Guerra Fria em campo

Neste domingo, completaram-se 40 anos de uma partida histórica. Em Hamburgo, duas seleções alemãs entraram em campo na noite de 22 de junho de 1974 para um jogo de Copa do Mundo. Os únicos “estrangeiros” dentro de campo eram os integrantes do trio de arbitragem: a partida foi apitada pelo uruguaio Ramon Barreto Ruiz, com o brasileiro Armando Marques e o argentino Luis Pestarino como auxiliares.

O jogo reunia as seleções das Alemanhas Ocidental e Oriental, que jamais tinham se enfrentado até então. E tal confronto aconteceu pela primeira (e única) vez justamente em uma Copa do Mundo. Mas todos os 22 jogadores que iniciaram a partida serem alemães não queria dizer que era um confronto “entre iguais”, e isso não tem a ver com o fato de serem dois países rivais por motivos ideológicos. Enquanto a anfitriã capitalista Alemanha Ocidental já tinha uma seleção respeitadíssima (ganhara a Copa de 1954 batendo a fantástica Hungria de Puskas, e dificilmente não ficava entre as semifinalistas dos Mundiais que disputava), a socialista Alemanha Oriental disputava apenas a sua primeira Copa (e que acabaria sendo a única). A lógica, portanto, pesava a favor do oeste.

As duas seleções já estavam classificadas, e o que restava em disputa era a liderança do grupo 1 da primeira fase – que ficaria com os ocidentais caso o jogo acabasse empatado. E assim parecia que ia acontecer: mais da metade do segundo tempo já tinha se passado e o placar permanecia fechado. Mas aos 32 minutos, o meio-campista Jürgen Sparwasser tratou de abri-lo, fazendo 1 a 0 para a Alemanha… Oriental.

E assim acabou o jogo: com uma inesperada vitória do leste sobre o oeste. Após o apito final não houve a tradicional troca de camisetas entre os jogadores, tamanha era a tensão (obviamente por motivos políticos) em torno da partida.

Reza a lenda que a Alemanha Ocidental teria facilitado as coisas para a Oriental (fato nunca comprovado e altamente improvável, visto que até os 32 do segundo tempo o placar permanecia em 0 a 0). Mas não pelos jogadores ocidentais simpatizarem com o comunismo, e sim para terem um caminho mais fácil na segunda fase – que naquela Copa era disputada em grupos, não em confrontos eliminatórios – e, em especial, para escaparem do Brasil – mesmo que a Seleção não estivesse jogando grande coisa.

Com o primeiro lugar no grupo 1, coube à Alemanha Oriental enfrentar não só os brasileiros, como também a Holanda (sensação da Copa) e a Argentina no grupo A da segunda fase; enquanto a Ocidental ficou no grupo B com Iugoslávia, Suécia e Polônia. Os orientais foram eliminados (mas acabaram à frente da Argentina), já os ocidentais ficaram em primeiro lugar no grupo, foram à final contra a Holanda e acabaram campeões com uma vitória por 2 a 1, de virada.

Como estou vendo a Copa

Em 2007, quando a FIFA confirmou que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014, me declarei contra a decisão devido aos diversos problemas que o país tinha – e continua a ter. Não fui exatamente uma “voz solitária”: várias outras pessoas que conhecia também diziam ser contra o Mundial acontecer por aqui; mas de forma geral, os brasileiros celebraram em 2007.

Diversos motivos fizeram com que eu não me empolgasse com a Copa no Brasil mesmo com a aproximação do momento da bola rolar. Desde questões pessoais (o final de 2013 e o começo de 2014 simplesmente não precisavam ter existido na minha vida), políticas (os abusos da FIFA são inaceitáveis, por mais que se goste de futebol), chegando até a previsões de que o Mundial seria um desastre (mesmo sabendo que em geral tais prognósticos eram supervalorizados pela oposição que sonhava com um caos na Copa para poder culpar o governo, com tanta gente martelando a mesma coisa era difícil não ser influenciado de alguma maneira).

