Da vida no interior

Em setembro de 2015, voltar a morar em Porto Alegre não estava em meus planos. Não digo que fosse ficar para sempre em Ijuí: apesar de estar gostando da cidade, pensava em uma mudança para mais perto da capital, onde ficara minha família. Me agradava a vida mais tranquila que tinha no interior, e ainda por cima recém tinha passado um tenso feriadão por conta da violência porto-alegrense agravada pela ausência de policiamento, fruto de protesto dos brigadianos por conta dos salários atrasados.

No final daquele mesmo setembro, veio o acontecimento que me fez começar a mudar de ideia, apesar da insegurança. No final da tarde do dia 28, minha avó Luciana, então aos 93 anos, foi internada no Hospital Ernesto Dornelles em função de problemas neurológicos causados por um tombo no qual bateu fortemente a cabeça. Na noite daquela segunda-feira falei com meu pai e ele recomendou que eu viesse assim que possível pois não se sabia se a vó sobreviveria (o quadro parecia ser bem mais grave do que realmente era) e, se sim, com quantas sequelas.

Na manhã seguinte, pedi autorização para me ausentar do trabalho por alguns dias, que me foi prontamente concedida. E no intervalo fui comprar uma passagem para Porto Alegre: consegui o último lugar disponível no último ônibus daquela terça-feira. (Seria preciso passar a madrugada na estrada, coisa que nunca gostei muito por ter dificuldade para dormir em viagens, mas em tal situação não havia escolha; e no fim eu conseguiria pegar no sono.)

Talvez seja apenas coincidência, mas a vó começou a melhorar com minha chegada a Porto Alegre, na manhã do dia 30. No final da tarde do dia 1º de outubro ela não só tinha recuperado a fala (ainda que não com as mesmas condições de antes) como também sua melhora impressionava os médicos. Meu pai voltou a pé do hospital para baixar a adrenalina e disse que apesar de ter vinho em casa iria comprar uma cerveja pois combinava mais com a situação; meu irmão e eu fizemos a mesma coisa, indo “tomar umas” no bar com nosso amigo Marcel. Era mais do que justo “bebemorar”.

Retornei a Ijuí na noite de 4 de outubro, quando a vó já tinha definitivamente boas perspectivas. E no dia seguinte voltei ao trabalho com uma “missão extra”: compensar as horas equivalentes aos três dias que estive longe, o que fiz ao longo daquele mês. E então reparei que se morasse em Porto Alegre (ou ao menos em uma cidade mais próxima) não precisaria ter me ausentado do serviço por tanto tempo. Já tinha um bom motivo para solicitar remoção no próximo edital, que seria aberto em janeiro de 2016. Mas fui além disso: a situação da vó me fez pensar em minha mãe e meu pai, que também envelheceriam e demandariam mais cuidados (ainda não foi necessário, felizmente), e que não seria justo deixar tudo sobre os ombros do meu irmão.

Então, menos de um ano após dizer com todas as letras que não pretendia morar em Porto Alegre novamente, estava de volta. Das voltas que a vida dá…

Terminei aquele texto de 2015 falando sobre uma visão muito comum entre pessoas da capital acerca do interior: a ideia de que “se tem pouca coisa para fazer”. Traduzindo: de que a vida longe das grandes cidades seria “tediosa”. Pretendia escrever mais sobre o assunto, e acabei não o fazendo. Por isso decidi fazer isso agora, com MEIA DÉCADA de “atraso”, para não parecer que não cumpro promessas (ainda que não tenha prometido nada).


Em junho de 2019, visitei Ijuí pela primeira vez desde que voltei a morar em Porto Alegre, quase três anos antes. Achei a cidade “parada”, e pensei que talvez eu tivesse uma imagem um tanto “idealizada” da vida que levei lá de janeiro de 2015 a agosto de 2016.

Mas não demorou para eu perceber o óbvio: eu tinha me reacostumado com o ritmo da capital e assim sentia estranhamento em uma cidade que pouco mudara desde 2016. Afinal de contas, quando fui morar lá também tive de me adaptar – ainda mais que, morando a 400 quilômetros de Porto Alegre, não teria como vir frequentemente e então precisaria passar muitos finais de semana em Ijuí.

É um enorme equívoco achar que viver no interior significa falta de itens de consumo comuns em capitais e “tédio”, ainda mais em tempos de internet. Do que eu conseguia comprar em Porto Alegre, quase tudo também encontrava em Ijuí: só não tinha como adquirir produtos típicos do Mercado Público, a não ser quando vinha visitar a família. Via Facebook, Skype e WhatsApp eu mantinha contato com pessoas de vários lugares. Sem contar que, não vindo a Porto Alegre com frequência, nos finais de semana eu sempre cozinhava (e inovava), enquanto atualmente só passei a fazer comida mais seguidamente porque a pandemia tornou desaconselhável almoçar fora.

