Carandiru, 20 anos depois

Ontem completaram-se 20 anos do Massacre do Carandiru, quando a Polícia Militar de São Paulo invadiu a Casa de Detenção para terminar com uma rebelião. A repressão, comandada pelo Coronel Ubiratan Guimarães, acabou com o motim, e também com a vida de 111 presos.

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelo massacre. O mais perto que se chegou disso foi com a condenação do Coronel Ubiratan, em 2001; porém, a sentença foi revista e ele acabou absolvido em 2006 – mesmo ano em que foi assassinado. No próximo mês de janeiro, outros 28 policiais acusados de participarem do massacre finalmente irão a julgamento.

Graças à impunidade, a violência policial no Brasil continua sendo a regra, e não a exceção. Foi o que vimos em Eldorado dos Carajás no dia 17 de abril de 1996, quando a Polícia Militar do Pará matou 19 sem-terras (massacre igualmente impune); e também nos Crimes de Maio de 2006, quando a PM de São Paulo assassinou centenas de pessoas suspeitas de terem participado dos ataques do PCC. Aliás, a mesma PM paulista matou 229 pessoas apenas no primeiro semestre de 2012.

Mas, se a impunidade revolta, pior ainda é ver gente que concorda com o que aconteceu naquele 2 de outubro de 1992. Tanto que o Coronel Ubiratan chegou a ser eleito deputado estadual em São Paulo. Só que tem mais. Basta acessar as notícias sobre os 20 anos do massacre em vários portais para se deparar com uma grande quantidade de opiniões nauseantes, dizendo que “deveriam ter matado todos”, defendendo que a polícia sempre “desça a porrada e mande bala nos vagabundos” (só torça para que a PM não ache que você é o “vagabundo”).

Em vários destes comentários sobre o massacre se lê as palavras “limpeza” e “faxina”, que sempre foram usadas para “justificar” genocídios: o Holocausto consistiu no anseio nazista de “limpar” a Alemanha, eliminando as “raças inferiores”; o Império Turco-Otomano também quis fazer uma “faxina” durante a Primeira Guerra Mundial e assim exterminou mais de um milhão de armênios; em Ruanda, os extremistas hutus consideravam os tutsis como uma “praga social” e assim decidiram fazer, claro, uma “limpeza”, que resultou em quase um milhão de mortos entre abril e julho de 1994.

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Um símbolo do ponto a que pode chegar a humanidade

O Milton Ribeiro postou quinta-feira em seu blog uma fotografia que talvez seja a mais hedionda já obtida. Mais que isso, digo que é extremamente revoltante.

O homem de paletó e gravata, com um pedaço de pão na mão, era um oficial turco-otomano. As pessoas que o cercam, visivelmente desnutridas, eram armênios, vítimas de um genocídio que mais tarde teria inspirado Adolf Hitler a fazer o mesmo com os judeus – é atribuída ao ditador alemão a frase “afinal, quem fala hoje do extermínio dos armênios?”, contando com o esquecimento para argumentar a favor do plano de eliminar as populações judaicas.

Já se passaram 97 anos do início do Genocídio Armênio, em 1915. Até hoje, o Estado turco (sucessor do Império Otomano) insiste em negar que a matança foi deliberada, e ainda reprime qualquer manifestação pró-reconhecimento dentro de suas fronteiras*. E vários países (dentre eles o Brasil), em nome de manter boas relações com a Turquia, não reconhecem o genocídio.

E para ver só, até em matéria de memória quanto a acontecimentos de outros países a Argentina “dá de relho” na gente: ano passado, um juiz argentino emitiu uma sentença condenando a Turquia pelo extermínio. Não foi a primeira medida neste sentido no país vizinho, visto que o Estado argentino já reconhecia formalmente o Genocídio Armênio. O primeiro ato de reconhecimento veio do Uruguai, mediante resolução parlamentar em abril de 1965, 50º aniversário do massacre.

