Dez anos do golpe fracassado na Venezuela

Em abril de 2002, a Venezuela vivia uma grave crise política. A oposição ao presidente Hugo Chávez o acusava de ser um “ditador”. E decidiu agir, implantando ela própria sua ditadura, colocando o empresário Pedro Carmona na presidência, sem que ele tivesse recebido um voto sequer, já que não disputara uma eleição.

Sem conseguir vencer Chávez nas urnas, a direita venezuelana comprovava que só defendia a democracia quando ganhava as eleições. Quando a esquerda ganhou, começou aquele discurso de que “o povo não sabe votar”, e de quanto isso “ameaça a democracia”, por permitir a instalação de uma “ditadura comunista”.

Qualquer semelhança com o que diziam os golpistas de 1964 no Brasil não é mera coincidência. Pois os golpistas de 2002 na Venezuela decidiram fazer igual a seus pares brasileiros: apelar à força das armas contra o voto do povo.

Só não tinham percebido que os tempos eram outros. No Brasil de 1964, as pessoas se informavam basicamente via jornal, rádio e televisão – e todos estes meios, com poucas exceções, apoiaram a quartelada. Na Venezuela de 2002 tinha tudo isso. Tinha também uma televisão pública – o Canal 8 – que não deixava a visão da mídia corporativa ser a única e, não por acaso, foi a primeira emissora a ter seu sinal cortado pelos golpistas na noite de 11 de abril, para que o povo não soubesse que Chávez fora deposto por um golpe midiático-militar e assim acreditasse que ele havia renunciado. Só que o povo não acreditou – como, aliás, já não vinha acreditando mais na “grande mídia” da Venezuela, que tanto falava que o país piorava em tudo; enquanto isso, para os mais pobres a vida só melhorava.

O povo fez mais do que não acreditar. Usou a tecnologia a seu favor: dotado de celulares que enviavam mensagens de texto, podia se comunicar, se informar, sem depender da mídia tradicional. Assim como podia se mobilizar.

E se mobilizou. Tomou as ruas de Caracas no dia 13 de abril. Foi para a frente do Palácio de Miraflores dizer que só reconhecia a autoridade do presidente que havia sido legitimamente eleito, ou seja, Hugo Chávez. E os golpistas fugiram com o rabo entre as pernas.

Na noite de 13 para 14 de abril, Chávez estava de volta ao palácio, nos braços do mesmo povo que o levara à presidência pelo voto – esta instituição que a direita tanto finge defender, mas revela temer quando não a favorece.

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Dez anos depois, Chávez continua a ser o presidente da Venezuela, e pode, em outubro próximo, conquistar um novo mandato de seis anos. Ditador? Se só o tempo de governo é pré-requisito para uma ditadura, a direita tinha de falar um pouquinho mais sobre um certo Hosni Mubarak, que governou o Egito por 30 anos e só quando estava caindo foi chamado de ditador pelos que criticam Chávez. Mubarak só enfrentou um opositor nas urnas quando já estava no poder há 24 anos, e venceu graças a fraudes. Já todas as eleições que Chávez venceu foram comprovadamente limpas, com a oposição tendo todo o direito de fazer campanha e de se manifestar (quer maior “liberdade de expressão” para a oposição do que ter a “grande mídia” a seu favor?). Tanto que Chávez também perdeu um referendo, em dezembro de 2007, quando não conseguiu aprovar uma série de reformas constitucionais nas urnas – nas ruas, opositores chegaram a usar a bandeira dos Estados Unidos na comemoração.

Porém, nem tudo são flores na Venezuela. Em 2009, quando foi aprovado o fim do limite de reeleições para cargos executivos, alertei:

Porém, como ninguém está livre de nada, e se acontecer algum problema que impeça Hugo Chávez de continuar, quem o substituirá? Não há a preocupação de se lançar novas lideranças dentro do próprio partido de Chávez, que possam sucedê-lo sem dificuldades.

Pois agora Chávez luta contra um câncer. E se devido à doença ele não puder continuar a ser presidente? Seu projeto político é muito vinculado a ele próprio, e assim seu partido se verá em maus lençóis caso ele não possa continuar. E com Chávez podendo se candidatar à reeleição quantas vezes quiser, provavelmente se pensará ainda menos em alguém que possa dar continuidade a seu projeto político.

