A “homérica” direita brasileira

Nada a ver com o grande poeta épico grego, autor dos clássicos “Ilíada” e “Odisseia”. O Homero ao qual me refiro neste caso é Homer Simpson, genial sátira do “estadunidense médio”: preguiçoso e idiota, Homer passa boa parte de seu tempo livre sentado defronte à televisão, na qual acredita sempre.

Porém, será que Homer é representativo apenas dos estadunidenses? Creio que não. Pois há muitos brasileiros que também são verdadeiros “Homers Simpsons”. Em especial, aqueles mais reacionários, que repassam qualquer coisa que contenha expressões do tipo “acorda Brasil”.

É uma mais sem pé nem cabeça que a outra. Relembremos algumas:

  • Me mandaram por e-mail uma vez uma “denúncia” sobre supostas alunas de um curso dedicado a beneficiárias do Bolsa Família “que não quiseram trabalhar com carteira assinada para não perderem o benefício”. Sem nem pensarem que Bolsa Família é apenas assistência (os mesmos reaças não chamam de “bolsa-esmola”?), e que se elas deixaram seus empregos por conta disso, é sinal de que trabalhavam por um salário de fome;
  • Na campanha eleitoral, me disseram que Dilma Rousseff, “aquela terrorista”, participara do sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, em 1969, e que por conta disso ela não poderia entrar nos EUA caso fosse eleita – e um ano depois, lá estava ela em Washington… Claro, pois ela não participara do sequestro: quem não conseguiu visto de entrada foram Franklin Martins e Fernando Gabeira – que inclusive não pôde assistir à sessão de estreia do filme “O que é isso, companheiro?” (inspirado em seu livro homônimo) nos EUA;
  • Certa vez o G17 (página que satiriza o G1, portal de notícias da Globo) publicou uma “notícia” sobre a construção de uma estátua gigante de Lula em Brasília, que seria visível em toda a cidade. O pessoal leu a “notícia” e o leiaute do G17, semelhante ao do G1, fez com que acreditassem que era verdade… Quando o bom senso recomenda não só prestar bastante atenção no que se lê antes de repassar, como também desconfiar até mesmo dos portais de notícia “sérios”;
  • Outra “denúncia” recebida foi sobre a “vagabundagem” do MST, que ao invés de produzir em um assentamento às margens do Rio Solimões, estaria roubando ovos de tartarugas que fazem ninhos no local para depois revendê-los (quando lhes convêm, os reaças se preocupam com o meio ambiente). Pelo visto, nas horas livres os “ladrões” pegavam a prancha e iam surfar no Solimões;
  • Tem também aqueles absurdos sobre o “Bolsa Bandido” e o “Bolsa Crack”, que semana passada já tratei de detonar.

Agora, a polêmica que se dá é acerca da decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para atenderem a população em regiões mais afastadas dos grandes centros, para onde os médicos brasileiros não querem ir. O objetivo é de contratar cubanos, espanhóis e portugueses, mas a gritaria é contra os cubanos, claro: mesmo que a medicina de Cuba seja muito elogiada, se diz que os médicos cubanos “não seriam qualificados”*. Mas como o absurdo não tem limites, começou a circular pelo Facebook uma imagem que afirma serem os médicos cubanos “guerrilheiros” disfarçados, que atenderão ao propósito do governo de dar um “golpe comunista” em 2014… (Luís Carlos Prestes deu um duplo twist esticado no túmulo depois dessa.)

Um argumento dos críticos é incontestável: é preciso fazer com que os médicos não queiram ficar apenas nos principais centros. Porém, isso não é problema que se resolva de uma hora para a outra, e no interior as pessoas precisam de médicos agora, não podem esperar. Então, que venham os estrangeiros.

A propósito, talvez seja bom incluir psiquiatras dentre os médicos que vêm para cá, pois do jeito que anda nossa direita os que estão por aqui não são suficientes…

Estados Unidos: um país SÓ de Homers Simpsons?

O Valter, ao ler minha postagem anterior, ao invés de deixar um comentário optou por escrever um texto sobre ela – conforme ele próprio falou anteriormente em seu blog, muitas vezes o que se lê em outros blogs acaba servindo de inspiração. Achei uma boa idéia continuar o debate aqui no Cão Uivador.

O vídeo que postei, com respostas absurdas de estadunidenses a perguntas aparentemente óbvias, certamente foi editado. Afinal, se todas as pessoas nos Estados Unidos fossem burras, aquele país não seria a potência que é. De acordo com o Valter, era preciso especificar a porcentagem de pessoas que responderam corretamente às questões – concordo com ele – e o vídeo não mostra isto. Apenas exibe as respostas estarrecedoras. Assim, isto faria com que tivéssemos a impressão de que todos os estadunidenses são estúpidos, e como eu já afirmei, um país formado apenas por idiotas não teria condições de ser tão poderoso – apesar de seu presidente ser George W. Bush.