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* Em 2005, o escritor turco Orhan Pamuk (Prêmio Nobel de Literatura em 2006) afirmou numa entrevista a uma revista suíça que na Turquia “ninguém se atreve a falar” do genocídio contra os armênios e da posterior matança de 30 mil curdos, e por conta disso sofreu processo judicial por “insultar e desacreditar a identidade turca” (crime previsto no artigo 301 do código penal da Turquia).

É sempre bom lembrar

“Noite e Neblina” (vídeo acima) é um documentário produzido pelo francês Alain Resnais, em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Tem o grande mérito de denunciar não só os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de terem mantido campos de concentração para a exploração de mão-de-obra escrava durante o Holocausto.

Não faltam imagens chocantes ao longo dos 30 minutos de filme – e acho que é realmente necessário chocar as pessoas, para que tenham ideia do horror que significou tudo aquilo, e desta forma se corra menos risco de que se repita. Afinal, como é lembrado ao final, não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época.

Não seria o caso de “Noite e Neblina” ser maciçamente exibido no país natal de seu diretor? Afinal, nos últimos tempos a xenofobia tem crescido muito na França; e nos episódios mais recentes, o país tem deportado ciganos oriundos de Bulgária e Romênia – países que integram a União Europeia desde 2007, e por conta disso seus cidadãos têm direito ao livre trânsito entre os países-membro da UE – e também proibiu as mulheres muçulmanas de usarem véu.

Há uma tendência crescente, e por isso mesmo cada vez mais perigosa, de se culpar os imigrantes por todos os problemas. Isso é muito forte hoje em dia na França, mas também se verifica em vários outros países, na Europa e fora dela, como nos Estados Unidos e mesmo no Brasil – onde a xenofobia se dá até entre brasileiros.

Síntese do pensamento dos concretoscos

Vez que outra, acesso alguns blogs pontaleiros, que defendem o “sim” na consulta de amanhã.

Um deles toscamente diz que votar NÃO é deixar a área do antigo Estaleiro Só do jeito que está – debocham da inteligência de milhares de pessoas ao acharem que queremos um monte de lixo (deixado no local pelo dono, que não limpa sua propriedade e não é multado!), quando há muito tempo defendemos que a área seja um parque público (afinal, ela é originalmente pública, foi cedida pelo Estado ao Estaleiro Só) – e apresenta o terreno como cheio de “ruínas, ratos e marginais”.

Uma leitora, que se identificou como Marie, deixou o seguinte comentário abaixo, que sintetiza bem o que pensam os concretoscos:

Fiquei um bom tempo procurando nas fotos os “marginais” que vocês citam no texto de entrada do site… E só encontrei algumas crianças, brincando no rio…

Claro, devem estar se referindo aos pobres… Que junto às “baratas e ratos” também citados serão erradicados do lugar por este “purificador e higienizador” projeto.

Quem vocês pensam que são para julgar e apontar outras pessoas como “marginais”?

Depois de ler esse comentário, acessei o álbum com as fotos e também não achei nenhum “marginal”. Só pessoas simples.

Pois é isso que eles querem com o Pontal do Estaleiro: afastar os pobres, “marginais” para os concretoscos.

A um parque público, todos têm livre acesso, ricos e pobres, sem distinção de classe social ou cor. No Pontal, quem iria? Dizem que haveria uma “área pública”, mas fica a pergunta: se uma pessoa bem humilde fosse lá, como seria tratada? O comentário que citei já dá uma pista.

E ao ler que os concretoscos consideram a área do antigo Estaleiro Só como de “ratos, baratas e marginais”, foi impossível não lembrar de tudo o que já li e assisti sobre o nazismo, que afirmava ter o propósito de “embelezar o mundo” acabando com as “impurezas” dele. Hitler considerava os “não-arianos”, principalmente judeus, como “pragas sociais” que precisavam ser eliminadas.

O problema era convencer a população alemã, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, a apoiar tal política sanguinária. A solução foi um discurso “higienizador”, apresentando as “pragas” – inclusive as “sociais” – como uma ameaça às “boas famílias alemãs”.

