Cassar Bolsonaro não resolve o problema

Hoje, Jair Bolsonaro voltou a falar absurdos. Discursando na tribuna da Câmara, o deputado do PP do Rio de Janeiro atacou as propostas do Ministério da Educação de materiais e procedimentos para combater o preconceito nas escolas. Bolsonaro, como sempre, falou em “kit gay” e insinuou que a presidenta Dilma Rousseff seria homossexual. (Tem até vídeo disso, mas em respeito aos leitores, me recuso a disponibilizá-lo aqui no Cão; quem tiver estômago para ver, procure no YouTube.)

A sexualidade de qualquer pessoa é uma questão de foro íntimo. Ao passarmos pelas pessoas na rua, não temos como dizer, com 100% de certeza, qual é sua orientação sexual. E não pensem que basta prestar atenção em como ela se comporta, como fala etc.: já vi pessoas que se fosse me basear nos estereótipos as consideraria homossexuais, mas eram héteros.

Aliás, há quem acredite que “quem defende gay, só pode ser gay” (e sempre achando que a homossexualidade é um crime). Coisa dos Bolsonaros da vida. Como se a luta das mulheres pela igualdade de gênero tivesse de ser apenas delas, como se só as etnias historicamente discriminadas pudessem combater o racismo, enfim, como se a pessoa pertencente a um grupo opressor não pudesse tomar a decisão de remar contra a maré, combatendo a opressão que seus “iguais” empreendem contra os diferentes.

Só que se engana quem pensa que basta cassar Bolsonaro para acabar com a homofobia no Brasil (e o mesmo vale para quem acredita que será o fim das pregações pró-ditadura militar). Pois, por pior que seja o deputado, não podemos deixar de lembrar que em 3 de outubro de 2010 ele recebeu o voto de 120.646 eleitores do Estado do Rio de Janeiro – ou seja, mais de um Maracanã atual.

E se pensarmos que há muita gente em várias partes do país que votaria nele… Dá para encher vários Maracanãs. Assustador, mas real.

Jair Bolsonaro representa o pensamento de muita gente. Obviamente isso não isenta o deputado de responsabilidade pelo que fala, mas os mesmos que votaram nele poderão, caso ele seja cassado, eleger alguém que seja até pior. Ou seja, se não mudar a mentalidade das pessoas, políticos como Bolsonaro continuarão sendo eleitos.

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O dia dos absurdos

Ontem seria o dia em que veríamos o inimaginável. Apenas seria. Pois os congressistas estadunidenses chegaram a um acordo sobre o aumento do limite da dívida pública, e com isso os Estados Unidos evitaram o que seria o primeiro “calote” de sua história.

Mas ainda assim, aconteceu o que, pelo menos, era para ser inimaginável. Não nos Estados Unidos, mas sim aqui no Brasil.

O primeiro absurdo veio de São Paulo. Na Câmara Municipal da capital paulista, foi aprovado um projeto de lei que cria o “dia do orgulho hétero” (o que me dá vergonha de ser hétero). É isso mesmo. Pelo visto, somos nós, os heterossexuais, que somos discriminados… Resta agora torcer para que Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, vete o projeto cujo autor é seu colega de partido, Carlos Apolinário (DEM).

Só que este partido, democrata no nome, não o é na prática. E não só devido a esta excrescência do “dia do orgulho hétero”. Pois foi o DEM que entrou com uma ação na Justiça para proibir a exibição nos cinemas brasileiros do filme de terror A Serbian Film – Terror Sem Limites. Pura e simples censura, 26 anos após o fim da ditadura (e vale lembrar que este mesmo partido “defensor da democracia” surgiu de uma dissidência da velha ARENA, que apoiava o regime de exceção).

“Democracia” também faz parte do nome de outro partido, o PDT (Partido Democrático Trabalhista). Só que um político deste partido (o deputado federal Giovani Cherini) decidiu processar o músico Tonho Crocco por conta de uma letra que critica o absurdo aumento salarial que os deputados estaduais do Rio Grande do Sul concederam a si mesmos no final do ano passado (época em que Cherini ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado). Para ele, pelo visto, democracia vale só até terminar a apuração eleitoral: criticar deputado que quase dobra o próprio salário (enquanto eu não posso fazer o mesmo com o meu), vira “ofensa”.