Pois bem: a Copa começou, e então passei a, enfim, curti-la. Afinal de contas, gosto de futebol. Não é toda hora que se tem a oportunidade de assistir a grandes jogos (embora eu não tenha comprado ingresso para nenhum), e também de presenciar momentos memoráveis como a “Orange Square” (tradicional festa dos torcedores da Holanda antes dos jogos de sua seleção); e depois a caminhada da “massa laranja” em direção ao Beira-Rio embalada pelo ritmo empolgante da sensacional banda Factor 12.

oranje

Isso quer dizer que mudei de ideia em relação à Copa, que considero um erro minha contrariedade em 2007? Claro que não. Ainda prefiro um Brasil melhor do que o Mundial. Porém, algo que andei pensando muito ultimamente foi: e se a Copa não tivesse vindo para cá, será que o país teria melhorado mais nestes últimos sete anos? Respondo: provavelmente não…

Minhas críticas à Copa do Mundo não se resumem em “ela tirou dinheiro da saúde e da educação”: tal frase corresponde a uma meia-verdade. As reformas e construções de estádios tiveram dinheiro público, mas boa parte dele corresponde a empréstimos do BNDES, ou seja, é grana que voltará aos cofres do governo. A “perda” foi em impostos que deixaram de ser arrecadados, visto que várias obras tiveram isenção fiscal – logo, menos arrecadação pelo poder público. Mas, os problemas da Copa não são apenas esses.

Afinal, muitos dos que criticam os gastos da Copa o fazem por puro e simples moralismo (aquela história de “abaixo a corrupção”, mas apenas atacando os agentes públicos corruptos sem se dar um pio quanto aos corruptores privados). Mas não estão “nem aí” para famílias que sofreram remoções forçadas por conta de “obras da Copa”, acham boa a “higienização social” nas cidades-sede do Mundial, e vibram quando a PM “desce a porrada” nos manifestantes (concorde-se ou não com suas pautas, eles têm todo o direito a protestar, a não ser que a democracia tenha sido revogada). Sem contar os operários que morreram nas obras dos estádios da Copa, alguns dos quais se tornarão “elefantes brancos” após o Mundial.


“Enquanto te exploram tu grita gol!”, diz uma frase que li em vários muros. Eis algo que considero o principal erro de muitos que não gostam de futebol: tratar quem gosta como “burros”, “alienados” etc. Aliás, declarando isso muitas vezes pelo Facebook: se o futebol é o “ópio do povo” como tantos gostam de dizer, a rede de Mark Zuckerberg (na qual a imensa maioria das postagens é pura bobagem) é o quê? Beber até cair, então, deveria ser atestado de “alienação” eterna.

Se há pessoas que gostam de futebol e são “alienadas”, isso não se deve ao esporte bretão: no lugar dele haveria outro “ópio do povo” (Facebook?). Assim como existem diversos casos de torcidas e mesmo clubes politicamente engajados. Um dos mais famosos é o St. Pauli, da Alemanha, que baniu de seu estádio quaisquer membros de movimentos extremistas de direita e por conta disso passou a ser cultuado por militantes anarquistas, socialistas e comunistas em vários outros países; em entrevista ao programa “Futebol, uma viagem”, o chefe de segurança do clube disse algo sensacional: “eu não jogo fora meu cérebro quando vou para um estádio”.

Mas não é preciso ir tão longe: o Ferroviário Atlético Clube, de Fortaleza, foi fundado em 1933 por trabalhadores da Rede de Viação Cearense (RVC) – ou seja, é um clube operário inclusive em suas origens. Terceiro maior vencedor do Campeonato Cearense, o Ferroviário revelou jogadores como Jardel (campeão e artilheiro da Libertadores de 1995 pelo Grêmio) e Iarley (campeão da Libertadores e do Mundo pelo Inter em 2006), e também tem uma torcida declaradamente de esquerda: a Ultras Resistência Coral, criada em 2005 por torcedores anarquistas e comunistas, combatendo o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância comum a diversas organizadas.