Diz o Valter que se fôssemos fazer tais perguntas aqui no Brasil, provavelmente também fossem registradas respostas inacreditáveis – e mais uma vez concordo com ele. Afinal, onde ficam a Guiana e o Suriname? Certamente a maioria das pessoas não saberia responder ou diria besteiras. Para matar a curiosidade de quem não saiba: Guiana e Suriname são vizinhas do Brasil, ficam no norte da América do Sul.

Não seria realmente uma surpresa se isto acontecesse aqui no Brasil. Afinal, nossa educação é de péssima qualidade. Quem completa o Ensino Médio pode considerar-se parte de uma “elite cultural”, visto que a grande maioria dos brasileiros não consegue tal feito. Mesmo entre as pessoas que têm formação superior, não é uma tarefa tão simples responder rapidamente à questão “Onde fica Ruanda e qual sua capital?” (para quem não sabe, Ruanda fica na África e sua capital é Kigali). Provavelmente porque quase ninguém dá muita importância aos países africanos, visto que o Brasil não mantêm relações próximas com a maioria deles.

Agora, lá nos Estados Unidos a educação tem muito mais qualidade do que por aqui. Pelo menos, é esta a imagem que tenho de lá. Claro que existe pobreza e evasão escolar, mas o índice é bem menor do que no Brasil.

Logo, o vídeo tem um destes significados:

  1. A educação nos Estados Unidos não tem tanta qualidade como pensamos; e/ou

  2. Nem todos têm acesso à educação por lá; e/ou

  3. Muitos estadunidenses logo esquecem o que estudaram, pois não lhes interessa saber quantas Torres Eiffel existem em Paris, nem onde ficam Iraque, Irã e Coréia do Norte.

Certa vez, um amigo me disse que uma amiga dele havia passado seis meses nos Estados Unidos, e que ela voltara estarrecida com o consumismo vigente por lá. E isto que ela nem era uma “anti-consumista”, segundo meu amigo. A maioria das pessoas (não todas, é claro) só se interessava em ter dinheiro, gastar com supérfluos, ter mais dinheiro, gastar de novo… Por que saber que a capital do Brasil é Brasília e não Buenos Aires? Para estas pessoas, é mais interessante trocar de carro todo ano do que saber onde estão lutando (e morrendo) os soldados estadunidenses no momento. Obviamente que isto não se deve a um “defeito de fabricação”, e sim aos valores que são difundidos pelo poder estabelecido (através da mídia), o qual não deseja que a sociedade seja crítica em relação a ele. Assim surge o que Micheal Moore definiu como “Uma nação de idiotas”. Sim: isto é dito por um estadunidense (muito inteligente, por sinal) a respeito de seu país, não por um brasileiro que odeia os EUA.

Já que falei em Homer Simpson, nada melhor do que lembrar um episódio de Os Simpsons, que é uma excelente crítica à sociedade estadunidense – e feita por um estadunidense, Matt Groening. Não lembro exatamente de qual episódio era, mas em uma passagem o Homer (que segundo muitos é a representação do estadunidense típico: obeso e idiota) observa o mapa dos Estados Unidos e pergunta admirado: “Existe um Novo México?” – que é um dos Estados que formam seu próprio país.

Claro que a estupidez do Homer é extrema – impossível crer que os estadunidenses em sua maioria sejam tão burros. Mas não podemos esquecer que se trata de um desenho animado que faz uma sátira da sociedade estadunidense, não é uma cópia fiel da realidade.

E ao mesmo tempo em que o Homer é muito idiota, sua filha Lisa é muito inteligente e tem uma postura extremamente crítica. Isto sim é real: muitos estadunidenses são idiotas, mas também existe inteligência (e muita) nos Estados Unidos. O criador de Os Simspons é prova disto, Micheal Moore também. Assim como o fato deste país ser uma potência mundial, algo que seria impossível se todos os seus habitantes fossem ignorantes: a inteligência não é exclusiva da esquerda.

Estados Unidos: um país de Homers Simpsons

Tá certo que eles como maior potência do mundo não dêem muita importância ao resto do planeta.

Mas o que se vê neste vídeo é digno de Homer Simpson!

Um aviso a quem por acaso estiver com viagem marcada à Austrália: se alguns dos entrevistados chegarem ao poder nos Estados Unidos, é muito provável que a terra dos cangurus (que estão sendo caçados por ordem do governo devido à superpopulação) seja o próximo alvo…