Também não fiquei sem futebol – pelo contrário, visto que em Porto Alegre eu não estava frequentando muito os estádios (tinha deixado de ser sócio do Grêmio em 2013, por corte de gastos). Em Ijuí eu passei a acompanhar o São Luiz, então na Divisão de Acesso do Gauchão. Pena que nas duas temporadas que tiveram minha presença nas arquibancadas do 19 de Outubro o time não tenha conseguido subir (mesmo com a contratação de Paulo Baier, que encerrou a carreira na Baixada em 2016). Nunca presenciei uma derrota do Rubro dentro do estádio, mas ironicamente fiquei com fama de “Mick Jagger” por “dar azar” nos jogos que assistia pela televisão, torcendo por Grêmio e São Luiz ou “secando” o Inter (não à toa decidi não assistir à semifinal da Libertadores de 2015, quando os colorados caíram diante do Tigres do México).


Não é que a vida no interior seja “melhor” ou “pior” que na capital: é diferente. Como já falei, ela se dá em outro ritmo, menos acelerado. Que a mim, agrada bastante: não gosto de fazer as coisas com pressa, sem pensar com calma. Mas isso varia de pessoa para pessoa, sem dúvida alguma.

Vale lembrar que quando da minha nomeação, em dezembro de 2014, eu já pensava em “mudar de ares”, ainda que não pretendesse ir para tão longe de Porto Alegre. Isso certamente favoreceu na minha adaptação à vida interiorana: a saída da capital não era exatamente “forçada”.

E também é algo que me dá certa “nostalgia” daqueles dezenove meses nos quais morei em Ijuí. Volta e meia penso que poderia ter ficado mais tempo lá: eu costumava fazer passeios a pé nos finais de semana, procurando passar por ruas diferentes, “descobrindo” lugares novos. Ainda que a cidade não seja tão grande, foi pouco tempo para conhecê-la melhor.

Sem contar que estive morando relativamente perto de São Miguel das Missões (85 quilômetros de distância) e não fui visitar as ruínas (embora já as tivesse conhecido com o colégio em 1997). Não tinha como ir diretamente de Ijuí para lá de ônibus: seria preciso fazer “baldeação” (ida e volta) em Santo Ângelo, o que tornaria mais demorada uma viagem aparentemente curta, e com isso o passeio tomaria boa parte do dia. O resultado disso é que o fui postergando (preferiria ir quando recebesse visita de Porto Alegre), até que em abril de 2016 o sítio arqueológico foi atingido por um tornado que destruiu o museu nele localizado, que só seria reaberto em setembro de 2017, mais de um ano após meu retorno a Porto Alegre.


Apesar disso, não me arrependo do retorno. Quando a oportunidade apareceu, era algo desejado por conta dos acontecimentos que completam agora cinco anos. Mesmo que a minha preferência não fosse exatamente voltar a Porto Alegre (pensava primeiro em cidades mais próximas como Lajeado ou Santa Cruz do Sul). Não podia deixar ir embora aquele “cavalo encilhado”, visto que poderia demorar muito até passar outro.

E a fama de “Mick Jagger” se esfumaçou. Ou melhor, também “pediu remoção”. Eu tinha uma “crush” em Porto Alegre, na qual pretendia “investir muito” com o retorno, mas foi eu voltar que ela começou a namorar… “Azar no amor, sorte no jogo”, diz o ditado: no final de 2016 o Grêmio saiu da fila e voltou a ganhar um título relevante, a Copa do Brasil; no ano seguinte o Tricolor conquistou a Libertadores e estive presente em quase todos os jogos da campanha na Arena, visto que voltei a ser sócio. (E considerando o futebol que o Grêmio tem apresentado recentemente, penso que atualmente só não tenho sorte no amor pois não estou disposto a me arriscar em tempos de covid.)

O São Luiz, enfim, conseguiu subir em 2017. Pena que não pude comemorar na Baixada e nas ruas de Ijuí, certamente teria sido bacana. Mas certamente não me faltarão oportunidades para voltar a assistir aos jogos do Rubro, aqui mesmo em Porto Alegre.

Uma metáfora do meu 2020

Em meados de dezembro do ano passado, eu estava na dúvida sobre “adiantar” o meu 13º salário (o “adiantamento” significaria recebê-lo em dia via empréstimo; coisas de servidor público que nos últimos cinco anos raramente teve os vencimentos pagos em dia) ou deixar para receber parcelado ao longo de 2020.

Nos dois anos anteriores eu optara pelo “adiantamento”, e pensava em desta vez fazer diferente, para pelo menos sempre receber alguma coisa no último dia útil de cada mês. O efeito seria apenas “psicológico”, é óbvio.

Eis que recebi um boleto do Grêmio. Me era dada a opção de adiantar o pagamento de todas as mensalidades de 2020, com desconto e antes do reajuste previsto para a virada do ano. Algo tentador, até para eu não surtar por “estar gastando demais” a cada mês: o Grêmio já estaria pago, e com desconto!

Então decidi “adiantar” o “décimo” e usar parte do dinheiro para pagar o boleto do ano inteiro de 2020; o resto foi para a poupança. Não só eu, meu amigo Alexandre fez o mesmo. De janeiro a dezembro nossa presença na Arena já estaria garantida.