Alguns fantasmas não vão embora

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, foi muito comentada uma tal de “pirâmide da Copa”, divulgada provavelmente por um jornal inglês (não recordo com exatidão). Segundo ela, a Inglaterra ganharia o Mundial da França por mera “questão geométrica”.

O topo da tal “pirâmide” correspondia à Copa de 1982, vencida pela Itália. No degrau abaixo (à esquerda e à direita), as conquistas da Argentina em 1978 e 1986. Descendo mais um pouco, dois títulos da Alemanha (1974 e 1990). Na sequência, a correspondência entre 1970 e 1994, Copas vencidas pelo Brasil. Logo, o campeão de 1998 seria o mesmo de 1966. Portanto, daria Inglaterra.

Porém, o English Team caiu cedo, nas oitavas-de-final, perdendo nos pênaltis para a Argentina. E aquela Copa, como bem lembramos, foi vencida pela França. A “pirâmide” estava sepultada, como mais uma superstição que perdia o sentido, certo?

Errado! Pois houve coincidências entre as Copas de 1966 e 1998, sim. A primeira delas: suas campeãs (Inglaterra e França) conquistavam o título pela primeira vez, e jogando em casa. Mas teve mais: em ambos os Mundiais seleções estreantes acabaram em 3º lugar e também tiveram o artilheiro – Portugal e Eusébio (1966), Croácia e Suker (1998).

Desta forma, a “pirâmide” continuava em vigor, e apontava que não era preciso toda aquela preocupação com a má campanha brasileira nas eliminatórias do Mundial de 2002: o campeão seria o mesmo de 1962, portanto, o Brasil. E em 2006 a Seleção seria campeã mais uma vez, jogando na Europa da mesma forma que em 1958… Exatamente como o previsto.

Até 2002 tudo funcionou direitinho, mas em 2006 a “pirâmide” foi novamente sepultada: o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final, e a Itália foi campeã. Poderia ser um “ponto fora da reta”, e em 2010 as coisas voltariam ao normal com a Alemanha ganhando a taça, da mesma forma que em 1954. E, de fato, os alemães jogaram muito na África do Sul, mas quem levou a Copa foi a Espanha.

Desta forma, soa absurdo lembrar novamente a “pirâmide”, segundo a qual o campeão de 2014 seria o mesmo de 1950 – ou seja, o Uruguai. Porém, há fantasmas que não vão embora.

Todos temos acontecimentos traumáticos em nossas vidas. Feridas que parecem jamais cicatrizar. Por mais coisas boas que aconteçam, aquele dia em que tudo saiu errado dá a impressão de que sempre está a espreita, pronto para voltar.

Algo assim se passa sempre que brasileiros e uruguaios se enfrentam no futebol: é como se fosse ligada uma máquina do tempo que sempre leva todos (jogadores, torcedores, jornalistas etc.) de volta a 16 de julho de 1950. O Brasil, mesmo com cinco Copas do Mundo conquistadas após aquele dia, ainda sente a dor da derrota em casa. Já para o Uruguai, mesmo nos piores momentos vividos por seu futebol nas décadas de 1990 e 2000, as lembranças daquela vitória davam a sensação de que sí, se puede: se batera uma seleção mais forte e que contava com o apoio de 200 mil pessoas no estádio, nada era impossível.

Nada era, e nada é. Até 2006, provavelmente o maior alento ao sonho uruguaio de voltar a ganhar uma Copa do Mundo era a tal “pirâmide”. Que, como foi dito, “morreu” quando Zidane e Henry acabaram com o Brasil nas quartas-de-final. Vale lembrar que o Uruguai sequer disputou aquele Mundial, tendo sido eliminado pela Austrália na repescagem.

A Celeste voltou à Copa em 2010, novamente via repescagem, quando derrotou a Costa Rica. Ninguém esperava muito, mas os orientales voltaram a acreditar que era possível: o Uruguai passou com dificuldades pela Coreia do Sul nas oitavas-de-final, é verdade, mas superou Gana em uma partida dramática nas quartas e deu trabalho à fortíssima Holanda nas semifinais. Como se não bastasse, Forlán ainda foi eleito o melhor jogador do Mundial.