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Não me surpreende nem um pouco

Ontem, foi denunciado que a página da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tratava o golpe de 1964 como “revolução democrática”. Fui ver, estavam lá as palavras que nada têm a ver com o que aconteceu no Brasil em 1964. Para não acharem que estou inventando, vale a pena lembrar que isso virou notícia na Folha de São Paulo, que de “comunista” não tem nada.

A informação, que constava na cronologia da SSP, foi retirada da página. Mas com a desculpa do governo paulista de que “o texto relacionado ao ano de 1964 não reflete o pensamento da Secretaria de Segurança Pública”. Vou fazer de conta que acredito, depois de tudo o que temos visto recentemente por lá…

São Paulo é hoje o principal reduto do PSDB. O partido está no governo estadual desde 1995. Jovens de 16 anos que votarão pela primeira vez na próxima eleição, jamais viveram sob governo de outro partido no Estado.

Alguém pode achar que por conta disso, comparo os governos do PSDB em São Paulo à ditadura militar, mas está redondamente enganado. Tempo de governo não é pré-requisito para uma ditadura – embora todo regime autoritário que se preze busque se perpetuar. A intensidade da repressão me parece um “ditadômetro” melhor. A Argentina é um bom exemplo: lá o último regime militar durou apenas sete anos e meio (1976-1983); menos, portanto, do que o governo de Carlos Menem, presidente que ganhou duas eleições e ficou dez anos no poder (1989-1999). A diferença é que os governos militares (sim, foram vários ditadores em sete anos e meio) causaram a morte e/ou o desaparecimento de 30 mil pessoas.

Ou seja, é mais às atitudes dos governos, do que à sua duração, que devemos ser críticos. E no caso de São Paulo, é notório que o governo estadual trata a questão social como “caso de polícia”. Mais do que isso: é “caso de batalhão de choque”.

Nada muito diferente, portanto, da ditadura militar, que foi iniciada com a “revolução” até ontem exaltada na página da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Por isso não fiquei nem um pouco surpreso.

Apoie o Jornalismo B Impresso

Desde outubro de 2007 desconstruindo o discurso elitista e reacionário da imprensa hegemônica, o blog Jornalismo B é um importante espaço na luta por uma mídia verdadeiramente democrática e comprometida antes de tudo com a liberdade de imprensa, não de empresa.

Em maio de 2010 o Jornalismo B deu um importante passo, com o início da circulação de sua versão impressa. De periodicidade quinzenal, o Jornalismo B Impresso vai além da desconstrução do discurso da mídia corporativa: mais do que opinião, apresenta também informação sob uma ótica diferente daquela que vemos na velha imprensa. E mesmo o que ela não costuma mostrar, por conta de seus intere$$e$.

Para que um jornal de esquerda como o Jornalismo B Impresso se mantenha, não basta que ele seja lido e que as informações apresentadas sejam difundidas. Há a necessidade de recursos financeiros para que ele possa continuar circulando. As assinaturas ajudam, mas não são suficiente para que o jornal “se pague”; assim, ele é feito apenas “no peito e na raça”.

Para mudar esta situação, o editor do Jornalismo B, Alexandre Haubrich, elaborou um projeto para financiar o jornal em 2012 e o apresentou ao Catarse (página que busca financiamento para projetos culturais). O objetivo é arrecadar R$ 13.500 até o dia 31 de março: o dinheiro servirá para cobrir os custos de impressão do jornal, pagar o trabalho de diagramação (feito voluntariamente por este que vos escreve, desde a primeira edição, motivado pelo desejo de uma mídia realmente democrática) e contratar um estagiário que construa pontes entre o Jornalismo B Impresso e os movimentos sociais.

Clique aqui, assista ao vídeo e colabore: seja doando o que puder, ou apenas divulgando o máximo possível.

A ditadura da mídia corporativa

Sensacional o documentário “Levante a Sua Voz”, inspirado no premiadíssimo “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado. Assista, e entenda os motivos pelos quais eu – além de vários outros blogueiros – tanto criticamos a “grande mídia” que de neutra e imparcial não tem nada.

Por que elas não têm destaque?

Neste domingo, às 12h30min, tem Brasil x Estados Unidos, pela Copa do Mundo. Marta repetirá a fantástica atuação que teve diante das mesmas adversárias em 2007 (com direito a um gol mais que antológico)? A torcida brasileira e, principalmente, os amantes do bom futebol, torcem para que sim.

