Minhas observações sobre o #BlogProgRS

Eu tinha prometido escrever observações sobre o #BlogProgRS, encerrado domingo. Então, já passa da hora de cumprir a promessa. Não falarei especificamente sobre cada asssunto tratado, já que o texto ficaria muito longo, então opto por tratar de alguns aspectos.

Assim como o Alexandre Haubrich, quando vi a programação fiquei com receio de que o encontro servisse apenas para exaltar os governos Dilma e Tarso, já que a maioria esmagadora dos painelistas era ligada ao PT – quando não, inclusive, ao governo do Estado. Faltavam nomes como o do Hélio Paz, e também o pessoal do Coletivo Catarse, que faz um trabalho sensacional.

Felizmente, meu receio não se confirmou (apesar de alguns pesares dos quais falarei mais abaixo). O governo Dilma, se não foi tão criticado como eu achava que poderia ter sido, pelo menos não foi poupado – afinal, a retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura, a tentativa de conciliação com a mídia (lembram?) e a “blindagem” de Antonio Palocci não são coisas fáceis de serem toleradas. Senti falta de críticas à suspensão do kit anti-homofobia; quanto ao fim do Plano Nacional de Banda Larga como foi idealizado por Lula, vamos dar um desconto: a notícia saiu ontem, quando o encontro já havia acabado, assim não foi possível criticar a presidenta por isso (e estou ansioso para saber a opinião dos “governistas acima de tudo” sobre o assunto).

O que assisti do encontro foi bastante interessante. A apresentação de Marcelo Branco sobre as ameaças à liberdade na internet foi excelente, e bastante didática. Altamiro Borges expressou sua opinião contrária à criação de uma “associação de blogs”, devido ao risco de criação de uma estrutura verticalizada que poderia acabar excluindo alguns blogs que não seguissem exatamente a mesma linha da “chefia” (nem preciso dizer que concordo com ele, né?). Eduardo Guimarães lembrou que, enquanto não for quebrada a neutralidade da internet (ameaça que foi bastante comentada na apresentação de Marcelo Branco), ela irá subverter a antiga lógica segundo a qual apenas os poderosos podem “falar alto”. Também me agradou bastante a defesa por parte de Renato Rovai da diversidade de opiniões entre os blogs (o que vai ao encontro do que disse Altamiro Borges), com uma frase que achei sensacional: “A beleza da blogosfera é que nem todas as flores são da mesma cor”.

Agora, conforme o prometido, passando aos “pesares”…

Primeiro: na sexta à noite, a primeira mesa foi aberta por Marcelo Ribas, representando Vera Spolidoro, Secretária de Comunicação e Inclusão Digital, que não teve como comparecer. Tudo bem, o governo Tarso tem algumas medidas bem interessantes para a comunicação – como o Gabinete Digital – e apoiou a realização do #BlogProgRS. Mas acho que um encontro de blogueir@s não deveria ser aberto por um representante do governo, como aconteceu. Eu preferia alguém que escreve em blog na fala de abertura.

Outra falha, bem lembrada pelo Alexandre, foi a distração que deixou o blog oficial do encontro em Copyright – quando durante boa parte do evento se defendeu o Copyleft e o Creative Commons. O erro, vale ressaltar, já foi corrigido.

Algo que também critico é o próprio nome oficial: “Encontro de blogueir@s e tuiteir@s do RS” (#BlogProgRS se deveu ao primeiro encontro nacional, o #BlogProg, acontecido em agosto de 2010). Embora fosse claramente um evento de esquerda, nada impediria que um reacionário se increvesse: se perguntassem por que ele estava lá, era só responder que tinha blog (e o que não falta são reaças que escrevem blogs e têm conta no Twitter – lembram da Mayara Petruso?).

Quanto à organização, gostei: foi possível acompanhar o #BlogProgRS mesmo de casa (como fiz no domingo, quando decidi dormir até mais tarde depois de seis dias seguidos acordando cedo) graças à transmissão ao vivo da TV Software Livre; assim como o Twitter também possibilitava a interação com os participantes. Afinal, mesmo que o mais bacana seja o contato presencial, um encontro de blogueir@s não pode se dar apenas “analogicamente” (como foi minha participação, anotando no papel ao invés de tuitar, já que não tenho laptop).

Do “correio eletrônico” à blogosfera

Reportagem exibida pela Record em 1990 sobre a grande novidade na área da informática: o correio eletrônico!