Porém, veio a pandemia de covid-19. Por conta dela, o último jogo de futebol com público em toda a América do Sul foi o Gre-Nal 424, primeiro da história válido pela Copa Libertadores, em 12 de março. Uma partida que por si só mereceria ganhar um documentário sobre ela – como de fato ganhou.

Fui um dos mais de 50 mil torcedores na Arena naquela noite. Já sabendo que depois levaria um bom tempo até poder voltar a presenciar uma partida, visto que a Conmebol havia suspendido a Libertadores a partir da semana seguinte. Só não imaginava que chegaria ao ponto de dizer “hoje faz seis meses que não vou à Arena”.

E não tenho a menor ideia de quando será possível ir a um estádio novamente – mas a certeza é de que isso não acontecerá em 2020. Sendo que paguei o ano inteiro…

O que de certa forma simboliza bem o que significa 2020 para mim: apesar de recém ser setembro, já digo com segurança que se trata do mais frustrante e sem dúvida alguma o pior ano da minha vida.

Sim, o fato de ter perdido a minha avó Luciana tem um grande peso nisso. Mas poderia ter sido uma exceção, assim como o falecimento do meu avô Pedro Laio em 1996, que apesar disso foi um ano muito bacana e do qual lembro com bastante carinho quase um quarto de século depois.

O mundo já vinha de mal a pior, mas no campo pessoal eu tinha boas expectativas para 2020. Dentre as principais, estava a de viajar ao exterior nas férias que estavam marcadas para o período entre o final de maio e o início de junho: no fim elas serviram para eu mandar trocar a tela do meu computador para facilitar minha vida em tempos de teletrabalho, e no último dia (5 de junho) a vó se foi.

Não falta tanto tempo assim para ser dezembro novamente. Chegará à minha caixa de correspondência um boleto do Grêmio com o valor do ano inteiro de 2021, com desconto. Tenho três meses para decidir se adianto ou não.

Curiosidades e uma temerária coincidência

A partida do Grêmio contra o Juventude, válida pelo Campeonato Gaúcho, foi para mim uma experiência inédita: primeira vez que fui ao estádio em um 29 de fevereiro. Não é comum se jogar nessa data pois só ocorre a cada quatro anos: é o “dia extra” que tem os anos bissextos para equilibrar o calendário com o Sol.

Por mais que eu ache que campeonatos estaduais precisem pelo menos sofrer uma total reformulação, não posso me furtar a uma curiosa escrita acerca do certame do Rio Grande do Sul. Com a derrota do Grêmio na final do primeiro turno diante do Caxias, foi mantida uma escrita que completará, no mínimo, 32 anos: a última vez que tivemos Gre-Nal na decisão do Gauchão em anos bissextos foi em 1992. Dali em diante, o interior sempre se fez presente pelo menos a cada quatro anos, inclusive com direito a título. Só relembrar as decisões seguintes (o campeão é o time da esquerda):

  • 1996: Grêmio x Juventude
  • 2000: Caxias x Grêmio
  • 2004: Inter x Ulbra
  • 2008: Inter x Juventude
  • 2012: Inter x Caxias
  • 2016: Inter x Juventude

Outra curiosidade: o 29 de fevereiro de 1992 também caiu num sábado – o que não foi suficiente para impedir o triunfo do Caxias sobre o Grêmio semana passada.


Já uma coincidência, bem menos feliz, diz respeito a outro ano bissexto em que o 29 de fevereiro foi um sábado. Foi em 1964. Ano do golpe civil-militar que mergulhou o Brasil em uma ditadura de 21 anos.

1964-2020

Tudo bem: não se pode dizer que é exatamente igual pois as festas móveis (Carnaval, Páscoa etc.) em 1964 aconteceram em dias diferentes. Mesmo o quadro político é diferente: 56 anos atrás tínhamos um presidente de centro-esquerda sendo derrubado militarmente, enquanto agora temos um extremista de direita no cargo.

Mas há quem diga que Bolsonaro pode fazer algo como Alberto Fujimori, o presidente do Peru que, enfrentando dificuldades por não ter maioria parlamentar, dissolveu o Congresso com apoio das Forças Armadas em abril de 1992. Ano bissexto em que o dia 29 de fevereiro caiu num… Sábado. Que na ocasião era o de Carnaval, mas isso não me deixa mais tranquilo.

Haja paciência…

flamengo

Torci pelo Flamengo na final da Taça Libertadores contra o River Plate. Não pela rivalidade (inventada) entre Brasil e Argentina, mas sim, principalmente, pelo legado positivo ao nosso futebol: o técnico Jorge Jesus não poupou o time no Campeonato Brasileiro e o conquistou praticamente ao mesmo tempo que a Libertadores (a confirmação matemática veio um dia depois da decisão contra o River). Lembrando que o Grêmio de Renato Portaluppi poderia ter disputado o título nacional com o Flamengo em 2019 caso não tivesse deixado o campeonato de lado para priorizar os “mata-matas” (Copa do Brasil e Libertadores), sendo que não ganhou nenhum deles – igual ao ano passado. Também pesou para minha torcida ter ficado com bastante raiva do River após tudo o que aconteceu na Libertadores de 2018.