Mas a pergunta fundamental é: o Brasil vai parar por causa deste jogaço?

Não, pois isso só acontece quando são os homens em campo. Mesmo que a seleção feminina do Brasil jogue um futebol mais bonito que a masculina, o destaque é sempre deles. Nunca delas.

Os brasileiros em geral foram ensinados a torcer apenas por homens no futebol. Mesmo as mulheres, hoje mais presentes nos estádios, assistem majoritariamente ao futebol masculino. Este segue sendo a principal referência esportiva de torcedores e torcedoras. Repare que textos sobre o esporte aqui mesmo no Cão são quase em sua totalidade sobre o masculino. Superar o machismo é tarefa das mais difíceis, ainda mais em um jogo que por tanto tempo foi considerado “coisa de homem”.

E se depender da mídia corporativa, isso não mudará. Pois o destaque é dado ao futebol masculino: como mais gente se interessa, quer dizer que dá mais audiência, logo, mais lucro por atrair mais anunciantes. Só que, ao mesmo tempo, como a “grande mídia” fala mais sobre futebol masculino, influencia mais gente a acompanhá-lo, mas sem ter maior conhecimento (ou até interesse) em relação ao feminino.

Agora, pense bem: se determinados assuntos não recebem atenção da “grande mídia” por não serem financeiramente interessantes, podemos falar que ela é democrática, livre?

Portanto, democratizar a comunicação é fundamental para que o Brasil possa ser um país realmente democrático.

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Esta postagem é uma contribuição à blogagem coletiva pela democratização da comunicação, convocada pelo Eblog (Blogueiros de Esquerda).

Rádio comunitária é fechada no Rio

Claro que a “grande mídia”, grande defensora da liberdade de imprensa, não soltou um pio sobre esse fato acontecido no Dia Mundial da… Liberdade de Imprensa.

Do MonBlog:

Rádio Santa Marta é fechada e comunicadores populares são detidos

Na manhã desta terça-feira (3/5), a rádio comunitária Santa Marta, localizada na comunidade de mesmo nome, em Botafogo, zona Sul do Rio, foi fechada em uma ação da Polícia Federal e da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Os agentes lacraram todos os equipamentos e levaram o transmissor. Rapper Fiell (Emerson Claudio Nascimento) e Antonio Carlos Peixe, os diretores da emissora, foram levados pelos agentes para as dependências da Polícia Federal, na Praça Mauá, Rio. Parece ironia, mas a ação repressora que fechou a rádio comunitária do morro carioca ocorreu no Dia Mundial de Liberdade de Imprensa, decretado pela ONU em 1993.

Para ler mais, clique aqui.

Por que não ser solidário sempre?

A mobilização que se viu para ajudar as vítimas das chuvas no Rio de Janeiro me fez pensar sobre o quanto os desastres naturais acabam por despertar a solidariedade nas pessoas.

No dia-a-dia, costuma-se ser extremamente individualista. Quando se vê um mendigo pedindo esmola, geralmente não se justifica o fato de não dá-la porque isso não soluciona o problema (e de fato não soluciona, mas ao mesmo tempo, ficaríamos mais pobres por dar umas moedas ao cara?), mas sim, porque “se esse vagabundo quer dinheiro, que vá trabalhar!”. (Mas o imbecil que diz isso daria um emprego ao coitado?)

Então vem um desastre natural. Chuvarada, vendaval, terremoto. E muitas vezes vemos aquele furioso individualista, separando roupas e alimentos para doar às vítimas da tragédia.

A catástrofe fez o cara mudar, repensar suas atitudes? Não. É apenas uma “solidariedade de ocasião”. Pois reparem que geralmente as tragédias geram mobilizações quando suas vítimas não se resumem às classes mais baixas. Tanto nas chuvas do Rio quanto nas de Santa Catarina (2008), a classe média também foi afetada. E, como lembra a letra da música “Classe Média”, de Max Gonzaga, “toda tragédia só me importa quando bate em minha porta”. Ainda mais quando é no Sul ou no Sudeste.

Sendo assim, a mídia corporativa teve de noticiar. E sabem como é: se a televisão fala em solidariedade, em como “doar é bonito”, o médio-classista individualista tem de aderir, não pode ficar fora dessa.