Em 2011, mais sinais do “renascimento”. Na Libertadores, o Peñarol foi vice-campeão diante do Santos, 23 anos após a última vez que um clube uruguaio chegara à final. Um mês depois, a Celeste conquistou a Copa América na Argentina, e credenciava-se, assim, a obter a classificação para o Mundial de 2014 com facilidade.

Porém, não foi o que aconteceu. Após arrancar bem nas eliminatórias, o Uruguai “patinou”, e chegou a correr riscos de ficar fora da Copa do Mundo. No fim, conseguiu acabar em 5º lugar e disputar a repescagem contra a fraca Jordânia: após vencer por 5 a 0 em Amã, “tirou o pé” em Montevidéu e ficou no 0 a 0. Uma campanha medíocre dessas é sinal de que a Celeste fará figuração na Copa, certo?

Porém, nas eliminatórias para 2010 o Uruguai também não foi lá muito bem (com direito a levar 4 a 0 do Brasil em pleno Estádio Centenário). Ninguém esperava muito, e acabou chegando à semifinal.

E além disso, há o “fantasma” de 1950, que automaticamente transforma a Celeste em candidata ao título. Mesmo que a lógica aponte outras seleções como favoritas (casos de Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, Itália etc.), a mística tem sua força. De modo que, enquanto o Uruguai estiver na disputa, a possibilidade da taça retornar a Montevidéu não pode ser descartada, de forma alguma.

Por conta disso, a Puma (fornecedora de material esportivo da Celeste) produziu esta genial peça publicitária, em homenagem à classificação uruguaia. A Copa é no Brasil e a final é no Maracanã… Portanto, um fantasma assombra o Mundial: el Fantasma del 50.

17 de abril

A guerra mais longa de todos os tempos não foi a Guerra dos Cem Anos (que durou 115 anos), como a maioria pensa. Hoje pela manhã, descobri pelo meu amigo Antonio Duarte, em seu perfil do Facebook, que houve um conflito quase três vezes mais longo.

Foi a Guerra dos Trezentos e Trinta e Cinco Anos, entre a Holanda e as Ilhas Scilly, localizadas a sudoeste do Reino Unido. O conflito, que se iniciou em 1651, teve origem na Guerra Civil Inglesa de 1648-1649. Defensores da monarquia absolutista (realistas) e do parlamentarismo se enfrentaram. A marinha britânica estava ao lado do rei, mas acabou forçada a se retirar para as Ilhas Scilly.

A Holanda, que recém havia proclamado sua independência, decidira apoiar militarmente os parlamentaristas. Mas sua marinha acabou sofrendo pesadas baixas, impostas pelos realistas baseados nas Ilhas Scilly, e os holandeses decidiram exigir uma indenização. Sem obter resposta, a decisão da Holanda foi de declarar guerra às pequenas ilhas – e só a elas, já que o restante das ilhas britânicas encontrava-se em mãos dos parlamentaristas.

Logo após a declaração de guerra, os realistas foram forçados a renderem-se aos parlamentaristas, e a marinha holandesa retirou-se das Ilhas Scilly sem disparar nenhum tiro. Porém, a Holanda esqueceu-se de um detalhe: assinar a paz. (Sim, antigamente as guerras tinham início e fim formalmente, não eram que nem hoje, quando se inventa uma desculpa do tipo “nós vamos libertar vocês” e assim se mantém indefinidamente a invasão.)

Dessa forma, tecnicamente, as pequenas ilhas continuaram a ser inimigas dos holandeses até 17 de abril de 1986, quando o tratado de paz foi assinado após uma pesquisa histórica comprovar que realmente a Holanda declarara guerra em 1651. Terminava assim, sem nenhum tiro e nenhuma morte, a guerra mais longa de todos os tempos.

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Mas, se uma guerra que durou mais de 300 anos não matou ninguém, um acontecimento acontecido num dia específico – 17 de abril de 1996 – resultou em 19 mortes.

