Mario Bergoglio. É o primeiro latino-americano que chega a tal posto, e ainda por cima escolheu o nome de Francisco, santo católico associado aos pobres.

“Não mudar, mudando”, é assim que podemos resumir o que aconteceu. Afinal, o novo papa é conservador (se manifestou fortemente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto), e pesam contra ele acusções de colaboração com a última ditadura argentina, uma das mais sanguinárias que o continente já viu – familiares de desaparecidos, por sua vez, dizem que Bergoglio não colaborou mas fez “poderia ter feito mais” pelos perseguidos políticos na Argentina; e o Vaticano, obviamente, nega tudo.

Só que tem mais. Hoje em dia a América do Sul é uma das regiões do mundo onde o conservadorismo é muito contestado (como provam os vários governos de centro-esquerda e esquerda no subcontinente), ou a Igreja Católica perde terreno (caso do Brasil). Assim, eleger um papa sul-americano pode indicar uma tentativa de reverter o quadro na região. E não simplesmente no aspecto religioso.

Paranoia? Então lembremos de como foi “aberta” a chamada Cortina de Ferro que dividia a Europa na Guerra Fria. Inúmeros fatores causaram o colapso dos regimes socialistas do Leste Europeu: corrupção, burocratização excessiva, autoritarismo etc. Mas tais países eram estáveis politicamente na década de 1970 não devido ao monopólio do poder pelo Partido Comunista, e sim porque a população se adaptara ao status quo, sendo poucas as contestações ao regime – antes da década de 1980, a última fora a Primavera de Praga na Tchecoslováquia, em 1968.

Então a Igreja entrou no jogo em outubro de 1978: quebrando uma tradição que já durava mais de 400 anos, o papa eleito pelo conclave não foi um italiano, e sim um polonês, Karol Józef Wojtyła, que adotou o nome de João Paulo II.

Boa parte dos países do Leste Europeu não têm no catolicismo sua religião majoritária. Mas a Polônia há muito tempo tem uma das mais elevadas proporções de católicos da Europa.

Pois bem: e onde o status quo começou a ser questionado com mais força na Europa Oriental? Foi exatamente na Polônia, onde em 1980 foi fundado o primeiro sindicado desvinculado do PC em um país do Leste Europeu (o Solidariedade), que organizou greves em protesto contra o governo. Após decretar lei marcial no final de 1981 e colocar o Solidariedade na ilegalidade, o regime acabou sendo forçado a negociar, e em 1989 convocou eleições semi-livres (nas quais o Solidariedade conquistou praticamente todas as cadeiras do Senado); no final de 1990, o líder do sindicato, Lech Wałęsa, foi eleito presidente. Tanto Wałęsa quanto Wojciech Jaruzelski (último governante da Polônia socialista) e Mikhail Gorbachev (último presidente soviético) afirmam que o papa foi fundamental no desmoronamento da Cortina de Ferro, por ter “inspirado” os poloneses a se levantarem.

Agora, a escolha da Igreja foi por um papa argentino. Que era visto pelos Estados Unidos como um “poderoso” opositor ao governo Kirchner. Coincidência?

Talvez seja mera coincidência que, poucos dias após Bergoglio ter sido eleito, o ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla tenha convocado um golpe contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Condenado à prisão perpétua, Videla parece “fora da casinha”. Mas é bom ficar atento com gente “séria” que poderá se meter a defender tais absurdos.

E se o papa for gaúcho?

Não deveria ligar para a eleição do papa. Afinal, ele é autoridade para os católicos, e como sou ateu, não tenho “chefe religioso”.

Porém, não dá para negar que o papa tem, sim, sua importância política. Afinal, é o líder de uma religião com enorme número de seguidores, e mesmo que muitos católicos não sigam à risca o que ele diz, suas palavras sempre têm repercussão.

E agora, tem essa: entre os mais de cem cardeais que elegerão o próximo papa, há brasileiros, e um destes é gaúcho. Qualquer cardeal que participe do conclave pode ser eleito, ou seja… O próximo papa pode ser gaúcho.

Caso isso venha a acontecer, nos preparemos para aguentar um bairrismo ainda mais exacerbado: o “drama gaúcho” virará brincadeira de criança. Haja paciência.

Reflexões sobre um diálogo pós-moderno

Na quarta-feira, fui ao blog do Diego e encontrei um post interessantíssimo. Era o “control-C control-V” de uma conversa via MSN que ele tivera com o Volmir. (Só faltava eu, para ser um legítimo papo de Vagabundos Iluminados.)

Um trecho do diálogo (para ler na íntegra, clique aqui ou aqui):

Diego diz:
eu queria ter alguma certeza na vida

Diego diz:
acreditar em alguma coisa

Diego diz:
o meu problema é que não paro de questionar meus valores

Diego diz:
pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo

Diego diz:
assim, acabo sem foco, sem saber o que quero… e não saio do lugar

Discípulo do Poeta diz:
sei lá

Discípulo do Poeta diz:
acreditar em alguma coisa sempre é o primeiro passo pra desacreditar depois

Discípulo do Poeta diz:
acreditar em algo é só adiar a constatação da merda q estamos condenados

Diego diz:
e isso é pós-moderno

Discípulo do Poeta diz:
mas não é tão ruim… é engraçado viver na merda tb

Discípulo do Poeta diz:
a real é q não existe mais nada de legítimo

Discípulo do Poeta diz:
ou as pessoas são nostálgicas ou elas são sem valores, ou tem valores falsos

“Colei” o trecho acima porque reflete muito do que eu penso também.

