A culpa é do horário de verão

Mais uma vez, o horário de verão começou sob uma chuva de reclamações. “Que droga, durmo uma hora a menos!”, dizem os críticos.

De acordo com uma análise publicada em um periódico britânico de medicina, na primeira semana do horário de verão aumenta a incidência de infartos – ou seja, provavelmente se deve à dificuldade do corpo se adaptar. Mas, como foi dito, na primeira semana, não durante todo o período em que vigora o horário de verão. Sinal de que sentimos mais a diferença nos sete primeiros dias com o relógio adiantado em uma hora. Se aumenta a incidência de infartos na primeira semana do horário de verão (o que não quer dizer que estejamos a salvo no resto do ano), isso quer dizer que é uma boa ideia ir ao cardiologista em setembro.

Quanto ao sono, é absolutamente normal que haja problemas nos primeiros dias, pois estamos habituados a dormir e acordar em determinado horário, e precisamos antecipar tudo em uma hora. Agora, se o problema persiste por muito tempo, é um claro sinal de que é preciso procurar ajuda médica. Sem contar que, se a pessoa sofre de insônia durante o horário de verão, pode perder o sono em qualquer época do ano: não é preciso adiantar o relógio em uma hora para passar uma noite em claro…

Porém, o pessoal insiste em reclamar da tal hora perdida – que, de fato, foi subtraída no último domingo mas será devolvida em 15 de fevereiro, um sábado que terá 25 horas. Quem acorda às 7 da manhã, passa a despertar às 6 e reclama que “podia dormir mais”, como se a hora de ir dormir também não fosse adiantada. Não sou psicólogo, mas arrisco dizer que quem tanto “martela” o horário antigo acaba realmente acreditando que está fazendo tudo uma hora antes do esperado. Aí aumenta a preguiça para levantar da cama, não sente fome no horário do almoço (“agora é 11 da manhã, não meio-dia”), fica sem sono à meia-noite etc.

Uma “prova” de como provavelmente isso é psicológico é o meu horário de almoço durante a semana. Para fugir das filas nos restaurantes, vou cedo, às 11 da manhã, e não “empurro” a comida: ao contrário, estou habituado a tal horário e sinto fome às 11 – é hora de comer, não de “escapar da fila”. Em dias que não trabalho, “esqueço” de sentir fome tão cedo e às vezes almoço bem depois do meio-dia. Da mesma forma que quando olho para o relógio e vejo que é 11 da noite, não fico pensando “na verdade é 10 da noite”.

Sei que meu caso é uma exceção, já que em dois dias já estou adaptado ao horário de verão – para a maioria leva um pouco mais de tempo. Só lembro que o relógio foi adiantado quando ainda tem bastante sol às 7 da noite, ou quando começam a reclamar de “uma hora perdida”. Em compensação, naqueles dias de “Forno Alegre” o suador impede qualquer tentativa de esquecer os trinta e muitos graus marcados pelo termômetro… Ou seja: bem mais fácil me adaptar ao horário do que ao verão.

Mais sobre pontos corridos x “mata-mata”

Mais dois ótimos textos a respeito da tentativa da Rede Globo de impor suas vontades sobre o futebol brasileiro:

  • O primeiro é do Hélio Paz, que relembra inclusive um post escrito por ele mesmo em outubro de 2007 sobre a fórmula e lembra que a credibilidade de um campeonato depende fundamentalmente da sua regularidade – e é o que vem acontecendo com os Campeonato Brasileiro, desde 2006 com o mesmo regulamento: pontos corridos, 20 clubes e rebaixamento de quatro equipes. Número de vagas à Libertadores é algo que não depende somente da CBF, embora também não tenha sofrido alterações desde então;
  • O segundo, que foi citado pelo Hélio também, é do Bruno Coelho, no Grêmio 1903, que considera o retorno do “mata-mata” como um retrocesso para o futebol brasileiro (e de fato, é), e também detona alguns mitos contra os pontos corridos, como a tal “falta de emoção”.

Os dois apresentam bons argumentos a favor dos pontos corridos. Já em favor do mata-mata, o que existe? Só os interesses comerciais da Globo, que deseja conquistar a esmagadora maioria da audiência brasileira em uma tarde de domingo, transmitindo a “grande final”.

Espero que a CBF, que merece muitas críticas, desta vez faça por merecer um elogio e não se curve à Globo. Inclusive na questão dos horários dos jogos: o presidente Ricardo Teixeira deseja que no Brasileirão 2010 os jogos no meio de semana comecem às 20h, e não mais às 21h ou 21h45min – o último é o horário da transmissão da Globo, depois da novela, reservado aos jogos “mais imporantes”.

Jogos às 20h são muito melhor para o torcedor, já que terminariam por volta das 22h (exceto se fossem eliminatórios, onde haveria a possibilidade de prorrogação ou pênaltis), horário em que ainda há uma boa disponibilidade de linhas de ônibus. Para se ter uma ideia, em jogos da Libertadores que fui gastei uma nota em táxi porque a partida terminou à meia-noite e perdi o último T5, que só conseguiria pegar se saísse rápido do estádio e ainda teria de contar com a sorte para não pegar atrolhado – tanto que pego o ônibus algumas paradas antes para que esteja vazio.

Tomara que se dê um passo para diminuir a influência da televisão no futebol, que decide onde, quando e como se joga. É hora de deter a “telecracia”, nas felizes palavras de Eduardo Galeano em seu ótimo livro “Futebol ao sol e à sombra” (L&PM, 2002, p. 195):

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão européia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

– Suo. Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha, hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.