O resultado disso, qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de História sabe quais foram: Segunda Guerra Mundial e Holocausto.

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Por aqui já tivemos uma mostra ontem, com o assassinato do  trabalhador rural sem-terra Elton Brum da Silva em São Gabriel – o que já era temido pelo MST.

De fato, não é de se estranhar. No final de fevereiro, a Zero Hora publicou em sua seção de cartas o texto de um fascista (não tenho outras palavras para descrever o cara) que defendia o extermínio (sic) do MST. É o tipo de gente que quer acabar com a pobreza não reduzindo a desigualdade social, mas sim matando os pobres. Gente que certamente votará no “sim” amanhã.

Afinal, a pobreza é “feia” e “impura”, e Porto Alegre precisa ser “embelezada” – daí a necessidade, na ótica concretosca, do Pontal.

10 teses sobre o Holocausto e o Revisionismo

  1. Houve um plano nazista para exterminar todos os judeus que habitavam territórios ocupados pela Alemanha ou pelos seus aliados;
  2. O plano de extermínio foi criado pelo próprio Hitler que o anunciou conjuntamente com outros dirigentes nazistas;
  3. Tanto Hitler como outros dirigentes nazistas foram informados do desenvolvimento do processo de extermínio dos judeus;
  4. O extermínio dos judeus realizou-se, entre outros meios, através de maus-tratos, trabalhos forçados, experiências médicas, fuzilamentos massivos, camionetas com gás e câmaras de gás;
  5. A imensa maioria dos judeus assassinados eram civis inocentes e não tinham relação alguma com tarefas de espionagem ou guerrilha;
  6. O número total de judeus assassinados pelos nazistas foi próximo aos seis milhões. Destes, aproximadamente, um milhão eram crianças;
  7. O Estado de Israel recebeu pagamento em função dos gastos de assentamentos dos sobreviventes da tragédia, e não como indenização pelo número de vítimas do Holocausto;
  8. Pelas suas próprias características, e embora a história da humanidade possua abundantes testemunhos de barbárie e brutalidade, o Holocausto constitui um exemplo excepcional de degradação sem precedentes;
  9. A literatura revisionista, carente da mínima qualidade científica, constitui fundamentalmente um instrumento de propaganda de ideologias anti-semitas, neonazistas e neofascistas, cujas únicas bases reais são a ignorância da documentação histórica, a má fé e o interesse por facilitar, concretamente, o caminho do poder a essas cosmovisões;
  10. A finalidade fundamental do revisionismo é apagar das mentes a lembrança do Holocausto – associado aos horrores do nazismo e, em menor medida, de outros regimes fascistas – para assim facilitar o alcance do poder político às formações com essas orientações ideológicas.

Fonte: VIDAL, César. La revisión del Holocausto. Madrid: Anaya & Mario Muchnik, 1994.

O material acima foi distribuído na aula de História Contemporânea, e o “pirateio” aqui por sua importância. Os grifos são meus.

Noite e Neblina

Um documentário de meia hora, que vale por uma aula inteira sobre o Holocausto. Trata-se do excelente “Noite e Neblina”, dirigido pelo francês Alain Resnais. As legendas são em espanhol, não encontrei em português.

O filme foi produzido em 1955, por ocasião do 10º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, baseado em documentos – dados, fotos e filmes – deixados pelos próprios nazistas. E um de seus grandes méritos é, já naquela época, acusar não apenas os figurões do nazismo, como também as grandes corporações alemãs de manterem campos de concentração, para a exploração de mão-de-obra escrava. Pois nem todo mundo foi julgado em Nurenberg.

Também não faltam imagens chocantes, e não digo isso para “prevenir” quem se impressiona com facilidade. No final de “Noite e Neblina”, o diretor alerta: não podemos pensar que tais fatos se resumem a um país, em uma época. Por isso, é preciso chocar as pessoas mesmo, mostrar a elas o horror que significou tudo aquilo, para corrermos menos riscos de que se repita. Ainda mais considerando os tempos em que vivemos.