O meu pai descobriu o vídeo acima, e logo começamos a falar do quanto a informática evoluiu nos últimos tempos, e também a lembrar de quando compramos o primeiro computador, em 16 de março de 1995. Era um 486, com 8MB de memória RAM, disco rígido de 400MB (um latifúndio!), que usava o Windows 3.11 como sistema operacional, enfim, uma baita aquisição! Melhor que isso, só se comprássemos o último lançamento, o moderníssimo Pentium! Só que aí era caro demais…

A ideia do meu pai era comprar o computador para trabalhar, já que mais cedo ou mais tarde ele precisaria se “informatizar” para se manter no mercado. Internet, ele ainda nem cogitava. Já meu irmão e eu, claro, víamos a máquina como um videogame em potencial. E logo compramos os primeiros jogos: os sensacionais FIFA International Soccer e World Circuit. Como não tínhamos joystick, fazíamos revezamento: no FIFA, cada um jogava um tempo; já no de Fórmula-1, não era raro estar esperando a vez quando aparecia a mensagem de que eu estava fora da corrida porque tinha batido, ou o carro tinha dado problema…

Eram partidas sempre silenciosas: o computador não tinha placa de som! Tanto que muitas vezes eu me ferrava no Doom porque era atacado pelas costas e demorava a perceber. Mas acabamos descobrindo como ligar um som do próprio computador para os jogos – aqueles ruídos bem “eletrônicos”, mas que eram melhor que nada.

Mas além dos jogos, os programas também podiam ser interessantes. Como os editores de texto. Olhando para aquela época, chega a parecer estranho que cinco anos depois eu iria estar cursando Física: eu já gostava de escrever. Tanto que também conseguia ver o computador como “uma máquina de escrever mais moderna”, além da função básica (videogame). Aliás, não por acaso o divertidíssimo livro “Detesto PCs” fazia uma escrachada comparação entre o computador e a máquina de escrever, explicando os motivos pelos quais o leitor não deveria trocar sua velha máquina por um computador (desta forma, com muito bom humor, ajudava o iniciante a perder o medo).

No início de 1996, acabamos com o silêncio do computador, adquirindo uma placa de som. Finalmente podíamos jogar FIFA com o barulho da torcida, ouvir os rugidos dos monstros no Doom, os barulhos dos carros de Fórmula-1… E aí vieram também jogos melhores como o FIFA 96, com os nomes verdadeiros dos jogadores (apesar de ter vibrado com muitos gols de Janco Tianno pelo Brasil no FIFA “antigo”) e até narração das partidas (em inglês, claro). Era possível montar o próprio time, embora sem poder jogar os campeonatos que o jogo oferecia; lembro que o meu tinha craques como Preud’homme, Hagi, Stoichkov, e o destaque maior, o francês Loko – cada vez que o narrador se referia ao jogador, sempre pronunciando seu nome incorretamente (dizia “loucou” ao invés de “locô”), era garantia de risada.

Os anos passaram, e computadores mais potentes vieram. Assim como jogos com gráficos mais perfeitos, como o FIFA 98 – com direito à disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1998, permitindo algumas façanhas históricas como a classificação de Cuba para o Mundial, sob meu comando.

Começamos a acessar a internet – conexão discada, com velocidade de 14,4 kbps, uma beleza! (E na minha casa foi assim até o início de 2005.) Eram tempos em que era preciso esperar a meia-noite para entrar na rede, horário a partir do qual as companhias telefônicas passavam a cobrar pulso único por ligação. Conectávamos e encontrávamos os amigos no ICQ – isso quando conseguíamos nos conectar.

Aliás, coisa bem interessante o que aconteceu nos últimos tempos. Lembro que no ICQ (aliás, alguém ainda usa???) eu falava principalmente com gente que eu conhecia pessoalmente. O mesmo se dava no MSN, assim como no Orkut. Alguns anos se passaram, e comecei a conhecer “na vida real” pessoas com as quais estabeleci os primeiros contatos no espaço virtual – e que, não fosse a internet, dificilmente eu as conheceria. Num exemplo bem simples, provavelmente eu passaria pelo Guga e pelo Hélio na social do Olímpico e os veria apenas como mais vozes a apoiarem o Grêmio, se eu não tivesse um blog e não conhecesse os deles.

