A batalha sem campo

Em 22 de junho de 1941, teve início a invasão da União Soviética por tropas alemãs, quebrando o pacto de não-agressão acordado entre a Alemanha nazista e a URSS menos de dois anos antes. Os alemães adentraram ao território soviético de maneira arrasadora, visto que o ataque de forma alguma era esperado (diz-se que Josef Stalin demorou dias a emitir algum comunicado por sentir-se traído por Adolf Hitler). Somente onze dias após o início da invasão é que o ditador soviético finalmente falou: determinou o uso da chamada “tática de terra arrasada”, que consistia em destruir tudo o que pudesse servir aos alemães; consequentemente, os próprios soviéticos passaram a queimar casas e plantações, de modo a deixar as forças inimigas desabrigadas e sem alimentos à disposição, o que as prejudicaria principalmente quando tivesse início o inverno, que naquela região é rigorosíssimo. Foi a mesma tática utilizada para repelir a invasão napoleônica à Rússia em 1812, e que novamente deu certo na Segunda Guerra Mundial (ou “Grande Guerra Patriótica”, como chamam os russos).

Porém, a expulsão dos alemães demorou mais tempo, pois embora eles não estivessem preparados para as dificílimas condições impostas pelo inverno russo, ainda assim eram forças muito bem equipadas. Após o inverno de 1941-1942 a União Soviética continuava na defensiva frente à Alemanha, apesar dos invasores não terem conseguido tomar duas cidades de grande valor simbólico na operação: Moscou (por ser a capital) e Stalingrado (por seu nome homeagear Stalin). E foi justamente na “Cidade de Stalin” que se deu o “ponto de inflexão” na guerra: a famosa Batalha de Stalingrado, travada por vários meses nas ruas da cidade, culminou com uma decisiva vitória soviética em fevereiro de 1943. Dali em diante, a URSS tomou a ofensiva e por dois anos avançou até a conquista de Berlim em maio de 1945 e o consequente fim da guerra.


O leitor pode ser curioso e querer saber onde exatamente se deu tão importante batalha. Logicamente, vai ao Google Maps e digita “Stalingrado, Rússia”, mas percebe que a pesquisa dá como resultado uma cidade chamada “Volgogrado”, sugestivamente às margens do Rio Volga, um dos mais importantes da Rússia.

Estranho: afinal, não dizem que o Google sabe de tudo? Ou será que a Batalha de Stalingrado é apenas um mito e na verdade nunca aconteceu? Afinal, nunca se viu batalha sem campo (embora esta tenha se dado em área urbana).

Pois o Google sabe, sim. Tanto de Geografia como de História.

A cidade que ele encontrou já mudou de nome duas vezes. Fundada em 1589 com o nome de Tsaritsyn, em 1925 passou a chamar-se Stalingrado para homenagear Stalin, recém ascendido à liderança da União Soviética após a morte de Lenin (sem contar que não fazia mais sentido uma cidade com nome que remetesse ao deposto regime tsarista). Mas no ano de 1961 sua denominação foi novamente alterada: passou a chamar-se Volgogrado (“Cidade do Volga”), e não foi exatamente para homenagear o rio.

O que aconteceu foi o processo conhecido como “Desestalinização”, que consistiu na eliminação do culto à personalidade de Stalin (falecido a 5 de março de 1953) após seu sucessor Nikita Khrushchev denunciar no famoso “Discurso Secreto”, durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956), os crimes cometidos pelo regime stalinista. Foi algo chocante aos que ouviram Khrushchev, dado que Stalin era visto como herói devido à sua liderança na Segunda Guerra, e não como um terrível ditador cuja política repressiva vitimou tanto opositores como muitos integrantes do próprio Partido Comunista.

As denúncias tornaram inaceitável manter qualquer homenagem a Stalin – e eram muitas. Incluindo o hino nacional (que continha referências ao ditador) e a cidade onde se dera tão importante batalha da “Grande Guerra Patriótica”.

A importância de tais homenagens não foi suficiente para mantê-las “intactas”. A letra do hino soviético foi suprimida e só readotada em 1977, mas sem as referências ao ditador. Já Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado: a mudança provavelmente não agradou a todos os habitantes da cidade (desde simpatizantes do ditador até “pragmáticos” que preferiam o antigo nome por estarem acostumados a ele), mas não era mais possível homenagear Stalin e, por conta disso, ela não foi revertida.