Claro que não fui celebrar na rua – isso é tarefa para os flamenguistas. Já fiz minha festa em 2017. Mas, algo em comum entre as duas ocasiões – além de diversas outras – foi a aporrinhação de muita gente nas redes sociais: aquele velho papo de chamar o futebol de “ópio do povo” ou “pão e circo”.

Já escrevi “um pouco” sobre isso em junho de 2018, por ocasião da Copa do Mundo – quando essas reclamações subiram a níveis estratosféricos. Fui além do futebol, lembrando que não é nada diferente do que falam sobre o Carnaval, por exemplo.

Sabem o que todas essas “críticas” têm em comum? Elas são fundamentadas unicamente na antipatia que temos por determinados eventos que muitas pessoas gostam e nós não. Só isso.

É exatamente isso. Se não gostamos de futebol, é fácil criticar a felicidade das pessoas por conta do esporte – aí, dê-lhe falar em “pão e circo” e outras chateações. No Carnaval, idem. Uma lógica tosca, segundo a qual quem se mobiliza por isso não se preocupa com política. Como se fossem coisas excludentes.

Eu gosto de futebol e também me interesso bastante por política. Não curto Carnaval, mas conheço uma galera que adora e não é nada despolitizada. Também sei de gente que gosta de política mas não de futebol e Carnaval, e mesmo assim não fica enchendo o saco de quem curte pois sabe que todos precisamos ter distrações temporárias para manter a sanidade mental: pode ser férias na praia, memes na internet, vídeos de gatinhos etc.

Conheço também quem só fica censurando a alegria das pessoas. E que logo depois critica fundamentalistas religiosos, que não são lá muito diferentes: ambos vivem “cagando regras” que se seguidas à risca tornam a vida um fardo, onde tudo é “alienação” ou “imoral”. Que gente chata da porra!

O Grêmio fica

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Era para ser o último… Só era mesmo.

Fui ao jogo do Grêmio contra o Corinthians, domingo na Arena, mais do que dar meu apoio ao Tricolor, que precisava vencer para garantir o 4º lugar no Campeonato Brasileiro e, assim, uma vaga diretamente na fase de grupos da Libertadores de 2019 (se bem que depois de tudo o que aconteceu na atual edição, nem dou muita bola para ela).

Inicialmente, minha ideia era uma despedida. Isso mesmo.

O motivo: corte de gastos. No atual contexto de salários cada vez mais atrasados, torna-se necessário gastar o mínimo possível, para que no início do mês seguinte sobre algum dinheiro na conta caso necessário. Eu tinha duas alternativas de cortes: deixar de pagar a mensalidade do Grêmio, ou entregar o apartamento e voltar a morar com minha mãe.

Se pensar unicamente no aspecto financeiro, chega a ser bobagem pensar em não pagar mais o Grêmio. Afinal, é uma economia que faz muito menos diferença do que aluguel, condomínio, IPTU e outras taxas.

Mas eu notava outras coisas. Para além da mensalidade, também tinha os gastos envolvidos com as partidas: deslocamento, bebidas, alguma coisa para comer etc. Houve jogos nos quais desembolsei uma grana considerável – em especial, aqueles disputados à noite, quando descia do ônibus ou da lotação no final da linha e ainda precisava pegar táxi ou carro de aplicativo para não voltar a pé em horários não recomendáveis para se caminhar pelas ruas.

Ou seja, deixando de ser sócio do Grêmio, eu economizaria bem mais do que a mensalidade, teria um pouco mais de fôlego financeiro, e poderia continuar morando sozinho.


Então, cheguei à Arena. Fiz o que tinha decidido após o fatídico jogo contra o River: não beberia grandes quantidades de cerveja, como fazia até então antes de entrar no estádio (o fato de ter ido sozinho e só encontrado um dos meus amigos dentro da Arena colaborou). Tomei uma cerveja artesanal, vendida na esplanada: o copo custava 12 reais, mesmo preço de uma garrafa de litro no bar onde a turma costuma se concentrar antes dos jogos, mas a um custo-benefício bem mais em conta, dado que tem muito mais qualidade do que as vendidas no bar.

Ao contrário do que vinha acontecendo quando ia “de galera”, entrei bem cedo no estádio, sem correria. Fiquei um bom tempo observando a torcida, pensando no que perderia deixando de ser sócio.

Até que foram anunciadas as escalações, primeiro do Corinthians e depois a do Grêmio. Quando o locutor falou o nome de Renato Portaluppi, que fica por mais um ano no Tricolor, vibramos e aplaudimos muito… Já comecei a pensar se não valeria mais continuar sócio e “dar um jeito” nas contas.