E o incrível é pensar que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Afinal, há menos de 10 anos, eu ainda precisava esperar a meia-noite para me conectar na internet e pôr o papo em dia com os amigos via ICQ… Enquanto a hora não chegava, jogava um FIFA e tentava levar as seleções mais fracas para a Copa do Mundo.

Volta de Ronaldinho ao Grêmio?

Já se falou na mídia esportiva, faz algum tempo, sobre um possível retorno de Ronaldinho ao Grêmio – ideia defendida pelo Guga Türck em outubro de 2007. Tal fato se concretizaria em 2011.

Essa ideia, é óbvio, não é e jamais será unanimidade entre os gremistas, dada a maneira como se deu a saída de Ronaldinho, no início de 2001. O craque, que tantas vezes jurara “amor eterno” ao Grêmio, havia assinado em segredo um pré-contrato com o Paris Saint-Germain, para que pudesse deixar o Tricolor sem a necessidade dos franceses pagarem a multa rescisória do contrato, que estava por expirar. Poucos dias depois, entrava em vigor a Lei Pelé, que acabava com o “passe”, ou seja, Ronaldinho poderia acabar saindo de graça! No fim, o Grêmio recebeu uma merreca estipulada pela PIFA, a entidade que defende o dinheiro (principalmente dos europeus), não o futebol.

Em sua última partida disputada no Olímpico, Grêmio x Figueirense pela Copa Sul-Minas de 2001, Ronaldinho foi muito vaiado, marcou um golaço de falta mas mesmo assim as vaias continuaram, e ao deixar o gramado, levou uma chuva de moedas. Lembro que não o vaiei, apesar de estar furioso com o que estava acontecendo: ele vestia a camisa do Grêmio, e não iria vaiar um jogador do Grêmio.

Diferente do que aconteceu no último dia 12 de dezembro, no jogo de despedida do Danrlei: um dos que jogou foi Assis, irmão de Ronaldinho e seu empresário, que esteve por trás da negociação do craque com os franceses. Aí eu vaiei pra valer, assim como o Hélio Paz e mais milhares de gremistas presentes ao Olímpico.

Mas em conversa alguns dias depois, antes da gravação do Boteco Tricolor, o Guga Türck lembrou algo importante: e o ex-presidente José Alberto Guerreiro, não merece uma vaia também? Afinal, o dirigente foi extremamente incompetente para manter o craque – ou para fazer com que ele rendesse grana para o Grêmio. Quando Ronaldinho começou a chamar a atenção do mundo, em 1999, Guerreiro mandou colocar uma faixa na entrada do Olímpico com os dizeres “não vendemos craques”.

Promessa feita, promessa cumprida: deu Ronaldinho de presente aos franceses… O craque carregara nas costas não só o time horrível de 1999, como o “supertime” (uma bela piada!) da ISL de 2000, sem ganhar metade do salário astronômico que recebiam “medalhões” como Paulo Nunes (nem sombra do grande jogador que fora no Grêmio de 1995-1997), Astrada e Amato. Óbvio que Ronaldinho se sentiu desvalorizado: era o principal jogador do time, e ganhava pouco em comparação a “reservas de luxo”.

Isso não diminui o caráter de “sacanagem” do que ele fez. Ronaldinho poderia ter dito abertamente que tinha uma proposta para sair do Grêmio, e que pretendia fazê-lo por se sentir desvalorizado no clube mesmo sendo o principal jogador. Mas ainda assim, considero Guerreiro como o principal culpado pela forma como o craque deixou o Olímpico. Inclusive, para “fazer média” com a torcida, o então presidente recusou propostas excelentes: Ronaldinho poderia ter rendido uma bela grana ao Grêmio se saísse antes.

Se Ronaldinho voltar ao Grêmio e for o mesmo jogador que deitou e rolou no Barcelona até 2006, será um reforço e tanto para o Tricolor – só precisará vencer a resistência de muitos gremistas. Agora, se for para jogar sem a menor vontade, que nem venha.

Mas, e o que o torcedor gremista acha de um possível retorno de Ronaldinho, dez anos depois?