Cartum de Carlos Latuff

Hoje, completam-se 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. Nenhum dos policiais responsáveis pela matança foi punido.

A Copa e a política no Brasil (parte 3)

Clique e confira a segunda parte, caso ainda não a tenha lido.

Acharam que só porque a Copa acabou, eu não ia continuar com a série? Como eu poderia acabá-la sem falar da época da ditadura, quando o governo mais se utilizou do futebol para obter dividendos políticos?

Desta vez, o texto – longo, por sinal – não se restringe apenas às Copas, mas trata bastante justamente da influência política sobre a Seleção Brasileira na época. Continuar lendo

Em boas mãos

Confesso que pensei em escrever um post do tipo “10 motivos para torcer por Holanda ou Espanha”, só para parecer imparcial. Pois seria fingimento mesmo: minha torcida era pela Laranja Mecânica.

Mas não se pode negar que a Copa do Mundo ficou em boas mãos (dentre as disponíveis, pois a seleção que jogou melhor durante a maior parte da Copa foi a Alemanha e a que eu mais torci foi o Uruguai). Até porque, se aquelas holandesas expulsas do estádio (hey, PIFA, vai tomar no COBRE!) lá no começo da Copa eram maravilhosas, as espanholas não devem nada a elas.

E o título da Fúria, depois de muitas “amareladas” no passado (tanto que nos palpites mais furados desta Copa, eu previ que a Espanha seria desclassificada nas oitavas-de-final pela Costa do Marfim), me faz acreditar que o Grêmio será campeão brasileiro com três rodadas de antecipação, Loco Abreu será o artilheiro, Silas será unanimemente escolhido o melhor técnico, e os ETs trarão de volta a irmã de Fox Mulder.

Ah, e eu ouvi falar que o polvo Paul, após consultar o Professor Hariovaldo, preveu que Serra perderá a eleição.

Final monárquica

Domingo, o seleto clube das seleções campeãs mundiais ganhará um novo integrante. Mas a decisão entre Holanda e Espanha também tem outro fato curioso a ser destacado: ambos os países são Estados monárquicos.

A última monarquia campeã mundial foi a Inglaterra, em 1966. E a última (e única, até agora) vez em que duas monarquias decidiram a Copa do Mundo foi em 1938: o título ficou com a Itália (campeã também em 1934), que tinha Benito Mussolini como seu primeiro-ministro, mas o Chefe de Estado era o rei Vítor Emanuel III, que reinou até 9 de maio de 1946, pouco antes da proclamação da República Italiana; já o vice-campeonato ficou com a Hungria, também monárquica na época, embora o Chefe de Estado não fosse propriamente um rei, e sim um regente eleito, Miklós Horthy, que colaborou com o nazismo e “reinou” até 1944, quando abdicou defendendo um armistício com a União Soviética.

A Hungria de 1938 não foi a única monarquia vice-campeã mundial. Também “bateram na trave” a Suécia em 1958, e a própria Holanda, em 1974 e 1978.

Como se vê, a maioria esmagadora das Copas teve como campeãs e também vices seleções representantes de países republicanos. Alguns, apenas nominalmente: duas vezes, países sob ditaduras militares ganharam a taça – o Brasil em 1970, e a Argentina em 1978 (jogando em casa).

Já os países “socialistas” (acho mais adequado o termo “burocráticos de partido único”) chegaram duas vezes ao vice-campeonato: a fantástica Hungria de Ferenc Puskás em 1954, e a Tchecoslováquia em 1962 (inclusive, se diz que a liberação de Garrincha para jogar a final mesmo tendo sido expulso na semifinal contra o Chile se deveria ao temor de que uma seleção do “bloco soviético” ganhasse a Copa).

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Outra curiosidade desta “final monárquica” é que ela também é a segunda consecutiva entre seleções europeias, o que não acontecia desde 1934 (Itália x Tchecoslováquia) e 1938 (Itália x Hungria).

Valeu, Uruguai!

Foi outro jogão, pena o resultado.

