O progresso homogeneizante

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A capa acima é do Jornal Já Bom Fim, edição deste mês. Além de chamar a atenção para o fato de cinemas darem lugar a um banco, o jornal também informa que, em média, o preço do metro quadrado de imóveis para alugar no Bom Fim já supera o do Moinhos de Vento.

Em processo semelhante ao que aconteceu no Moinhos de Vento, no Bom Fim a arquitetura tradicional do bairro (sobrados e prédios pequenos) vem dando lugar a espigões muito parecidos entre si. Mas a transformação vai além da mera questão arquitetônica: o Bom Fim, que por muito tempo foi um dos principais (se não o principal) reduto alternativo de Porto Alegre, hoje vê a diversidade ser cada vez mais restrita a poucos espaços, como Redenção e Lancheria do Parque.

Dizem que não tem jeito, “isso é o progresso” etc e tal. Mas eu só vejo homogeneização: se “progredir” é isso, então eu sou “retrógrado” desde criancinha.

E se isso acontece em bairros como Moinhos de Vento e Bom Fim, imagine o que se passa nas regiões periféricas que atraem o olho grande do poder econômico…

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“Rabugentos”, mas autênticos

Via Facebook, descobri por esses dias um texto que falava sobre uma pesquisa feita na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália). Segundo ela, pessoas mal-humoradas são mais atentas, menos influenciáveis e mais cuidadosas na hora de tomar decisões. Ou seja, o mau humor faz bem ao cérebro!

É verdade que costumo ficar com um pé atrás em relação a essas pesquisas. Afinal, não raro me aparecem umas dizendo que a chegada da primavera deixa as pessoas mais alegres – quando sinto exatamente o contrário, e fico feliz mesmo é quando chega o outono. E já que falei do tempo, não custa nada lembrar que o calor infernal que faz em Porto Alegre no verão me deixa de mau humor. E não faço questão nenhuma de esconder isso – o que me rende uma certa fama de “rabugento”, para a qual eu “cago e ando”.

Obviamente não é só o calorão infernal que me deixa de mau humor. O Natal, por exemplo, mesmo que fosse no inverno (aliás, como é no hemisfério norte) eu detestaria. Mas é fato que não tenho o hábito de “sorrir para a foto”*, de fingir felicidade quando na verdade estou triste ou irritado. Inclusive, já fui chamado de “ranzinza” mas também de “autêntico” pela mesma pessoa. E não acho que isso seja por acaso.

Afinal, o “chato” muitas vezes é a pessoa que não se importa em ser a única discordante em um grupo. Claro que há aqueles que discordam só para serem “do contra”, mas há também os que têm convicções e não se importam de defendê-las nem que tenham de ir na contramão de todos à volta. Não deixarão de dizer o que consideram necessário só porque isso “desarmonizaria” o grupo, justamente por não se sentirem confortáveis com uma “harmonia” que tende à homogeneização, sufoca as diferenças.

E o mesmo vale para o “humor do dia”. O dito “normal” é todos se sentirem “felizes” em épocas como NatalCarnavalverão… É só manifestar desagrado, e pronto: lá vêm os rótulos. E o pior é que não falta pessoas às quais certas épocas “felizes” (principalmente o Natal) sejam um tormento, mas que preferem o fingimento à autenticidade, só para não serem chamadas de “rabugentas”.

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* É coisa muito rara achar uma fotografia em que estou sorrindo. Ainda mais que uma vez fui sorrir para uma foto e fiquei com a cara mais ridícula de todos os tempos. Depois daquela, nunca mais forcei porra nenhuma de sorriso!