Isso que quer dizer que condeno a solidariedade às vítimas da tragédia? Claro que não! Que bom que, ao menos nestas ocasiões, as pessoas se ajudam umas às outras. Mas não custaria nada sermos solidários sempre (até porque, ao mesmo tempo que ajudaríamos, também seríamos ajudados). Não só com quem perdeu sua casa, como também com quem não tem casa.

Mudei o voto – e explico por quê

Lá se vão quase cinco meses do dia em que declarei não votar em Dilma Rousseff no 1º turno. Expus minhas razões num texto que não cansei de citar, inclusive como resposta a “correntes” com direitosquices contra a candidata petista (aliás, vários desses lixos são desmascarados aqui) – lembrando os trolls amigos de meu voto para presidente, Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL.

O fato de eu ter optado por Plínio não me tornou um “opositor” ao governo Lula (do qual Dilma representa a continuidade), postura adotada por muitos militantes de partidos à esquerda dele, como o PSOL. Concordo com muitas das críticas feitas pelo PSOL ao governo, mas dizer – como muitos de seus partidários costumam – que é um governo “de direita”, convenhamos, é forçar demais a barra. Eu o considero como de centro-esquerda, mais para “centro” do que para “esquerda” – o que não pode ser considerado negativo, dado que antes o Brasil sofrera muitos anos nas mãos da verdadeira direita, e desde 2003 houve, sim, melhorias na vida de muitos e muitos brasileiros. Considero uma atitude extremamente infeliz (para não dizer “burra”) a de taxar como “direita” pessoas, partidos e governos com os quais eu, que me declaro de esquerda, tenho algumas discordâncias. Do contrário, eu teria de considerar como “de direita” o governo de Hugo Chávez na Venezuela, por discordar de algumas de suas medidas!

Com o decorrer da campanha, as pesquisas começaram a indicar uma disparada das intenções de voto em Dilma. (Sim, as pesquisas, tão criticadas antigamente… Não digo que elas sejam manipuladas sempre – do contrário, perderiam tanto a credibilidade que acabariam por não existirem mais – mas, convenhamos, é muito fácil só criticá-las quando os números são favoráveis ao adversário.) A impressão era de uma vitória arrasadora, já no 1º turno.

Só que aí surgiram os recentes escândalos (que coincidentemente só “estouraram” perto da eleição, por que será?), e aparentemente Dilma “parou”. E eu já estava pensando em como seria bom que ela vencesse já no 1º turno, mesmo não votando nela: afinal, assim se garantiria mais 4 anos de PSDB longe do Palácio do Planalto. Então li um ótimo texto do Hélio Paz, comentei fazendo um elogio, e ele respondeu (os grifos são meus):

Valeu, Rodrigo! O momento exigia uma postura assim – ainda mais depois daquela ressaca da eleição no Grêmio que demorou pra curar.

Aliás, infelizmente, eu tenho o cutuque de que haverá 2º turno p/presidente: o #pig vai fazer de tudo nesta semana. E – quero estar enganado – acho que vai conseguir…

Esperemos…

[]’s,
Hélio

Charge do Santiago (clique para ampliar)

Eu já tinha pensado se não seria uma boa dar meu voto para Dilma já no dia 3 de outubro, em nome de evitar a realização de um 2º turno. Não sou contra a realização de 2º turno em eleições majoritárias: a exigência de mais de 50% dos votos válidos confere maior legitimidade ao eleito. Mas no atual contexto político brasileiro, se houver 2º turno, haverá mais tempo para a direita – a “grande mídia” incluída, seja a que declara sua posição (Estadão), seja a que insiste no papo furado da “imparcialidade” – jogar ainda mais sujo para tentar eleger José Serra. E é preciso derrotá-la para evitar que o Brasil sofra o grande retrocesso que será uma eventual volta do PSDB e do DEM ao governo. Quanto antes, melhor!

Por conta disso, então, tomei a decisão de votar em Dilma Rousseff no domingo. Mantenho todas as críticas que tenho ao governo Lula, mas voto em Dilma por entender que não podemos dar mais tempo para a direita reacionária seguir com sua campanha de baixíssimo nível. Pois sempre há o risco de que sua estratégia asquerosa dê certo.

Medo da gripe?