Mais sobre pontos corridos x “mata-mata”

Mais dois ótimos textos a respeito da tentativa da Rede Globo de impor suas vontades sobre o futebol brasileiro:

  • O primeiro é do Hélio Paz, que relembra inclusive um post escrito por ele mesmo em outubro de 2007 sobre a fórmula e lembra que a credibilidade de um campeonato depende fundamentalmente da sua regularidade – e é o que vem acontecendo com os Campeonato Brasileiro, desde 2006 com o mesmo regulamento: pontos corridos, 20 clubes e rebaixamento de quatro equipes. Número de vagas à Libertadores é algo que não depende somente da CBF, embora também não tenha sofrido alterações desde então;
  • O segundo, que foi citado pelo Hélio também, é do Bruno Coelho, no Grêmio 1903, que considera o retorno do “mata-mata” como um retrocesso para o futebol brasileiro (e de fato, é), e também detona alguns mitos contra os pontos corridos, como a tal “falta de emoção”.

Os dois apresentam bons argumentos a favor dos pontos corridos. Já em favor do mata-mata, o que existe? Só os interesses comerciais da Globo, que deseja conquistar a esmagadora maioria da audiência brasileira em uma tarde de domingo, transmitindo a “grande final”.

Espero que a CBF, que merece muitas críticas, desta vez faça por merecer um elogio e não se curve à Globo. Inclusive na questão dos horários dos jogos: o presidente Ricardo Teixeira deseja que no Brasileirão 2010 os jogos no meio de semana comecem às 20h, e não mais às 21h ou 21h45min – o último é o horário da transmissão da Globo, depois da novela, reservado aos jogos “mais imporantes”.

Jogos às 20h são muito melhor para o torcedor, já que terminariam por volta das 22h (exceto se fossem eliminatórios, onde haveria a possibilidade de prorrogação ou pênaltis), horário em que ainda há uma boa disponibilidade de linhas de ônibus. Para se ter uma ideia, em jogos da Libertadores que fui gastei uma nota em táxi porque a partida terminou à meia-noite e perdi o último T5, que só conseguiria pegar se saísse rápido do estádio e ainda teria de contar com a sorte para não pegar atrolhado – tanto que pego o ônibus algumas paradas antes para que esteja vazio.

Tomara que se dê um passo para diminuir a influência da televisão no futebol, que decide onde, quando e como se joga. É hora de deter a “telecracia”, nas felizes palavras de Eduardo Galeano em seu ótimo livro “Futebol ao sol e à sombra” (L&PM, 2002, p. 195):

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo o que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão européia. O arqueiro alemão, Harald Schumacher, contou o que acontecia:

– Suo. Tenho a garganta seca. A grama está como a merda seca: dura, estranha, hostil. O sol cai a pique sobre o estádio e explode sobre nossas cabeças. Não projetamos sombras. Dizem que isto é bom para a televisão.

O Boteco do Almômetro

botecotv

Hoje aconteceu o 16º Boteco Tricolor, especial! Além dos titulares Guga Türck e Sérgio Valentim (desfalcou o Boteco de hoje o Jefferson Pinheiro), participaram também o Kayser, o Hélio Paz e este que vos escreve, “dono” do Cão Uivador. Nós cinco somos parte da equipe que faz o Almômetro.

Foi mais de uma hora de debate sobre o Gre-Nal do Século (sim, foi o de ontem, 100 anos do clássico!), sobre a visível melhora do Grêmio desde que Paulo Autuori implantou o 4-4-2, e em consequência disso, do crescimento de algums jogadores no novo esquema, como Fábio Santos, Túlio e Adílson. E, claro, não podíamos deixar de falar do Mário Fernandes, que jogou muito! Tomara que continue assim – e poderá ser uma das principais revelações do Brasileirão 2009.

Clique aqui para ir ao Alma da Geral e ouvir o Boteco do Almômetro!

Polícia violenta é pior do que criminoso

Concordo totalmente com o que disse o Hélio Paz em post sobre a violência da Brigada Militar contra torcedores do Grêmio que ficaram do lado de fora do Olímpico com os ingressos na mão, impedidos de assistirem Grêmio x Cruzeiro, supostamente por não haver mais lugares no estádio. (Eu estava lá dentro e garanto que ainda havia espaço, principalmente nas cadeiras, setor onde muitos proprietários – ou seja, que têm seu lugar marcado, inclusive com seus nomes gravados nas cadeiras – não puderam ingressar.)

A função da polícia é dar segurança aos cidadãos. Porém, quem nos defenderá quando é ela que comete atos criminosos? Teremos de chamar o ladrão? O Hélio disse tudo: “uma polícia aloprada é muito mais perigosa para a sociedade do que delinquentes”.