Os parágrafos acima demonstram que mudar nomes de ruas por homenagearem ditadores não é “bobagem” ou “falta do que fazer”, como dizem muitos idiotas em caixas de comentários por aí acerca de uma grande vitória obtida hoje em Porto Alegre por quem defende a democracia: a aprovação pela Câmara de Vereadores de um projeto de lei da bancada do PSOL que altera o nome da principal entrada da cidade, de Avenida Castelo Branco para Avenida da Legalidade e da Democracia. Fernanda Melchionna e Pedro Ruas já tinham apresentado projeto semelhante em 2011, mas ele fora rejeitado por 16 votos contra 12. Hoje, a vitória foi acachapante: 25 a 5.

O projeto será enviado ao prefeito José Fortunati (PDT). Se sancionado, a principal entrada de Porto Alegre deixa de homenagear o “inaugurador” da ditadura militar e passa a fazer referência à democracia e a um movimento em sua defesa, a Legalidade – que, coincidentemente, aconteceu no mesmo ano em que Stalingrado foi rebatizada como Volgogrado (1961) e foi liderado pelo fundador do partido de Fortunati, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul.

Quem é contra a mudança provavelmente se utiliza de argumentos semelhantes a quem não quis que Stalingrado passasse a se chamar Volgogrado. Desde simpatia pela ditadura militar (autoritário é autoritário, independente de ideologia) até “pragmatismo”, por estarem acostumados ao nome que, espero, logo deixe de ser “atual”. Porém, reparem que é uma alteração com muito menos “tamanho”: não é uma cidade (que ainda por cima era famosa por uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial), apenas uma via que, inclusive, não tem nenhuma residência ou estabelecimento comercial, e cujos prédios mais próximos têm entradas por outras ruas (ou seja, em nada atrapalhará, pois não será preciso alteração de endereços devido à nova denominação).

Sem contar que a avenida é uma via expressa, praticamente sem esquinas. Logo, o custo da troca da sinalização viária (que muitos certamente questionarão) será imensamente inferior à dor causada por ditadores como Castelo Branco a muitos brasileiros – que em muitos casos se traduziu em prejuízo financeiro, pois várias pessoas perderam seus empregos pelo simples fato de serem contrárias à ditadura.


João Carlos Nedel (PP), um dos vereadores que votaram contra a proposta, disse que a alteração é uma tentativa de reescrever a História. Demonstrou assim que não entende nada de História: ela é constantemente reescrita a cada novo trabalho historiográfico produzido.

Os 10 anos do Orkut

Em meados de 2004, recebi um e-mail de minha amiga Ísis. Achei estranho: a mensagem era em inglês, e tinha um link; confiei no meu antivírus e cliquei. Apareceu a tela abaixo:

orkut2004

Pouco depois, desconectei da internet (sim, naquela época se fazia isso, pois a conexão era discada, não era só ligar o computador e abrir o navegador), peguei o telefone e liguei para a minha amiga. Então ela me explicou o que era aquilo: uma página em que nos conectávamos aos amigos, descobríamos quantas amizades em comum tínhamos etc. Quando consegui entrar novamente na internet (pois é, às vezes a conexão não vinha…), fiz meu cadastro naquele tal de Orkut – que deve seu nome ao engenheiro do Google que o desenvolveu, o turco Orkut Büyükkökten. E, ainda sem entender bem para que serviria aquilo (afinal, não era um bate-papo como o ICQ e o MSN), comecei a adicionar comunidades.

Amizades, não: por cerca de um mês, tinha apenas a Ísis na minha lista, e não sabia de mais ninguém que usava o Orkut. Era uma novidade para muita gente, ainda mais que não era qualquer um que podia entrar: era preciso ser convidado. Cheguei a enviar alguns convites, mas demorou até a lista de amizades aumentar. Mas, quando isso começou a acontecer, não parou mais.

Logo, descobri o que considero uma das melhores coisas dessas chamadas “páginas de redes sociais”: a possibilidade de reencontrar pessoas com as quais não falamos há muito tempo. Amigos de infância com os quais se perdeu o contato, ex-colegas de escola etc. O que a vida tinha separado pelos mais diversos motivos (mudanças de endereço, de escola, pouco tempo para reencontros etc.), o Orkut oferecia a possibilidade de reunir.