Pois anda por aí uma doença realmente perigosa, que mata muito mais, que já foi chamada “mal do século”. No século XIX…

Sim, falo da tuberculose. Enquanto a gripe A está na mídia por ser “novidade”, a velha tuberculose mata cerca de 6 mil brasileiros por ano. E mais: atinge principalmente os mais pobres – daí o pouco alarde da “grande mídia”.

O Coletivo Catarse produziu um spot de rádio para uma campanha do GAPA-RS, vale a pena ouvir e se informar. Clique na imagem para ir ao Alma da Geral, onde além do texto do Guga Türck valer a leitura, o spot também está disponível: o código não funciona no WordPress, não me perguntem o motivo.

capaSPOT-Tuberculose

Lições de 31 de março de 1964

Há 44 anos, o Brasil entrava em uma era de terror. Um golpe militar, ironicamente chamado por alguns reacionários de “revolução democrática”, fazia o país mergulhar na longa noite da ditadura militar. O movimento “contra a corrupção, contra a subversão” dizia que colocaria “ordem na casa” e devolveria o poder aos civis já em 1966, quando tomaria posse o presidente eleito em outubro de 1965. Mas os militares governaram até 1985, e o povo brasileiro só voltou a votar para presidente em novembro de 1989.

Já fazem mais de 20 anos que os militares deixaram o poder, mas engana-se quem acha que o apreço pelo autoritarismo não existe mais no nosso país. Nos últimos dias tivemos vários exemplos disso.

O primeiro, foi a decisão do TSE em relação à propaganda política para a campanha eleitoral de 2008. De acordo com ela, a “propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral”. Mas, o que será considerado “propaganda eleitoral”? Se eu me pronunciar em favor de determinado candidato isto será considerado “propaganda”? Seremos nós, blogueiros, proibidos de expressarmos nossas opiniões?

Outros episódios recentes também mostram a tentação autoritária dos velhos donos do poder, que estão na “grande mídia”. Em março, dois blogueiros perderam seus espaços: o primeiro foi Paulo Henrique Amorim, que cunhou a expressão “PIG” (Partido da Imprensa Golpista) para se referir aos grandes meios de comunicação e perdeu seu espaço no IG; e o segundo foi o Marco Weissheimer, do RS Urgente, que não pôde mais utilizar seu endereço antigo, pertencente ao UOL.

E tem ainda toda a adoração pelo “Capitão Nascimento” demonstrada por boa parte da classe média, que adoraria ter uma polícia ao estilo do BOPE carioca: atira primeiro, pergunta depois. Isto é o maior perigo: com a mídia falando toda hora em violência, muita gente fica assustada e acha que irá levar tiro assim que colocar o pé para fora da porta de casa. Amedrontar a população é a melhor maneira de “amaciá-la” e assim fazê-la aceitar quaisquer medidas, por mais autoritárias que sejam, que supostamente irão resolver o problema que lhes causa medo.

Como aconteceu 1964? Disseminou-se o medo do comunismo! Fizeram a classe média acreditar que os comunistas estavam prestes a tomar o poder, e que se isso acontecesse “os cidadãos de bem” (na verdade, “de bens”) perderiam tudo o que tinham conquistado “com muito suor”. Quando o que o governo de João Goulart faria seriam reformas, e não uma revolução socialista: Jango era pressionado tanto pela direita, que não admitia mudanças, como pela esquerda – principalmente por Brizola – que desejava maior rapidez nas reformas.

Quando Goulart optou pela esquerda e começou a mobilizar as massas em seu favor – como aconteceu no comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio -, a classe média, já seduzida pela campanha de medo da direita, saiu às ruas e deu aval aos golpistas: foram as famosas “marchas pela liberdade”. Ficou apenas faltando a “gota d’água”, que se deu com a demonstração de solidariedade de Jango a sargentos rebeldes no final de março, que militares de alto escalão interpretaram como “quebra de hierarquia” – apesar do Presidente da República ser, pela Constituição, a mais alta autoridade do país, inclusive sobre as Forças Armadas.

E assim, no dia 31 de março, deu-se o golpe. No dia 2 de abril, João Goulart partiu para o exílio no Uruguai, depois de ter sido formalmente derrubado pelo Congresso, que declarou vaga a presidência mesmo com o titular do cargo ainda estando no Brasil.

Iniciava-se a longa noite da ditadura.