Depois os times entraram, a partida foi iniciada e o Grêmio começou em um ritmo bastante acelerado, certamente uma injeção de ânimo dada pela renovação de Renato. E o gol da vitória veio cedo, marcado justamente por Jael, o centroavante que recém acertou sua permanência por mais dois anos, algo que tanto criti… O quê? Jael? NUNCA CRITIQUEI!

No intervalo, saboreei as pipocas doces que mantém o mesmo sabor desde os tempos do Olímpico – cuja despedida “oficial” ocorrera exatos seis anos antes deste Grêmio x Corinthians, também num domingo, 2 de dezembro de 2012. Lembrei de como era mais fácil chegar ao Velho Casarão, que lá dificilmente eu pensaria em deixar de ser sócio, mesmo que a Arena seja incomparavelmente mais confortável. Mas a verdade é que naquele momento a decisão estava tomada: o próximo boleto vence na quarta-feira e será pago.

Ainda mais depois de chegar em casa e pôr tudo “na ponta do lápis” (traduzindo: no Excel). Tem muita “coisa boba” que posso cortar e assim economizar mais do que pago de mensalidade. Inclusive a cerveja de antes dos jogos: melhor beber menos (e melhor) e economizar mais – o meu fígado agradece.

Em último caso, abro mão de morar sozinho. Antes disso, que do Grêmio.

Promessas

Nunca me esqueço de uma crônica de Luis Fernando Verissimo acerca de resoluções de ano novo, na qual explicava por que não as fazia. O motivo principal: elas costumam acontecer “no calor do momento”, quando a soma de bebidas alcoólicas e empolgação por uma “novidade” – que nada mais é do que uma convenção – nos impele a falar coisas sem pensar.

Lembro disso e, automaticamente, de outras promessas que fiz – as quais, obviamente, não consigo cumprir.

Uma delas é bem recente: a de não mais beber cerveja. Foi na noite seguinte à derrota do Grêmio para o River Plate, que eliminou o Tricolor da Libertadores. Para mim o saldo foi bem mais negativo do que um resultado adverso no campo, visto que naquela noite fui furtado: quando percebi meus bolsos estavam vazios, precisei encarar burocracia em busca da segunda via dos meus documentos e terei a despesa não-planejada da compra de um novo celular (atualmente uso um provisório só para acessar o básico). É verdade que bebi demais, mas injustamente quis culpar a cerveja: o maior culpado, antes de qualquer outra pessoa (ou bebida), é, obviamente, o ladrão. Até havia algum fundamento na ideia de largar a cerveja: aquela noite, dois dias após o segundo turno eleitoral, foi apenas um “fecho de ouro” para o pior outubro da minha vida, no qual muito bebi para suportar o fardo que era – aliás, ainda é – morar no Brasil. Mas foi só (re)começar o calorão que me veio a vontade de tomar uma breja gelada: moderadamente, vale muito a pena.

Outra promessa que andei fazendo tempos atrás e não tenho como cumprir: não reclamar do calor. Pois a fiz lá em junho, lembrando que nunca convenci ninguém que prefere o inferno ao inverno a mudar de ideia, para dar uma indireta aos “chatonildos do pão e circo” que reclamavam da Copa do Mundo – que foi das raríssimas coisas boas de 2018, apesar do fracasso latino-americano nos gramados russos. Era o auge do inverno (aliás, outra coisa boa de 2018 é que teve inverno, mesmo que eu tenha caído de cama por um gripaço), já tinha quase me esquecido do desconforto que o verão me proporciona. Mas não completamente: em alguns momentos cheguei a desejar temperaturas amenas, jamais o abafamento e os banhos de suor típicos do nosso verão.

Mas o maior fracasso dentre minhas promessas, sem dúvida alguma, foi a de ignorar o noticiário político. Não tive como. Ainda mais numa eleição como foi a de 2018.

É por isso que continuarei bebendo, mesmo que moderadamente. E substituo a expressão “calor de desmaiar Batista” por “calor coiso”: acho que faz muito mais sentido, pois trinta e todos graus – assim como o candidato que venceu a eleição presidencial – me dão desespero e vontade de ir embora para o Canadá, enquanto o frio pode até causar algum desconforto, mas nos leva a pensar mais nas pessoas e dá vontade de abraçá-las. Inverno é amor.

“Oi, sumido”

Passei um bom tempo (mais precisamente, dois meses e cinco dias) sem aparecer por aqui, e a meia dúzia de pessoas que ainda lê este blog deve ter pensado que ele tinha acabado de novo. Mas está tudo dentro do previsto: ao retomar o Cão Uivador, avisei que não pretendia voltar a ter o mesmo ritmo de 2007-2014.

Nesse meio tempo, fiz um concurso e fracassei de maneira ÉPICA. Precisava acertar pelo menos 70% das questões, mas o índice foi de pouco mais de 50%. Só não considero fiasco pois confesso que estudei bem menos do que deveria.

Já o Grêmio, meus amigos… Esse anda passando bem longe dos fracassos. Não só ganha, como dá show. Ano passado achava que era cedo, mas agora já não tenho medo de dizer que nunca tive tanto prazer em ver meu time jogar como nessa era dourada iniciada em 2016 e que, espero, ainda esteja bem longe do fim.

Mas justamente hoje faleceu o maior símbolo das vitórias gremistas: o ex-presidente Fábio Koff. Em sua primeira gestão, levou o Grêmio à sua maior conquista, o Mundial de Clubes em 1983. Já a segunda passagem começou 10 anos depois em um contexto bem diferente: saindo da segunda divisão e com pouco dinheiro em caixa. E ainda assim, Koff só faltou fazer chover: montou um time barato mas muito qualificado em 1995, que nos levou a ganhar mais uma Libertadores. A última (2013-2014) não teve título algum mas foi também importantíssima: renegociou o contrato da Arena, cuja versão firmada durante a gestão anterior, de Paulo Odone, era péssima para o Grêmio; ao decidir não concorrer à reeleição, Koff indicou como seu sucessor Romildo Bolzan Júnior, que foi eleito e levou nosso Tricolor à atual era dourada.


Nestes dois meses que passaram, tive um período de 15 dias em férias, na segunda quinzena de março. Era saldo do ano passado. No começo de julho desfrutarei de 12 dos 30 dias cujo direito adquiri no começo de 2018. Poderia deixar o restante para tirar no verão de 2019, mas serei obrigado a usá-los para manter minha sanidade mental na época da campanha eleitoral: se já é complicado conviver com colegas de extrema-direita agora, imagina ali por setembro e outubro…

Minha única dúvida diz respeito ao período: fim de setembro e começo de outubro (quando acontece o primeiro turno) ou segunda quinzena de outubro, para escapar do segundo turno e da semana imediatamente posterior? Pois quero acreditar que certo candidato que só fala merda e pouco trabalha (e cujo nome não mencionarei para que as buscas do Google não tragam seus descerebrados eleitores para cá) não ficará acima do terceiro lugar. O problema é que ando cada vez mais pessimista.

Sala de brigação

Eventualmente escuto o Sala de Redação, por conta do rádio estar ligado na Gaúcha quando o programa começa. Não costumo parar para ouvir, até porque seu alegado objetivo de promover “debates esportivos” raramente é atingido: ultimamente, o que mais noto no programa são discussões ríspidas por motivos os mais idiotas possíveis, sem contar quando os participantes resolvem falar de política sempre com um viés reacionário, sem que haja contraponto (em 2009 um artigo de Eurico Booth já alertava para o “endireitamento” da crônica esportiva no Rio Grande do Sul, vale muito a pena reler o texto).

Segunda-feira, quando Kenny Braga chamou Paulo Santana de “fdp”, eu não ouvia o programa. Soube do episódio quando no Facebook vi os primeiros links noticiando a demissão de Kenny e o afastamento de Santana. Então ouvi o áudio do momento em que se deu a baixaria e então algo muito estranho me chamou a atenção.

Kenny Braga, que é colorado, se queixava de “agressividade” do (ex-presidente) gremista Cacalo nos comentários sobre o Gre-Nal vencido por 4 a 1 pelo Grêmio. As críticas de Kenny não se dirigiam a Paulo Santana, mas este ainda assim resolveu interromper o agora ex-colega, que com razão reclamou e pediu que o deixassem falar e concluir seu comentário, elevando o tom de voz. “Vai gritar com a tua mãe”, reagiu Santana, e em resposta Kenny (que perdeu a mãe ainda criança) disparou “a tua mãe, fdp”. O palavrão teria motivado a demissão – mesmo que não tenha sido a primeira vez em que se falou uma expressão de baixo calão no programa.

Na tarde de terça-feira, foi anunciado que Fernando Carvalho, ex-presidente do Internacional, seria o novo integrante do Sala de Redação. Mas a rapidez com que veio a substituição – apenas um dia após a demissão de Kenny Braga – dá a impressão de que talvez a troca já estivesse sendo pensada há certo tempo. Ainda mais que, como comentei, o “fdp” se deu como resposta a uma interrupção agressiva e absolutamente sem motivo de Paulo Santana: teria o veterano integrante da “bancada gremista” no programa (o outro é Cacalo) agido de forma deliberada, de modo a provocar uma reação intempestiva de Kenny? Provavelmente nunca saberemos.


Em postagens sobre o assunto, li vários comentários acerca da “necessidade de não se ter torcedores no debate esportivo para que ele possa ser sério”. Tal ideia é um erro crasso: se alguém debate futebol é porque aprecia o esporte; e a porta de entrada para tal gosto obviamente é o sentimento de identificação com algum clube (ou seja, ser torcedor dele). Ou alguém acredita que os comentaristas que não revelam seu time do coração sejam realmente “neutros”?

Ora, isenção é algo que só existe na ficção. Todos falamos sobre o mundo a partir da visão que temos dele.

Algo diferente de imparcialidade, que consiste em, independentemente de sua visão de mundo, não “brigar com os fatos”. É só reparar no que acontece com a imprensa brasileira no tocante à política: veículos que assumem seus posicionamentos, Carta Capital (esquerda) e o O Estado de São Paulo (direita) são mais imparciais que outras publicações que insistem em negar sua ideologia, como a Veja (especialista na transformação de suposições em afirmações para atacar o PT) e a Istoé (lembram daquela pesquisa na véspera da eleição que mostrava Aécio à frente de Dilma para além da “margem de erro”, contrariando todos os demais institutos?).

Em relação ao jornalismo esportivo, cito dois belos exemplos de que “ter time” não impede ninguém de fazer excelentes análises sobre futebol. O Carta na Manga tem editor gremista (Vicente Fonseca) e promove duas vezes por semana o Carta na Mesa, debate do qual participam jornalistas que assumem seus clubes de coração e onde a presença de gremistas e colorados assumidos no mesmo espaço não gera bate-bocas como se vê no Sala de Redação (que, aliás, já teve brigas motivadas por divergências acerca de esquemas táticos, podem acreditar). Já no saudoso Impedimento havia o predomínio de colorados entre seus autores “fixos”, e isso nunca fez com que o site pudesse ser considerado “imprensa vermelha”.

Infelizmente, a maioria da imprensa brasileira (assim como dos jornalistas) não tem o costume de admitir abertamente de que lado está, em nome de uma suposta “credibilidade”. É uma pena, pois deixar claro seu posicionamento é, antes de tudo, honestidade com o público, que assim sabe que as análises sobre os fatos em tal veículo terá determinado viés.

“Tá com pena, leva pra casa!”

Foi só os “juízes” das redes sociais descobrirem os perfis de Patrícia Moreira (torcedora gremista que as câmeras flagraram gritando “macaco” para o goleiro santista Aranha) que os ataques baixos começaram, logo após Grêmio x Santos. Ela teve de apagar suas contas no Facebook e no Instagram para se livrar das ofensas, a maior parte de cunho machista.

Na última quinta-feira, Patrícia prestou depoimento. E na sexta-feira, deu uma declaração à imprensa. Tanto na quinta como na sexta, ela chorava muito, e não acho que sejam “lágrimas de crocodilo” como alguns já disseram. A superexposição e o “linchamento virtual” (aos quais não foram submetidos os outros torcedores que também ofenderam Aranha) obviamente deixaram a jovem muito abalada.

Mas, adivinhem, pessoas que recordo muito bem de terem chamado Patrícia de “vagabunda” agora dizem sentir “pena” dela. Foram de um extremo ao outro: da fúria condenatória à total solidariedade. Acreditem se quiser, até uma página “solidária” a Patrícia foi criada no Facebook: quando recebi o convite para curti-la, pensei seriamente em ironizar e mandar uma mensagem ao amigo que me fez a “sugestão” dizendo o bom e velho “tá com pena, leva pra casa” – uma das frases mais repetidas pela turma da indignação seletiva e do “bandido bom é bandido morto”.

Por essa lógica, genialmente ironizada no vídeo acima, o brado nas redes sociais não deveria ser pelo “justiçamento” de Patrícia? Afinal, injúria racial é crime, quem comete crime é “bandido”, e “bandido bom é bandido morto”, logo…

Mas não, já mudou tudo. Primeiro, porque o Grêmio foi condenado, e boa parte da fúria dirigida por muitos gremistas a Patrícia passou a ser direcionada ao STJD (que merece muitas críticas, é verdade, mas não exatamente por este episódio). Segundo, por conta da postura “chorosa” da torcedora: como disse, não acredito que foram “lágrimas de crocodilo” que tinham por objetivo fazer com que se sentisse pena dela; mas ao mesmo tempo, é óbvio que ela pedir perdão aos prantos gera um sentimento de compaixão por parte de muitas pessoas. Afinal, quem nunca errou?


Sabem aquele velho senso comum sobre direitos humanos, segundo o qual seus defensores só se preocupam em “proteger bandidos”? Pois bem: quem milita pela causa dos direitos humanos têm por objetivo garanti-los a todas as pessoas.

Mas, então, por que eles não “defendem” os “cidadãos de bem” (detesto essa expressão mais do que o verão de Porto Alegre) contra a “maldade” dos “bandidos”?

Não, não é porque os defensores dos direitos humanos são “contra as pessoas honestas” (me pergunto como alguém pode pensar tamanha merda), e sim porque criminosos (ou pessoas que simplesmente foram acusadas) se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade: em geral, temos a tendência a vê-los como párias e mesmo “monstros”, e não como sintomas de uma desordem social (ainda mais em uma sociedade tão desigual como a brasileira), o que para não poucas pessoas “justifica” que se façam as piores barbaridades (afinal, são “bandidos” que põem em risco os “cidadãos de bem”).