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Atualização (04/08/2011, 22:20). Agora que lembrei: Gilberto Kassab não é mais do DEM, saiu para criar o tal de PSD…

Contra o casamento

É isso mesmo. Eu sou contra o casamento. Pode até ser que no futuro eu mude de ideia. Mas esta é a minha opinião hoje. E modéstia a parte, é significativa, se levarmos em consideração que este domingo foi (mais) um dia chuvoso em Porto Alegre – dizem que nada como ter um amor (de contrato assinado e tudo) para não ficar em depressão num domingo de chuva, como se não existissem outras opções de diversão como livros, filmes, jogos etc.

Não sou contra o “se juntar”, como vários casais fazem e eu aceitaria numa boa (até porque com isso as contas podem ser divididas). Só acho uma grande bobagem esse negócio de noivado, igreja (ainda mais que sou ateu), festança… Enfim, todas essas formalidades, cerimônias. Algo que considero por demais ultrapassado, e também um desperdício de dinheiro. (O mesmo vale para as formaturas em palco.)

Quem está lendo este texto certamente acha que jamais conseguirei acabar com a instituição do casamento. Penso o mesmo.

Mas, por que acabar com ele? Ora, se não quero casar… É só não fazê-lo (afinal, não sou obrigado). Simples, né? E bem mais democrático do que, por eu ser contra, querer que as pessoas que não são contrárias percam seu direito ao casamento.

O mesmo argumento vale para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se sou contra a instituição, quer dizer que isso vale tanto para os heterossexuais como para os homossexuais. Mas não sou obrigado a casar com outro homem, então é só não casar… Não vejo motivo algum para que pessoas do mesmo sexo não tenham o direito de se casarem. Além do que, por eu ser hétero, o reconhecimento legal da união homoafetiva não faz a menor diferença para mim – mas é muito significativo para os homossexuais.

Assim, fica a dica: se quem está lendo este texto é contra homossexuais se casarem por achar isso “imoral”, porque sua religião é contra ou por qualquer outro motivo, é só não casar com alguém do mesmo sexo… Bem mais simples – e democrático.

Não existe ditadura das minorias, e sim, DE UMA minoria

Já fazia algum tempo que queria escrever sobre isso. Pois é algo que vem me incomodando muito.

Na atual onda de “politicamente incorreto” (eufemismo para “fascismo envergonhado”), uma das queixas destes “incorretos” é que hoje em dia vivemos uma “ditadura das minorias”. Que não se pode contar uma piada sem que se corra risco de ofensa contra alguma minoria. Que não se tem mais liberdade de expressão, e blá blá blá. Logo, é ditadura. Das minorias, é claro.

Interessante essa visão deles. Pois começo a pensar nas diversas minorias “opressoras” na ótica dessa gente. Só a primeira delas, as mulheres, já corresponde a pouco mais da metade da população brasileira. Ou seja, falamos é de uma maioria. Nem precisei ir longe para derrubar os “argumentos” deles.

Só que não são apenas as mulheres os alvos do “humor” deles. As “piadas” também atingem negros, índios, mestiços, homossexuais etc. Se fizermos a soma, já temos uma maioria esmagadora.

Logo, “minoria” é justamente quem não se encaixa em nenhuma das ditas “minorias” que, dizem, são “opressoras”. Só os homens já formam uma minoria; se quisermos para a “amostra” os que sejam também brancos e heterossexuais, sobra menos ainda.

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Agora, vamos falar de ditadura. Primeiro, vejamos o que diz o minidicionário Aurélio:

ditadura sf 1. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos dum indivíduo, grupo, partido ou classe. 2. Tirania.

Nas mãos dum indivíduo, grupo, partido ou classe. Reparemos que o dicionário não fala no plural. Pois na ditadura não há pluralidade. Nem de opiniões, nem de pessoas (ou grupos de) no poder.

Voltemos, então, às minorias e à suposta “ditadura” delas. No caso, seria uma ditadura da maioria, que é a soma de todas elas. E “ditadura da maioria” se aproxima de… Democracia! (Sim, se aproxima, já que democracia real seria o governo de todos.)

Porém, sequer é esta a realidade. Pois o poder não se encontra nas mãos destas minorias (que unidas formam a maioria). Elas não oprimem – pelo contrário, são oprimidas por uma minoria, formada por homens brancos e heterossexuais (embora obviamente não se trate de todos eles – afinal, eu sou homem branco heterossexual e não concordo com a opressão, mas reconheço que sou parte do problema).

Esta minoria sempre se sentiu no direito de humilhar os diferentes. Só que agora os seus alvos não parecem mais muito dispostos a aceitarem isso calados. Daí toda a reclamação quanto à suposta “ditadura das minorias”: os “politicamente incorretos” querem liberdade para oprimir.