Porém, como o que não falta no mundo é demência, há gente a defender polícia violenta, que bate (ou até atira) primeiro, e pergunta depois. Provavelmente muitos dos agredidos quinta-feira no Olímpico fossem assim – espero que, depois dessa, pelo menos mudem de opinião.

Sugestão ao MST e à Via Campesina

O Hélio Paz postou no blog dele um vídeo no qual fala sobre as estratégias de luta dos movimentos sociais como o MST e a Via Campesina. Sugere que ao invés de focarem suas ações na ocupação* de terras improdutivas e/ou de plantações de eucaliptos (em geral, derrubando as árvores), os movimentos deveriam procurar se inserir entre a população urbana, maioria esmagadora dos brasileiros. Poderiam ensinar os moradores de favelas a plantarem, já que estes moram em terrenos pequenos mas têm algum espaço para plantio. Assim, viveriam do que plantam: se alimentariam e venderiam o excedente.

A opinião do Hélio a respeito dos movimentos sociais – aos quais ele declara total apoio, é importante ressaltar – gerou um bom debate sobre o assunto com o Guga Türck no Alma da Geral. O Guga defende a estratégia adotada pelos movimentos.

A minha opinião? Eu também apoio irrestritamente os movimentos sociais, e acho que terra improdutiva tem mais que ser ocupada* mesmo (e plantação de eucalipto pode ser considerada terra improdutiva, visto que não gera empregos e ainda é extremamente prejudicial ao meio ambiente). Mas, assim como o Hélio, acho que o MST e a Via Campesina adotam uma estratégia equivocada ao não procurarem se inserir, obterem apoios na cidade. A representação de tais movimentos na “grande” mídia é a mais negativa possível: é preciso se aproximar da população urbana para ela perceber que a mídia distorce a realidade.

Atualmente, ações como trancar o trânsito em ruas e estradas, greves, ocupações de terras ou prédios públicos, geram mais antipatia do que simpatia da classe mérdia. Pois os mérdios, ao volante de seus carros, vêem tais mobilizações como “baderna”, reclamando que demoram mais para chegar a seu destino por causa de “vagabundos que não querem trabalhar”. E o discurso da mídia corporativa é dedicado justamente a esse tipo de pessoa.

É preciso lutar usando as mesmas armas do adversário. Na sociedade atual, altamente midiatizada (os assuntos cotidianos geralmente passam pela mídia), não adianta simplesmente querer lutar contra a mídia: é preciso saber se utilizar dela a seu favor. E isso não se faz com “babação de ovo”, e sim, com o uso de meios como a internet e a TV Brasil (que precisa urgentemente ter sinal para o Rio Grande do Sul, de maneira a tentar furar o domínio da RBS). O Coletivo Catarse, por exemplo, já produziu reportagens que foram ao ar na TV Brasil – que é pública e não busca apenas ter o máximo de audiência, e sim, passar informação que a mídia corporativa não tem interesse.

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* Ano passado, em uma aula de Antropologia, foi discutida a questão do termo “invasão” utilizado para se referir às ações do MST. “Invasão” tem uma forte carga negativa associada: passa a idéia de entrar em espaço alheio – mesmo que sejam terras improdutivas, vazias. Enquanto “ocupação” tem seu significado em si mesmo: um espaço não-ocupado deixa de sê-lo. Não por acaso, a mídia corporativa utiliza sempre a expressão “invasão”.

Blogs têm força nos EUA, e ainda engatinham no Brasil

Não foram poucas as vezes que o Hélio Paz citou, em seus posts, a força dos blogs – e da própria internet – nas campanhas políticas dos Estados Unidos. Tanto que a vitória de Barack Obama na eleição presidencial se deveu ao competente uso das ferramentas oferecidas como redes sociais e blogs.

Para termos uma idéia de como andam as coisas por lá: começou a circular nesta semana em Chicago e São Francisco um jornal cujo conteúdo é exclusivamente oriundo da internet. É o “The Printed Blog”, que inicialmente será semanal, mas aspira à circulação diária. O jornal será distribuído em estações de transporte público nas duas cidades, gratuitamente. Sendo baseado em blogs, obviamente se pode ler o jornal pela internet, inclusive baixá-lo em formato PDF.

Uma iniciativa dessas por aqui teria chances de dar certo? Atualmente, acredito que não. Nos EUA, os blogs têm importância para a política e na formação da “opinião pública” (tanto que há gente disposta a anunciar em um jornal que expresse uma visão diferente da dominante). No Brasil, continuam muito restritos.

Pegando o meu próprio exemplo: em um ano e cinco meses e meio no WordPress, o Cão teve quase 77 mil acessos. Pode parecer bastante, mas é muito pouco, considerando que há blogs e páginas ligadas a grandes grupos de mídia que alcançam tal número de acessos em menos de um dia. E quando me conecto no WordPress, os blogs destacados (mais acessados) muitas vezes tratam de fofocas e celebridades – ou seja, são pautados pela televisão. Não podemos chamar isso de “mídia independente”…

Outro fator que pesa contra é, no caso dos blogs políticos, o fato de muitos serem partidarizados. Pois a força da mídia corporativa se deve à sua alegada “imparcialidade”: quem usa o senso crítico obviamente não acredita nessa balela, mas boa parte das pessoas lê jornais e revistas semanais, e assiste telejornais, e acredita que tudo o que é dito é “a verdade”. Acho extremamente honesto dizer de qual lado se está, mas resumir a política à defesa de determinados partidos e à luta pelo poder político é uma idéia equivocada.

É preciso lutar por idéias, não por partidos. Bons exemplos são movimentos como os Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho: politizados (pois a luta em defesa da natureza também é política) sem serem partidarizados. Ainda mais quando boa parte das pessoas se tornou descrente da política partidária: prova disso é que o único partido forte que se baseava na defesa de um ideal, o PT, tornou-se igual aos outros que tanto criticava.

Câmara vota projetos da dupla Gre-Nal

copa_nossa(charge do Kayser)

Hoje à tarde, serão votados na Câmara Municipal de Porto Alegre os projetos da “arena PIFA” do Grêmio e da modernização do estádio colorado, o Beira-Rio.

Muito mais do que isso, pretende-se mudar índices construtivos na cidade, que ajudarão a acabar com o pouco de qualidade de vida que resta nela: seriam permitidos prédios de 72m de altura na área atualmente ocupada pelo Olímpico e junto à “arena PIFA”, e 52m no Menino Deus – incluído o Estádio dos Eucaliptos, que o Inter pretende vender, e também a área do Beira-Rio.

O colunista do jornal LANCE! Marcelo Damato, citou em seu blog Além do Jogo uma postagem do Hélio Paz, e intitulou seu post de “Madrid em dose dupla”, lembrando que o Real Madrid, ao construir sua “Ciudad Deportiva”, teve de respeitar as leis da cidade, enquanto aqui em Porto Alegre se quer mudá-las com a desculpa de viabilizar a Copa de 2014.

E extremamente pertinente é o comentário, no blog do Marcelo Damato, do leitor Eduardo, do Rio de Janeiro. Ele lembra que há 10 anos atrás o Flamengo queria fazer um shopping em seu terreno, e a Câmara Municipal do Rio não permitiu: a área fora doada ao clube pelo poder público para a prática desportiva, não para atividades comerciais. Caso igual ao do Beira-Rio, mas aqui na “capital mais politizada do Brasil” querem que seja diferente.

Grêmio: não à “arena”!

Em junho de 2007, o Kayser postou um ótimo texto e uma charge hilária a respeito da proposta de se construir uma “arena PIFA” para o Grêmio:

arena_fifa

Afinal, de uma hora para outra, parecia que o “sonho dos gremistas” passara a ser a tal “arena”. Mais do que ter um time forte, capaz de vencer a Libertadores: perdemos para o Boca em 2007 devido à nossa fragilidade, pois eles só tinham o Riquelme – tanto que no Mundial, sem o craque, tomaram um tufo do Milan. Aliás, nas entrevistas após a derrota na final, o presidente Paulo Odone preferiu falar da falta que fazia a “arena PIFA” do que sobre a qualidade do time.

Duas semanas depois, uma bomba. Acordei e ouvi a notícia que apavorou a Nação Tricolor: Paulo Odone renunciaria à presidência para assumir a “Grêmio Empreendimentos”, empresa que seria (ou será) responsável por gerir a construção da “arena”. No lugar de Odone assumiria… Antonio Britto! Ele não era nada – repito: NADA – no Grêmio. Não ocupava cargo algum. E como conselheiro não era muito assíduo. Assumiria assim, sem sequer passar por eleição: em um país sério isso é chamado “golpe de Estado” (no caso, “de clube”). Uma clara manobra para que o ex-governador, companheiro de partido de Odone (PPS) reaparecesse na política. Porém, eles não contavam com a reação negativa da torcida, e assim o golpe foi abortado, com Odone ficando na presidência do Grêmio.