Mas também não se pode reclamar. O time da Holanda é melhor que o do Uruguai – que ainda assim, quase foi buscar o empate naquele último minuto. Perder faz parte do jogo, e não é nenhum pecado ser derrotado por um adversário mais forte.

A Celeste caiu de cabeça erguida, depois 40 anos sem chegar às semifinais de uma Copa do Mundo. Mas não faltou bravura ao Uruguai, que faz lembrar o Grêmio dos bons tempos. Aliás, o time uruguaio desta Copa de 2010 deveria servir de exemplo para os comandados (?) por Silas.

Valeu, Uruguai!

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Quanto à Holanda, criticada por jogar de forma mais “burocrática” nesta Copa, tem todas as condições para conquistar o título pela primeira vez. Já jogou bonito em 1974 e em 1998, mas não levou.

Mas, se parecia não haver beleza alguma na versão 2010 da Laranja Mecânica, agora não se pode mais reclamar: o primeiro gol holandês, marcado por Van Bronckhorst, foi uma pintura. Sem dúvidas o mais belo da Copa.

¡VAMOS URUGUAY!

Já escrevi sobre meu pouco (para não dizer “nenhum”) entusiasmo pela Seleção Brasileira, e alguns de seus motivos. Eu torço bastante pelo Brasil em outros esportes (em 2004, para terem uma ideia, eu sentia vontade de pular para dentro da televisão e encher de porrada aquele padre que empurrou Vanderlei Cordeiro de Lima para fora da maratona dos Jogos de Atenas). Se é para falar de futebol, acho que a Seleção Feminina, cujas craques não tem nenhum apoio por parte da CBF, merecem muito mais nossos aplausos do que o time que hoje perdeu para a Holanda (e mesmo que tivesse ganho).

Talvez muitos achem que eu estava torcendo “por causa do Dunga”. Na verdade, estava indiferente, torcia mesmo só para que o técnico xingasse mais aqueles caras da Globo. Ainda mais que eles merecem mesmo, e “cagão” é pouco, diante do absoluto desrespeito com que as reportagens feitas pela empresa tratam países como o nosso vizinho Paraguai e também a Coreia do Norte (uma coisa é discordar do regime político norte-coreano – inclusive eu discordo – mas isso é bem diferente de achincalhar seu povo em rede nacional). Queria ver como muitos dos que devem ter achado graça reagiriam se matérias preconceituosas como essas fossem feitas por uma emissora estadunidense sobre o Brasil.

Cerca de dois meses atrás, em uma entrevista ao programa Roda Viva, o ex-jogador e agora comentarista Paulo Roberto Falcão disse que o povo brasileiro, quando fala de futebol (masculino, claro), torna-se extremamente arrogante, e é a mais pura verdade. Nos outros esportes, se não somos propriamente humildes (como no caso do vôlei, em que somos realmente muito fortes), ao menos não nos sentimos “os tais”. Respeitamos os adversários, que têm seus méritos, suas qualidades, não ganham apenas “porque o Brasil jogou mal” ou “porque o técnico brasileiro é burro”.

Essa arrogância toda apenas me faz sentir menos entusiasmo pela Seleção. Não digo que eu seque o time, mas apenas não torço. Até grito nos gols, mais pela farra do que por convicção.

Gritar, comemorar de verdade, e com convicção, foi o que eu fiz horas após Holanda x Brasil: Uruguai nas semifinais depois de 40 anos! Tá certo que também com uma pontinha de lamento pela (má) sorte que teve Gana: se Asamoah Gyan tivesse convertido aquele pênalti e levado uma seleção africana pela primeira vez às semifinais da Copa do Mundo, eu não ficaria triste. O problema para Gyan foi o nervosismo: imaginem o estado emocional dele naquele momento em que a esperança da África inteira estava em seus pés? É muita pressão.

Mas, qualquer que fosse o resultado, teria valido a pena. Ainda mais que Uruguai x Gana foi um JOGAÇO, daqueles dignos de serem lembrados para sempre.

E agora, claro, a festa em Montevidéu…

E também na fronteira com o Brasil, Chuy/Chuí: