Grândola, Vila Morena

A Revolução dos Cravos, que em 25 de abril de 1974 pôs fim a um regime ditatorial que assolava Portugal há quase 50 anos, inspirou uma bela canção de Chico Buarque, chamada “Tanto Mar”. Aliás, nem poderia ser diferente, visto que ela começou com música: a ação militar que depôs o governo se iniciou após o rádio tocar “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso. A canção tinha sido proibida pela ditadura por fazer “alusão ao comunismo”, visto que sua letra falava muito de solidariedade e fraternidade. Hoje em dia, é um símbolo da insatisfação popular com a política de austeridade que a troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe aos portugueses.

Buscando outras versões da música, achei o vídeo abaixo – uma belíssima interpretação pelo Grupo Canto D’Aqui, da cidade de Braga. Não deixe de clicar e ouvir.

A Revolução dos Cravos na voz de Chico Buarque

Hoje, Portugal celebrou (com protestos contra a austeridade) o 39º aniversário da Revolução dos Cravos, que em 25 de abril de 1974 pôs fim a um regime ditatorial que durava quase 50 anos: iniciado em 1926, desde 1933 se chamava oficialmente de Estado Novo (denominação que inspirou Getúlio Vargas para nomear sua ditadura a partir de 1937 no Brasil), mas era também conhecido como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, que governou o país com mão-de-ferro por 36 anos (1932-1968).

A derrubada do Estado Novo começou na noite do dia 24 de abril, com a execução da música “E depois do adeus”, bastante popular, no rádio. Era a primeira senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado em sua maioria por capitães que tinham combatido na guerra que Portugal travava para tentar impedir a independência de suas colônias na África), sinalizando que as tropas deveriam ficar a postos nos quarteis. Nos primeiros minutos do dia 25, o rádio deu a segunda senha, que determinava o início da ação: a canção “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”.

A Revolução dos Cravos deixou quatro mortos, em Lisboa, vítimas de uma desesperada tentativa de resistência por parte de membros da DGS (Direção-Geral de Segurança), antiga PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), que era a polícia política do salazarismo. Marcelo Caetano, que substituíra Salazar no governo em setembro de 1968, refugiou-se no Quartel do Carmo, cercado pelas forças do capitão Salgueiro Maia. Após negociações, aceitou render-se ao general Antônio de Spínola (que não fazia parte do MFA), a quem transmitiu o governo. Nas ruas, o povo festejava o fim da ditadura distribuindo cravos aos soldados, que colocavam as flores nos canos de suas armas – daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

Uma revolução tão musical em seu início não podia deixar de receber homenagens no mesmo tom. Como a de Chico Buarque, que compôs uma belíssima canção chamada “Tanto Mar”. A música tem duas letras diferentes: a primeira, de 1975, foi censurada no Brasil e gravada apenas em Portugal (afinal de contas, a Revolução dos Cravos era inspiradora para quem sonhava com o fim da ditadura militar por aqui). A segunda é de 1978, quando o ímpeto revolucionário já arrefecera, e sobreviveu à censura.

O vídeo abaixo compila a primeira versão de “Tanto Mar” com uma entrevista de Chico Buarque em 1978 explicando os motivos pelos quais compusera a segunda letra, tocada em seguida.

Primeira versão (1975):

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

Segunda versão (1978):

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

E a Revolução dos Cravos continua a mandar lembranças

Em 15 de fevereiro o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi interrompido por manifestantes no Parlamento que começaram a cantar “Grândola, Vila Morena”. Em 25 de abril de 1974, a canção de Zeca Afonso foi a senha para a deflagração da Revolução dos Cravos. E quase 40 anos depois, é o símbolo da insatisfação com a rigorosa política de austeridade adotada pelo governo, por imposição da troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

A manifestação do dia 15 de fevereiro foi uma ação do movimento “Que se Lixe a Troika”, que promoveu uma onda de protestos ontem. Segundo o movimento, pelo menos 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas (inclusive fora de Portugal). Só em Lisboa, foram 800 mil manifestantes.

Em Loulé, foi lido um manifesto (transcrito aqui), e na sequência, o povo cantou “Grândola, Vila Morena” junto ao Castelo.

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Assim como Portugal e Grécia, a Espanha também sofre com a crise econômica e a rigorosa austeridade imposta pela troika. E os espanhóis se manifestam de forma semelhante a seus vizinhos portugueses, como se viu na Puerta del Sol, em Madri, no dia 16 de fevereiro.

Em Portugal, a Revolução dos Cravos manda lembranças

Aconteceu ontem, em Lisboa. Durante debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho foi interrompido pelo público de uma forma diferente: ao invés de vaias, o que se ouviu foi a canção “Grândola, Vila Morena”, composta por Zeca Afonso.

A ação promovida pelo grupo “Que se Lixe a Troika” foi extremamente simbólica, pois “Grândola, Vila Morena” não é uma música qualquer. Nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, a canção foi executada na Rádio Renascença, de Lisboa. Era a segunda senha escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (formado por militares descontentes com o regime ditatorial e com a Guerra Colonial) para dar início à Revolução dos Cravos.

A primeira senha, executada horas antes, fora “E depois do adeus”, que era a “ordem” para as tropas ficarem a postos – sendo uma música “politicamente neutra”, não despertou maiores suspeitas de militares favoráveis ao governo. Já “Grândola, Vila Morena” refere-se à solidariedade entre as pessoas, e foi proibida pela ditadura por “fazer alusão ao comunismo”. Assim, sua execução no rádio era o sinal de que “o caminho estava livre” para a derrubada do regime.

Era o fim de uma ditadura iniciada em 1926 e que a partir de 1933 passara a ser chamada oficialmente de Estado Novo*, mas também ficou conhecida como “salazarismo” devido a Antônio de Oliveira Salazar, ditador de Portugal por 36 anos (1932-1968). O povo, cansado de quase 50 anos de autoritarismo, celebrou nas ruas distribuindo cravos aos soldados, daí a denominação “Revolução dos Cravos”.

O fato de “Grândola, Vila Morena” ser cantada em pleno Parlamento, interrompendo o primeiro-ministro, mostra o tamanho do descontentamento popular em Portugal, que assim como a Espanha e a Grécia, vive uma grave crise econômica. A troika formada por Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia impõe rigorosos planos de austeridade como condições para “ajudar” tais países. Porém, as “ajudas” fazem com que a crise econômica torne-se também social, com o aumento do desemprego e da pobreza. Afinal, como mostra o documentário grego “Dividocracia”, a troika não quer salvar o povo, e sim, bancos e empresas falidas…

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* A semelhança com o Brasil de 1937 a 1945 não é mera coincidência: Getúlio Vargas se inspirou em Salazar para denominar sua ditadura como “Estado Novo”.