Durante a faculdade, acabaram-se muitas certezas que eu tinha quanto ao passado. E acho isso ótimo, ainda mais para quem vai fazer pesquisar sobre História. O problema, é quando não se tem certezas sobre o futuro, e até mesmo em relação ao presente.

Não quero dizer que eu não tenha princípios que me definam. Eu tenho, mas questiono muitos deles toda hora. O que é bom e ruim ao mesmo tempo.

Bom, justamente por manter “em constante funcionamento” o meu senso crítico. O ruim, é o que o Diego descreveu: ficamos sem foco, como “cachorros correndo atrás do próprio rabo”, sem saber o que queremos. E não saímos do lugar.

E se eu não sei se acredito em certas coisas, tem outras que tenho certeza de não acreditar. Uma delas é o que o Diego descreveu no começo do diálogo com o Volmir: a pretensão de mudar de vida, “uma vida burguesa, monogâmica e católica” (isso foi uma ironia dele). Vejo muitos amigos, da mesma idade, da mesma turma nos tempos do colégio, seguindo esse caminho, e tenho cada vez mais certeza de que não o quero: convenhamos, deve ser uma chatice!

O problema, é que não basta simplesmente rejeitar certos valores. É preciso abraçar outros, crer neles. E o mais difícil, atualmente, é acreditar em algum, sem sentir dúvidas.

O 29 de fevereiro e a Revolução Russa

O dia 29 de fevereiro só acontece em anos bissextos. Tais anos são divisíveis por 4 ou são múltiplos de 100 divisíveis por 400.

O ano bissexto existe desde a implantação do calendário juliano em Roma por Júlio Cesar (daí o nome “juliano”). O motivo é que a Terra não demora exatamente 365 dias para dar uma volta em torno do Sol: leva 6 horas a mais. A cada 4 anos, são “descartadas” 24 horas, daí a necessidade do ano bissexto, para que o ano do calendário seja sincronizado com o solar.

Porém, estas 6 horas de cada ano não são exatamente 6 horas. É um pouco menos. Assim, mesmo adicionando-se um dia a mais no calendário a cada 4 anos, o ano do calendário não fica sincronizado com o solar, a longo prazo. Em 1582, percebeu-se que o calendário estava defasado em 10 dias com relação ao Sol. Para corrigir o erro, o papa Gregório XIII decretou que após 4 de outubro de 1582 não viria o dia 5, e sim o 15 (pelo menos uma coisa boa a Igreja fez: antecipou meu aniversário!). Além disso, para evitar novas discrepâncias, definiu que anos múltiplos de 100 só seriam bissextos caso fossem divisíveis por 400. Surgiu assim o calendário gregoriano.

Assim, 1600 foi bissexto, mas 1700, 1800 e 1900 não foram. Tivemos ano bissexto em 2000, mas não teremos em 2100, 2200 e 2300. O próximo bissexto múltiplo de 100 será 2400.

E onde entra a Revolução Russa nisso? Aliás, ela foi em 1917, ano não-bissexto, então não tem nada a ver, certo? Errado!

A decisão do Papa foi seguida apenas pelos cristãos do Ocidente. No Oriente, a Igreja Ortodoxa continuou a utilizar o calendário juliano, com seus 10 dias de atraso. Que se tornaram 11 em 1700 (bissexto no Oriente, “normal” no Ocidente), 12 em 1800 e 13 em 1900. E é assim até hoje, já que em 2000 o atraso não foi aumentado pelo fato de ser bissexto pelos dois calendários. Em 2100, a defasagem passará a ser de 14 dias.

A Rússia, então, seguiu adotando o calendário juliano. Em 1917, a defasagem das datas entre Rússia e Ocidente era de 13 dias. Daí o fato da primeira etapa da Revolução Russa, que derrubou o tzarismo, ser chamada de “Revolução de Fevereiro” mesmo tendo começado em 12 de março: na Rússia o dia era 27 de fevereiro. E a segunda etapa, a “Revolução de Outubro” (vitória dos bolcheviques) foi deflagrada no dia 7 de novembro para o Ocidente, 25 de outubro para os russos.

Poucos anos depois, a então recém-formada União Soviética adotou o calendário gregoriano, porém nos livros de História foram mantidas as expressões “Revolução de Fevereiro” e “Revolução de Outubro”, o que contribuiu para aumentar a confusão com as datas.

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No campo religioso, a Rússia ainda segue o calendário juliano da Igreja Ortodoxa. Lá o Natal é celebrado no dia 7 de janeiro pelo calendário gregoriano, 25 de dezembro (do ano anterior) pelo juliano.