A frequência de visitas ao Orkut aumentou bastante, já que havia mais pessoas com quem interagir, além das comunidades – várias eram inúteis, é verdade, mas outras eram um excelente espaço de discussão. Muitas vezes, chegava a passar horas na rede. Não ininterruptas, é claro.

orkut-nodonut

Mas não só por causa dessa “agradável” tela aí de cima. Como falei, em tempos de conexão discada, existia hora para entrar na internet – ou seja, quando as ligações eram mais baratas. Isso mudou a partir do momento em que passei a ter banda larga: bastava ligar o computador e abrir o navegador. E assim, as interrupções do Orkut passaram a ser, basicamente, a telinha acima. Tinha também algo chamado “estudar”, por causa da faculdade, o que me obrigava a ficar longe do Orkut mas com vontade de acessá-lo.

No início de 2006, tinha a perspectiva de disciplinas bastante difíceis. Temia “não dar conta”. Assim, o Orkut “pagou o pato” e desativei minha conta.

Foram quase três anos longe da rede. O retorno se deu no início de 2009, ao mesmo tempo em que criava meus perfis no Twitter e no Facebook. A princípio, não pensava em voltar ao Orkut: a entrada no Twitter era por curiosidade, por perceber que aumentava o número de blogueiros o utilizando; já no Facebook, aceitei um convite do meu amigo Hélio – que da mesma forma que a Ísis nos meus primeiros tempos no Orkut, por bastante tempo foi meu único contato na rede.

A volta ao Orkut se deu por “nostalgia”. Não da rede, e sim de minha antiga escolinha, o Esquilo Travesso, onde fiz o Jardim de Infância. No final de janeiro de 2009, li uma notícia sobre o fechamento do Esquilo, o que me motivou a escrever sobre ele. Assim, o retorno se deveu à vontade de tentar reencontrar os colegas daquela época: entrei na comunidade, mas não achei ninguém que tenha terminado o Jardim de Infância em 1988. Porém, também vi o retorno ao Orkut como uma maneira de divulgar mais o Cão Uivador – que não existia em 2006, quando cometi meu primeiro “orkutcídio”.

Pois é, o primeiro. Pois houve um segundo – e, por enquanto, definitivo. Em 2010 o Facebook começou a crescer rapidamente e “roubar” a hegemonia do Orkut – que até o final de 2011 se manteve como a rede mais usada pelos brasileiros (e o Brasil era o único país onde o Orkut era tão popular, visto que seu uso decaíra na Índia, onde também era a principal rede). Foram vários os motivos de tamanha mudança, mas o fato é que, com o Facebook crescendo muito e virando moda, o Orkut começou a minguar, com os amigos pouco acessando e/ou simplesmente apagando seus perfis. A relevância que tinha o Orkut até 2010 passou a ser do Facebook.

Assim, em algum dia ali por 2012 ou 2013, decidi desativar minha conta. Antes de “apagar a luz”, decidi conferir o número de amigos que ainda tinha: era bem menos da metade em comparação com o que já tivera.

Porém, 10 anos após o surgimento do Orkut (que foram completados ontem, dia 24), engana-se quem pensa que o Google pensa em acabar com ele. Ainda há um considerável número de pessoas que o utilizam – especialmente no Brasil, claro. Principalmente pelo que ele tem e o Facebook não: as comunidades, que não só dizem do que gostamos, como também funcionam como um interessante espaço para debates. É até mesmo algo que faz pensar em reativar a conta no Orkut – além, é claro, da sensação de “viagem no tempo” que isso proporcionaria. Quem sabe não seja uma boa ideia?

Mais Cão, menos Facebook: agora vai?

Não ando fazendo exatamente o que “prometi” lá em dezembro. Tinha dito que procuraria passar mais tempo escrevendo no Cão do que no Facebook (e inclusive também pretendia usar mais o Twitter, que andava “abandonado”).

Pois bem: ontem, cá estava me queixando da “falta de tempo” para atualizar o Cão. De fato, gostaria de poder escrever e postar aqui na hora que bem entendesse, mas as coisas não são assim para ninguém.

E ao mesmo tempo, será que essa “falta de tempo” também não se deve ao uso excessivo do Facebook? Penso que sim.

Como já disse aquela vez, o Facebook, da mesma forma que o Twitter e o Orkut (vale lembrar que ele ainda existe, embora tenha encerrado minha conta lá), é uma baita ferramenta de divulgação – tanto que é muito grande a possibilidade que estejas lendo isso aqui graças a um link no Facebook. Minhas contas em tais redes, inclusive, se devem à decisão de divulgar mais o blog: no início de 2009 retornei ao Orkut após três anos de ausência (estivera lá de 2004 a 2006) e ao mesmo tempo criei meus perfis no Twitter e no Facebook.