Em 9 de setembro de 2007, eu já havia postado a respeito do assunto “arena”. Em comentário no Alma da Geral, o leitor Jorge Vieira (que também costuma visitar o Cão) lembrou: o Grêmio é um clube falido, que deve para todo mundo, inclusive para jogadores que foram embora há 10 anos. Logo, não tem condições de ele próprio bancar a construção de um novo estádio. A obra só sai se for financiada por alguma empresa – que vai querer retorno de qualquer jeito, ninguém investe dinheiro para perdê-lo.

Houve uma proposta de se construir a “arena” no mesmo local do Olímpico, porém dois fatores a inviabilizaram: o Grêmio precisaria jogar em outro estádio durante a obra; e também havia o medo de que a construção não fosse concluída por questões financeiras (idéia que faz sentido em um momento como o atual), o que deixaria o Tricolor sem estádio. A opção pelo Humaitá assim tornou-se “natural”.

Porém, a proposta de contrato entre o Grêmio e a construtura OAS prestes a ser aprovada é apavorante. A “arena” terá seu uso “concedido” ao Grêmio. Sim, é isso mesmo: o novo estádio não será do Grêmio, e sim, da empresa, que irá explorar comercialmente a “arena” e o complexo de prédios comerciais que será construído no terreno. E os sócios gremistas não terão total direito ao usufruto das dependências da “nova casa” que, como já disse, não será realmente gremista.

Além disso, o que seria de um clube sem patrimônio? Pois é isto que irá acontecer com o Grêmio caso o contrato proposto seja aprovado. Em um ótimo artigo no blog do Hélio Paz, o Jorge Vieira deixou um comentário perturbador:

Hélio, se entendi bem o Imortal vira um tipo de marca, como o Nike. No Brasil o estádio identifica o clube é um espaço de interação dos torcedores. Tirar o estádio é acabar com essa troca entre os torcedores, surge então uma nova situação como marca, um produto. Não seria um passo para vender a marca? Pode ser uma loucura, mas o caminho fica aberto. Afinal quem é o dono da marca?

Ou seja: na prática, o Grêmio acabaria como clube de futebol (cuja razão de existir é a torcida), passaria a existir apenas como “marca”, comercial. A razão de existir seria apenas o lucro. Nos Estados Unidos, é o que acontece com os times da NBA, como mostra outro esclarecedor post do Hélio: as pessoas não torcem por clubes, e sim por “marcas”, que mudam de cidade de acordo com as “necessidades financeiras” dos proprietários.

Vale lembrar também que o clube de futebol ajuda a criar raízes para muitas pessoas. Não é simplesmente esporte: é o pertencimento a um grupo. Tanto que eu mesmo muitas vezes, ao falar do Grêmio, simplesmente uso o pronome “nós”: ganhamos, empatamos, perdemos, fomos campeões etc. O que faz do Grêmio grande é justamente a torcida, que está ao seu lado tanto na vitória quanto na derrota. Não fosse ela, o Tricolor seria apenas mais um clube social, que abre o departamento de futebol por poucos meses para disputar o Gauchão.

O impacto da “arena” será enorme sobre o torcedor comum. Pois o ingresso no novo estádio não será barato: certamente custará, no mínimo, 50 reais. Para os sócios, haverá uma cota de ingressos “gratuitos”, de aproximadamente 1.250 lugares – sendo que o Grêmio tem mais de 4 mil sócios apenas na modalidade patrimonial que, como diz a própria palavra, têm direito a usufruir do patrimônio do clube. Há ainda os milhares de associados em outras modalidades.

Será também mais caro ir aos jogos devido à distância. O Olímpico, situado dentro da cidade, é servido por um bom número de linhas de ônibus e lotação. A “arena”, no Humaitá, será voltada para quem tem carro – aliás, uma das queixas em relação ao Olímpico é sobre a falta de espaço para se estacionar. Ou seja, será o fim do “até a pé nós iremos” – o que faço muitas vezes – e passará a ser para a maioria das pessoas, o “só de carro iremos”.

Tudo isso por causa da Copa de 2014. Vale lembrar que o último Mundial, em 2006 na Alemanha, teve sua decisão no Estádio Olímpico de Berlim, construído na década de 1930 e reformado para a Copa do Mundo.