Pois bem: não é exatamente a situação na qual Patrícia Moreira se enquadra atualmente? Basta lembrar o “linchamento virtual” do qual ela foi vítima: a jovem foi tratada como se fosse a “encarnação do mal” (no caso, o racismo) e não como produto de uma sociedade racista, e mesmo que seja crescente o sentimento de “pena” por ela, ainda há quem pense que a torcedora é o problema e não um sintoma dele.

Ou seja: quem se preocupa com Patrícia está defendendo os direitos humanos, mesmo que sem saber disso. Aliás, da mesma forma que eu fiz já no início de toda a polêmica: por mais que a jovem procure “se justificar” pelo que fez, não pode ficar impune; mas, ao mesmo tempo, não se pode usar isso como desculpa para cometer qualquer tipo de violência contra ela. Só que penso o mesmo sobre qualquer pessoa que cometa (ou seja acusada de cometer) crimes: minha defesa dos direitos humanos não é seletiva.

Quem nunca?

“Que atire a primeira pedra quem nunca…”, começa assim um famoso ditado citado por muitas pessoas. Que podemos “resumir” na expressão “quem nunca?”, pois tem bastante semelhança.

Certa vez, em conversa com uma amiga eu lembrava de um porre homérico que tomei e demonstrava incômodo com aquilo: minha amiga respondeu que eu não devia me atucanar por aquilo e disse “quem nunca?”, o que foi de certa forma reconfortante. Afinal, qual pessoa que consome ou já consumiu bebidas alcoolicas nunca exagerou?

O “quem nunca?” pode ser aplicado às mais diversas situações em que alguém “passa do limite”. Pode ser na bebida, na comida (quem nunca passou mal depois de encher a pança de lasanha, por exemplo?)… Mas também em questões mais sérias.

Quinta, algumas pessoas na torcida do Grêmio ofenderam de forma racista o goleiro Aranha, do Santos. O assunto virou polêmica nacional, e não falta quem defenda severa punição ao Tricolor (inclusive eu, que sou gremista). Mas, ainda assim há quem ache exagero e diz “quem nunca gritou ‘macaco’ no ‘calor do momento’?”.

Foram algumas pessoas que ofenderam Aranha. Mas quem está “pagando o pato” é apenas uma torcedora que, não bastasse as consequências óbvias (será indiciada e, devido à publicidade negativa, corre risco de perder o emprego), teve de ouvir todo tipo de ofensas machistas nas redes sociais (a ponto de apagar suas contas no Facebook e no Instagram). Mas, “quem nunca xingou uma mulher de ‘vadia’ ou ‘vagabunda’ alguma vez?”, muitos devem questionar.

Entre os colorados, há a maioria sensata, que defende a punição ao Grêmio mas faz questão de lembrar, corretamente, que aquele grupo não representa toda a torcida gremista. Só que sempre tem aquela galera “que faz barulho” e acusa todos os “gaymistas” (sim, é isso mesmo que costumam dizer) de serem racistas. Aí ouvem em resposta que estão agindo de forma homofóbica (sem contar os que certamente dirão que todos os colorados são homofóbicos), e então lá vem o “quem nunca chamou o adversário de ‘viado’ no estádio?”, dizendo que sem tais gritos o futebol vai acabar e etc. e tal.

Já deu para perceber o óbvio: o “quem nunca?” é sempre usado como atenuante para nossos erros. Afinal, “quem nunca” errou? O problema é por conta disso achar que tudo está bem, quando na verdade não está.


“Mas tu falas disso e certamente já cantou ‘chora macaco imundo’ junto com a Geral e o estádio inteiro”, alguém poderá dizer – com toda a razão, diga-se de passagem. Todos nós já agimos de forma preconceituosa, justamente porque vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos e acabamos tendo-os como “naturais”. Porém, isso não nos tira a responsabilidade por agirmos de tal maneira.

Sim, já cantei a infame música da Geral (“e quem nunca cantou aquilo no estádio?”), assim como já tive inúmeras outras atitudes que podem ser caracterizadas como racistas, machistas, homofóbicas etc. Sempre “no calor do momento” (“e quem nunca falou merda ‘no calor do momento’?”), ofendi muitas pessoas, sejam próximas ou desconhecidas: elas podem nem saber, mas foi isso que minhas atitudes significaram, mesmo que “involuntariamente”. A todas, peço desculpas.

“Ah, mas desse jeito o mundo vai ficar muito chato, essa patrulha do politicamente correto etc.”, alguém poderá dizer. Pois olhe: eu não tenho medo algum de tal “patrulha do politicamente correto”. Primeiro porque há diferenças entre respeitar e ser “politicamente correto”. Segundo porque ao repensar minhas atitudes, também aprendi a me “policiar”: penso bem antes de dizer qualquer coisa, procuro ter certeza de que aquilo não vai ofender ninguém. Afinal, eu não gostaria nem um pouco que alguém falasse algo ofensivo à minha pessoa: por que então eu teria o direito a fazer o mesmo com outras?

“Mas no calor do momento sempre acabamos exagerando”. Fica a dica, então: sempre que estiveres de “cabeça quente”, espera ela esfriar antes de falar qualquer coisa.