Porém, eles não podem ser mais do que isso: ferramentas, que servem tanto para divulgação como também para que conheçamos mais pessoas. O problema é o “vício”, a “necessidade” de sempre “estar por dentro” (aí lembro que passei cinco dias em Rio Grande na semana retrasada, ficando “desconectado” a maior parte do tempo, e não achei nada ruim).

Assim, vou “prometer” de novo, para ver se agora cumpro: ficar menos tempo no Facebook e mais escrevendo no Cão ou lendo. O que não obviamente não quer dizer que vá abrir mão de entrar no Facebook para manter contato com as pessoas, e mesmo de também usar outras redes sociais como o Twitter e o Google+ (na última, estou recém começando a me aventurar).

Aliás, importante registrar que uma coisa me agradou muito no Google+ em comparação com o Facebook: a ausência, pelo menos na minha rede de contatos, das piadas sobre tomate. (Sim, pessoal, isso já encheu o saco.)

Tudo é mais fácil

O dia que estiveres triste, achando que tudo está uma merda, impossível de mudar…

Que se sentires incapaz de fazer qualquer coisa…

Pense no googolplex.

Não, camarada, não estou falando de um novo lançamento do Google. É muito maior que isso – e faz o próprio Google ser praticamente nada.

Trata-se de um número. Mas não é um número qualquer: trata-se simplesmente de algo impossível de escrever, e ainda mais de conceber.

Mas quem pensa no Google não está totalmente errado. O nome da empresa se deve ao tamanho do número googol, que significa 10 elevado ao expoente 100. O resultado disso é o 1 seguido de cem zeros.

Até é possível imaginar esse trambolho escrito, embora não haja nenhum motivo prático para perder tantos minutos escrevendo esse troço. Mas a quantidade que isso significa, não se sinta mal por não conseguir imaginar: nem Albert Einstein conseguiria. Não existe sequer tal número de partículas no Universo.

Mas se o googol parece algo absurdamente grande, ele não é nada perto do googolplex, que é o resultado de… 10 elevado ao expoente googol! Aí, trata-se de um número impossível de escrever na prática: 1 seguido de googol zeros! E impossível de imaginar também, já que não conseguimos conceber tamanha quantidade de algarismos.

Escrever e imaginar essa coisa é tão impossível, mas tão impossível, que até eu cantar a Scarlett Johansson e ter êxito é mais fácil. Convenhamos, não é motivador?

O Google é o Grande Irmão?

bigbrother

Em cada artigo na Desciclopédia (a hilária sátira da Wikipédia), aparecem frases (em geral fictícias, mas engraçadas) sobre o tema. Em todos, aparece a expressão “Você quis dizer: …”, e abaixo “Google sobre [tema do artigo]”.

Pois bem: no artigo sobre o Grande Irmão, a frase do Google era “Você quis dizer: Google“. Não bastasse isso, o artigo ainda era vigiado! Pelo próprio Grande Irmão (Google?), claro.

Ontem, ao acessar as estatísticas do Cão, vi que o blog havia sido citado em algum fórum do Orkut. Algo que já havia acontecido outras diversas vezes. Fora do Orkut desde março de 2006, me era vedada a possibilidade de ver onde havia sido citado o blog.

Como tenho um e-mail no Google (Gmail), isso quer dizer que tenho conta no Google. Logo, poderia me recadastrar no Orkut. Decidi então fazê-lo, mas não chamar ninguém. Apenas veria onde o Cão havia sido citado, e depois sairia. Não me passava pela cabeça voltar a cuidar de perfil, mensagens e outros inconvenientes.

Logo que completei o processo de cadastro, apareceu uma lista de “sugestões de amigos”. E logo no começo da lista, uma guria que eu mandaria para o inferno se eu acreditasse na existência dele.

Apavorado, fiz o que eu pretendia fazer: vi de onde no Orkut haviam clicado no meu blog. Era uma comunidade sobre futebol…

Logo, desfiz meu cadastro novamente. O Orkut é do Google, e ele sabia quais seriam meus “amigos”. Havia gente legal na lista (e faltava muita também), mas a presença dessa guria é a prova: o Google é o Grande Irmão! E assim como na obra de George Orwell, ele é do mal, mas quer que o amemos!

————

Como o post é de humor, não posso deixar de recomendar essa, apesar de não ser relacionado ao fato acima.

E não custa nada dizer a verdade para não apavorar os mais impressionáveis: as “sugestões de amigos” do Orkut eram baseadas em quem tem meu endereço do Gmail. Sim, o Google sabe muito, mas só porque tem o meu e-mail.